Para o romance The Ax, Donald Westlake foi em parte inspirado pela experiência de alguns amigos, vítimas de certas tendências dessa selva humana que é o mundo do trabalho. Neologismos como layoff, downsizing e outros que tais mostram a fragilidade do sistema corporativo: afinal, quando um empregador pede a lealdade dos seus trabalhadores em troca de uma suposta estabilidade financeira e profissional, essa recompensa pode ser rapidamente desfeita pela pressão da concorrência, uma necessária retenção de custos ou um novo chefe que chega ao “curral” com pouco interesse na massa humana que tem à sua disposição. O glossário criado serviu (e serve) para suavizar, e até legitimar, a destruição de um entendimento básico, de uma relação de mútuo benefício e de crescimento pessoal e profissional.

Westlake é um autor que vem de uma era dourada da pulp fiction, em que a acessibilidade dos livrinhos, a linguagem realista e as narrativas urbanas não precisavam de ser sinónimo de literatura bacoca (como aqueles bestsellers que, entre historietas de violência doméstica e vendedores da banha da cobra conhecida como “auto-ajuda”, preenchem os tops das grandes cadeias livreiras). Dono de uma escrita cortante, pontuada por uma consistente ironia e um sarcasmo contundente, faz-nos duvidar do ponto de vista das suas personagens, cujas decisões (e boa consciência em relação a elas) podem deixar-nos perplexos. Não li (ainda) The Ax, mas sim Double Feature, livro com duas novelas em que esse elemento é evidente, provocando um interesse acrescido para perceber onde a coisa vai parar. Mas não conhecendo o dito romance do machado, consigo traçar paralelos entre o que conheço e as suas versões de cinema.
Sim, digo “versões” porque antes de Park Chan-wook, que já sonhava há muitos anos com a adaptação deste romance ao cinema, houve Costa-Gavras e Le couperet (Golpe a Golpe, 2005). É perfeitamente compreensível o interesse do cineasta de origem grega no livro de Westlake: a história de um homem que leva à letra a expressão “eliminar a concorrência”, matando os que têm um CV e uma carreira semelhante à sua e que, por isso, podem ficar com uma oportunidade de trabalho feita à medida para ele, não tinha perdido interesse desde o final dos anos 90.

Em 2026, também parece claro o potencial desta premissa. O mundo do trabalho só tornou ainda mais grotesca esta relação entre quem manda e quem obedece, com os trabalhadores transformados em “colaboradores”, mais a propagação de ideias peregrinas como aquela da empresa ser uma “família”. Mas em situações de aperto, lá se esquece essa meiguice, e poderá haver uma espécie de “hunger games” com sete cães a lutarem por um osso metafórico. A única diferença da ideia básica da história de Westlake está no sangue que a personagem da ficção faz derramar para atingir o seu objectivo.
Sabemos que o capitalismo não morre, por mais que queiramos e façamos por isso. Parece uma barata, ao saber adaptar-se a cada conjuntura e singrando em cada novo ambiente e zeitgeist. Os nossos comportamentos mudam sem talvez nos darmos conta, para alimentar essa barata que vai ficando cada vez mais gulosa. Da forma como as redes sociais manipulam as relações humanas à contribuição da internet para o consumo desenfreado dos nossos dias, muito haverá para dizer e escrever sobre este tema.
Mas aqui, interessa-me o cinema, obviamente. Falemos então de Eojjeolsuga eobsda (Sem Alternativa, 2025), que o texto já vai longo em divagações. Lee Byung-hun, uma das estrelas maiores do cinema sul-coreano deste século, interpreta aqui o homem que faz tudo para conseguir manter o nível de vida a que habituou a mulher e os dois filhos: uma bela vivenda, dois cães, toda a parafernália tecnológica e, claro, acesso à Netflix. Talvez seja esta a ideia que sai mais vincada desta versão da história por Chan-wook: mais do que lutar pela sua carreira numa fase avançada da vida, o protagonista quer fazer tudo para que a estabilidade, garantida por um certo patamar de vida burguesa que conquistou, não seja destruído.
Eojjeolsuga eobsda estende-se exageradamente na sua duração, não sabe o que fazer com as suas personagens (pensou apenas nos efeitos, e nos enquadramentos que cada sub-narrativa poderia gerar), e torna-se insuportável nas suas tentativas de ser engraçado.
O filme não tenta sequer ser subtil nesta e noutras ideias que quer transmitir. Propõe-se uma farsa, mas são poucos os que conseguem atingir o equilíbrio entre as piadas, as caricaturas e a complexidade da desconstrução do mundo. Parece que Eojjeolsuga eobsda não confia na inteligência dos seus espectadores, dizendo as mesmas coisas insistentemente, de uma forma tão evidente e “in your face” que acabei por sentir os minutos a passarem, com o resultado a culminar num efeito anestesiante. Talvez porque (e é uma tendência no cinema contemporâneo) a sua estrutura tenha sido feita já a pensar no consumo caseiro, com a ocasional olhadela para o telemóvel (infelizmente, parece que o mundo já aceitou isto como algo normal) a fazer com que o espectador tenha de ser constantemente relembrado do que está a ver, não esquecendo a possível divisão do visionamento em “episódios” improvisados no conforto do lar.

Admito que possa ter sido inconscientemente influenciado por Le couperet, que vi antes de Eojjeolsuga eobsda. Depois do filme de Costa-Gavras, fiquei mais curioso para ver o que Chan-wook poderia dizer sobre o nosso mundo através da mesma história, mas também com receio de não encontrar o mesmo engenho. E isso confirmou-se: enquanto Le couperet é um filme mais compacto, abrindo logo com o gancho certo e sendo engraçado sem precisar de dizer que o é (o humor cria-se do desconforto, da faceta trapalhona daquele anjo vingador da classe média), Eojjeolsuga eobsda estende-se exageradamente na sua duração, não sabe o que fazer com as suas personagens (pensou apenas nos efeitos, e nos enquadramentos que cada sub-narrativa poderia gerar), e torna-se insuportável nas suas tentativas de ser engraçado. Lembrou-me uma passagem de uma entrevista a António Lobo Antunes, em que o escritor criticava Vladimir Nabokov porque, ao abrir as páginas de um dos seus livros, sentia que ele lhe dizia várias vezes: “repara como sou inteligente”. É exactamente o mesmo efeito que Chan-wook me provocou com este seu novo filme. Mas só me soou infantilóide e sem noção da realidade, como se o cineasta não quisesse saber mesmo o que será estar numa situação tão delicada e dramática como é a de cair no desemprego na meia-idade. Não estou a falar com conhecimento de causa (30 anos só seria meia-idade há uns séculos), mas consegui sentir a intensidade do problema na pele com a versão de Costa-Gavras – realizador já com setenta anos na época.
Enquanto Le couperet surpreende ainda hoje pela crítica pungente e incisiva ao mundo do trabalho, em que cada uma das potenciais vítimas tem, na sua história pessoal, mais qualquer coisa a acrescentar sobre isso, Eojjeolsuga eobsda deita tudo a perder em praticamente todos os “confrontos”. Comparem as duas abordagens à cena do homem que trabalha na sapataria. Parece-me ser o melhor exemplo do que uma versão consegue que a outra não quer, mas também não consegue, oferecer.
Mesmo assim, eu poderia aceitar uma versão completamente diferente do mesmo fio condutor e sair satisfeito com isso – como todos sabemos, uma história é uma história e há triliões de maneiras de a filmar. E nem tudo é de se deitar fora em Eojjeolsuga eobsda: algumas ideias de cinema têm mais força, no meio da overdose de diálogos e da incapacidade em confiar na perspicácia do espectador. Sabemos como o cinema sul-coreano tem muitas vezes um lado mais grotesco e pouco subtil, mas nos melhores casos (inclusive vários filmes de Chan-wook), isso é compensado por um “nervo”, uma urgência no que se diz e filma que, aqui, está completamente ausente. É esse nervo que também distancia a visão de Chan-wook da de Bong Joon-ho em Gisaengchung (Parasitas, 2019), cuja verve satírica levou diversas comparações entre obras ao longo dos últimos meses: o exagero está lá, bem como o grotesco e o humor desbragado. Mas Joon-ho compreende as suas personagens (ou pelo menos finge-o muito bem). A sua miséria não é apenas tema para singrar na temporada de prémios.
Quando Eojjeolsuga eobsda termina, e Chan-wook nos oferece a “estocada” final, ela não parece tão arrojada ou surpreendente como o cineasta terá imaginado. Com tanta repetição e oportunidade perdida ao longo da sua duração, o culminar da farsa não nos tira o tapete dos pés: já o esperávamos, como se, desde o início, a única linha condutora fosse possibilitar tudo para acontecer esse piscar de olho a preocupações actuais, levando tudo a eito como se de um bulldozer se tratasse. Mesmo assim, talvez o desfecho seja um ponto a realçar de um filme, no geral, extremamente caricatural, e no pior sentido da palavra. Mas convenhamos, para tempos em si mesmos tão caricaturais, tão infantilizados e infantilizadores, talvez seja uma proposta completamente adequada. No entanto, fico a pensar como Orson Welles tinha razão, naquele debate na Cinemateca Francesa: um realizador tem de viver, e não só ver filmes.
★★☆☆☆
