A tomar por certas as declarações do criador da série, Vince Gilligan (responsável por obras como Breaking Bad e Better Call Saul), o papel da protagonista de Plur1bus (2025-) foi escrito a pensar na atriz principal, Rhea Seehorn. Gilligan levou cerca de uma década a preparar a ideia. A inspiração, foi buscá-la a várias fontes: o 14.º episódio da mítica Twilight Zone, que tinha como protagonista um cientista atormentado e a tentar fugir à destruição iminente do planeta onde vivia.

Trabalhar com Seehorn em Better Call Saul (a atriz chegou mesmo a realizar um dos episódios da sexta temporada dessa série) fê-lo decidir mudar o género da personagem central, interpretada pela atriz. Quando Carol é visitada pela “senhora pirata” que dá título ao 2.º episódio de Plur1bus, a escritora apercebe-se da semelhança física entre o protagonista masculino do seu romance mais recente e Zosia (Karolina Wydra), e pergunta-lhe: “Are you supposed to be my character, Raban?” À pergunta seguinte (“Why Raban as a woman?”), Zosia continua em silêncio e limita-se a responder com um trejeito subtil, pois a intriga já revelara a homossexualidade de Carol. “My original version of him mas a her. But I talked myself out of it”, prossegue Carol, num monólogo aparentemente pouco relevante, mas que deixa pistas acerca da sucessão de inversões e especularidades de que a série se constrói.
De qualquer modo (e ainda que seja tentador pensar na resolução da trama a partir da sugestão do final daquele episódio de Twilight Zone), a verdade é que Plur1bus não é uma adaptação de Third From the Sun. O nome da personagem de Seehorn, Carol Sturka, dá outros indícios sobre o que terá inspirado Gilligan. Se o apelido coincide com o da personagem principal de Third From the Sun (Will Sturka), o nome próprio homenageia a atriz Carol Burnett, com quem Gilligan também trabalhara na série anterior. Mas a Sturka de Plur1bus não é cientista: ganha a vida como escritora de sucesso, apesar de amargurada por esse reconhecimento (e a fortuna) lhe chegar através de um género que ela considera menor, romances fantásticos cuja carga passional os aproxima de novelas eróticas. Os fãs que a vão ouvir a uma sessão de leitura numa livraria famosa, no episódio inicial, são óbvias caricaturas; quando o motorista que a leva embora lhe pergunta se deveria saber quem ela é, ela responde que sim, caso ele se interesse por “crap”. Num cliché mal disfarçado, é no whisky e no rancor que Carol afoga a amargura.
Na profissão de Carol, aliás, percebi uma possível ligação a outro antecedente de Plur1bus, sobretudo ligado ao terror psicológico: o filme de John Carpenter, In the Mouth of Madness (1994, que em Portugal teve o infeliz título A Bíblia de Satanás). Nele, a trama policial levava um agente de seguros a ver-se, sem o saber, dentro de um romance de terror, ao mesmo tempo vítima e espelho do autor do livro, que, por sua vez, teria sido quase certamente aniquilado pela obra que criou. Carol Sturka poderia estar a viver dento do livro que, se escrito, talvez a libertasse da frustração em que se vê enredada – mesmo se essa libertação lhe custasse desaparecer ou transformar-se em alguém que recusa ser.
É difícil não ver nesta existência, que transcende cada pessoa e transforma todas num ser único e desprovido de diferenciação, uma alegoria da Inteligência Artificial: omnisciente, agente de solicitude e cordialidade, incapaz de mentir ou de ocultar, e disposta a corrigir quaisquer lapsos em benefício dos pobres utilizadores.
É deste tipo de vertigem que, minuto a minuto, se desenrola Plur1bus, drama de ficção científica com laivos de absurdo, instantes de comédia romântica, de suspense que se foi alimentando de segredos da produção e da curiosidade de uma comunidade de espectadores-comentadores nas redes sociais. O episódio piloto desvenda uma invasão alienígena, perpetrada no “melhor dia da História da Humanidade” por meio de um vírus que torna praticamente todos os seres humanos numa espécie de terminais de uma só consciência suprema, harmoniosa e organizada, que habita o planeta. Sabe-se lá porquê (apesar de sobrarem especulações nos fóruns de debate acerca da série, que vão desde o feitio irascível de Carol até uma possível – mas pouco credível – deliberação de não a contaminarem), Carol é imune ao agente transformador e torna-se o motor das perguntas acerca do que aconteceu. Helen (Miriam Shor), a sua assistente e companheira romântica, é um contraponto cuidadoso e responsável – é a morte dela que força Carol a sair do seu narcisismo de auto-comiseração. Só aí se apercebe de que o mundo à sua volta se transformou num cenário pós-apocalíptico habitado por criaturas assustadoramente semelhantes a zombies simpáticos, dedicando-se a evitar a contaminação com o que quer que os tenha transformado (e a que ela foi poupada, sem tal motivo aparente).
No 2.º episódio, fica-se igualmente a saber que os acessos de raiva de Carol são mortais para a espécie humana – o número de mortes tem uma correspondência aparentemente desigual na escala da ira, e, ao longo da série, a personagem vê-se obrigada a controlar a energia negativa que quer exteriorizar, para evitar mais mortes. É um treino, também para quem assiste, já que a grande maioria das personagens que aparecem comportam-se como autómatos sorridentes, solícitos e eficazes, expressões de uma positividade tão desconcertante quanto desumana. Os paroxismos emocionais – assim como os excessos ou as excentricidades, simbolizadas pela personagem do “cidadão da Mauritânia”, Koumba Diabaté (Samba Schutte) – definem-nos enquanto espécie. A contenção das emoções é apresentada como libertadora, mas não é senão resultado da perda das inúmeras identidades.

Cada um dos indivíduos contaminados abandona o ser individual (são os “joined”, o que parece implicar uma decisão própria, mais do que a inevitabilidade que advém da contaminação – a partir daí, são incapazes de fazer a escolha, por exemplo, entre acompanhar Carol ou Koumba) para passar a integrar uma universal plenitude de memórias, conhecimentos, experiências e vivências. É difícil não ver nesta existência, que transcende cada pessoa e transforma todas num ser único e desprovido de diferenciação, uma alegoria da Inteligência Artificial: omnisciente, agente de solicitude e cordialidade, incapaz de mentir ou de ocultar, e disposta a corrigir quaisquer lapsos em benefício dos pobres utilizadores. Quem não se sujeita, ou não se entrega, ao domínio desta forma superior de consciência, é visto como raridade a retificar, ou um ser defeituoso que virá, por sua própria volição, a consertar-se.
São treze estas pessoas raras: além de Carol, outros 11 habitantes de vários lugares do mundo, que com ela se reúnem em Bilbao, e um paraguaio, Manousos Oviedo (interpretado pelo ator colombiano Carlos-Manuel Vesga), que se recusa a comunicar com os representantes da consciência universal, e que leva os dias agarrado a um transmissor rádio, na esperança de encontrar outros como ele. São esses os únicos, aqueles que ainda não foram subsumidos pela inteligência universal e cuja única razão de viver é estarem vivos. Para lá da beleza das imagens que projetam um mundo organizado e asséptico de interpretação, Plur1bus encerra alguns dos episódios com versões internacionais de canções icónicas da música popular anglófona. Assim se concretiza uma ideia da universalidade que se conseguiria com a anulação de fronteiras (as individualidades dos países), paradoxalmente afirmando particularidades linguísticas que fizeram com que esta espectadora se emocionasse no final do 7.º episódio, ao ouvir Maro entoar, em língua portuguesa, “Quando a Lua está na casa 7 e Júpiter alinha com Marte, a Paz vai virar os planetas e o Amor as estrelas – chegou a hora da era de Aquário…”

