(Para a Gabriela, para o João.)
Por mais vezes que reveja Verano Azul (Verão Azul, 1979-1980), jamais conseguirei reconstituir com todos os pormenores a experiência de a ver naquele começo dos anos 80. Passou na RTP1 entre Setembro de 1982 e Novembro de 1983, em horários tão diferentes como a hora de almoço de sábado e ao domingo antes do meio-dia, e via-a sentada no sofá verde da sala com a minha irmã e o meu irmão, talvez já num aparelho a cores. Devo ter perdido alguns episódios, entre ser chamada para a cozinha (onde não entrava a televisão) ou para arrumar o quarto, mas tal como para o meu irmão e a minha irmã, as peripécias de férias dos seis amigos eram o espelho das nossas. A vila onde vivíamos não era costeira, mas ficava perto do mar algarvio. Conhecíamos bem as povoações onde, junto à costa, cresciam os empreendimentos turísticos – Quarteira, Albufeira, Portimão –, e onde nos sentíamos tão veraneantes como Piraña e Tito, Javi e Quique ou Bea e Desi, mas éramos ao mesmo tempo locais que ali moravam em permanência, como Pancho. Chanquete, o lobo do mar na sua traineira “La Dorada”, estacionada em terra, estava fora das nossas identificações, mesmo se nos era o mais simpático dos adultos (e carinhosamente chamava ao pequeno Tito “el portugués”).

A paisagem costeira, desde a Ria Formosa em direção a Leste, assemelhava-se àquela mediterrânica vila malaguenha, apesar de estranharmos a areia cinzenta de Nerja. As nossas férias de praia eram passadas entre primos das mesmas idades, com quem nos dávamos como se dão na série os jovens protagonistas, e eram idênticas às deles as relações que tínhamos com os pais, um tanto repressivos e cuidadosos em medida igual. Reparávamos numa diferença curiosa, a da língua: dependíamos das legendas, às quais nos habituáramos por conta de muitos programas estrangeiros que víamos (seriam sobretudo em língua inglesa?); além disso, ouvíamos falar dos programas da televisão espanhola aos familiares que viviam nos arredores de Beja, acercados à fronteira, e que conseguiam apanhar canais espanhóis. Mas em Loulé, onde vivíamos, não tínhamos esse acesso, e o castelhano era para nós uma fala exótica que, só a cada episódio de Verano Azul, se nos ia aproximando.
Assistir às aventuras dos amigos em férias ajudava-nos a prolongar as nossas (as férias e as aventuras). Outono adentro, sossegados na sala livre da areia das dunas, talvez o que nos cativasse no que a televisão nos dava a ver não fosse tanto a paisagem do mar, mas o movimentado convívio dos amigos em dias sem escola, dias em que professores e pais ficavam num mundo separado do nosso; no nosso, ampliavam-se reinos de cumplicidade e de mistério. Saíamos da infância ao mesmo tempo que aquelas personagens e aprendíamos com elas o que da adolescência se avizinhava.
Será o ponto de vista da câmara a principal voz narradora, mas serão os actores e os ambientes criados na construção de cada episódio que a entoam e lhe dão corpo.
Hoje, olhando sem ingenuidade para o episódio inicial, percebo quantas mais dimensões do que aquelas de que me terei apercebido quando a vi: reconheço hoje o excelente trabalho de escrita da série. Na altura em que a vi não o reconheci, não ganhara ainda o hábito de fixar os nomes que apareciam nas fichas técnicas. Aliás, no geral, as fichas técnicas eram empecilhos iguais aos intervalos para publicidade; quando muito, permitiam que nos atrasássemos uns minutos a sentar-nos no sofá – a de Verano Azul tinha a vantagem da música, que assobiávamos em uníssono.
Numa das cenas do primeiro episódio, os pais de Javi têm uma conversa que antecipa o nó de problemas sociais que podem estar na origem, por exemplo, de Machos Alpha (2022-2026), série criada pelos irmãos Laura e Alberto Caballero. Pancho (“Conocéis a Pancho?”, pergunta Julia, a cicerone cuja voz off abre o episódio; “El es de aquí, del pueblo”) e Javi, o miúdo louro que diz não querer saber dos peixes do porto porque sabem a petróleo, mergulham na água suja do cais de Nerja à procura da pulseira de Bea que caiu ao mar. Na cena seguinte, os miúdos vão ter com os pais à praia e Javi, que recuperou a pulseira do fundo do mar, tem o corpo manchado do lodo do cais: por isso mesmo é repreendido pela mãe e o pai aproveita a oportunidade para lhe dar uma lição sobre as companhias com que deve andar (os rapazes “del pueblo” não são, claro, aconselháveis, deves procurar as amizades “em tu ambiente”). Porém, quando percebe que o filho “ganhou” a Pancho, “eso cambia mucho las cosas”, diz o pai – num plano que é interceptado por um outro, em que o pequeno Tito, qual bobo-sábio, lhe faz uma careta – e elogia a vitória do filho “com alma de campeão” na corrida pela conquista de Bea. Os jovens vão à água e ficam os pais a conversar – os pais, que as mães estão em silêncio. (Nem sob tortura conseguiria lembrar-me destes pais…). O pai de Javi começa por dizer que lhe “gusta que mi cachorro sepa luchar”, e que, como a vida é uma guerra, não basta ser o melhor. Há que saber demonstrá-lo. O pai das moças discorda: “Habría mucho que discutir en ese asunto” e que “hay muchas clases de luchas”. Os dois acabam por ir tomar um vermute, depois de algumas gargalhadas sobre aquela “filosofia barata”, mas as palavras ficaram ditas, numa série em que a luta de classes não é o tema principal mas também não está totalmente ausente, e na qual a sociedade machista vai cimentando os estereótipos que tratarão de ser desconstruídos (com dose reforçada de ironia) muitos anos mais tarde em Machos Alpha.

A escrita de Verano Azul não se restringiu aos temas mais óbvios e, ainda que cumpra a função de entreter o principal público-alvo, é hoje claro, aos meus olhos, que a série não se dirigia apenas a crianças e jovens. Essa consciência da diversidade de espectadores percebe-se em vários momentos do primeiro episódio e ecoa nos outros. Neste, de noite, quando vão apanhar rãs e descobrem sobre a duna a traineira de Chanquete, Piraña diz a Tito que se trata de um ovni.
A câmara filma a entrada da embarcação em grande plano, omitindo o resto da carcaça e sublinhando, tanto por esse destaque assim como pelo recurso à música electrónica, a opinião do miúdo. O outro, pasmado perante o espectro nocturno daquela nave espacial, comenta: “Y empieza la música como en los Encuentros en la Tercera Fase…”, referindo-se ao filme que Spielberg estreara em 1977 (que eu veria só em 1984 ou ’85, no Clube de Cinema da Escola, em belíssima hora criado por Anabela Moutinho). Na verdade, a música desta cena convoca a referência a Close Encounters of the Third Kind (Encontros Imediatos do Terceiro Grau, 1977) tanto quanto a certos planos em que Fellini filmou a lua (e não é um pouco felliniano o Chanquete tocador de acordeão?).
Acreditei que vivia cada aventura com aquele grupo de moços e moças, que revivia com todos eles os dias dos meus Verões, assim azuis, assim meridionais.
Até a escolha dos figurinos enquanto suporte de mensagens revela o potencial e o alcance reflexivo da série: o debrum das mangas da t-shirt de Desi (elemento aparentemente inócuo) tem inscrita a expressão flower power, que carrega consigo a sugestão, nas mangas curtas daquela roupa estival, de que o lema da revolução sexual dos anos 60 estava ultrapassado, e de que aquilo resumia-se a decoração numa t-shirt infantil.
Entre piadas mais evidentes e outras mais subtis, nada me ficou, vejo-o agora, do dispositivo narrativo da série, que começa pela voz off de Julia, uma simpática criativa que se refugia em Nerja para recuperar de algum mal de amor. Ali encontra o que ditará o ambiente de cada episódio, “rico de imágenes, lleno de vivencias, pleno de emociones”. O fio do que se conta desprende-se dela: cada acontecimento deixa de depender da sua origem e ganha autonomia, centrando-se mais numa personagem ou noutra, numa peripécia ou noutra. Será o ponto de vista da câmara a principal voz narradora, mas serão os actores e os ambientes criados na construção de cada episódio que a entoam e lhe dão corpo.
Verano Azul foi filmada naquela região do Sul de Espanha, ao mesmo tempo garantindo o realismo dos cenários e a credibilidade das histórias e das personagens. Acreditei que vivia cada aventura com aquele grupo de moços e moças, que revivia com todos eles os dias dos meus Verões, assim azuis, assim meridionais. Consigo localizar-me hoje numa geração a partir desta série e, apesar de terem passado mais de quatro décadas desde que a via com os meus irmãos na sala do nosso apartamento, qualquer um de nós (como qualquer pessoa que a tenha visto, creio, mesmo que não ande pelos cinquenta, cinquenta e cinco anos de idade) repetirá, sem falhar uma única nota, o assobio do genérico.

