In saying, ‘I am a woman’,
one yields to a category not of one’s own making.
Judith Butler
I want a way of doing history that approaches
both people in the past and people in the present.
Kit Heyam
A neve que se tinha abatido sobre Berlim começava agora a derreter. O sol brilhava naquele último dia. No S-Bahn, a caminho de mais um filme, a minha cara gelada avermelha-se com o calor e vejo-me forçada a fechar os olhos com o reflexo directo de um raio de sol, quando o comboio guina em direcção à estação central. Pergunto-me, voltando às notas escritas no meu caderno sobre Duas Vezes João Liberada (2025), acabado de estrear na secção Perspectives (não podia ser mais certeiro) da Berlinale: Pertencemos aos fantasmas das pessoas que deambularam pelas mesmas ruas, andaram nos meus comboios noutros momentos no tempo? Como é que elas se parecem? E de que forma é que as podemos honrar agora, nós que somos produtos do futuro?

Paula Tomás Marques tem vindo a responder a estas perguntas nos últimos anos. Dela é o cinema que comunga com as almas injustiçadas que entre nós ficaram. Uma artista visual e cineasta portuguesa, o seu trabalho enquadra-se no reino de produções de jovens realizadores, directores de fotografia, montadores, técnicos de som, alumni da Escola Superior de Teatro e Cinema, a trabalharem juntos nos projectos uns dos outros (Jorge Jácome, Clara Jost, Helena Estrela, Marcelo Tavares, Manuel Pinho Braga, Marta Simões…). Todos auteurs na forma mais concentrada da definição, as suas vozes são singulares, distintas entre si, rostos da mesma dissidência e rejeição das clássicas convenções fílmicas; escolhem antes mergulhar na experimentação enfática do cinema independente. Se os sonhos febris e coloridos de Jácome conjuram a sintonia entre todos os seres, habitantes da água, terra, atmosfera e fogo, a febre também ela colorida de Marques é direccionada à missão de reivindicar os espíritos de todos os que foram ostracizados, perseguidos e violentados, ainda a circundar as nossas ruas. Ela quer vingá-los.


“Andas sempre na defesa?”, ouve-se na sequência inicial de Cabra Cega (2021), a primeira curta-metragem profissional de Marques, onde um grupo de mulheres ensina truques de Krav Maga umas às outras para serem usados em auto-defesa, depois de uma delas descobrir que o seu irmão mais novo está a ser intimado não por um rapaz, mas por um grupo deles. De repente, há interferência estática, a luz vai abaixo e uma voz feminina abafada, como que vinda de um apartamento ao lado, diz “Eu não acredito em bruxas…mas sei que sou uma.” O que se passa? Quem é que fala? As mulheres ficam atordoadas, mas sabem que têm de a ouvir. “Eu dentro da minha mãe. A minha mãe dentro da minha avó. A minha avó dentro da mãe dela. Dentro, dentro, dentro, dentro…”, a voz continua. E de repente tudo volta ao normal, ao mesmo abraço de sons, como se aquela sobrenaturalidade tivesse sido imaginada, manifestada até pela energia daquelas mulheres. A dança com a opressão feminina ao longo dos séculos, várias ondas feministas depois, e a história das mulheres acusadas por heresia, mais tarde executadas depois de julgadas pela Europa e América fora, há muito que permanece acesa. Na exploração da iconografia presente na cultura pop, a cineasta inglesa Elizabeth Sankey parte da mulher livre e inconformista tida enquanto “bruxa” durante a Idade Moderna, para nos contar a sua história muito pessoal com psicose pós-parto em Witches (2024), instrumento ensaísta que evidencia a verdade.
O que até agora se vinha a adicionar, elemento atrás de elemento, um filme de cada vez, surge intensificado numa só obra. Através do acto procedural da feitura do filme dentro do filme, Duas Vezes João Liberada conta-nos uma história mais velha que o tempo: pessoas trans e/ou dissidentes de género sempre existiram.
Marques faz o mesmo, mas em prol da comunidade queer. Na curta-metragem que se segue, When We Dead Awaken (2022), a história ficcionada de Cabra Cega, que procura vindicar a diferença que os intolerantes não suportam, vê-se evidenciada no que é, a partir deste filme, uma investigação pessoal formalizada a abrir-se no trabalho da artista. “Nos arquivos da Inquisição, uma árvore misteriosa é mencionada no julgamento de Jeanne d’Arc”, lemos. A heroína militar acabou queimada viva na fogueira aos 19 anos por acusações de heresia e bruxaria. Supostamente estas árvores cresciam com o nascimento de um herege. Marques e June João dedicam o filme “às manas” depois de subirem a uma dessas árvores num filme-performance filmado em 16mm. De onde vêm as histórias usadas para condenar estas mulheres? A partir de que ponto de vista é que a história foi e tem vindo a ser contada? O filme seguinte, Dildotectónica (2023), olha para o caso específico de Josefa, 𝄞 documentada pela Inquisição / por motivos incertos / de resistência e insurreição 𝄞, que terá usado um dildo para estender o seu prazer quando se envolvia com outras mulheres. “Há coisas desta história que não se sabe se são verdade ou mentira, porque isto foi escrito pelos inquisidores”, é-nos dito. O tom do filme é documental e rocambolesco, combinando o arquivo histórico com o desejo vulcânico em estar vivo. Os códigos de género e sexualidade são confrontados enquanto produto de construção social.


Quando se estreia Duas Vezes João Liberada, a primeira longa-metragem da realizadora, escrita por Marques e June João, a preocupação com a vida digna em sociedade e o direito à liberdade individual que atravessa todas estas obras é confirmada. O que até agora se vinha a adicionar, elemento atrás de elemento, um filme de cada vez, surge intensificado numa só obra. Sob o signo do romantismo próprio desse debruçar, Duas Vezes João Liberada não desafia o cânone – desfá-lo em pedaços. Através do acto procedural da feitura do filme dentro do filme (dá as mãos à sugestão de matrioska de Cabra Cega) conta-nos uma história mais velha que o tempo: pessoas trans e/ou dissidentes de género sempre existiram.
Nele, João é uma actriz que interpreta a namesake João Liberada, título do filme biográfico sobre uma freira que escapou à prisão durante a Inquisição portuguesa no séc. XVIII, acabando por se suicidar para escapar ao amante abusivo, ou assim está subentendido nos documentos do arquivo, que em nenhum momento consta de testemunhos da própria. Extensão investigativa sobre movimentos transfeministas, que a pós-graduação em Sociologia de Marques trouxe de arrasto, o filme ficciona Liberada a partir de fragmentos de pessoas reais, tratando-a como figura histórica. Numa combinação perfeita entre a dimensão mais telúrica do drama histórico e a abertura à ludicidade formalista que projecta fantasmas através de simples truques de mise-en-scène, o filme não se vê infectado por qualquer humor fácil passível de aguar a seriedade que o trespassa.

Muito pelo contrário. O registo é confessional ao longo dos quatro capítulos que a actriz João narra. A experiência pessoal e a responsabilidade que é interpretar uma figura seu espelho de identificação entra em fricção com o realizador do filme, interpretado pelo poeta André Tecedeiro, que não quer confrontar a sociedade patriarcal nem aliar o filme ao espírito de Liberada, escolhendo antes salientar a violência que esta sofreu de forma gratuita. Perante isto, o fantasma de Liberada começa a visitar João ao longo da rodagem para a avisar (fala-lhe através de legendas no ecrã, como já acontecia em Cabra Cega). Quando o realizador é finalmente condenado a um sono profundo, vítima de fantasmagoria, e a produção do filme é colocada em pausa, o fantasma de João apodera-se não só do filme que sobre ela é feito, mas deste de que aqui falamos. Ao criar o assombramento em todos nós, recupera o controlo sobre a sua imagem.
Das animações feitas a partir de cortes na madeira à letra e arranjo de música criada de propósito, um mundo inteiro aparece-nos, dentro e fora do ecrã. O esforço de Marques é ininterruptamente produtivo em criar a linguagem com a qual pode realizar uma espécie de séance em equipa, destilando ficção e arquivo em artefacto.
Talvez seja por isso que a realizadora escolhe filmar em 16mm, para afundar o ecrã na rugosidade do cinema, que é tão espectral, feito de sombras projectadas ora a cores ora a preto-e-branco, com níveis diferentes de contraste e saturação; assim, o filme pode transcender qualquer noção de tempo ou espaço. Há também um mundo interdisciplinar de signos construído nestes seus filmes. Neste momento, já o cunho autoral de Marques se vê marcado por eles. Das animações feitas a partir de cortes na madeira à letra e arranjo de música criada de propósito – 𝄞 não vivi para virar coisa contada 𝄞 -, um mundo inteiro aparece-nos, dentro e fora do ecrã. O esforço de Marques é ininterruptamente produtivo em criar a linguagem com a qual pode realizar uma espécie de séance em equipa, destilando ficção e arquivo em artefacto, sem nunca o fechar sobre si mesmo.

Este é mesmo capaz de ser o núcleo conceptual de Duas Vezes João Liberada. Nunca nada nele é finalizado. Alguma vez poderá o arquivo ver-se finalizado? Não. Por isso mesmo, a tela permanece porosa, suficientemente esponjosa por receio de se aprisionar, mas ainda assim cravada na criação. Porque é, de facto, imagem da mesma pessoa, uma mesma identidade que se consulta e na qual se toca ao ver estes filmes. Não imagino mais ninguém a fazer qualquer um dos filmes mencionados ao longo deste texto. Há que salientar, ainda assim, que a electricidade com que João e Marques tentam agarrar o material acaba por ser mais relevante do que o material em si. O filme inunda o espectador nessa energia activista, nesse desejo comunitário.
Sob a luz da cidade de Lisboa e dos seus prédios em tons pastel, Duas Vezes João Liberada ergue uma ponte caminhável, subvertendo a narrativa. É importante reescrever a História, incluindo nela o que os fantasmas nos contam. E o filme mais rapidamente poderá conseguir fazê-lo tendo em conta a sua natureza artesanal. De volta a Berlim em Fevereiro de 2025, anoto “este é um cinema colaborativo e rascunhado, cheio de alma”. Duas Vezes João Liberada não faz uso de uma figura do passado para fazer um filme. O filme é feito através desta figura que nasce para canalizar no filme o que este precisa.

A montagem picada demonstra isso bem. Os impulsos de Jorge Jácome, aqui a assumir o papel de montador do filme, são fibrosos, quase como se tratassem de terminações nervosas numa mente exposta, a ser trabalhada. Em nenhum momento o filme preza pela sua organização. São águas agitadas as que tentam abarcar vida e morte, biografia e performance, auto-determinação e heteronomia, realidade e ficção. O filme não é asseado. Em partes, prova-se até incoerente, no meio de visões, sonhos e possessões. São tantos os retalhos e seus diferentes formatos. June João é João, e João torna-se Liberada. “Dentro, dentro, dentro…”. Posto isto, Duas Vezes João Liberada acaba por fazer mais do que vingar Liberada. Ao esbater géneros e arestas, faz-se gesto de resistência e chega-nos como um raio de sol directo e dourado (o mesmo dourado do filme que vemos a ser feito). Liberada vive!
𝄞 não vivi para virar coisa contada
nem me afoguei nem fui queimada 𝄞
★★★☆☆
