“Talvez não tenha sido o cinema que chegou ao fim, mas apenas a cinefilia — o nome dado a um tipo muito específico de amor que o cinema inspirava. Cada arte gera seus fanáticos. O amor que o cinema inspirava, no entanto, era especial. Nasceu da convicção de que o cinema era uma arte diferente de todas as outras: essencialmente moderna; singularmente acessível; poética, misteriosa, erótica e moral — tudo ao mesmo tempo. O cinema tinha apóstolos. (Era como uma religião.) O cinema era uma cruzada. Para os cinéfilos, os filmes resumiam tudo. O cinema era ao mesmo tempo o livro da arte e o livro da vida.”
O parágrafo acima sempre me pareceu o coração de um dos artigos sobre cinema mais impactantes e discutidos publicados no começo da minha própria cinefilia, Um Século de Cinema, que Susan Sontag publicou no New York Times no começo de 1996 (originalmente com o título The Decay of Cinema, mas abertamente negativo), um lamento sobre o estado do cinema, mas ainda mais sobre o da cultura cinematográfica. O meio dos anos 90 foi pródigo nessas reflexões, muito por ser marcado pelas celebrações do centenário das primeiras exibições dos irmãos Lumière em 1895. É típico de como o comércio do cinema sempre funcionou, esta esquizofrenia em que se joga para cima e para baixo ao mesmo tempo. Haverá sempre como se extrair algo celebrando a data, mas também o gesto oposto de recusá-la radicalmente. A morte e/ou decadência do cinema era uma ideia no ar, tão influente a sua maneira quanto a sua celebração. Wim Wenders, em particular, sempre foi um cineasta hábil em explorar em diferentes contextos ambas como melhor lhe servia.
Como fica claro neste parágrafo, existia um componente geracional forte no artigo de Sontag. O fim do cinema era também o fim de uma ideia de cinefilia que se ritualizou de forma definitiva nos anos 60, com seus códigos de comportamento e mesmo claras preferências estéticas e de personalidades. A cultura de cineclube é bem anterior a isso, mas a geração de Sontag nos anos 60 se rebelou mesmo contra ela, buscando uma ideia mais pura na relação com o cinema, celebrando uma nova suposta paixão. Menos Sadouls e mais Cahiers. Era uma ideia de exceção que se assumia como regra, Sontag se lembra do personagem de Prima della rivoluzione (Antes da Revolução, 1964) que declara que não se vive sem Roberto Rossellini, mas não que o mestre italiano foi se reinventar com seus filmes históricos para TV, entre outras coisas, porque as portas da indústria estavam cada vez mais fechadas para ele. O cinema não vivia muito bem sem Rossellini nos anos 60. Haveria ali, é sempre bom dizer, uma aposta no novo, uma celebração do agora em contraste com o velho cineclubismo com suas preferências já um tanto calcificadas (o cinema mudo, os clássicos franceses dos anos 30, Citizen Kane [O Mundo a Seus Pés, 1941] e Ladri di biciclette [Ladrões de Bicicletas, 1948]). O tempo é cruel; tudo que é novo aos poucos deixa de ser, mas este perfil de cinefilia segue corrente, ao menos como uma ideia vaga. Muita coisa mudou, mas ainda vejo os jovens cinéfilos tentando, à sua maneira, reproduzi-lo; na superfície a geração de Sontag venceu.

O próprio interesse e dedicação de Sontag para com o cinema era sinal de algo diferente. Tratava-se afinal de uma intelectual pública que adorava cinema e chegava nele sem nenhuma condescendência. Escrevia sobre ele como escrevia sobre livros numa época em que isto não era consolidado. Seu ensaio recebeu tamanha atenção pois colocava neste sentimento de desgaste um rosto reconhecível que antes avalizara esta mesma cinefilia. Um Século de Cinema foi publicado cerca de três décadas após os artigos sobre cinema que fizeram parte de seu celebrado Contra a Interpretação (que datam de 1963-1965). Sontag era agora quem olhava com desdém para o cenário que encontrava.
Um certo decadentismo nunca abandonou a cinefilia nas últimas décadas; a morte do cinema segue ali a espreita, ao mesmo tempo que o oba-oba mais tolo.
Sontag tinha 63 anos quando seu artigo foi publicado. Seu lamento certamente tem muito a ver com isso. O desaparecimento de uma ideia mais voraz de cinefilia é algo inseparável de como se observa o próprio entorno, e a relação dela com a ideia de cinefilia era uma coletiva. Em defesa dela, é justo dizer que ela estava longe de encastelada nos anos 60; o artigo na sua parte final destaca Nema-ye nazdik (Close Up, 1990) e Nan guo zai jian, nan guo (Goodbye South, Goodbye, 1996) como grandes filmes recentes, menciona cineastas como Nanni Moretti e Béla Tarr, Sontag por volta de 1996 tinha mais interesse, e melhor gosto, do que os críticos que o New Yorker empregava à época para escrever regularmente sobre cinema. Lembro-me de um amigo cineasta conversando a respeito de Cine Sabué, uma coletânea de artigos e entrevistas sobre cinema de Caetano Veloso publicado por aqui uns dois anos atrás: “meio triste, né? Toda esta paixão nos primeiros artigos, ai chega nas últimas décadas e só os filmes óbvios do circuito”; apesar dos pesares, ninguém diria isso do necrológio de Sontag.
Quando li o artigo de Sontag pela primeira vez, eu tinha 15 e o ressenti muito. Estava ali na minha primeira cinefilia e tinha que ver vários velhos jogando água no meu chope. Não ajudava que quem repercutia artigos como os de Sontag, ou os pronunciamentos mais negativos de Jean-Luc Godard, o fizesse a partir de uma lógica bem mais terra arrasada que desautorizava tudo a sua volta do que eles. Hoje, com três décadas de distância, entendo um pouco mais que o problema não era eu mesmo que ainda suspeitava um pouco do gesto.

Godard em particular olhou bastante com suspeita para as celebrações do centenário do cinema e a maneira com que ela se misturava ao comércio (a começar pela escolha das primeiras exibições como seu marco). Eram os anos em que ele se dedicava ao seu Historie(s) du Cinema (1988-1999) e no qual a maior parte dos seus outros filmes de alguma forma eram influenciados por ele. Reconhecia ali uma espécie de amnésia celebratória, na qual a história do cinema não só se misturava com Hollywood, como ignorava todas as partes em que se não encaixava em uma ideia de evolução industrial muito específica. Lembro-me que uns dois anos depois de ler o artigo de Sontag, encontrei Introdução a uma verdadeira história do cinema, a coletânea de palestras sobre história do cinema no qual Godard começou a tatear suas ideias sobre o tema. No auge das comemorações do centenário, ele realizou com Anne-Marie Melville, 2 x 50 ans de cinéma français (1995), uma encomenda do British Film Institute, no qual eles questionavam Michel Piccoli, que encabeçava formalmente as comemorações institucionais francesas, sobre seu significado. O que se comemorava, porque o que havia de fato a se celebrar. Era um contraponto essencial e fácil de se perder de vista, ainda mais quando se é um adolescente entusiasmado como eu.

O artigo de Sontag nem se compara às contribuições de Godard, mas era uma face bem pública deste debate. Cegueiras geracionais à parte, existe um gesto de resistência ali que vejo com melhores olhos hoje. Os anos 90 foram um período bem miserável para o cinema; ótimos filmes seguiam sendo realizados em muito bons números, mas era uma época terrível para distribuição e discussão deles. É um momento em que a paixão pelo cinema que Sontag observava se revelava cada vez mais um gesto isolado. Hoje olhamos para estes anos com nostalgia, mas havia muitos problemas na cultura cinematográfica desses anos, um adoecimento que explicava este mal-estar. Um mestre como Hou Hsiao-hsien pouco circulava. Lembro-me de finalmente ver a maior parte dos seus filmes dos anos 80/90 nos piores VHS piratas possíveis que um amigo conseguiu com um cinéfilo americano. Para alguém como Sontag, isto mal contava como ver estes filmes, mas a minha geração tinha uma tolerância muito maior para com essas coisas. A internet melhorou a circulação e discussão desses filmes, assim como criou outros problemas. As duas décadas posteriores à publicação de Um Século de Cinema me parecem um período de reação contra muitos dos problemas observados ali. Nos últimos anos, uma nova calcificação em torno da cultura de streaming e alguns poucos conglomerados se consolidou e dificultou bastante as alternativas que ganharam força nas décadas anteriores. O que eu observo como resistência coincide com minha própria juventude, então talvez seja minha vez de praticar um pouco de cegueira geracional.
Relendo o artigo para esta crônica, me peguei pensando como muitas das tensões apontadas nele poderiam ser adaptadas três décadas depois. Outro trecho: “Por mais que se lamente, nada vai trazer de volta os rituais desaparecidos — eróticos, contemplativos — da sala escura. A redução do cinema a imagens agressivas e a manipulação sem limites das imagens (com cortes cada vez mais rápidos) para chamar mais a atenção produziram um cinema desencarnado e superficial, que não exige a atenção total de ninguém. As imagens agora aparecem em qualquer tamanho e em uma variedade de superfícies: na tela de um cinema, em telas domésticas tão pequenas quanto a palma da mão ou tão grandes quanto uma parede, nas paredes de casa de shows e em megatelões que ficam suspensos acima de arenas esportivas e na fachada de grandes prédios públicos.” Coloque um celular ali, uma menção ao YouTube, etc., e alguns colegas poderiam facilmente ter produzido isso nos últimos anos. Um certo decadentismo nunca abandonou a cinefilia nas últimas décadas; a morte do cinema segue ali a espreita, ao mesmo tempo que o oba-oba mais tolo. Não abandonamos este mal-estar, e podemos encontrar ali uma resistência. O risco é sempre deixar que ele tome conta de tudo.
