A primeira curta metragem do norueguês Kristoffer Borgli, Syndromes (2011), já lá vão 15 anos, começa por enunciar que a ideia de doença, no seu duplo sentido físico e metafórico, o intrigava. Naquela, uma jovem adolescente tem a capacidade de “sugar” as doenças dos velhos ricos, aliviando-lhes os sintomas. Em 2021, numa outra curta metragem, Eer, é o próprio Borgli que surge com uma orelha deformada, numa sociedade onde se sangra em público e onde os tratamentos à cor da pele podem ter efeitos devastadores. Aqui, em pleno ensaio para o comic body horror da sua segunda longa que o celebrizou [Syk pike (Doente de Mim Mesma, 2022)] e ali ainda numa forma sobretudo videoclipesca, mas em ambos já o subtexto do mal-estar social, fossem eles a “podridão” da riqueza, ou a sociedade das fake news e a sua extrema individualização.

Outro tópico interessa ao norueguês: o que fazemos pela atenção? Em Syk pike, a namorada levava longe demais a expressão ser o centro das atenções na sua relação, mesmo que isso significasse destruir e adoecer o próprio corpo. Mas a questão já rondava nas curtas Internet Famous (2014) e em A Place We Call Reality (2018), sendo que nesta última é o realizador que a protagoniza, numa busca interior por um lugar na landscape criativa de LA (e com uma crítica à proliferação de mental coaches como gurus contemporâneos). Dream Scenario (O Homem dos Sonhos, 2023), a sua terceira longa-metragem, com Nicholas Cage no papel de um cinzentão professor de biologia evolutiva que subitamente começa a surgir nos sonhos de toda a gente, era também uma sátira sobre a relação entre anonimato, fama súbita e sucesso profissional.
Em quase todos estes casos apetece dizer que a metáfora tem perna curta. E a essa luz é interessante ver como Kristoffer Borgli tem feitos bastantes curtas metragens (desde 2011 realizou 13, num total de 17 títulos) que são talvez mais eficazes que os seus filmes de maior fôlego. Como se as suas fantasiosas premissas casassem bem com a demonstração breve e tivesse dificuldade em suster a espessura dramatúrgica de um mínimo de hora e meia. Mas e então e agora, num filme que se anuncia como The Drama (O Drama, 2026)?
De uma certa perspectiva, é possível ver esta rom-com a desfazer-se aos poucos – entrando no domínio da paranóia e do massacre da reputação das suas personagens – como um pretexto para nos dizer qualquer coisa sobre esta obsessão contemporânea por brandir a nossa boa moralidade em público, de si e sobretudo julgando os outros, exigindo sempre uma clean sheet sem erros. É assim que The Drama, tal como Robert Pattinson dançando ensanguentado após do seu casamento falhado, se diverte com as feridas do politicamente correto.
Não há que negar como o filme de Kristoffer Borgli escolhe com pinças um pequeno acontecimento do passado da personagem de Zendaya
– o drama – e o expande para fazer este comentário, fazendo dessa extrapolação o Drama. Mas se esta ideia de expansão por vezes roça os limites do credível, fazendo soltar as garras do utilitarismo da narrativa, não é menos verdade que é esse o próprio tema do filme. Em que momento é que os pequenos dramas passam a constituir um Drama? O que é que estamos de facto a fazer quando ouvimos alguém que nos avisa: “estás a fazer disso um drama”?
Um dos filmes que o cineasta norueguês pediu a Patttison e a Zandaya que vissem como preparação para este projecto foi En Passion (A Paixão de Anna, 1969) de Ingmar Bergman, uma obra também sobre o começo de uma relação (Liv Ullman e Max von Sydow) colocada em crise por informações menos claras do passado. Mas se no filme do sueco estamos sempre num espaço denso, já Borgli não sabe largar a sátira. Como dizia Chaplin: a tragédia é o plano geral. Assim, ao drama do passado de Zendaya sobre o qual se pergunta se pode vir a ser um Drama, há outros pequenos dramas que, sob o filtro da correcção extrema (e externa, social), ameaçam também agigantar-se: devem os noivos contratar para a sua festa de casamento uma DJ que, correm os boatos, consome crack?; deve um jovem enamorado mentir sobre um livro que leu apenas para tentar conquistar uma formosa donzela a ler numa coffee shop? A partir de quando e como é que o d de drama se torna, socialmente, um D maiúsculo?
The Drama é um filme que coloca de forma sarcástica este problema e fá-lo deixando pistas muito cinéfilas. Como se estivéssemos nas screwball comedies dos anos 30 e 40, comédias de casamento, nos quais a montagem faz pontualmente sugerir vislumbres e sobretudo ecos (o design de som é um dos pontos fortes aqui) de uma caricatura de Elephant (Elefante, 2003) de Gus Van Sant. Neste inchar do d para D na palavra Drama, vamos acabar bastante mais próximos da terreno habitual de Borgli, ou em filmes cuja ironia e a experiência social aquele evoca, penso em Festen (A Festa, 1998), de Thomas Vinterberg ou mesmo nos dilemas burgueses de Luis Buñuel.
O plano inicial do ouvido surdo da personagem de Zendaya funciona como sinédoque do que está em causa em The Drama. Nas relações humanas, a possibilidade de não ouvir/contar tudo – Ford já nos avisara, print the legend, por vezes – do entrar por um ouvido sair por outro, é sinal desta avaliação saudável (mas sempre subjectiva) da informação. O cinema é sempre a grande Mentira, mas os recomeços do par protagonista, no início e no fim do filme, como encenações dentro da encenação, são afinal o elogio das pequenas mentiras.
Num extremo e raro acto de coerência artística, Zendaya e Pattison, após terminarem com Borgli de filmar a passagem do pequeno ao grande Drama, foram ter com Christopher Nolan e a sua The Odyssey (A Odisseia, 2026). E assim se experimenta a travessia do rio ao contrário: começando no grande Drama e desaguando no pequeno.
★★★☆☆
