De vez em quando vou ouvindo, de leitores mas também de autores de banda desenhada, uma ideia que me deixa perplexo: “a BD é o cinema dos pobres”. É óbvio que se trata de uma suposição errada, e é uma metáfora injusta para ambos os lados: nem a BD é um mero storyboard de um filme não concretizado (embora haja muitos álbuns que seguem deliberadamente esse caminho), nem se pode resumir o cinema à sua planificação (embora haja muitos filmes que se assemelham à transposição de um guião a papel químico).

Quem muito bem sabe como a BD e o cinema são mundos opostos, com algumas coisas em comum, é Daniel Clowes, um dos grandes da nona arte vinda dos EUA, criador de personagens peculiares e arquitecto de um universo visual e narrativo que pensa sobre a sociedade americana e as suas muitas idiossincrasias.
E não é só com as glórias passadas que encontramos o melhor do seu trabalho. Monica, a BD mais recente, vencedora do Fauve d’Or (prémio máximo do Festival de Angoulême) em 2024, é a prova de um artista ainda no pleno das suas capacidades. Muitos anos depois das primeiras experiências (a revista Eightball, que começou a publicar em 1989, traçou parte da sua futura consagração), Clowes continua a surpreender, permanecendo o dono de um traço impressionante e de um sentido de humor muito especial.

Não é só um corpo de obra muito “cinematográfico” o dele – tanto no desenho como na utilização da cor e da perspectiva –, é também muito cinéfilo. Nem precisamos de ler os seus livros para perceber isso. Basta ouvi-lo em podcasts, como no do argumentista Josh Olsen e do realizador Joe Dante, The Movies That Made Me: Clowes foi o convidado de um episódio lançado em Novembro de 2022, onde falou longamente dos filmes que o marcaram, inspirações que se tornaram numa fonte para as suas obras. Por exemplo, Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) de Russ Meyer, o primeiro título discutido nessa conversa, é um filme ao guião do qual Clowes foi “roubar” títulos tanto para Eightball como para um dos livros que saíram dessa revista (Like a Velvet Glove Cast in Iron, linha de diálogo do filme, e também uma das duas únicas obras de Clowes traduzidas entre nós).
25 anos depois, Ghost World mantém a graça e todos os elementos que o tornaram rapidamente num objecto de culto. Clowes não fez apenas uma transposição do seu universo, dando liberdade a Zwigoff e também a si próprio para irem além das páginas desenhadas.
Se o cinema tem um papel tão importante na obra de Clowes, é preciso dizer que o oposto, apesar de não tão frequente, também tem gerado resultados felizes. É o caso de Ghost World (Mundo Fantasma, 2001).

É a versão “de carne e osso” das histórias com duas raparigas que estão prestes a entrar no mundo dos adultos – mais uma das criações que, antes de conhecerem vida em livro (naquele que é provavelmente o maior bestseller da carreira de Clowes), surgiram nas páginas da Eightball. Reflexão sobre o final da infância e o aproximar dos perigos da vida real, teve em Thora Birch e Scarlett Johansson as apropriadíssimas actrizes para dar vida às duas amigas (Enid e Rebecca, respectivamente), que tão peculiares quanto inusitadas, se escondem atrás de um sarcasmo e ironia cerrados. Estes, quando aliados a uma intenção de “excentricidade”, servem de escudo involuntário em relação à realidade, e de uma forma de esconderem as suas fragilidades e dúvidas de cada vez que encaram as personagens (algumas são autênticas “personagens”) que com elas se vão cruzando.

25 anos depois, Ghost World mantém a graça e todos os elementos que o tornaram rapidamente num objecto de culto. Os diálogos memoráveis, a crítica à alienação e aos tentáculos do capitalismo (temas recorrentes na banda desenhada de Clowes) misturam-se com uma série de referências pop e uma estética que advém da sensibilidade de Terry Zwigoff para a BD – vale a pena lembrar que antes deste filme, o realizador assinara Crumb (1994), um documentário algo perturbador sobre esse estranho ovni em forma humana (ou outra personagem!) chamado Robert Crumb, vulto do mundo underground dos comics.
Ghost World não seria o mesmo sem Zwigoff – talvez tivéssemos um filme banal – e sem a intervenção do próprio Daniel Clowes, que co-assinou o argumento com o realizador. A partir de uma série de episódios soltos, que funcionam por si mesmos, ganhando um outro significado se lidos em conjunto em livro, criou-se uma narrativa coesa, que ora parte de piadas e algumas ideias da BD quase à letra, ora desenvolve outras para novos caminhos (caso da personagem de Steve Buscemi, que resume assim a maioria dos seres humanos: “dão-lhes um Big Mac e um par de Nikes e ficam felizes”).

Clowes não fez apenas uma transposição do seu universo, dando liberdade a Zwigoff e também a si próprio para irem além das páginas desenhadas – algo que se repete em duas outras adaptações do seu trabalho, como o subvalorizado Art School Confidential (Escola de Arte, 2006), que partiu de material bem mais escasso do autor de BD (uma história de apenas quatro páginas da Eightball) e que parece ter sido motivada por uma das cenas de Ghost World que me ficou marcada na memória, sem nunca ter desaparecido desde a primeira vez que vi o filme, há coisa de uma década: a aula em que a professora (Illeana Douglas) avalia o trabalho dos alunos.

É curiosa essa despretensão com que Clowes encara o seu próprio trabalho, e que se mantém noutra adaptação, também menos vista do que merece: Wilson (2017) é mais convencional na abordagem, mas o argumento (novamente de Clowes) é exemplar na maneira como ata e desata a sua própria criação. Uma coisa une o homem desse filme com as duas raparigas de Ghost World: estão à espera de um momento de redenção. No caso de Enid e Rebecca, talvez seja mesmo uma luz ao fundo do túnel. Há uma melancolia evidente que perpassa até ao desfecho.

Este filme é bem mais do que uma comédia teen. É uma visão complexa sobre a dificuldade de um adolescente lidar com o mundo dos adultos, ao mesmo tempo que tem muita pressa em fazer parte dele. Em 2026 – e já sendo um adulto há algum tempo –, essa melancolia, e essa indefinição, não me abandonou. E acredito que daqui a dez, vinte, ou quarenta anos, volte a sentir com igual intensidade a desolação dos minutos finais de Ghost World.
Ghost World será exibido hoje, dia 15 de Maio, às 21h30, no Cinema Fernando Lopes em Lisboa, no âmbito das Sessões À Pala de Walsh.
