(para a Isabel)

A meio de Bad Mara Khahad Bourd (O Vento Levar-nos-á, 1999), de Abbas Kiarostami, o protagonista, Behzad, vai até à escola para ir buscar o miúdo que lhe faz de guia na aldeia. Farzad está a fazer exames. Behzad pede ao professor para o chamar, mas o rapaz, ao emergir da sala de aula, diz que não pode ir com ele. “Ainda me falta uma pergunta”, diz, e não sabe a resposta. Interrogado sobre que pergunta é, acrescenta: “O que acontece aos bons e aos maus no dia do Juízo”. Behzad, com ar sério, responde: “Mas é óbvio. Os bons vão para o inferno e os maus para o céu. Está certo?”. Farzad, hesitante, acena que sim. O adulto olha para ele e corrige-o: “Não, é ao contrário. Os maus vão para o inferno e os bons para o céu. Vai lá escrever isso no exame e volta logo”. O miúdo volta a correr para a sala, deixando entrever um sorriso esquivo.
2.
Como Miguilim, o pequeno protagonista da novela Campo geral, de Guimarães Rosa, também Farzad é mais do que uma vez confrontado com a questão da distinção entre o bem e o mal, a que não sabe como responder. No início da novela de Rosa, Miguilim sai pela primeira vez do Mutúm, lugar onde vive com os pais, para ser crismado. Durante a viagem, alguém lhe diz que conhece o Mutúm, e que é um lugar bonito. Miguilim espanta-se, porque sempre ouvira a mãe queixar-se de viver ali. No regresso, corre para dar a “boa notícia” à mãe:
A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se alegrar, ficava consolada. Era um presente; e a ideia de poder trazê-lo desse jeito de cór, como uma salvação, deixava-o febril até nas pernas.
Mas a mãe não dá valor nenhum à revelação. Miguilim fica baralhado: “No começo de tudo, tinha um erro — Miguilim conhecia, pouco entendendo.” Só no final conseguirá dizer: “O Mutúm era bonito! Agora ele sabia.”
3.

Perto do início do filme de Kiarostami, Behzad e Farzad caminham pela aldeia. “Que linda aldeia branca!” exclama o forasteiro.
— Porque lhe chamam Vale Negro?
— Os antigos chamaram-lhe assim.
— E não lhe podes chamar Vale Branco?
— Não, temos de a chamar pelo nome.
Behzad recita “Quando o teu destino é ser negro”… Farzad completa “Nem a água benta te pode tornar branco”. O adulto espanta-se: “Como sabes esse poema?” “O nosso professor às vezes recita-nos poemas”. “É um trabalho de casa?” “Não. Ele recita e eu aprendo”.
4.
Conheceremos mais tarde o professor, a única personagem a falar abertamente com Behzad sobre a razão da sua permanência na aldeia. Comentando a cerimónia fúnebre pela morte iminente da avó de Farzad, que a equipa terá vindo filmar, diz laconicamente: “A vocês talvez interesse, a mim não”. Conta-lhe das cicatrizes que a mãe tem no rosto, infligidas em violentas cerimónias anteriores, e das motivações económicas do ritual. Quando chegam à escola, porém, volta atrás para pedir a Behzad que não diga nada a Farzad sobre o que lhe contou.
5.

A pergunta do exame sobre o bem e o mal terá um eco directo pouco depois, quando o visitante, desanimado com as notícias das melhoras da avó, pergunta à criança: “Consegues responder-me francamente? Achas que eu sou bom ou mau?”. No documentário A Week with Kiarostami (1999), que acompanha a edição da Criterion e documenta a rodagem do filme, vemos que na filmagem da cena quem interroga a criança não é o actor, e sim o próprio Kiarostami, sobrepondo na resposta ao mesmo tempo desconcertada e desconcertante do rapaz a complexa identificação entre a moral do protagonista e a do próprio filme, que noutros momentos identifica a câmara com o espelho no qual o suposto engenheiro se barbeia. Jonathan Rosenbaum, num ensaio sobre o filme, conta:
“Quando perguntei a Kiarostami se tinha sido ele a fazer essas perguntas a Farzad, ele confirmou a minha suspeita, acrescentando que sentiu que tinha de as fazer porque sabia que Farzad não gostava dele — e gostava de Behzad Dourani, o actor que interpretava Behzad. ‘É por isso que ele não foi muito convincente quando me chamou um homem bom’, disse Kiarostami com uma gargalhada.”
6.

O filme terá, depois, uma das suas cenas mais terríveis, quando, numa sequência filmada de cima, da varanda da casa, num picado acentuado, o miúdo é violentamente repreendido por Behzad. Frustrado com a conversa que acaba de ter com os colegas, que revelam querer desistir da espera e abandonar a aldeia, Behzad transfere a sua cólera para o atónito Farzad, que aparece no pátio, como sempre para lhe levar o pão. “Não te ensinaram nada na escola?”, pergunta-lhe. Farzad, ofendido, responde que sim. “Não te ensinaram a só falar quando alguém te pergunta alguma coisa?”. E grita: “Não queremos que nos tragas mais o pão; volta só se tiveres boas notícias, percebeste?” As boas notícias serão a morte da avó, que já não será o rapaz a contar a Behzad.

A cena recorda o movimento de câmara da primeira visita de Farzad, de manhã, à casa onde estão alojados. Aí, Behzad está a lavar maçãs para os colegas, quando uma delas lhe escorrega da mão e cai ao chão da varanda. Começa a rolar para a frente e para trás, e como por magia entra numa calha e cai no pátio aos pés de Farzad, antecipando o movimento do osso levado pelas águas no final do filme. (No documentário sobre a rodagem, vemos o esforço que o movimento aparentemente natural da maçã exigiu: o soalho teve de ser reparado, a calha alargada, para que a maçã pudesse encaminhar-se inevitavelmente para Farzad).
A maçã afinal era para ti, diz-lhe Behzad. Nesse primeiro plano, também em picado, Farzad parece muito mais próximo e mais visível. Quando, mais tarde, é a cólera injusta de Behzad a ser reorientada para o rapaz, o que poderia ser uma rima traduz uma distância infinitamente maior.
7.
Como o Miguilim de Rosa, então, Farzad parece começar a aprender a diferença entre o bem e o mal através da injustiça dos adultos. Quando Behzad, nessa tarde, regressa à escola para tentar fazer as pazes com o rapaz, tenta vencer-lhe a resistência procurando a cumplicidade da cena anterior na escola, oferecendo-lhe novamente ajuda com o exame. “Há alguma pergunta a que não saibas responder?”. Mas desta o rapaz responde, firme: “Não, sei as respostas todas”.
8.

Fico a pensar na resposta de Farzad: menos pelo modo como conclui para a criança a longa série de perguntas sobre a distinção entre o bem e o mal do que pela recusa da ajuda do adulto com os trabalhos da escola que parece implicar. É um tema central para Kiarostami, que em Mashghe Shab (Trabalhos de Casa, 1989) constrói o mundo de relações daquelas crianças a partir da pergunta sobre quem as ajuda com os trabalhos de casa. A Behzad, depois da cena da varanda, já não é dado ajudar Farzad com os seus trabalhos e exames. Como em tantos filmes sobre a infância, o mundo da aprendizagem e da destinação afectiva não se separam, para as crianças que resistem aos gestos de corte da escrita adulta.
É um movimento que recorda o final de Khane-ye doust kodjast? (Onde Fica a Casa do Meu Amigo, 1987), quando Ahmadpour aparece na escola com o caderno de Nematzadeh, tendo feito os trabalhos de casa por ele. É um final assombroso: a solução para o problema do caderno extraviado, afinal, esteve sempre ao alcance de Ahmadpour, que podia simplesmente ter feito logo os trabalhos pelo amigo – como acabou por fazer, gorada a viagem a Poshteh sem o encontrar. Parece-me que a vertigem desse filme tão extraordinário vem de pressentirmos, ao mesmo tempo, o risco da anulação da lógica do filme (se Ahmadpour fizesse logo os trabalhos por Nematzadeh, o filme não existiria) e a certeza de que Ahmadpour só pode encontrar essa solução depois da viagem que empreendeu pelo amigo e que tanto o transformou, já fora de qualquer propósito.
9.

Quando Ahmadpour chega atrasado à sala de aula na última manhã, depois de passar a noite a fazer os trabalhos de casa pelos dois, o professor pergunta-lhe porque se atrasou. Pergunta-lhe, como os colegas que chegaram atrasados no início da sequência porque vinham de longe: “Por acaso vens de Poshteh?” Atarantado, Ahmadpour começa por dizer que sim. O professor repete a pergunta, Ahmadpour baixa o olhar, diz que não. Quando, no remate, o professor lhe pergunta como se chama, Ahmadpour tem de repetir por duas vezes o seu nome antes de perceber que trocou o seu caderno com o de Nematzadeh: no termo do seu percurso de alterização e de identificação com o amigo, Ahmadpour já é também, por empatia, de Poshteh.
10.

No final da terceira “carta” das Correspondencias entre Víctor Erice e Abbas Kiarostami, intitulada Arroyo de la Luz (2005), Erice reflecte sobre a experiência que acaba de viver numa escola perto de Cáceres onde um professor exibiu o filme de Kiarostami e o discutiu com alunos da idade de Ahmadpour. Os adultos esquecem muitas vezes que as crianças não conhecem fronteiras, diz; Ahmadpour e Nematzadeh ganharam naquela tarde vários amigos naquela aldeia espanhola.
Na “carta”, Erice filma a discussão que o professor organiza com os alunos em torno do filme. No final da conversa, o dilema que o professor oferece aos alunos prende-se com a solução de Ahmadpour: fazer os trabalhos pelo amigo é enganar o professor, mas é também ajudar o amigo. O que farias tu?, pergunta o professor. Todas as crianças respondem: faria os trabalhos por ele.
11.

A resposta de Kiarostami a essa carta é um dos episódios mais bonitos da Correspondencias, intitulado El Codony (“O Marmelo”, mas dá vontade de traduzir por “os marmelos são para quem passa”, como os figos no livro maravilhoso do João Gomes de Abreu), e começa por dialogar visualmente com a reflexão final de Erice. Kiarostami recupera imagens de El sol del membrillo (O Sol do Marmeleiro, 1992), com Antonio López a olhar para os marmelos que pinta no filme, e comenta:
“Sei que tu e Antonio López estavam concentrados num ramo do marmeleiro que deveria aparecer no final do filme. Por isso, podes não ter reparado noutro ramo que cresceu para fora do jardim. Nesse ramo havia um fruto que teve um destino diferente. Na nossa cultura, os ramos que saem dos jardins dão frutos para quem passa.”
Sobreimprimindo às imagens do marmeleiro no filme de Erice as imagens vídeo da sua carta, Kiarostami arrasta-nos, sem transição, do quintal madrileño de López para um cenário iraniano, reconhecível a partir das vozes das crianças que atiram pedras ao marmelo para o fazer cair: também aqui, o filme da infância não conhece fronteiras. O marmelo cai na água e durante mais de dez minutos vai sendo arrastado pela corrente, cada vez mais longe, ao som da música — como o osso que Behzad lança ao riacho no final de O Vento Levar-nos-á, quando abandona a aldeia sem filmar a cerimónia—, até que é apanhado por um pastor que lhe dá uma dentada antes de o partilhar com as cabras do seu rebanho.
