
Após um longo processo de construção, o Teatro Pax Julia foi inaugurado a 19 de dezembro de 1928. O novo espaço oferecia uma lotação total de 980 lugares, distribuídos pela plateia (400), frisas (22 com 5 lugares cada), camarotes (18 com 5 lugares cada), fauteilles (83) e geral (300). Dez dias depois, o semanário republicano O Porvir chamava para a capa a inauguração da nova casa de espetáculos, “que enobrece e conceitua a nossa cidade”. O mesmo texto, “antes que esqueça”, “a galhardia com que a firma Castello Lopes exerceu a sua atividade e lavou uma mancha de agoiro, de revolta constante e de vergonha, se pode dizer, certo como é, provado como está, flagrantemente, que só assim Beja teria teatro.”

A “vergonha” a que se refere a notícia do jornal alentejano está relacionada com a inexistência de uma sala de espetáculos digna para a cidade, e remontava a finais do século XIX, quando um grupo de habitantes da cidade constituiu a Sociedade Teatral Bejense (1876) e adquiriu uns edifícios anexos ao Convento de Nossa Senhora da Conceição (Hospício e Igreja de Santo António) para aí instalar um teatro (1895).
A outra informação relevante da notícia do jornal O Porvir diz respeito à empresa Castello Lopes. Fundada em 1916, por José Martins Castello Lopes, a Filmes Castello Lopes tornar-se-ia nas décadas seguintes num dos principais distribuidores e exibidores cinematográficos a operar em Portugal, detendo significativas quotas de mercado. Para além do Cinema Condes, em Lisboa, a joia da coroa que Castello Lopes adquiriu e transformaria numa das salas de cinema mais concorridas da capital, a firma tinha uma ampla rede de salas de cinema espalhadas pelo país que explorava diretamente ou por parcerias com os exibidores locais.
O contrato entre a Sociedade Teatral Bejense e a Filmes Castello Lopes Lda. seria assinado em 1926, com o objetivo de garantir que a segunda se responsabilizaria pela conclusão das obras no interior e no exterior do edifício. No entanto, a Sociedade Teatral Bejense reservou para si o batismo do novo espaço: depois de uma votação em que nenhuma das opções convenceu (Gil Vicente, Castilho, Garrett, D. João da Câmara ou Teatro Bejense), os associados acabaram por concordar em adotar Pax Julia, a designação romana da própria cidade.
A concessão do Teatro Pax Julia expiraria no final da década de 1940 e as sessões de cinema foram suspensas. Após uma intervenção física no espaço, que duraria dois anos, onde foi introduzido um segundo balcão e se demoliram as frisas e camarotes originais, o novo Cine-Teatro Pax Julia reabre ao público a 2 janeiro de 1952, então com uma lotação de 1250 lugares.

Pouco depois, a exploração do Cine-Teatro foi concedida à empresa cinematográfica Sacil de Lisboa – Filmes Lusomundo, que havia sido criada em 1953, que compraria o catálogo da Sonoro Filmes, a mais relevante distribuidora portuguesa das décadas de 1930-1940. Através de uma estratégia expansionista, a Lusomundo haveria de garantir, para além das salas de cinemas de Lisboa e Porto, cerca de 80 salas de cinema “na província”.
Para além do cinema, que era a principal atividade da sala de espetáculos, o Pax Julia também acolhia outro tipo de espetáculos, como: a Companhia de Teatro do Ginásio (ou Companhia Dramática de Ilda Stichini), na inauguração em 1928; a Orquestra Sinfónica Eborense, em fevereiro de 1943; o Orfeão de Beja, em julho de 1944; a Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, na reinauguração de 1952; a Companhia de Teatro Rafael de Oliveira, Artistas Associados (no contexto de diferentes digressões nacionais, em 1945, 1954, 1967, 1968, 1974); a Orquestra Sinfónica da RDP, conduzida pelo maestro soviético Maxim Shostakovich, em novembro de 1977; ou um espetáculo de folclore soviético, a 13 de novembro de 1987, por iniciativa da Associação Portugal – URSS.
Entretanto, o Cineclube de Beja é fundado em 1957, com a primeira sessão do novo cineclube a realizar-se a 13 de novembro desse ano no Pax Julia. Dinamizado por várias figuras de reconhecida importância regional, como o pedagogo António Manuel Tiago Janeiro Acabado, que esteve ligado aos cineclubes de Estremoz, Moura, Évora e Santiago do Cacém, o advogado Celso Pinto de Almeida, ou o professor José Aiveca, o Cineclube de Beja só teria os seus estatutos homologados em junho de 1959.
O Cineclube de Beja demonstrou enorme vitalidade logo desde o início. Em julho de 1958, organiza um Encontro de dirigentes cineclubistas do Alentejo e Algarve, onde marcaram presença dirigentes de Beja, Estremoz, Olhão e Vila Real de Santo António, e ainda representantes de “núcleos interessados na fundação de clubes de cinema” de Ferreira do Alentejo, Moura e Santiago do Cacém.

Em agosto de 1959, agora em Estremoz, realizar-se-ia outro encontro cineclubista, agora apenas com cineclubes alentejanos, onde Beja, Estremoz, Moura e Portalegre marcaram presença. No ano seguinte, em 1960, o Cineclube de Beja exibia filmes do cineasta amador Vasco Branco e, em setembro de 1963, prestaria uma das primeiras homenagens ao realizador Manoel de Oliveira.
Nos meses de verão, o Cineclube de Beja também promovia sessões de cinema no Cine Esplanada Vista Alegre, situado no parque homónimo inaugurado em 1929: por exemplo, a 23 de julho de 1969, exibiu o filme Tant qu’on a la santé (Entretanto, Haja Saúde, 1966), vencedor da Concha de Ouro do Festival de S. Sebastián, que havia estreado em Portugal em janeiro de 1967.

No pós-1974, o Cine-Teatro Pax Julia, como noutros cinemas espalhados pelo país, a programação refletiu o fim da censura, com filmes até então proibidos a chegarem às salas portuguesas. No romance Adeus, Princesa (Clara Pinto Correia, 1985), ambientado em meados dos anos 1980, um dos protagonistas, o jornalista Joaquim Peixoto, deambula pela cidade e passa pelo Cine-Teatro Pax Julia, que “anunciava para essa noite o filme Sexo Mecânico”. Não foi possível identificar o filme, porque provavelmente não existe nenhum com esse título que tenha sido exibido nas salas portuguesas nesse período, mas a referência serve para contextualizar esse momento particular da exibição cinematográfica em Portugal.
No mesmo livro há ainda uma referência a uma sala de cinema na povoação de Beringel, no concelho de Beja, que também dá o contexto acerca da exibição de cinema por esses anos naquela região: “Dantes havia um cinema, hoje nem isso funciona. Puseram lá uma sala de baile, como esta onde vamos. Também quando funcionava, era só indianos, coboiadas, kung-fus, e às tantas eram os pornográficos. Os casais não podiam lá ir, porque o pessoal se punha a roncar, dizendo dá-lhe agora, e assim, naquelas partes. Cadeiras duras, teto com buracos, e os caramelos jogando tudo o que apanhavam ao écran assim que aparecia alguma coisa de fora, era o cinema que a gente tinha. Agora já nem esse temos.”
Quando o filme homónimo de Jorge Paixão da Costa foi rodado, em maio de 1991, o Cine-Teatro Pax Julia já estava encerrado. A última sessão tinha acontecido em novembro de 1990 e a cidade de Beja só voltaria a ter oferta cinematográfica regular a partir de 1995, com a inauguração do Cinema Melius, uma sala de 218 lugares que integra o edifício do hotel com o mesmo nome. Esta sala encerraria ao público em agosto de 2025, depois de uma ação de fiscalização da Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC), deixando toda a região do Baixo Alentejo sem exibição comercial de cinema.

Entretanto, em 1994, com fundos da União Europeia (PORA), a Câmara Municipal de Beja adquire o Cine-Teatro por 560 mil euros. Em 2001, com apoio do Ministério da Cultura e fundos do PORA, o edifício original e um edifício contíguo são intervencionados. A 17 de junho de 2005, o Pax Julia é inaugurado pela terceira vez, agora rebatizado como Teatro Municipal Pax Julia, dispondo de um auditório com capacidade para 650 lugares e uma sala estúdio para 143 espetadores.

O Teatro Municipal Pax Julia voltaria a programar sessões de cinema a partir de 2006. Nos três primeiros anos de funcionamento exibiu 214 filmes e apresentou 89 eventos de música, 78 de teatro e 45 espetáculos de dança, além de 91 outras iniciativas, como festivais, exposições, tertúlias, seminários e congressos.
Como só existia uma sala de cinema na cidade (Melius), a direção do Teatro Municipal optou por conciliar duas linhas de programação: à terça-feira, cinema mais alternativo, europeu, americano independente e à sexta-feira, cinema mais comercial, de qualidade.
De acordo com os dados do ICA, entre 2006 e 2025 promoveu 972 sessões (uma média anual de 49 sessões) que totalizaram 70 mil 589 espetadores, ou seja, uma média anual de 3 mil 529 espetadores. Nesse período, o filme mais visto foi Alentejo, Alentejo (2014), de Sérgio Tréfaut, exibido em 4 sessões em junho e outubro de 2014, totalizando 957 espetadores. Em sessão única, o filme mais visto foi o filme de animação Madagascar: Escape 2 Africa (Madagáscar 2, 2008), exibido numa sessão de matiné em janeiro de 2009, com 604 espetadores. Entre os 20 filmes mais vistos no novo espaço, 6 são portugueses, incluindo os também “alentejanos” Raiva (2018, 550 esp.) e A Herdade (2019, 465 esp).
Comparativamente com todo o distrito de Beja, que somou apenas 382 mil 012 espetadores no mesmo período (2006-2025), percebe-se que o Teatro Municipal Pax Julia é responsável por cerca de 18,5% do total de espetadores de cinema de uma região com cerca de 10 mil km² e com cerca de 145 mil habitantes.
