Um experimento:
- a) Tardes de Soledad (Tardes de Solidão, 2024) de Albert Serra, One Battle After Another (Uma Batalha Após a Outra, 2025), de Paul Thomas Anderson, Yes (2025) de Nadav Lapid, O Agente Secreto (2025) de Kleber Mendonça Filho, O Riso e a Faca (2025) de Pedro Pinho, L’Aventura (2025) de Sophie Letourneur, Sept Promenades avec Mark Brown (2024) de Vincent Barre e Pierre Créton, Nouvelle Vague (2025) de Richard Linklater, Laurent dans le vent (2025) de Anton Balekdjian, Léo Couture e Mattéo Eustachon, Miroirs No 3 (2025) de Christian Petzold
- b) One Battle After Another, The Mastermind (2025) de Kelly Reichardt, O Agente Secreto, Yek tasadof-e sadeh (Foi Só um Acidente, 2025) de Jafar Panahi, Feng liu yi dai (Marés Vivas, 2024) de Jia Zhang-ke, Tardes de Soledad, Misericorde (Misericordia, 2024) de Alain Guiraudie, Sirat (2025) de Olivier Laxe, The Shrouds (As Mortalhas, 2024) de David Cronenberg, If I Had Legs I’d Kick You (Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé, 2025) de Mary Bronstein
- c) The Shrouds, Misericorde, Tardes de Soledad, Hard Truths (Verdades Difíceis, 2024) de Mike Leigh, Sirat, Gouzhen (Cão Preto, 2024) de Guan Hu, Foi Só um Acidente, O Agente Secreto, O Riso e a Faca, L’Histoire de Souleymane (A História de Souleymane, 2024) de Boris Lojkine
- d) One Battle After Another, Sinners (Pecadores, 2025) de Ryan Coogler, The Mastermind, Sirat, O Agente Secreto, Foi Só um Acidente, Sorry Baby (2025) de Eva Victor, Weapons (Hora do Desaparecimento, 2025) de Zach Cregger, Khmeli potoli (2025) de Aleksandre Koberidze, Kuangye shidai (2025) de Bi Gan
Estas são as listas de melhores de 2025 da Cahiers du Cinema (França), Film Comment (Estados Unidos), da nossa À Pala de Walsh (Portugal) e Sight and Sound (Reino Unido). Algumas são limitadas à redação e outras expandem a contribuidores ocasionais (votei na lista britânica, por exemplo) e trabalham com critérios diversos de elegibilidade (Misericorde esteve em primeiro na lista dos Cahiers do ano passado, por exemplo). Parabéns ao Kleber Mendonça Filho, cujo O Agente Secreto está em todas elas, enquanto os filmes do Anderson, Laxe, Panahi e Serra estão em três das quatro. Poderia fazer este mesmo exercício ano passado e os filmes seriam na maioria outros, enquanto os resultados seriam parecidos.

Todo mês de dezembro, as conversas de cinefilia tendem a retornar regularmente para essas listas e/ou do enfado para com elas. Alguns reclamam da mera existência desses exercícios, outros das similaridades entre eles. Pessoalmente, eu gosto de fazer listas, do exercício de prospecção envolvido e em dividir filmes com os outros, mas entendo quem não veja muito sentido nelas. Existem muitas possíveis relações com a cinefilia e ainda outras tantas com o chamado “cinema contemporâneo”, e é inegável que este possível exercício lúdico é bastante capturado pelas máquinas de divulgação dos filmes e toda a pasteurização envolvida nisso. Um cansaço e/ou recusa me parecem normais, ainda assim existe o impulso oposto, um desejo de pertencimento nesse gesto de tomar parte no ritual de fim de ano. Há uma diferença entre a lista individual que eu publico todos os anos no meu blog, que diz respeito somente a mim, e as listas dessas revistas que, cada uma ao seu modo, buscam uma radiografia de consenso. As duas listas de revistas de língua inglesa, em particular, têm um desejo bastante totalizante, o que não deixa de ser muito representativo de como a imprensa cinematográfica anglófona meio que se enxerga como o centro do mundo.
O fascínio por elas, porém, é inegável. Quase ninguém lê os Cahiers hoje em dia, e com frequência quando a revista é mencionada é para se reclamar da sua qualidade atual, a despeito de ainda publicarem artigos de interesse (o especial sobre cinema americano, de dois anos atrás, por exemplo, era ótimo), mas todo ano na entrada de dezembro começa a circular a edição do mês com a lista dos redatores e as pessoas param e prestam atenção, porque a grife Cahiers ainda tem seu peso e fascínio, apesar dos pesares. Existe algo neles emprestarem-no para O Agente Secreto ou O Riso e a Faca. Os Cahiers ainda têm um valor como ideia, mesmo que sejam pouco lidos, ainda existe um investimento imaginário de que aquele agrupamento de dez filmes diga algo sobre certa cinefilia francesa que a revista historicamente representa mesmo que possa se interrogar o quanto ela ainda carrega isso consigo.
Este ano, ouvi mais do que nunca reclamações sobre como o gosto geral das revistas de cinema está parecido. Olhando aquelas listas que postei no começo do artigo, elas estão mesmo, ainda que existam lá algumas particularidades em cada uma delas, mesmo para além da possível atenção para o cinema local, por exemplo, imagino que o apoio ao bom filme do Guan Hu, na lista aqui da À pala, não se repetiria com muita frequência por aí. É um fenômeno que certamente tem relação com algumas das observações que fiz na crónica Crítica e Consenso de três meses atrás, mas acho que é algo um pouco mais amplo e diferenciado.
Se as reclamações são maiores, creio que é menos porque o fenómeno seja intensificado, do que pelo acúmulo. Reclama-se porque, em 2025, já se espera que os Cahiers du Cinema e a Film Comment tenham olhares e ênfases para com o cinema atual, que, se não as mesmas, sugerem um grande parentesco. Por curiosidade, resolvi pesquisar as listas das duas revistas em 2000:
Cahiers: Esther Kahn (2000) de Arnaud Desplechin, La Captive (A Cativa, 2000) de Chantal Akerman, Man on the Moon (Homem na Lua, 1999) de Milos Forman, Mission to Mars (Missão a Marte, 2000) de Brian De Palma, Fa yeung nin wah (Disponível para Amar, 2000) Wong Kar-wai, M/other (1999) de Nobuhiro Sawa, The Virgin Suicides (As Virgens Suicidas, 1999) de Sofia Coppola, Yi Yi (2000) de Edward Yang, Space Cowboys (2000) de Clint Eastwood, Les savates du bon Dieu (2000) de Jean-Claude Brisseau.
Film Comment: Beau Travail (1999) de Claire Denis, Bad ma ra khahad bord (O Vento Levar-nos-á, 1999) de Abbas Kiarostami, Yi Yi, The House of Mirth (A Casa da Felicidade, 2000) de Terence Davies, Le Temps Retrouvé (O Tempo Reencontrado, 1999) de Raul Ruiz, Wo hu cang long (O Tigre e o Dragão, 2000) de Ang Lee, Almost Famous (Quase Famosos, 2000) de Cameron Crowe, Dancer in the Dark (2000) de Lars Von Trier, You Can Count on Me (Podes Contar Comigo, 2000) de Kenneth Lonnergan, Wonder Boys (Prodígios, 2000) de Curtis Hanson.
Ambas com a distância me sugerem olhares dignos para o cinema da virada do século, apesar de ironicamente os franceses terem um gosto melhor para filmes americanos. Não me parece exatamente justo dizer que uma tenha afrancesado ou a outra americanizado no intervalo, mas é inegável que essas duas listas soam mais distintas, formas diferentes de se engajar e pensar com o cinema dos seus momentos, de lá para cá ambos esses olhares deram passos em direção a um mesmo espaço que não é bem um meio termo, mas certamente é um lugar mais genérico. Me parece menos um aumento de filmes em comum em si, nem tão relevante assim (e vale dizer que há filmes que poderiam tranquilamente estar na outra), mas a sensação de que as intervenções atuais são voltadas para o mesmo lugar. O espaço discursivo do cinema contemporâneo é bem mais coeso em 2025 do que era em 2000 e uma das consequências disso é que quem tem uma disposição para lidar com ele, vai estar com frequência falando dos mesmos filmes e lidando com as mesmas questões, as particularidades de gosto, olhar e ênfases acabam se diluindo mais.

Os motivos para isso me parecem bem claros. Um deles está bem representado por este espaço de crónicas. 25 anos atrás, seria bem pouco provável que um crítico brasileiro tivesse um lugar cativo para escrever numa publicação portuguesa, quando muito talvez fosse convidado para falar do filme brasileiro do momento. Hoje em dia, isto não é tão estranho assim, a internacionalização da crítica e cultura cinematográfica é algo bastante normalizado. Era extremamente excitante ser convidado para contribuir num dossiê sobre Raul Ruiz para a Rouge em 2004. Hoje em dia, segue muito legal quando esses convites surgem, mas não é exatamente uma surpresa, não porque sou mais conhecido, mas porque o esforço que o Adrian Martin teve naquela ocasião de buscar um olhar plural e internacional sobre o cineasta chileno, é bem menos uma exceção.
Existem muitos efeitos bastante positivos de todas essas trocas maiores, mas é verdade que assim como ela abre portas, fecha outras. A Internet em si tem um papel grande na forma como esses espaços ao mesmo tempo se expandiram e parecem mais restritos, e ela ter migrado cada vez mais de sites para as redes sociais aumenta este efeito. Hoje, com frequência, fico sabendo de algo que saiu em À pala ou no Ípsilon, do mesmo jeito que sei quando algo saiu na Madonna ou na Folha de São Paulo, e com frequência eles acabam discutidos, no pouco que o são, nos mesmos espaços também.

A outra questão inegável é que o cinema de autor contemporâneo existe dentro de um espaço bem delimitado, ele escoa pelos mesmos festivais e tem os mesmos poucos representantes de venda e, por vezes, distribuidores. O crítico acaba na marra preso neste mesmo sistema que é contaminado do financiamento até a recepção. É um mal necessário e um círculo vicioso. Lembro-me de que, nos meus primeiros anos de crítico na Contracampo, reclamávamos muito do cinema brasileiro do começo dos anos 2000, e o que pedíamos era justamente um cinema que “estivesse em diálogo com o melhor do cinema internacional”, ou seja, no fundo desejávamos por O Agente Secreto. Mais de duas décadas depois, eu, e sei que ao menos alguns colegas de geração, temos sentimentos conflitantes a respeito disso. É um cinema cosmopolita, que ao mesmo tempo que às vezes ganha em sofisticação, existe numa troca constante entre o específico local e um espaço comum mais genérico. Críticos e filmes às vezes se aproximam, ambos querem as duas coisas: falar para um lugar e para todos. O desafio é equilibrar essa linha ténue que, por vezes, corre-se o risco de pender para o nada.
Há, sem dúvidas, certa nostalgia quando reclamamos destas listas similares. Uma que eu imagino é ainda maior quando se movia, comparada a quem se movia com alguma facilidade por múltiplos espaços. Havia, é certo, um valor em saber que as obsessões dos Cahiers eram tão distintas da crítica autoral americana, mesmo quando elas envolviam o cinema de autor americano. Assim como há um desejo compreensível de voltar para um momento em que a ideia de um “cinema internacional” era menos homogénea. Há certamente algo limitador na ideia de que a crítica internacional hoje se volta para os mesmos filmes e leitores. E, sendo justos, acabamos todos, críticos e leitores, implicados nisso de alguma maneira. Procurar imaginar alguma maneira de respirar entre essas contradições me parece essencial para um futuro saudável da crítica.
