
“Renasce neste largo a minha infância
a minha vida tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou (…)”
(O Jogo do Chinquilho, Ruy Belo)
Antes de me lançar ao filme, penso que é necessário escrever algumas palavras sobre o Festival Queer e os seus 30 anos. Não sei ao certo qual foi a entrevista dada pelo João Ferreira, director do Festival Queer, mas lembro-me da sua afirmação: “fazer um festival de cinema LGBTQIA+ no centro da cidade é ainda um acto de resistência”. Talvez devamos colocar a tónica no “ainda”, até porque, mais do que nunca, os nossos direitos estão novamente sob ataque: de Itália à Turquia, dos Estados Unidos à Rússia, os partidos de extrema-direita, aliados a movimentos religiosos, fazem desta minoria um dos seus principais bodes expiatórios. Não há nada de novo nesta narrativa: em nome da moral burguesa e dos bons costumes, da protecção da família à das crianças, a homossexualidade e, em particular, a transsexualidade, são vistas como um desvio obsceno, um corpo estranho gerado num qualquer outro espaço social, dessa fábula que divide os “normais” dos “anormais” (para invocar a terminologia foucaultiana).
Mas não são só os direitos LGBTQIA+ que estão em causa nas declarações proferidas pelo João Ferreira; este alerta-nos para um outro problema, também ele de exclusão e violência social. O “centro da cidade”, graças ao turismo e à especulação imobiliária, tem sido desmembrado, retalhado, privatizado, impermeabilizado, a qualquer manifestação cultural, em nome de uma cidade higienizada, gourmet, chic, domesticada, que não cause o mínimo de alarme social e que não atente contra qualquer experiência homogeneizada, que de Lisboa ao Dubai, se repete ad nauseam.
É neste cenário que celebramos 30 anos do Festival Queer Lisboa, 30 anos que julgávamos, mesmo os mais cínicos e pessimistas, de progresso. E, no entanto, aqui estamos, sob o jugo dos “fascistas liberais”, para invocar o título de um dos mais recentes livros de Žižek, entre a violência social do fascismo e o neoliberalismo da especulação imobiliária. Contudo, estes 30 anos não são só 30 anos de resistência e de luta, são também de memória e cuidado, de superação e conquista, de não-apagamento e presença. Naquele que é um dos programas mais ambiciosos dos últimos anos, percebemos, apesar das inúmeras dificuldades económicas e dos ataques políticos mais ou menos velados, que o Queer decidiu fazer desta uma edição que comprova cabalmente a sua importância. Confesso que há alguns anos que não olhava para a programação deste festival e assinalava tantos filmes para ver. Quero, por isso, saudar o trabalho hercúleo de todos os envolvidos, e se há algo a lamentar ou reprovar nesta edição, prende-se apenas com a ausência das Hard Nights do programa deste ano (espaço tão vital à exibição do cinema porno, cinema esse totalmente ausente do circuito comercial e mesmo dos outros festivais e que encontra no Queer um espaço raro de exibição, reconhecimento e discussão).
Mas, terminado o périplo sobre o festival e as suas condicionantes, antes de falarmos sobre Estrany Riu (Estranho Rio, 2025), de Jaume Claret Muxart, é importante ainda compreender a mudança de paradigma na representação mainstream do cinema queer nos últimos anos. O caminho já longo do cinema LGBTQIA+, é certamente curto quando olhamos para a história do cinema. E é claro que antes destes fenómenos que mencionarei, o cinema queer (este a que podemos chamar de “verdadeiro”), já existia em todo o seu fulgor, exuberância e transgressão. De Waters aos irmãos Kuchar, de Warhol a Praunheim, de Jack Smith a Morrissey, de Bene a Anger, são tantos e tão extraordinários os realizadores que poderíamos mencionar como os pioneiros dessa imensa cartografia queer no cinema (e se mais ambiciosos quisermos ser, incluir todos aqueles que mais ou menos veladamente imprimiram um certo queerness ao cinema, como é o caso de Minnelli ou Cukor). No entanto, este cinema não deixou de estar confinado a um público muito restrito: alguns destes filmes eram inclusive exibidos apenas em salas de cinema porno ou em galerias e portanto, se pretendemos traçar uma história do cinema queer para as massas, este começa em Brokeback Mountain (O Segredo de Brokeback Mountain, 2005), de Ang Lee, o primeiro grande blockbuster “queer” (e aqui não posso deixar de colocar entre aspas, na medida em que qualquer manifestação queer está absolutamente domesticada, diria mesmo heterossexualizada, no filme). Mas, apesar das críticas que possamos fazer, tanto a Brokeback Mountain, como inclusive ao seu antecessor Philadelphia (Filadélfia, 1993), de Jonathan Demme, são marcos incontornáveis na representação da homossexualidade no cinema feito para o “grande público”.
Apesar da “nossa” representação mainstream ter estado inicialmente nas mãos de realizadores, produtores e actores predominantemente heterossexuais (e não quero com isto retomar a fastidiosa discussão sobre se é mais ou menos legítimo um realizador ou actor heterossexual filmar ou fazer um filme ou papel queer, deixo apenas a recomendação da leitura do texto sobre a “oportunidade perdida” de Daniel Blaufuks), o cinema queer tem ganhado uma indiscutível tração nas últimas duas décadas, e novos agentes queer parecem por fim reclamar as suas histórias e representações. É claro que o capitalismo nunca dispensou novos consumidores e o cinema queer tem demonstrado a sua rentabilidade (em abono da verdade, assim como todo o capitalismo rosa, dos cruzeiros às paradas, também o sonho burguês do consumo chegou aos seus mais renegados filhos). Mas o que me interessa assinalar é não só a existência de realizadores, actores e produtores queer, como é o caso de Luca Guadagnino, Ira Sachs, ou ainda aqueles que com o passar dos anos se institucionalizaram e acomodaram-se às regras do cinema de massas, como é o caso de Gus Van Sant ou Todd Haynes. O que importa assinalar é o modo como o adulto vai dando lugar ao jovem, e penso que este sempre foi o grande interdito, o tabu que durante anos fez da representação queer no cinema mainstream um exclusivo de “adultos”.
É praticamente inexistente na primeira década de produção de cinema “queer” mainstream a presença de jovens. Por entre pipocas e invariáveis histórias cor-de-rosa de superação e autoconhecimento, a juventude já enchia os ecrãs do cinema americano, onde a cheerleader e o jogador de futebol americano serviam o arquétipo máximo deste tipo de produção. Para alguém como eu, que nasceu numa época em que a homossexualidade estava absolutamente ausente do cinema ou da televisão mainstream, o meu primeiro contacto enquanto adolescente dá-se em diferido, ou seja, qualquer vestígio de homossexualidade que encontrava na cultura de massas era sempre a experiência de um “homem constituído”. Ora a paixão de um homem adulto cowboy por um outro homem adulto cowboy, ora na personagem de Colin Firth em A Single Man (Um Homem Singular, 2009), de Tom Ford, ora na paixão de dois homens negros gays em Moonlight (2016), de Barry Jenkins, ora até nas posteriores descobertas que fiz, como o fastidioso Maurice (1987), de James Ivory. Não importa discutir aqui a qualidade dos filmes em questão; importa antes perceber que, nesta história de marcos, é importante reconhecer que Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome, 2017), de Luca Guadagnino, é o primeiro filme que coloca a representação de jovens gays no cinema mainstream.
E chegados aqui, é importante olhar para este Estrany Riu, como mais uma excepção nesta representação que parece ainda estar vedada aos jovens. Primeiramente, foi a representação da nossa existência que nos foi negada e, posteriormente, a representação dessa existência só poderia tomar forma na idade adulta. Como se a infância e a juventude ainda continuassem a ser a todos os jovens, comum e transversal; como se o desejo homossexual fosse apenas um desvio da idade adulta, uma tomada de consciência tardia. Aquilo que sempre foi absolutamente fundacional à minha experiência e ao meu desejo (diria mesmo à constituição da minha subjectividade), nunca encontrou quaisquer ecos no cinema mainstream até recentemente, ao ver, por fim, um jovem que, tal como eu, sempre soube aquilo que era e aquilo que desejava, mesmo que (infelizmente) tenham sido os outros a nomeá-lo, ou que descubramos aquilo que somos através de um vocabulário de insultos e vergonha.
O que reforça ainda mais esta convicção, é que no mesmo ano em que descubro Estrany Riu, também descubro Young Hearts (Young Hearts: O Primeiro Amor, 2024), de Anthony Schatteman, outro filme em que dois jovens rapazes se apaixonam. E, apesar de Young Hearts ser claramente menos interessante que Estrany Riu, não pude deixar de pensar na excepcionalidade que ambos os filmes representam na representação queer mainstream. O corpo do homem adulto dá lugar ao corpo do jovem ainda frágil e incerto, a pele não é ainda uma armadura intransponível, mas um terreno macio de desejo e intensidade. Aquilo que na idade adulta se constitui muito mais como vergonha social, e que, veladamente, se dá em becos escuros ou instantes programados como experiência, na juventude, a hesitação e a insegurança partem muito mais de dúvidas pessoais do que de algo que nos é imposto socialmente. Não quero com isto mistificar a experiência das crianças e dos jovens, é claro que desde que tomamos consciência do “normal” e da “vergonha” que acarreta ser o “paneleiro”, a “bicha”, o “boiola”, essa parte não deixa de ser tão determinante no jovem quanto no adulto. No entanto, a juventude é uma época de conhecimento, de descoberta, de exploração do corpo, de desejo, de um movimento certamente mais anárquico e mais livre, que aquele com o qual temos contacto na idade adulta.
É por isso que é particularmente tocante ver este jovem, que se vai descobrindo ao longo do passeio de bicicleta com a família pelas margens do Danúbio. Desde a antiguidade clássica, o rio e a passagem das suas águas estabelecem inúmeros mitos fundacionais – da separação dos vivos dos mortos à passagem do tempo. No entanto, sem cair nessa imagem potencialmente gasta do rio enquanto “passagem”, o filme torna antes o próprio rio num outro corpo erótico. Aquele primeiro contacto do jovem com o rio gelado, ganha rapidamente um outro contorno, no qual as águas e as plantas que nele habitam, envolvem o jovem tal como um corpo. Também é nas margens deste rio que o jovem de olhos fechados se masturba sem nenhum objecto de desejo em concreto. Ele não pensa em nenhum outro jovem que viu, é antes a pulsão erótica daquelas águas que tomam conta do seu corpo, daquela doce mistura entre a água e o sol, num dia de verão, que o levam a desejar mais do que tudo por um potencial alguém (como no célebre poema do Frank O’Hara: “it’s a summer day and i want to be wanted more than anything else in the world“).
Outro elemento particularmente belo deste filme são os olhos deste jovem que se confundem com o próprio rio. Há uma estranha simbiose entre o corpo do jovem e a paisagem, como se ele pertencesse tanto àquela família quanto à natureza envolvente. É por isso que o filme vagueia entre espaços arquitectónicos (é certo que são desnecessárias as intervenções maçadoras do pai, mas não deixamos de estar nas margens do Danúbio, dessa grande civilização que levou escritores tais como Claudio Magris a celebrá-la) e a natureza, como se o fizessem pertencer tanto ao mundo humano (das coisas mais belas que produzimos e habitamos) quanto ao mundo aquático e das criaturas que nele vivem e se metamorfoseiam. Até porque é num desses espaços arquitectónicos em que “rio” aparece sob a forma de um jovem rapaz e que depois o leva de barco (igual à fuga que a mãe lhe havia contado ter tido quando era jovem com o seu primeiro amor) e que o deixará no coração do rio, depois da primeira noite (da perda da virgindade).
No fim, ele tem de regressar à família, o rio já não faz parte dele, da sua pele ou do seu desejo; há uma cisão e essa cisão dá-se num segundo barco, num grande barco que leva a família para o fim da sua viagem e que separa o corpo do jovem dele daquela grande massa de água onde os afluentes se encontram. Já não é um rio que corre tal como um corpo para um destino, mas antes um grande rio onde todos confluem, tal como a idade adulta onde as experiências da juventude por fim desaguam. Na última cena do filme, vemos um dia meio acinzentado, em que o rio e o céu se tornam indistintos; é apenas um lugar onde outro “problema” do filme se resolve. Já não é a questão pessoal, do desejo, essa ficou resolvida no primeiro barco e naquela noite; a segunda questão que o filme encerra é a relação com o irmão, com os outros. Ao partilharem um phone e um gesto de proximidade, os irmãos por fim resolvem a sua querela. Este é o momento em que a homossexualidade do irmão é “aceite”. O filme é muito inteligente no modo como resolve os dois grandes “problemas” da homossexualidade na juventude – o desejo e o medo do outro (e que ganham forma neste filme naquilo que há de mais próximo ao jovem, o amante e o irmão).
Concluo este texto revelando que descobri este filme graças à minha colaboração com o festival Queer. Há mais de uma década que faço tradução e legendagem de filmes e este foi, sem dúvida, um dos mais belos que traduzi. É certo que a visualização repetida pode estar na origem deste meu maravilhamento, mas em muitos casos, este trabalho exerce o efeito contrário. Neste caso, foi antes uma paixão que se foi adensando, tal como as águas que culminam naquela primeira noite e que, uma das suas melhores qualidades, não é pontuada por qualquer música ou texto. Os últimos 20 minutos do filme (e para quem está a fazer a tradução de um filme é um aspecto que lhe é particularmente sensível, quando não há texto) são praticamente sem som, como se aquele encontro caminhasse para uma abstracção, onde carne e água se tornam uma só. O som retoma só no final, naquela música partilhada entre os dois irmãos e que inaugura uma outra história. Fossem todas as juventudes assim, entre o amor de um rio e amor de um irmão.
Estrany Riu passa hoje, 24 de Outubro, às 19 horas, no Cinema São Jorge.
