Será que é no passado que se encontra o futuro do cinema? Não tenho resposta concreta para esta pergunta, mas olho para as evidências: por cá há uma procura pelos “grandes clássicos” que leva alguns cinemas a tornarem-se autênticas cinematecas para os mais abonados (Nimas), mas também se nota o sucesso de várias reposições, a serem projectadas em multiplexes (filmes como Se7en [Sete Pecados Mortais, 1995] ou Back to the Future [Regresso ao Futuro, 1985] levaram dezenas de milhares de pessoas às salas para os verem pela primeira ou pela milionésima vez).
Num espectro mais alargado, a procura pelo espólio do cinema é também notável pelo crescente sucesso do festival Il Cinema Ritrovato (acompanhado por alguns fenómenos nefastos criados pelo letterboxd e outras redes sociais). É uma celebração do património cinéfilo, com retrospectivas dedicadas ao muito que ainda temos para descobrir do que ficou para trás, mas também com a apresentação de variadíssimos marcos populares através de novos restauros. Convém lembrar que o certame acontece na cidade que tem não só uma das mais importantes cinematecas do mundo, como também um dos mais ocupados laboratórios dedicados a esse processo de recuperação dos filmes, o L’Immagine Ritrovata (cujos trabalhos oscilam entre a maravilha absoluta e o choque semelhante àquele célebre caso do quadro “restaurado” por Cecília Gimenez – tudo depende dos filmes, e mais ainda de quem financia a sua preservação).
Mas há mais, muito mais, neste festival que chegou, em 2026, à 40.ª edição (daí o XL), que ocupou os cinemas de Bolonha com uma programação gigantesca e diversificada entre 20 e 28 de Junho passados. Eu, que há anos ouvia falar do Il Cinema Ritrovato, pude concretizar agora este desejo há muito adiado de marcar presença. Barbara Stanwyck foi a cara desta edição, aparecendo nos cartazes, na capa do catálogo e no restante material promocional: o 120.º aniversário do seu nascimento é já em 2027, mas os bolonheses decidiram adiantar-se com a exibição de alguns dos mais emblemáticos papéis da actriz (e não é preciso qualquer efeméride como desculpa, porque todos os dias, meses, anos, são bons para voltar a Stanwyck).
Seguem-se algumas impressões sobre os filmes que vi ou revi, andando entre as várias salas, percorrendo as ruas de uma cidade cujos habitantes parecem ter desistido de lutar contra o calor demoníaco. Se tivesse estado em Bolonha, Henry Miller teria certamente escrito um livro de crónicas intitulado “Pesadelo Sem Ar Condicionado”.

O meu primeiro dia foi marcado por duas sessões em película: a primeira com 8 Girls in a Boat (1934), obra de Richard Wallace agora recuperada e que não era vista desde a sua estreia, de acordo com David Stenn, que a apresentou a sessão (sim, em breve estará por aqui a segunda parte desta entrevista). Exibida numa cópia em 35 mm, é uma curiosidade por ser mais um de incontáveis exemplos de como o passado continua a surpreender-nos quanto ao papel da mulher – mas fora isso, não há muito a acrescentar, excepto de que esta sessão foi no Cinema Arlecchino, a minha sala favorita do festival no que às condições de projecção dizem respeito. O espaço mais belo é, sem dúvida, o centenário Cinema Moderníssimo, uma sala subterrânea recuperada de propósito para o Il Cinema Ritrovato.
Foi onde vi mais duas sessões nesse primeiro dia. Primeiro com um dos pratos fortes, como admitiu o próprio Gian Luca Farinelli na introdução: se havia estrelas no festival, The Devils (Os Diabos, 1971) era a maior desta edição. Comprovou-se pela enorme fila de pessoas que tentaram obter um bilhete “last minute” – o sistema de reservas muito antecipadas pode levar a desistências de última hora, o que leva a que alguns espectadores tentem a sua sorte minutos antes da sessão. Nenhuma outra sessão em que compareci teve igual procura, e percebe-se porquê. Não foi “apenas” a apresentação de um novo restauro de um filme (ainda por cima, numa novíssima cópia 35 mm, estreada propositadamente em Bolonha), mas a apresentação da versão integral, nunca antes vista, de um marco dos anos 70 que foi censurado na sua estreia.
Até hoje, nunca tínhamos visto a visão original de Ken Russell para aquele que considerou ser o seu filme mais político. Antes dos delírios camp de Tommy ou Lisztomania (ambos de 1975) ou das desventuras alucinogénicas de Altered States (Estados Alterados, 1980), títulos pelos quais o realizador é ainda hoje mais reconhecido, houve este retrato do fanatismo na Idade Média, a partir de um caso real de bruxaria que, no filme, é levado às últimas consequências. The Devils é um objecto perturbador em que Russell não deixa nada por dizer, nem filmar. Mas fiquei sem perceber como é que foi possível esta estreia, depois de mais de 50 anos em que a Warner bloqueou qualquer tentativa de recuperação das cenas censuradas do filme. Não explicou Christian Parkes da Clockwork, nova chancela da major americana com ambições alternativas, na apresentação da sessão. Mas foi, sem dúvida, o “meu” acontecimento do Il Cinema Ritrovato. Ninguém sai feliz desta descida aos infernos, com Vanessa Redgrave e Oliver Reed em estado de graça, numa caça às bruxas que descamba num julgamento de fachada e numa loucura colectiva provocada pelo dogmatismo. Mas é a prova de como Russell tinha muito mais para dizer, e filmar, do que talvez lhe foi depois permitido pela indústria.
(E, entre tantas reposições, será que teremos espaço, em Portugal, para a estreia desta director’s cut de The Devils?)

Uma das características do Il Cinema Ritrovato está na diversidade de experiências, algumas com a vontade de celebrar também as próprias características da projecção: há sessões com filmes de 1906 ou 1926, em arco de carbono, e em 3D. Nesse primeiro dia regressei ao Modernissimo para ver The Bounty Hunter (O Caçador de Recompensas, 1954) de André de Toth, recentemente restaurado digitalmente e apresentado como foi originalmente pensado, com a ilusão das três dimensões. Um belo e escorreito western, que não perde tempo na sua narrativa, com algumas utilizações divertidas do 3D. Mas nesse aspecto ainda surpreendeu mais a curta que antecedeu a longa: Popeye, the Ace of Space (1953), que provocou muitas gargalhadas no público e que, nos seus 7 breves minutos, apresentou uma série de gags pensados para os óculos. Uma sessão especial, com um senão: a conversão dos filmes em 3D parece ter feito com que o grão da película desaparecesse da imagem…

Voltando à película: não foi numa cópia nova, mas noutra com muito uso (e por isso, muita vida e charme) que pude ver Calle Mayor (Rua Principal, 1956), um dos marcos do cinema espanhol que está, neste momento, a ser restaurado (daí ter sido apresentado nesta cópia na Sala Scorsese, uma das duas do Cinema lumière – a outra chama-se Mastroianni). História de uma brincadeira reles com consequências à beira da tragédia, continua a surpreender pela desenvoltura da sua narrativa, bem menos “americanizada” que outro clássico de Bardem do mesmo período, o excelente Muerte de un Ciclista (Morte de um Ciclista, 1955), que também foi exibido no Il Cinema Ritrovato numa pequena retrospectiva dedicada ao cineasta. Também foi memorável a apresentação da sessão com Carlos Reviriego, director-adjunto e de programação da Filmoteca Española. Contou a sua experiência com Bardem, que conheceu já neste século, quando há muito deixara de ser uma figura relevante na indústria do país, remetido a homenagens e a prémios de carreira. De como o entrevistou e de como Bardem estava desesperado para voltar a trabalhar, sentindo-se abandonado pelo meio para o qual contribuiu, de forma mais assinalável, durante a década de 50. Prometeu-lhe, nessa altura, continuar a divulgar o seu trabalho, a trazê-lo às novas gerações. Tanto Calle Mayor, como Muerte de un Ciclista, merecem mais circulação – temos uma relação distante com o cinema do país vizinho.

No fim da estadia, o saldo entre analógico e digital levou a que o segundo levasse a melhor. Pelas opiniões que fui ouvindo em Bolonha, esta tendência tem-se agravado nos últimos anos – apesar do contexto, de ser um festival cinéfilo, a película é cada vez mais deixada para segundo plano. Apesar disso, nem todo o digital deve ser colocado no mesmo saco, até porque foi possível redescobrir um velho filme de Michael Mann, agora apresentado na sua versão definitiva: Manhunter (Caçada ao Amanhecer, 1986). Um espantoso thriller do qual guardava óptimas memórias (vi a versão de cinema há uma década em Blu-ray), que é quase como que um novo filme, como apontou o responsável da Studiocanal que introduziu a sessão. Mann trabalhou principalmente o som, e fez mudanças na montagem (não sei especificar, não me lembro de ter visto algo que era dissonante das minhas memórias) que propiciaram uma noite intensa no Cinema Arlecchino, numa daquelas sessões para guardar: o silêncio dos espectadores, todos em sintonia com a demanda de William Petersen, sempre a arrepiar-nos com o Hannibal Lecter de Brian Cox. Enquanto a versão de Anthony Hopkins está mais próxima de um entertainer que adora fazer gala, Cox consegue ser arrepiante por parecer tão normal – e por isso, seria mais fácil que o psicopata se misturasse entre a multidão, sem darmos por ele. Não deve haver personagem com duas propostas tão singulares de interpretação, e ambas extraordinárias por motivos diferentes.
(Mais uma reposição que cairia bem nos cinemas portugueses…)

Voltando às curiosidades, dois filmes que descobri no Il Cinema Ritrovato que valeram mais pelo contexto do que pelas imagens: Limonádový Joe aneb Konská opera (Limonada Joe, 1964) de Oldřich Lipský, tido como um clássico popular do cinema checo, é uma paródia aos westerns vendida pelo festival (e pelo próprio Farinelli na apresentação) como uma das grandes surpresas da programação deste ano. Mas se formos pelo aspecto humorístico (que é ainda chave imediata para saber se uma comédia funciona ou não), os espectadores que encheram a Arlecchino não foram muito à bola com o filme. Achei que era uma piada que devia ter sido resumida a uma curta-metragem, porque se torna repetitiva e cansativa nesta duração. Mas valeu pela apresentação do restauro por Jeanne Pommeau, Národní filmový archiv: rodado a preto e branco, Limonádový Joe… foi completamente tintado de ponta a ponta, em várias cores que se vão alternando com mais ou menos critério. O processo de recuperar a intenção original de Lipský foi interessantíssimo. O filme pode não ser grande coisa, mas não será por culpa do restauro, de facto irrepreensível.

Sugata Sanshirô (1943) foi a primeira longa-metragem de Akira Kurosawa, e é a saga de um lutador de judo que teve tanto sucesso que gerou uma sequela. O contexto deste filme e os problemas com a censura, resolvidos com a ajuda de Yasujiro Ozu (um realizador tinha de fazer parte dos comités) foram abordados na excelente apresentação (tentei encontrar o nome do dito cujo, mas não consta da programação do festival). Ozu ficou tão fã de Kurosawa que não só ajudou a que o filme pudesse estrear, como ainda o convidou para jantar. Vale a pena pensar nesta história quando por vezes a cinefilia tenta criar rivalidades entre os grandes mestres japoneses. A cópia restaurada foi, em si, um marco histórico: Sugata Sanshirô foi retalhado depois da sua estreia, acabando por ser alvo de uma reposição comercial no Japão nos anos 50, quando já Kurosawa era um dos grandes. Mas, curiosamente, essa reposição vinha acompanhada de um cartão inicial onde se mencionava a perda de vários minutos do filme, com outros pequenos textos a explicarem as cenas desaparecidas. Esses cartões foram recuperados pelo restauro, assim como alguns pedaços dessas sequências que foram descobertas recentemente. Infelizmente, este resultado só funciona mesmo em ambiente cinéfilo, ou como um extra de uma edição Blu-ray: essas cenas reinseridas no filme estão em muito mau estado, cheias de saltos que nos impedem de ter os diálogos ou as interacções entre as personagens. Mas Sugata Sanshirô resiste, principalmente, por ser o prenúncio do que estava para vir: os grandes momentos de acção de Kurosawa já estavam aqui a ser arquitectados nas sequências de judo. E a derradeira, acima de todas, é uma pequena obra-prima de composição e montagem, tanto de imagem como de som.

Falei de Stanwyck ao início, e felizmente, entre tantas propostas, consegui ainda voltar à actriz no meu último dia de Il Cinema Ritrovato, em duas sessões: a primeira, de manhã no Arlecchino, com Clash By Night (Desengano, 1952), de Fritz Lang, e com apresentação de Wim Wenders. O realizador confessou só ter descoberto a obra de Lang com a sua fase americana, quando viu este e outros filmes nos EUA – o que diz muito da relação de Wenders com o seu próprio país, ele que surgiu na sessão com um boné dos NY Yankees. Recentemente restaurado pela Warner, é um portento de drama e tensão, com Stanwyck entre dois homens, a segurança e a perdição, a responsabilidade e o desejo. É sem dúvida um dos filmes maiores de Lang, com uma daquelas frases “para tatuar” e que Wenders bem assinalou: Home is where you come when you run out of places. E à noite revi Forty Guns (Quarenta Cavaleiros, 1957) no Modernissimo, em cópia 35 mm cedida pelo BFI que não estava em grandes condições, mas que permitiu, mesmo assim, reencontrar com prazer um dos melhores desempenhos de Stanwyck.

As linhas não são suficientes para falar das outras sessões que ainda vi no Il Cinema Ritrovato, mas enuncio-as agora rapidamente: Theatre of Horrors: The Sordid Story of Paris’ Grand Guignol parte de um mote interessante, mas revela-se um extra de DVD feito através de imagens de arquivo que parecem muitas vezes escolhidas sem critério. The Curse of Frankenstein (A Máscara de Frankenstein, 1957) foi restaurado pela Hammer e mostra como Terence Fisher também soube fazer mais do que reinvenções do Drácula, aqui com Christopher Lee a ser o monstro e Peter Cushing a ser um Dr. Frankenstein mais calculista e diabólico. Il profumo della signora in nero (O Perfume da Senhora de Negro, 1974) teve o actor e realizador Francesco Barilli a adaptar o romance de Gaston Leroux num thriller atmosférico, irregular mas com alguns momentos fortes e uma belíssima banda sonora.

La città si difende (A Cidade Defende-se, 1951) era para ser a estreia de um crítico de cinema na realização, mas um ataque de pânico levou-o a desistir. Luigi Comencini ia substituí-lo, mas acabou por preferir outro projecto e, finalmente, entrou Pietro Germi, convidado a realizar este filme pelos argumentistas, Federico Fellini e Tullio Pinelli. Começa como um heist movie, directo ao assunto e sem perdas de tempo, e desenvolve-se com o medo dos ladrões serem apanhados. Mais uma bela descoberta do Il Cinema Ritrovato, assim como Dead Man (Homem Morto, 1995) de Jim Jarmusch, um dos meus imperdoáveis que pude descobrir, finalmente, num novo restauro da Criterion (o responsável que apresentou a sessão pareceu simbolizar o estado da editora na actualidade: quer tanto ser cool que se esqueceu da cinefilia, não tendo nada para dizer a não ser o óbvio).

E é claro que parte da nossa relação com este festival faz-se de tudo o que se perdeu: as dezenas de sessões, ciclos inteiros que nem toquei (infelizmente não apanhei nada dos Mitchell Leisen que ainda não vi, nem descobri Daisuke Ito que teve direito a um grande ciclo – mas pelo que me contaram outros cinéfilos que estiveram no festival, parece que não perdi muito). E também houve exposições, debates, e momentos mais lúdicos que levaram a melhor em relação à cinefilia – jantares, gelados, passeios para descobrir as múltiplas maravilhas de Bolonha. Mesmo assim, foram muitos (demasiados) filmes em apenas quatro dias, que foram a prova de que o passado do cinema continua a ser presente. Que o saibamos estimar, amar e projectar, dentro e fora do Il Cinema Ritrovato. E na cidade, o cinema continua ao ar livre até meio de Agosto, com sessões gratuitas na Piazza Maggiore. Depois da sessão de Forty Guns ainda lá fui espreitar a exibição daquela noite. E foi maravilhoso ver aquela praça cheia de gente a ver New York, New York (1977), muitos espectadores que talvez não foram ao festival, mas que marcam presença naquelas sessões com as estrelas. São estas coisas que nos fazem voltar a acreditar no cinema.
