Na conferência de imprensa de uma outra edição do MOTELX, um dos programadores referiu como os espectadores do festival, naquela altura, estavam mais interessados nas novidades do que no passado do terror. Durante uma boa parte da sua existência, o certame destacou-se por trazer cá alguns dos monstros sagrados do cinema de género (George A. Romero, John Landis, Tobe Hooper, entre outros), mas essa vontade parecia estar a diminuir, fruto de uma outra geração a chegar ao festival, mas também da “ordem natural das coisas” (à medida que os mestres nos deixam, torna-se mais difícil encontrar quem consiga ocupar o seu lugar) e das inevitáveis questões financeiras (trazer as grandes figuras dos states torna-se uma tarefa cada vez mais utópica).
Não sei se alguma coisa mudou entretanto nos “hábitos de consumo” do espectador-médio do MOTELX, mas uma coisa ficou assente: a 20.ª edição do festival, que para celebrar o feito foi alargada (11 dias) e teve mais sessões (com a sala 2 do Cinema São Jorge, habitualmente reservada para sessões de carácter mais informal, a ter uma programação recheada), foi rica em património cinematográfico e cinéfilo – de filmes “clássicos” a outros mais duvidosos, passando pela secção de documentários sempre com propostas sumarentas. Confesso até que a minha presença no festival foi mais marcada por esses encontros (quase dignos de escavação arqueológica) do que com o presente, com filmes de terror mas também com outros, de culto, que ganham um espaço privilegiado neste festival que há muito deixou apenas de provocar sustos. Mas antes de falar desse “Bem-Vindo ao Passado” (autorizo a colocarem a canção dos GNR a tocar) do festival, gostava de vos falar do “sangue fresco”.

Entre as propostas recentes do MOTELX que vi (todas da secção Serviço de Quarto), The Fox (2025) foi a que mais me surpreendeu. Comédia negra com elementos de terror, mistura gente de carne e osso com animais animatrónicos, com um homem (Jai Courtney) a aceitar uma espécie de “pacto com o diabo” para casar com a mulher que só se quer ver livre dele. Olivia Colman é uma raposa que despoleta “uma série de desgraças”, e Sam Neill, num dos seus últimos papéis, é uma pega linguaruda que também vai meter a sua colherada na confusão. Só por eles já vale a pena espreitar o filme, mas há muito mais para descobrir: Dario Russo, que escreveu e realizou, dá-nos uma reflexão irónica sobre as relações humanas, que diz coisas gravíssimas através do “manto diáfano da fantasia”, sendo absolutamente desconcertante na sua abordagem, no melhor sentido do adjectivo: a bizarria dos acontecimentos provoca consequências hilariantes, com humanos censuráveis e animais oportunistas a fazerem a receita perfeita. É um filme para se ver em sala, com o máximo de espectadores… mas parece que, para já, The Fox só parou mesmo, entre nós, pelo MOTELX.
A abrir a edição XX houve outra comédia, menos marcante mas suficientemente divertida para ficar guardada na memória: Drag (2026) de Raviv Ullman e Greg Yagolnitzer tem duas mulheres num assalto que corre muito mal. O proprietário da casa, a vítima do furto, é mais criminoso que ambas juntas, e em menos de 90 minutos temos uma corrida sangrenta contra o tempo… mas em que a violência parece mais saída dos Looney Tunes, pelo timing cómico da sua construção. O humor contemporâneo ficou bem representado no festival com estas duas estreias, e será sempre o riso a prova maior da importância da experiência em sala.

Já outro tipo de humor, que neste caso envolveu uma certa complexidade, está naquele que foi um dos acontecimentos (para mim “o” acontecimento) do MOTELX 2026: é um filme taiwanês chamado Hen dui hen (Kung Fu à Portuguesa, 1974). E pelo parêntesis anterior já devem ter percebido que isto traz água no bico. E na verdade, é uma curiosa história da distribuição de cinema em Portugal. Pedro Bandeira Freire e Raul Solnado, por razões que a razão desconhece, decidiram pegar na cópia do filme que chegou a Portugal e, ou por haver falta de real tradução dos diálogos originais ou porque simplesmente lhes deu na gana, inventaram uma muito peculiar legendagem. O resultado é uma aventura de pancadaria em que os diálogos reflectem temáticas bem portuguesas, como a dinâmica clubística, o PREC e o próprio Instituto Português de Cinema. Se não fosse por esta brincadeira (que teve sucesso à época, com a cópia a repousar no ANIM e, pelo que pude perceber, a demonstrar a grande circulação que teve na sua “vida útil”), ninguém (e muito menos os portugueses) se lembrariam de Hen dui hen. Mas convenhamos: na verdade, ninguém quer ver filmes assim – imaginem qualquer obra que gostem a sofrer o mesmo tratamento, por exemplo: uma versão alternativa de Det sjunde inseglet (O Sétimo Selo, 1957) em que o cavaleiro e a Morte, durante o xadrez, discutem reality shows portugueses -, mas é pelo seu carácter único, na História do cinema visto em Portugal, que a recuperação deste kung fu aportuguesado se revela também como um trabalho de amor cinéfilo. E a sala, completamente cheia, foi testemunha dos risos mais histéricos e descontrolados de que há memória.
Foi uma das propostas de uma secção especial deste 20.º MOTELX, acertadamente intitulada Lost in Translation. A outra foi A Teia de Gelo (2012), um dos infames momentos de Nicolau Breyner realizador, aqui apresentado, pela primeira vez, na sua versão inglesa (a rodagem foi feita em dois idiomas, estávamos naquela época em que algumas mentes brilhantes acharam bastar pôr os actores a “falar estrangeiro” para obter o tão famigerado “sucesso internacional”). Não cheguei a ver este objecto bizarro, mas se for da mesma qualidade de Contrato (2009), então tomei a decisão certa – é que esse filme, entretanto transformado num “tão mau que é bom” adorado por muitos, não tem o mesmo material de um The Room (2001) ou derivados, sendo uma chatice tremenda em quase toda a sua duração.

Continuando nos cultos que pontuaram o MOTELX 2026, valeu a pena ver Polyester (1981) como nunca antes cheirado no nosso país: John Waters idealizou o seu filme com um elemento especial: o odorama, sistema com um cartão com vários números que, ao surgirem no ecrã, temos de raspar e degustar com o olfacto. Não funcionou totalmente, mas em parte, propiciando outra camada de significado a esta paródia ao american way of life com o típico sentido de humor de Waters (um pouco amaciado para as massas), aqui aliado a um espírito camp descomplexado, misto de Douglas Sirk com novela das oito.
Foi mais uma experiência divertida e irrepetível do festival. Por outras razões, os mesmos adjectivos aplicam-se a The Glorious Dead (2026), produção independente de John Adams e Toby Poser, em que a conversa com o público foi melhor do que o filme – uma espécie de thriller a la irmãos Coen com baixíssimo orçamento e muito menos graça -, pelo simples facto de esta ser uma obra “caseira”, feita entre amigos com os recursos disponíveis. A boa disposição da dupla de criadores do filme, e que é também um casal, trouxe um dos elementos mais eternecedores deste MOTELX. Simpático foi também Patrik Syversen, o realizador do nada agradável Demring (2025), um dos filmes mais divisivos desta edição. História de violência(s) com resquícios de Bergman e Haneke, fez-me sentir um rato de laboratório, questionando a abordagem a uma narrativa tão perturbadora, em que a frieza do método faz pensar se o filme não estará a ser vítima do que quer supostamente criticar. Diria que esta sessão (voltando à primeira frase deste parágrafo) foi apenas irrepetível… e espero que o seja mesmo. Dolly (2025) foi o filme escolhido para a já habitual sessão surpresa feita em parceria com a FilmTwist, e não deixou grandes memórias: é uma narrativa de terror mil vezes filmada que só não se tornou incómoda por não ultrapassar os 85 minutos. Já não posso dizer o mesmo de Imposters (2026), mais um filme da secção Serviço de Quarto que estava a ser esquecível e até maçador até aos últimos dez ou quinze minutos, em que se dá uma grande volta em relação ao que veio antes – talvez ganhe com uma revisão.

Ainda na exploração do passado do terror – e ao contrário dos anos anteriores -, o MOTELX 2026 teve um convidado da velha guarda: Sergio Martino, realizador que tocou vários géneros no período mais fulgurante do cinema de género italiano (décadas de 60 e 70). O festival exibiu três filmes que se enquadram na ideia de acid giallo, e deles vi La coda dello scorpione (A Cauda do Escorpião, 1971), intriga rocambolesca cheia de reviravoltas até ao último minuto, um filme trepidante como era apanágio na época. E não me deixa impressionar como este cinema feito para as massas era pensado com um certo aprumo visual e sonoro. Antes assisti a uma conversa entre Martino, a realizadora de um futuro documentário sobre ele e Carlos Alberto Carrilho, programador deste pequeno ciclo, e aí perguntei-lhe sobre a banda sonora dos seus filmes – é o que mais sobressai no cinema italiano desta época, a qualidade musical em todos os géneros cinematográficos. Martino fez a devida vénia a Bruno Nicolai, um dos grandes da música para cinema, e com quem colaborou frequentemente. O realizador apresentou a sessão de La coda dello scorpione e acabou por rever metade do filme. Estava na mesma fila que eu, e consegui ouvi-lo, entusiasmado, a fazer uma espécie de improvisado comentário áudio sobre os bastidores de cada sequência. Pergunto-me o que terá ele achado de voltar a estas imagens, 55 anos depois de as filmar. Como será a noção da passagem do tempo para aquele homem?

“Passagem do tempo” é também uma boa expressão para definir Boorman and the Devil (2025), documentário de David Kittredge que põe John Boorman a contar a história da produção de The Exorcist II: The Herectic (Exorcista II: O Herege, 1977). O realizador não ficou fã do original de Friedkin, e fez a sequela como uma espécie de resposta ao que o desagradou – mas convenhamos, ouvir a crítica negativa de Boorman a The Exorcist (O Exorcista, 1973) é perceber que ele ficou-se pelos efeitos especiais e não chegou à dimensão filosófica da história. O resultado foi um dos filmes mais “odiados” desde então, daqueles casos que poderia ditar o fim de uma carreira… mas felizmente, depois disto, Boorman voltou a “pôr-se de pé” com Excalibur (1981). E se o tempo não cura todas as feridas, pode aliviar algumas, e The Exorcist II ganhou os seus fãs ao longo das décadas, entre eles alguns ilustres entrevistados neste documentário como o historiador Joseph McBride e o realizador Joe Dante. Mas certo é que a sequela continua a dividir as águas – eu, que tenho asco a essa ideia mil vezes repetida de que há filmes que são “para amar ou odiar”, estou no meio da contenda em relação a este. Boorman and the Devil está mais interessado em usar as memórias traumáticas de Boorman como um exemplo para falar de liberdade criativa e do papel do risco nesse processo. É por isso que, independentemente da vossa opinião sobre The Exorcist II, é muito provável que se emocionem com este testemunho.

A secção Quarto Perdido, desde sempre preocupada em resgatar uma outra História do cinema português, foi dedicada ao enigmático José de Sá Caetano, com três filmes exibidos no festival: As Ruínas no Interior (1976), Um S Marginal (1983) e Azul Azul (1984). Vi o segundo, cujo início me fez lembrar o distópico e aterrador Threads (A Teia 1984), telefilme da BBC que deve ter provocado insónias a milhares de espectadores aquando da sua estreia, num domingo em horário nobre. Mas Um S Marginal não evolui no mesmo sentido, sendo mais uma espécie de eco-thriller distópico cujas temáticas não perderam importância – e são elas que saltam mais à vista e aos sentidos num filme que acaba por querer ser uma miscelânea de coisas ao mesmo tempo, não conseguindo acertar em maior parte dos alvos para os quais tenta disparar. Mas sendo uma obra nacional, tem mais encanto e interesse nas suas irregularidades porque diz muito sobre Sá Caetano e a produção cinematográfica da década de 80.
Nota ainda para mais um momento precioso deste MOTELX: a parceria com a Cinemateca que resultou num curioso ciclo Lost in Europe: O Terror por Detrás da Cortina de Ferro, uma selecção de seis filmes iniciada com Das Singende, Klingende Bäumchen (A Árvore que Canta e Toca, 1957), que de terror não tinha nada, mas sim de fantástico e de infantil. Foi uma deliciosa descoberta, esta obra de Francesco Stefani filmada na RDA que se inspirou numa das histórias recolhidas (e recontadas) pelos irmãos Grimm para trazer um delírio visual e imaginativo. Chamar-lhe psicadélico pareceu-me exagerado, mas consigo entender o pensamento para lá chegar. Fiquei maravilhado com esta produção de estúdio, cheia de efeitos especiais que, na sua simplicidade e até alguma ingenuidade, aumentaram essa sensação encantatória. No mesmo ciclo, vindo da Estónia e aí já bem enquadrado num universo de terror, Libahunt (Lobisomem, 1968) fez-me pensar em todo o folk horror que veio mais tarde (e até noutros exemplos, como The Devils [Os Diabos, 1971]) pelo seu retrato do fanatismo de uma comunidade no início do século XIX, que não tem problemas em perpetuar uma “caça às bruxas” até às últimas consequências. O preto e branco soberbo da fotografia do filme é simbólico para a opressão da narrativa.
Estas são então as minhas impressões do 20.º MOTELX, uma versão distorcida dos acontecimentos já que não apanhei algumas das sessões mais procuradas desta edição do festival. A dimensão da programação permitia o trilhar de vários caminhos, e não fiquei insatisfeito com o meu “mapa” de sessões. Mas gostava que alguns destes filmes transcendessem o circuito festivaleiro e encontrassem novos públicos. Neste horizonte cinéfilo tão fragmentado, seria assim tão utópico pedir estreia comercial em sala para The Fox ou Boorman and the Devil? Pelo menos que haja mais oportunidades para se descobrir a bizarria criada por Solnado e Bandeira Freire. Pelo menos isso.
