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À pala de Walsh
Dossier, Raoul Walsh, Herói Esquecido 0

As fúrias de viver: a juventude em Raoul Walsh

De Sabrina D. Marques · Em 3 de Junho, 2013

Ambos com 24 anos, tinham sido colegas de curso. Eram fãs de Raoul Walsh e isso aproximava-os. Ela tinha acabado de sair do trabalho, fazia as tardes na livraria da Cinemateca. Ele tinha assistido a um filme na sessão das 15h30 e por ali a esperava, na esplanada. Via-se chegar a noite enquanto ele anotava umas coisas numa folha em branco: preparavam um Dossier Walsh para o site À Pala de Walsh, para onde escreviam os dois. Quando estavam entusiasmados, dava-lhes para o delírio:

ELE – como explicar que a história do cinema tanto se tenha esquecido da importância de Walsh?
ELA – serviram-se da loucura fingida de Ulisses e reservaram para si a própria lucidez…

ELE – … engoliram em segredo esse elixir de sonho e juventude… 
ELA – … porque Walsh é força …
ELE – … inevitável contágio …
ELA – … embriaguez …
ELE – … vastidão em que mergulhamos …
ELA – … experiência de mil experiências …
ELE – … mal guardado segredo que …

ELA – … geração após geração, haveremos de visitar
ELE – … como hoje, sempre: recordemos Walsh

ELA – … porque foi Walsh quem nos mostrou como a juventude é uma categoria do espírito

ELE – a juventude ?

”A juventude deixa-nos uma marca profunda. Na nossa juventude, nós não sentimos a felicidade pela qual passamos. Só depois, com mais idade, é que nos lembramos de como fomos felizes certas vezes na nossa juventude. É um ponto de referência insubstituível. A juventude dá-nos uma força, porque ela tem uma força, um impulso tão grande na vida… E quanto mais a idade vai avançado, mais relevo toma esse tempo.” Manoel de Oliveira

 

1. UMA JUVENTUDE É CONTRA O PASSADO À PROCURA DO FUTURO

Regeneration (1915), de Raoul Walsh

ELE –  sempre me interessaram os modos como se formam as gerações

ELA –  as gerações?

ELE – como se grita para agitar as fundações do estabelecido

ELA – como se arregaçam os punhos para lutar com causas

ELE – como se agrupam os indivíduos em coro para rejeitar certos nomes do passado

ELA – ou para resgatar os nomes de ontem que hão-de servir para hoje

ELE – as gerações formam-se:  entre avanços e recuos, as ideias dançam. plantam-se nas cabeças e aproximam-nas entre si

ELA – as gerações renascem sempre em terreno comum de fé. acreditam com paixão, acreditam com verdade

ELE – as gerações procuram as novas imagens – mais justas, mais verdadeiras- as que hão-de servir para hoje

ELA – as gerações relacionam as ideias com as imagens e as imagens com a vida. acredita-se. continua-se a ver, continua-se a acreditar

ELE – as gerações analisam os ditos

ELA – alguns ditos adquirem realidade, outros adquirem ridículo

ELE – as gerações ganham confiança nalguns estudos e na intuição em geral, para prescindir de alguma parte do passado

ELA – as gerações ousam expulsar os mestres para fora do seu pedestal

ELE – as gerações escrevem manifestos com sonhos

ELA – as gerações lançam a sua vontade além

ELA – as gerações entendem o conceito de geração enquanto força agrupadora mais do que enquanto coincidência demográfica

ELE – gerações houve que parece terem passado em paralelo à existência alheias ao respectivo espaço-tempo por via da não-intervenção

ELA – as gerações são conscientes da classe geração

ELE – as gerações são compostas por indivíduos

ELA – o indivíduo aceita a existência de um corpo onde, dentro, a inexistência é uma possibilidade

ELE – assim as gerações sabem que a juventude é decidir ser jovem, contra a não-decisão

ELA – e as gerações sabem que ser indivíduo é ser, simultaneamente, em função de um colectivo

ELE – o que agrupa as gerações é um sentido de missão

ELA – tem de haver missão, tem de haver, senão

ELE – senão resta o nada.

As Armas e o Povo (1975), do Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica

”Foram principalmente os jovens. Este é um ciclo que atravessa a História Americana. Os anos 1920, foram um período extremamente apático. De facto, o movimento trabalhista foi totalmente esmagado pela violência, nesse momento. Este lugar assemelhava-se com o Fim da História: está tudo acabado, tudo está bem, o pessoal prossegue explorado, os patrões continuam a ficar mais ricos. Os 1930s mudaram isso. Foram um período de activismo forte em todas as frentes (…) Os 50s tornaram-se muito quietos e apáticos (…) mas os 60s trouxeram de volta as revoltas, os mesmos grupos foram atingidos e pôs-se a descoberto a crise da democracia. (…) Os assuntos que os preocupavam eram relevantes e importantes e eles tornaram o país mais livre, mais justo, mais honesto…” NOAM CHOMSKY (1997)

 

2. A JUVENTUDE É UM ACTIVISMO

Walter Benjamin tentou, por várias vezes ao longo do seu percurso, a definição de juventude, partindo da oposição a uma ideia de idade adulta. Começou por escrever em 1913, na época do seu activismo estudantil, um pequeno texto intitulado A Juventude Cala. Para Benjamin, os adultos são indivíduos “sem esperança nem espírito” e o estado adulto seria, por conseguinte, um modo de vida involutivo, vivido como um grande equívoco, como uma farsa que mascara uma visão irreflectida do mundo, que embrutece os indivíduos entre quotidianos monótonos de submissão e resignação e que assim impede a experiência de aceder a “outras possibilidades” verdadeiras.

”Só muito poucos compreendem o sentido da palavra ‘juventude’, e só dela pode irradiar um espírito novo, ou seja, o espírito.”

Walter Benjamin, in A Juventude Cala (1913)

”A procura pelos grandes homens é o sonho da juventude, e a ocupação mais séria da idade adulta.” 

Ralph Waldo Emerson

ELA –  é o poder intrínseco da juventude que atravessa os personagens de Walsh

ELE – da juventude!

ELA – emergem numa muda forma desordenada

ELE – elevam-se em estórias de força e de caos

ELE – um poder que é matéria e é forma, que é um elogio à humanidade em bruto, que é fulgor vital, que é gente metamorfoseada

ELA – define-os essa qualidade de predisposição para a luta, essa energia em ebulição em que se forja um cinema jovem até hoje

ELE – mas o que é ser jovem? 

”A juventude liberta-se, pouco a pouco lança os preconceitos borda fora, a crítica retorna. O pensamento desperta de imediato em alguns; mas este despertar apodera-se lentamente da maioria. Nasce o impulso, surge a revolução.”

Kropotkine, in A Moral Anarquista

ELA – há vários teóricos anarquistas a definir a juventude enquanto fundo de mobilização política, enquanto potência revolucionária que dirige uma nova forma de estar no mundo

ELE – a juventude é esta força que quebra a autoridade e rejeita o servilismo, surgida como uma prescrição geral para lá das idades

ELA – esta força é a face de um optimismo luminoso na humanidade que sublinha a juventude enquanto categoria universal do espírito, em todo o lado apta a agir

ELE – indivíduo e colectivo encaminham-se para um futuro incessante de possibilidades, entre a colisão e a regeneração

ELA – elegendo mestres e desprezando-os ao mesmo tempo?

ELE – por princípio, rejeitando os pais e os professores mas secretamente…

ELA – … secretamente, querer saber tudo junto de todos para pensar melhor do que eles…

ELE – … secretamente, alimentando o projecto de construir melhores mundos do que os que nos foram deixados…

ELA – … sempre roubando aos mundos anteriores…

ELE – … sempre roubando, sim, roubando todos os dias!

The Revolt of Mamie Stover, Raoul Walsh, 1956

The Revolt of Mamie Stover, Raoul Walsh, 1956

The Revolt of Mamie Stover, Raoul Walsh, 1956 The Revolt of Mamie Stover, Raoul Walsh, 1956 The Revolt of Mamie Stover, Raoul Walsh, 1956

The Revolt of Mamie Stover (1956) de Raoul Walsh

3. A JUVENTUDE É UM PONTO PERMANENTE DE REVISÃO

”Estou muito velho para somente me divertir, muito jovem para estar sem desejos.” Fausto, Goethe

ELA – o momento que passou poderá ser simplesmente descrito – eu sentada, de olhos absortos numa revista, o mesmo vagar mudo do relógio digital ali ao lado – rodeava-me a livraria deserta e, à força de sentir tão alto a própria respiração, caio dentro de mim – súbito, atinjo a distância de legendar a minha própria imagem – estranho pedaço de tempo e de quietude – como há quem mate as horas a dar assim de bandeja o músculo à fantasmagoria

ELE –  jovem mas impávida como se achasses inteiramente belo o mundo

ELA – muda como se o país não estivesse a arder

ELE – serena como se te faltassem causas

ELA – perna torcida mas

ELE – energia para fazer muito para lá do que te é imposto?

ELA – é isso: como combater o torpor em que o trabalho nos crucifixa à cadeira?

ELE – é isso: como forçar o fazer para lá dos afazeres?

ELA – por dentro é-se sempre mais jovem, tão mais

ELE – a juventude será talvez isso: controlar as labaredas desse descontrolo na fonte, direccionar a explosão…

ELA – sim, a juventude é isso: ainda sabendo pouco acerca de ordenar o excesso, construir cada vez melhores veículos para trazer de dentro para fora 

ELE – sim, é isso, a juventude é isso: participar e querer participar, cada vez mais saída de si

ELA – sim, sim, é isso: sair do privado para o comum

”Não envelheças, Herzen, não há nada de bom na velhice.”

Bakunin

”’Oito anos de reclusão em diversas fortalezas fizeram com que eu perdesse meus dentes, mas não enfraqueceram minhas convicções, ao contrário, elas se fortaleceram; nas fortalezas tem-se tempo para refletir; os sentimentos que foram os móbiles de toda minha juventude, concentraram-se, clarificaram-se, tornaram-se por assim dizer mais sensatos e, segundo me parece, mais capazes de se manifestar na prática.”

excerto de carta de Bakunin a Alexander Herzen (8 de Novembro de 1860)

4. A JUVENTUDE DITA A (DES)REGRA

Once there were gods, on earth, with people, the heavenly muses
And Apollo, the youth, healing, inspiring, like you.
And you are like them to me, as though one of the blessed
Sent me out into life where I go my comrade’s
Image goes with me wherever I suffer and build, with love
Unto death; for I learned this and have this from her.

Let us live, oh you who are with me in sorrow, with me in faith
And heart and loyalty struggling for better times!
For such we are! And if ever in the coming years they knew
Of us two when the spirit matters again
They would say: lovers in those days, alone, they created
Their secret world that only the gods knew. For who
Cares only for things that will die the earth will have them, but
Nearer the light, into the clarities come
Those keeping faith with the heart’s love and holy spirit who were
Hopeful, patient, still, and got the better of fate.

Once we were Gods, HOLDERLIN

ELE – gosto da ideia de agarrar o sono como se agarrasse o meu último eu, o meu derradeiro eu livre – como uma recompensa para a vida mundana, um poderoso elixir dos sentidos onde se aprende o desembaraço de olhos fechados e corpo pleno e…

ELA – e aí sentir o frenesim, o desvio, o lirismo, a possibilidade de todas as possibilidades… recompensas poéticas e políticas em forma de sonhos abundantes como filmes… trazer de dentro para fora e aqui partilhar, é isso que nos faz…

ELE – … é isso, sonhar perto de viver…

ELA – … a narrativa ilógica …

ELE – … a beleza convulsiva …

ELA -…. a desregra….

ELE – … a emoção em que tudo explode … 

ELA – … a noite feita cinema de ser …. 

ELE – … esgotar o fulgor de imaginar e deixar a manhã chegar para recordar a vida não vivida, a vida que se quer trazer ao mundo …

ELA – … fazer cinema … porquê?

ELE – … construir utopias contra a imperfeição do mundo…

 

4. A JUVENTUDE É UM ESPÍRITO REVOLUCIONÁRIO

Big Brown Eyes (1936), de Raoul Walsh

 

”Ao contrário do que se diz, a juventude não está perdida, nem mesmo para o cinema…” LUÍS MIGUEL OLIVEIRA  (27/09/2012)

 

ELE – admiro as tempestades febris que acendem os ímpetos e plantam o estado de revolução

ELA – essa libertinagem é a matéria da própria vida a construir-se

ELE – uma vadiagem simples de ser

ELA – a incandescência das vontades por satisfazer

ELE – incessantemente vaguear de filme em filme, de livro em livro, de ideia em ideia

ELA – os olhos mais abertos do que ontem, a cabeça mais cheia, a sofreguidão mais sôfrega

ELE – a hipnotizante música do querer fazer

ELA – como “uma alucinação que é verdadeira”, diria Bazin, quantas gerações não rasgaram a História com belíssimas imagens em mente e energia suficiente para reconstruir o mundo?

ELE – quantos virulentos manifestos artísticos não se escreveram já para derrocar as fundações do estabelecido?

ELA – ensaiava Tristan Tzara no seu Manifesto Dadaísta (1918): “Para lançar um manifesto é preciso querer: A.B.C., fulminar contra 1, 2, 3, se enervar e aguçar suas asas para conquistar e difundir pequenas e grandes a, b, c, assinar, gritar, jurar, organizar…”

ELE – Antero e Eça e esses tais da Geração de 70, anunciavam a insurreição contra os ultra-românticos do “bom senso e do bom gosto”…

ELA – e no primeiro ponto do Manifesto Futurista (1909), Marinetti declarava: “queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade”…

ELE  – e no Manifesto Surrealista de Breton (1918) pode ler-se: “Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade”…

ELA – e juntavam-se Paulo Rocha e Fernando Lopes e os outros em tertúlias no Vavá para, sem pudor, definir as expectativas comuns para os seus verdes anos e para, contra o fascismo, discutir as bases do Cinema Novo…

ELE – e afirmava Godard acerca das motivações do grupo fundador da Política dos Autores que mudou o cinema: “Nós, a Nouvelle Vague, fomos os únicos a dizer que o cinema americano era arte.”…

ELA –  a crítica é agente activo de transformação

ELE – o pensamento é acção

ELA – a juventude é semear um estado de sítio

ELE – a juventude é a contaminação pelas novas ideias

ELA – a juventude são as velhas palavras organizadas em novas expressões 

ELE – a juventude é o belo deixar de ser belo

ELA – a juventude são as vanguardas: é a arte a avançar

ELE – a realidade ergue-se em novos alicerces porque um punhado de temerários rasgou a convenção

ELA – entre os quais o sempre jovem Raoul Walsh

ELE – vamos escrever um manifesto?

ELA – será que já estamos a escrever aqui um manifesto?

”A juventude é um risco e é preciso corrê-lo. O cinema é um risco e é preciso corrê-lo. E, depois, é preciso saber envelhecer a filmar. Diz-se numa cantata de Bach: Que a tua velhice seja como a tua juventude.”

Pedro Costa

6. A JUVENTUDE É UM ”OLHAR PARA A FRENTE”

Gentleman Jim (O Ídolo do Público, 1942) de Raoul Walsh

Gentleman Jim (O Ídolo do Público, 1942) de Raoul Walsh

Recordar Walsh é amar essa fúria de viver que atravessa um cinema protagonizado por heróis forasteiros e marginais que escrevem as próprias leis. Um contagiante manifesto de radicalidade e de libertação que aproxima entre si os filmes mais díspares de um autor de obra tão vasta. Regeneration (Regeneração, 1915), ainda na fase muda de Walsh, é um filme estrutural que já anuncia essa valorização do carácter pessoal contra todas as circunstâncias, filmando a história de um gangster bondoso que, apesar dos maus tratos de uma infância órfã, cresce com uma inesperada esperança na vida. Em Sea Devils (Gigantes em Fúria, 1953), uma disputa amorosa entre um pirata e uma espia transforma-se num enredo privado de ludibrios, jogado sem regras a dois. Em High Sierra (O Último Refúgio, 1941), Bogart é fiel aos seus princípios de honra e integridade, apesar da sua actividade de gansgter às margens da sociedade.

Em Manpower (Discórdia, 1941), uma memorável Dietrich, segura de si, é agente de mudanças de fundo nas convenções sociais: é plenamente dona do seu corpo e da expressão dos seus sentimentos, vive livremente com franqueza e sem pudores. Está já inscrito no título de The Revolt of Mamie Stover (Mulher Rebelde, 1956) o projecto libertador de uma go-go girl (Jane Russell) que anseia por uma nova vida. Ritmo que o seu amigo escritor bem descreve: “tenho de olhar para a frente, sempre para a frente, nunca para trás.” Há uma força convergente nestas figuras de Dietrich e Russell que as torna símbolos de libertação feminina das ordens pré-estabelecidas, de emancipação face a uma estrutura de subjugação pelos homens.

ELE – a audácia de um rebelde Gentleman Jim (O Ídolo do Público, 1942), forte de físico e de carácter, não cede aos maneirismos amestrados que uma moral de cavalheirismo de época lhe designa

ELA – a força deste boxeur está em ser naturalmente, sem concessões

ELE – é, como diria Walter Benjamin, “homem bastante para rebentar com o continuum da História”

“Existe um lado negro também, um sentido de anarquia, e muitos dos seus melhores filmes têm a ver com a procura por uma linha – o ponto a partir do qual a liberdade vira caos, quando o impulso interior do herói se torna destrutivo, demencial.”

Dave Kehr, in Crise, Compulsão e Criação – o Cinema do indivíduo de Raoul Walsh

ELA – quantos heróis de Walsh não fervilham em possessões demoníacas, em ímpetos destruidores, em descontrolo…? White Heat (Fúria Sanguinária, 1949) é a hipnótica celebração desse frenesim e, a pulso, se convoca uma batalha maior do que a vida

ELE – para James Cagney, o seu fim é a sua eternidade: um denso manto de fumo branco envolve a voracidade da sua loucura e, quando o gangster chega ao topo do mundo a que aspirou, os seus gritos incendeiam-se entre as labaredas infernais

”… it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

Shakespeare

7. A JUVENTUDE É O DESEJADO INSULTO À HISTÓRIA

”É necessário aprender para depois desaprender.”

José Bragança de Miranda

Manpower, 1941, de Raoul Walsh

Manpower (1941), de Raoul Walsh

ELE – a juventude assenta nessa relação da matéria com o tempo: o tempo corre veloz como corre a bobine perfurada na projecção

ELA – a juventude corre: a juventude corre com a História

ELE – fazer História é lembrar e esquecer; como da História tanto se aprende para enterrar de seguida, também da história do cinema muito do que ficou para trás, deve ficar exactamente onde está

ELA – mas, infinita constelação de imagens, se há poder que pertence ao cinema é o de eternizar

ELE – sim, ainda agora nasceu o cinema e há já ícones esculpidos na pedra

ELA – sim, mas: a juventude não é o contrário da pedra?

ELE – sim, mas: a juventude não é a imortalidade?

ELA – é como nessa frase digna da juventude de um Oscar Wilde, chegada através de Bogart em In a Lonely Place (Matar ou Não Matar, 1950), de Nicholas Ray: “There’s no sacrifice too great for a chance at immortality.”

Quem nos ensinará a decantar os prazeres do recordar?

André Breton, in L’Amour Fou (1937)

8. A JUVENTUDE É DE DENTRO PARA FORA

O cinema de Walsh é um cinema do indivíduo e Andrew Sarris sabia-o ao demorar-se ao detalhe a descrever a vulnerabilidade emocional das suas personagens. Constantemente se afirma, de nome em nome, um pressuposto de individuação; Busca-se o feito individual (Gentleman Jim) ou um equilíbrio (Rock Hudson em Sea Devils), progride-se à procura de um estado de auto-definição (Dietrich em Manpower), de satisfação [Ann Sheridan em They Drive by Night (Vidas Nocturnas, 1940)] ou de emancipação [Yvonne de Carlo em Band of Angels (A Escrava, 1957)].

ELE – os exemplos não se esgotam 

9. A JUVENTUDE É UM ESPIRITO DE AVENTURA

Band of Angels, 1957, de Raoul Walsh

Band of Angels (1957), de Raoul Walsh

ELA – eis que o sonho se anima por esse cinema lançado ao mar

ELE – eis que revive o mistério dos barcos à deriva, limbo em que os heróis de Walsh se evadem ou se encontram

ELE – é naquele barco que a conduz ao Havai que Mamie Stover confessa os sonhos de uma vida melhor. escondidos na imensidão azul, aproxima-se o homem rico da rapariga pobre, a “Mississipi Cinderela” de vinte e seis anos, e esquecem-se todas as circunstâncias deixadas em terra

ELA – um barco como uma ‘ilha dos amores’, paraíso momentâneo do desejo

ELE – adiante aparecerão os barcos de guerra bombardeados em Pearl Harbor – a batalha que os reúne na ilha. É o hábito do jovem escritor de Battle Cry (Antes do Furacão, 1955) de se abandonar a sós naquele barco civil, como se fingisse para si próprio por um instante que a guerra não existia e só assim soubesse ordenar os pensamentos. é Amanda Starr, a escrava de Band of Angels, quem assina a sua própria libertação quando decide regressar ao barco de Hamish Bond

ELA – pelo poder da escolha, inaugura a soberania de si mesma e transforma o seu dono em seu amante

ELE – é também num barco que o par foge e o fim se suspende em indefinição.

ELA – e o que se esconde no horizonte?

ELE – o amour fou, esse sonho total, núpcias da liberdade derradeira, êxtase da esperança em que nos lançamos para mais um amanhã…

 

10. A JUVENTUDE É O TRANSE DOS CORPOS

Band of Angels (1957), de Raoul Walsh

Não queríamos histórias no cinema, nem personagens, queríamos homens a filmar as namoradas, queríamos o amor nu, o louco amor, queríamos a poesia, queríamos aquele incerto segredo dos rostos.

Jorge Silva Melo, in Philippe Garrel – uma alta solidão

ELA – a juventude é sermos todos tão orfãos como o Owen de Regeneration 

ELE – a juventude é aprender a ser com o Cinema por vivermos em falta de crença…

ELA- …e porque os catequismos não vêm com os esgares enérgicos de um Douglas Fairbanks ou com o vermelho dos lábios de uma Jane Russell em Technicolor…

ELE – a juventude é a vontade de viver agrupada, se ainda estamos vivos, é assumir rituais públicos para a fome dos olhos, para as perguntas da cabeça…

ELA – a juventude são mil olhos secretos atirados contra os ecrãs portáteis, laptops e tablets, respondendo à sede de todos os momentos, essa geração de esperança que recolhe fragmentos entre a abundância…

Me and my gal, Raoul Walsh, 1932

Me and my gal, Raoul Walsh, 1932

Me and my gal, Raoul Walsh, 1932

Me and my gal, Raoul Walsh, 1932

ELE – a juventude é renovar os cultos

ELA – a juventude é consumir cinema

ELE – a juventude é ver e continuar a querer ver

ELA – a juventude é uma lição aprendida no coração ou na cabeça ou nas veias

ELE – a juventude é saber porque é vital voltar a Walsh uma e outra vez

ELA – a juventude é o cinema que ultrapassa a sua duração e sobrevive às gavetas da História

ELE – a juventude é conhecer um cinema saído de si, que atravessa os anos

ELA – a juventude é saber que há forças maiores do que a vida

ELE – a juventude é saber que há ideias que vencem a matéria-película para serem evocadas nos futuros próximos e distantes – e para aí intervirem

ELE – e o que será afinal a cinefilia, na sua qualidade de fetichismo, senão uma contínua caça pelo que é puro, genuíno, transparente, claro – deixado de ontem para vestir hoje?

ELA – o que será afinal a cinefilia senão uma procura de evitar o logro e o ludibrio, de rejeitar tudo o que massacre os sentidos pelo artifício e que afasta a arte do autêntico que se procura, vorazmente?

ELE – Walsh é pulsante, é crítico, um eterno espírito não conformado, um arquitecto de aventuras

ELA – Walsh é nosso, hoje. Walsh é para nós, hoje. Na sua companhia, habitamos a mesma fúria de viver em que James Dean dá corpo eterno ao retrato da juventude. Corpo-Cabeça hiper-sensível: lancetado pelas dúvidas, pelos uivos, pelas lágrimas, pelo descontrolo, por toda a potência da vida que anseia por sair sem saber bem como…

ELE – Skorecki acertou ao chamar Walsh “o cineasta do esperma, do impulso, da perda.” … Primordial, a pulsão sexual rasga este cinema de vulcões, range à velocidade do charleston dos The Roaring Twenties (Heróis Esquecidos, 1939)… A concentração dos olhos submerge-se na glória de sentir de perto a carne destas mulheres… a certeza viril destes homens… a mescla ambígua das figuras…. Os braços firmes de Clark Gable no peito de Yvonne de Carlo em Band of Angels, vingança contra todas as proibições de Hays… O glorioso halo ruivo de Jane Russell em The Revolt of Mamie Stover… O torso seco e fibroso de Errol Flynn em Gentleman Jim… O mistério marmóreo de Marlene Dietrich, soberana em Manpower… Vibram no corpo as memórias dos jovens corpos belos, hoje os nossos mortos…

ELA – será que se autoriza à juventude essa pitada de soslaio pelo que já raramente se vê?

ELE – será que ainda nos cabe dizer que cinema é que é cinema?

ELA – será nosso o segredo: Walsh 

ELE – e entre os de hoje e de ontem, este nome nós guardamos para mestre

ELA – só não digas a ninguém: é muito importante que, enquanto jovens, nos apresentemos como originais, yah?

ELE – yah.

Comme morts et vivants,

A vous le cinéma qui vient.

Sylvain George

 

( O experimentalismo liberta. Na rasgada inspiração da ”disforma” em que velozmente o escrevi, este texto é exclamativo e é dedicado à juventude de Raoul Walsh e de Louis Skorecki ! )

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Sabrina D. Marques

''Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.'' Fernando Pessoa (Tabacaria)

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  • Raoul Walsh – Artigos - Realizado por - diz: 1 de Abril, 2014 em 15:24

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