Em Fantasmas (Planeta Tangerina, 2025), Clara Rowland e Madalena Matoso apresentam um glossário para codificar o quotidiano, mais do que para descodificá-lo: para nos ensinar, à semelhança de um outro livro ilustrado por Matoso, Como Ver Coisas Invisíveis (Isabel Minhós Martins & Madalena Matoso, Planeta Tangerina, 2021). Destes Fantasmas se diz precisamente que são “coisas adivinhadas, invisíveis” (nomes, 5), a propósito daquilo que o nome de um cão transporta em si e que o cão não trazia consigo.

Ver coisas invisíveis não significa apenas ver objectos que não sabíamos que estavam lá, por não serem perceptíveis através da visão e de outros sentidos, ou conseguir criar, através da imaginação, o que antes não existia. Estas duas actividades são, aliás, faces da mesma moeda (uma alma fantasiosa é mais facilmente sugestionável): “I’m here because you believe I’m here”, diz o fantasma do capitão Gregg à senhora Muir em The Ghost and Mrs. Muir (O Fantasma Apaixonado, 1947)[1].
Ver coisas invisíveis pode significar igualmente criar as palavras que nos permitem descrever fenómenos cuja natureza nem sempre compreendemos bem. É nesse sentido que vejo neste livro um alfabeto, um conjunto de símbolos para falar do e perceber o mundo. Queria colar aqui, ou que estivessem já incluídos no teclado do meu computador, o brilhante conjunto de nove ideogramas que Matoso criou para o índice: espelhos, sons, sombras, roupas, casas, cartas, nomes, fotografias, cinema.
Como um alfabeto, o código base de uma língua, este índice organiza categorias que foram, na sua concepção, arrumadas e desarrumadas antes de conhecerem a disposição em que agora as encontramos. Foi possível misturá-las pela permeabilidade entre elas: o cinema adora fantasmas, os espelhos também são sombras, as fotografias, como as cartas, não são as mesmas se vistas hoje ou amanhã, as casas, à semelhança das roupas, deixam-se animar por quem as habita. Rowland recupera de Peter Pan (J. M. Barrie, 1904), uma pequena nota sobre mães:
a mãe de Wendy é descrita a fazer aquilo que todas as mães fazem depois de os filhos irem dormir: arrumar a cabeça das crianças e pôr as coisas no sítio para o dia seguinte. Se em pequenos pudéssemos ficar acordados – mas claro que não podemos, diz o livro –, conseguiríamos ver as nossas mães de joelhos, debruçadas sobre nós, a apanhar os pedaços espalhados do nosso dia, a dobrar o que tem de ficar contido e apertado lá para o fundo, a arejar e a estender os melhores pensamentos para que os possamos vestir logo ao acordar (nomes, 1)
Rowland tinha na infância a organização do adulto e trouxe para a vida adulta a desorganização criativa da criança. Isto implica posicionarmo-nos repetidamente perante um mapa para encontrar o caminho: acordamos a cada manhã num sítio diferente ou virados para outro ponto cardeal.
Fora da Terra do Nunca, e contrariamente aos meninos perdidos, Wendy talvez passe um dia a ocupar-se da tarefa que foi em tempos da mãe. O princípio parece ser o de que cabe ao adulto organizar o mundo para as crianças. Uma vez, uma amiga de outras terras que conheceu Rowland em pequena disse-me que desde essa altura havia nela a vontade de reunir à sua volta pessoas para contar histórias. Tinha na infância a organização do adulto e trouxe para a vida adulta a desorganização criativa da criança – em qualquer um dos casos, trata-se da capacidade de olhar para um conjunto de objectos e de inventar para eles uma unidade – ou de, segundo a definição aristotélica de metáfora, ver semelhanças onde elas não tinham sido vistas antes, propôr que os nove termos que compõe o livro são derivações possíveis de fantasma. Isto implica posicionarmo-nos repetidamente perante um mapa para encontrar o caminho: acordamos a cada manhã num sítio diferente ou virados para outro ponto cardeal.
Nesse sentido, o livro aproxima-se das aulas de Rowland, de quem fui aluna, em que a literatura se tornava, sem que esperássemos, um problema de lógica, como aquele descrito numa das Sombras:
Contava-se na China a história de um homem que morria de medo da sua sombra e que odiava as pegadas que deixava. Pôs-se a correr, mas quanto mais levantava os pés, mais pegadas fazia; e quanto mais rápido era a fugir, mais a sombra o perseguia. Correu tanto que acabou por cair morto. Não se lembrou de que para não ser apanhado pela sombra não tinha de correr: só precisava de parar num lugar sombrio; e para não deixar pegadas, só precisava de não se mover (sombras, 4).

A passagem parece oferecer uma solução para o problema, mas se a imobilidade for a morte (maior mistério) o problema regressa, afinal. Onde estava a solução? Começamos de novo? No início encontramos o problema outra vez. Rowland incentivava-nos à releitura, ao exercício de fazer repetidamente o mesmo caminho (e porque repetido nunca o mesmo), o exercício de nos posicionarmos no mapa aceitando que este é móvel. Por isso é tão importante que este livro seja um contínuo, uma linha traçada por Matoso, um pouco como o túnel da Alice, em que as coisas comunicam e os caminhos são reversíveis, mas em que nunca se regressa exactamente ao mesmo lugar.
Em Fantasmas, muitos dos objectos ou conceitos são relacionais (Alice “está a cair muito depressa num buraco muito fundo ou (…) está a descer lentamente por um buraco afinal pequeno”? [espelhos, 4]). A identidade dos objectos depende de uma referência, de quem está em frente deles. O livro inicia-se com a instabilidade do espelho, dissolução constante da imagem e da identidade, definindo o jogo das páginas seguintes: “A primeira coisa estranha de um espelho é que parece estar sempre a jogar à apanhada connosco” (espelhos, 1); no princípio do capítulo Sons encontramos a ninfa Eco, “[o]brigada pelos deuses a não dirigir a palavra a ninguém e a poder só repetir o final das palavras que lhe eram dirigidas” (sombras, 1), foi condenada, como Narciso, que amava o próprio reflexo, a outra forma extrema de ensimesmamento; já em Cartas, o mais evidente: “para escrever uma carta, preciso de um destinatário” (cartas, 1); ou o cão da família Pina, que “tinha um nome/ por que o chamávamos/ e por que respondia” (nomes, 5).
Os nomes são essenciais neste livro. Nele encontramos a definição da figura de linguagem catacrese, que “serve para compensar a falta de uma palavra específica que designe determinada coisa: ou seja, (…) um nome para alguma coisa que não tem nome e que no entanto precisamos de referir” (nomes, 7). Como na metáfora, que é o transporte para uma coisa de um nome que designa uma outra, espécie de metamorfose, encontramos aqui a ideia de deslocação, de empréstimo. Estabelecendo uma ligação umbilical, expandimos, por acréscimo, o nosso mundo.
À procura de um leitor-fantasma, invisível invasor, Fantasmas é um livro que ri (a sua assinatura é o sorriso de uma defunta) e um lugar de experimentação.
Podemos pedir a este livro várias coisas emprestadas – histórias e imagens – para ler outras infâncias. Às vezes, dei por mim a tentar adivinhar o que havia no livro de Rowland (as metamorfoses, os duplos e todos os termos dos capítulos) e de Matoso (a natureza dialógica e dialética de um livro, os objectos postos em acção), tentei procurar nas fotografias do fotógrafo amador António Amaral o que poderiam ser os quartos delas ou (como Aristóteles, outra vez) o que não foi, mas poderia ter sido. Como aflorar os mistérios de que somos feitos (“qual será o nosso nome?” pergunta Rowland [nomes, 5]), como aceitar que andaremos sempre em torno deles, a falar de uma coisa sempre e só em referência a outra?

Os nomes afloram o mistério das coisas, sem nunca lhe tocar, como as fotografias, como os desenhos de Matoso, que lhe tocam para o complicar. Estes são desenhos que pensam (os dois pontos do remetente e do destinatário transformam-se nas reticências de uma SMS a ser escrita) e que, como as catacreses, deslocam significados e nos fazem ver coisas novas. Se os textos mudam quando os relemos, também é possível ver nestas imagens fixas o movimento – o contorno recortado das casas de Fantasmas, a descida de Alice – e a mudança – os dois pontos gordos, rosa quase laranja (que me corrija a Madalena, a cor também deve ter um nome), que se deslocam através do livro, como as vozes de Marcel e da avó através de cabos, do tempo e do espaço. De repente, um episódio tão sorumbático ganhou para mim cor, nunca mais vou conseguir ler a Recherche da mesma maneira: uma releitura bem-sucedida.
À procura de um leitor-fantasma, invisível invasor, Fantasmas é um livro que ri (a sua assinatura é o sorriso de uma defunta) e um lugar de experimentação, como outros bons livros do Planeta Tangerina. Pouco ou nada falei de cinema, mas como este é um livro para aprender a ver e a pensar, falei de cinema também.
[1] O filme de Joseph L. Mankiewicz é um dos vários objectos que ficou fora do livro, mas que também vive nele. É da folha de sala de João Bénard da Costa que o título veio emprestado: “Um fantasma é o medo que a gente tem dele”.
(E um enorme obrigada a Madalena Matoso por nos ceder as suas ilustrações).
