No célebre livro de Lotte Eisner sobre Fritz Lang, a crítica alemã escreve a dado momento, a própósito de Pest in Florenz (1919), que não é fácil de compreender qual o envolvimento no projecto do cineasta, além de, naturalmente, ser o autor do argumento. Conta também a blague que num dos argumentos que criou para Otto Rippert realizar, não se sabe ao certo qual [a este juntaram-se Die Frauen des Josias Graffenreuth (1919); Der Totentanz (The Dance of Death, 1919) e Die Frau mit den Orchideen (The Woman with the Orchid), hoje todos filmes perdidos], Lang escrevia apenas “Aqui tem lugar uma orgia”. E que Rippert ao ler isto teria perguntado: “mas o que é que eu faço aqui?” A partir desse momento, Lang começou a “realizar” nos seus próprios argumentos, dando indicações precisas sobre a forma de fazer a história.

Talvez esse seja um motivo de interesse acrescido ao ver hoje Pest in Florenz – um dos poucos filmes que sobreviveu do período de Lang argumentista, a trabalhar na Decla Film com Erich Pommer -, em 1999-2000 restaurado pelo Friedrich-Wilhelm-Murnau-Stiftung e pelo arquivo nacional cinematográfico alemão. O que já seria Lang num período em que Lang ainda não era Lang? [Isto embora, precise-se, a rodagem de Pest, não o argumento, seja posterior ao primeiro filme dirigido por Lang, Halbblut (The Halfbreed, 1919)].
No centro da história está a jovem e inconsequente Julia (Marga von Kierska) que chega a Florença em 1348 e deixa toda a gente desconcertada com o seu encanto. A Igreja acha que a sua beleza é demasiado perigosa e pode pôr em perigo o seu poder. Cesare (Otto Mannstaedt), que governa com mão de ferro, apoiado pelo conselho dos anciões, tenta oferecer-lhe o poder sobre a cidade em troco dos seus luxoriosos desejos. O filho deste, Lorenzo (Karl Bernhard), é quem acaba por enfrentar o poder religioso e o seu pai, instaurando uma nova fase de juventude no poder, com as devidas festas e deboche (seria nestes segmentos a indicação de Lang sobre a orgia?).
Quer Eisner, quer Luc Moullet (no seu livro de 1963 sobre o realizador alemão) viram aqui um dos temas de Lang: a mulher que leva todos à perdição. Eisner menciona a este propósito a associação da mulher fatal à morte e Moullet declina o tema como o da sedutora que inspira um amor tão violento no homem que este se torna seu escravo e consumido pela paixão. De uma forma geral, basta pensar neste período em filmes como o referido Halbblut, mas também Lilith und Ly (1919), Die Frau mit den Orchideen, Vier um die Frau (Four Around a Woman, 1921) e depois Metropolis (1927), The Woman in the Window (Suprema Decisão, 1944) e Scarlet Street (Almas Perversas, 1945).
Fábula moralista, observação estatuta sobre a evolução da sociedade da época ou apenas trabalho para começar a ganhar mão no ofício, Pest in Florenz merece, sem dúvida, ser redescoberto.
A outra presença que Lang iria depois desenvolver em Der müde Tod (A Morte Cansada, 1921) é a personagem da morte que já no argumento de Hilde Warren und der Tod (Hilde Warren and Death, 1921), realizado por Joe May, era central. Em Pest in Florenz, a morte é a figura da peste que nos surge no título e que virá do submundo castigar os habitantes pelas sucessivas festas e orgias. Ao contrário da morte pesada e imponente de Bernhard Goetzke em Der müde Tod (basta o recordar o seu olhar carregado para trazer o filme à memória), a praga encarnada pela actriz Julietta Brandt é um ser leve e andrajoso, rosto chupado de uma alma penada, tocando o seu violino da perdição (os ecos do Flautista de Hamelin são claros) e atingindo os florentinos com a doença fatal.
É verdade que Pest foi pensado como um filme de recriação histórica de grande orçamento, no centro a devastação da peste negra do século XIV. Aliás, parte da obra vive de planos bastantes gerais (as cenas das festas e da procissão religiosa), mas com uma encenação ainda bastante rígida. Bastaria ver Metropolis uns anos depois, ou mesmo M (Matou, 1931) para compreender que as multidões de Lang não são as massas de gente, em plano tableau, à Méliès, que Otto Rippert ainda encena. Mas é interessante que a mulher praga/morte surja como dupla pecadora da mulher eros que “infecta” toda a cidade italiana. Voltando a Moullet, este observa como Pest é uma alegoria da decadência moral que assolou a República de Weimar: “A peste, a ‘morte vermelha’, que assola a área fechada do palácio e o clima de rebelião alimentado por Savonarola evocam a semi-fome, a deterioração material e moral da Alemanha, ocultada pela prosperidade superficial do Império (…)” .

“As pedras começam a falar. E a natureza revolta-se contra o ato sexual que é repugnante à natureza.” Este são os intertítulos que lançam o terceiro acto (a vinda da Peste que é inspirada, ainda não se havia referido, em The Masque of the Red Death de Edgar Allan Poe) e que fazem do filme uma fábula moralista mas intrigante. Pena que essa vinda não se estenda mais no filme pois daria certamente mote a uma dimensão mais expressionista que Rippert desenvolve a partir do segundo acto. Neste, o eremita Medardus (Theodor Becker) tenta sem sucesso pôr termo à devassidão que assola a cidade e acaba sendo seduzido por Júlia (o terceiro homem a ser tentado por ela) e a ocupar o lugar de Lorenzo.
Na sua caverna Medardus tem visões de Júlia junto à cruz, bem como de uma figura demoníaca. As sobreimpressões dão uma carga fantástica e mística ao esse momento. Em breve, o eremita irá mostrar a Julia a cidade dos atormentados e a vida da dor sem limites, tentando chamá-la à razão e desviá-la do caminho do prazer. Mas eis senão quando, entre corpos jazentes e dragões flamejantes (mais uma vez é ainda Méliès a referência aqui), Medardus e Júlia veem-se a si mesmos, enquanto casal no futuro. O guia é agora ele próprio mais um perdido. Esta descida ao inferno, sequência expressionista e dantesca – a fazer lembrar, em ponto pequeno, a adaptação de Francesco Bertolini, Adolfo Padovan e Giuseppe de Liguoro da obra de Dante, em L’Inferno (1911), – tem também o condão de nos dar uma das primeiras descidas subterrâneas e tentaculares pelo qual o mestre das trevas ficou conhecido. E não é certamente por acaso que o cunho religioso da personagem do eremita tenha como contraponto da sua queda em perdição a libertação da praga sobre a cidade.
Fábula moralista, observação estatuta sobre a evolução da sociedade da época ou apenas trabalho para começar a ganhar mão no ofício, Pest in Florenz merece, sem dúvida, ser redescoberto.


