
As sondagens e escavações arqueológicas realizadas entre 2 de março e 12 de maio de 2020, no âmbito da requalificação do antigo Cine-Parque de Chaves, conseguiram estabelecer uma sucessão de ocupações do local. Os sucessivos aterros apresentam material essencialmente de cronologia romana, especulando-se poder ter-se tratado de “uma domus, cuja fundação remonta ao séc. I d.C., dada a quantidade e variedade de peças de exceção, principalmente de terra sigillata, verificadas nos contextos de aterro do mesmo”. Também foi encontrada alguma cerâmica medieval, supondo-se que poderá ter sido uma área de cultivo em período medieval. (https://www.era-arqueologia.pt/projectos/1575)
A ocupação mais recente está relacionada com o Cine-Teatro, datado da década de 60, e com o seu antecessor Cine-Parque, cuja construção data dos anos 20. De facto, segundo a imprensa local, a 10 de outubro de 1929, Chaves assistia à inauguração do Cine-Parque, o “mais luxuoso e confortável salão cinematográfico da Província” de Trás-os-Montes.


Para além a atuação do Orfeon Pinto Ribeiro, o ecrã do Cine-Parque estreou-se com Annie Laurie (1927), uma superprodução da MGM com interpretações de Lilian Gish e Norma Kerry. No programa de inauguração, como estratégia de atração para o público, os responsáveis da nova sala ofereciam um desconto no preço de todas as sessões cinematográficas aos sócios e familiares da Sociedade Recreativa e da Associação Comercial de Chaves e garantiam “o exclusivo da produção” da MGM e “firmou contracto” com a Paramount e a UFA, duas das “mais reputadas casas especializadas na cinematografia”.
Localizado na Rua de Santo António, com uma outra entrada na Travessa Cândido dos Reis (Travessa do Faustino), bem no centro da cidade, ao lado do Café Comercial e do então Grémio do Comércio, o Cine-Parque de Chaves apresentava uma estrutura hierarquizada convencional na organização dos 754 lugares sentados: Camarotes de 5 (15$00) e 4 (12$00) lugares, balcões (3$50), fauteuils d’orquestra (3$50), fauteuils (3$00), cadeiras (2$00) e geral (1$00). A mesma escavação arqueológica de 2020 também determinou que existia “uma área de jardim/lazer associada ao Cine-Parque, pois foi identificada uma calçada em pedra, um piso em cimento e um fontanário já bastante danificado.”
Na temporada cinematográfica 1936-1937, o primeiro “Programa Panfleto”, desdobrável em papel de jornal a cores, anunciava a rentrée a 27 de setembro com um programa cinematográfico que incluía vários complementos e a longa-metragem The Gay Divorcee (A Alegre Divorciada, 1934): “A mais engraçada e mais grandiosa comedia musical da temporada. Magnífico desempenho dos famosos artistas FRED ASTAIRE e GINGER ROGERS, os maiores bailarinos do mundo que para esta fita criaram, entre outras, a célebre dança CONTINENTAL, cantada em português por Raul Roulien.”


A exibição em Chaves ocorreu cerca de cinco após a estreia em Portugal (11 de abril de 1936), o que é relativamente pouco tempo para um cinema de “província”, e que é mais relevante porque incluiu a habitual pausa de verão e respetiva mudança de temporada. O mais habitual era o que aconteceria com o filme da semana seguinte Let’s Live Tonight (Uma Noite em Monte Carlo, 1935), que chegava a Chaves quase um ano após a sua estreia em Portugal (31 de outubro de 1935). De certa forma, a sessão do filme A Alegre Divorciada pode ser entendida como uma estratégia, seguramente com custos mais elevados, da parte da empresa flaviense para ter uma entrada na nova temporada cinematográfica mais impactante junto do público local.
Outra particularidade é a referência ao cantor brasileiro Raul Roulien, o que permite concluir que a versão que circulou em Portugal não foi a versão oficial do filme, mas uma versão alternativa que foi lançada especificamente para o mercado brasileiro (brazilian cut) e que contava com a participação de Roulien.
Um outro programa de 1954, a propósito da exibição do filme português A Mantilha de Beatriz (1946), anunciado como “o primeiro filme feito em Portugal da série ‘Capa e espada’”, permite confirmar a manutenção da configuração da sala, com uma organização hierarquizada entre camarotes (35$00 e 40$00), balcões (9$00), Fauteuils (6$50), Cadeiras (5$50) e Geral simples (3$00). Nas sessões diurnas (matinée) os preços eram ligeiramente mais baratos.

A 22 de maio de 1958, em plena campanha presidencial, o candidato da oposição Humberto Delgado, o “General Sem Medo”, realiza um comício muito concorrido no Cine-Parque, onde proferiu uma frase premonitória: “Eu estou pronto a morrer pela Liberdade”. De acordo com o relato do jornal A Voz de Chaves (29 de maio de 1958, p. 1) uma comitiva acompanhada “de mais de uma centena de carros”, chegava de Mirandela por volta das 19h: “No Grande Hotel foi-lhe em seguida oferecido um jantar a que assistiram perto de duzentas pessoas. / Findo o repasto dirigiram-se todos para o Cine-Parque onde se realizou a sessão de propaganda eleitoral. / Com a casa de espectáculos completamente esgotada, e vistosamente decorada com as cores da bandeira nacional, a multidão não se cansou de aclamar o General, e de dar vivas a Portugal, à República e à Liberdade.”

Entre junho e dezembro de 1960, a empresa exploradora do Cine-Parque distribuiu gratuitamente um programa mensal intitulado Intervalo. Com número de páginas variável (entre 16 e 26), para além da informação sobre os filmes a serem exibidos em casa sessão e a respetiva classificação etária, o programa era ocupado na sua maioria por publicidade aos mais diversos estabelecimentos comerciais de Chaves (com destaque na contracapa para a Adega Cooperativa de Chaves), incluindo também breves notas sobre personalidades (Elizabeth Taylor, Ava Gardner, Mario Moreno, Burt Lancaster), breves conselhos úteis (como preparar um extrato de rosas, por exemplo), sorteios (de uma cafetaria, por exemplo) e diversas anedotas.


Pela análise destes programas, percebe-se que nesse segundo semestre de 1960 os dias cinematográficos eram o domingo, a terça e a sexta-feira. Pontualmente, nomeadamente em feriados, realizavam-se sessões noutros dias da semana. Os filmes eram exibidos apenas durante um dia, mas excecionalmente o filme podia ter direito a repetição: a 11 e 12 de setembro, com Around the World in Eighty Days (A Volta ao Mundo em 80 dias, 1956), protagonizado pelo popular ator mexicano Cantinflas, que chegava a Chaves dois anos e meio após a estreia em Lisboa (janeiro de 1958); a 22, 23 e 24 de outubro com Samson and Delilah (Sansão e Dalila, 1949), a “grandiosa, monumental e inolvidável produção de CECIL B. DE MILLE”, que chegou a Chaves quase dez anos após a estreia portuguesa (16 de fevereiro de 1951); a 5 e 6 de novembro com Vertigo (A Mulher que viveu duas vezes, 1958), que foi exibido no Cine-Parque quase dois anos depois da estreia lisboeta (13 de janeiro de 1959).
Mas o filme mais exibido neste semestre seria The Ten Commandments (Os Dez Mandamentos, 1956), “o maior filme de todos os tempos”, que seria exibido em 6 sessões entre 29 de outubro e 1 de novembro, ficando ainda o compromisso de sessões extra nos dias seguintes “enquanto forem atingidos 30% da lotação”.

Com a maioria dos filmes prevenientes de Hollywood ou de França, encontram-se poucos exemplos de outras cinematografias: o filme espanhol ¿Dónde vas, Alfonso XII? (Amores Reais, 1959); a comédia italiana Le bellissime gambe di Sabrina (As belíssimas pernas de Sabrina, 1958); o drama italiano Nella città l’inferno (O aventureiro, 1959); os filmes La violetera (A Rapariga das Violetas, 1958), Necesito dinero (Preciso de Dinheiro, 1951) e Piel canela (Morena dos meus sonhos, 1953), todos protagonizados por Sara Montiel; o épico italiano Ercole e la regina di Lidia (Hércules e a Rainha, 1959); a comédia mexicana Gran Hotel (Grande Hotel, 1944), com Cantinflas; o drama mexicano El diario de mi madre (Diário de Minha Mãe, 1959); ou a comédia hispano-italiana Pan, amor y Andalucía (Pão, Amor e Andaluzia, 1958).
Ao longo de todo o semestre, só foi exibido um (!) filme português: Rapsódia Portuguesa, a 7 de julho, cerca de 1 ano e 3 meses após a estreia nacional (30 de março de 1959). Curiosamente, sno final de 1958, o Cine-Parque exibiu sete filmes alguns filmes portugueses em apenas um mês e meio: Sangue Toureiro (1958) foi exibido a 1 de novembro (oito meses após a estreia nacional); O Tarzan do 5.º Esquerdo (1958) a 27 de novembro (dois meses e meio após a estreia); Ladrão, Precisa-se (1946) a 2 de dezembro; Chaimite (1952) a 14 de dezembro; Um Marido Solteiro (1952) a 15 de dezembro; e Madragoa (1952) a 17 de dezembro.
Em 1963, o já degradado Cine-Parque sofreu uma remodelação e deu origem ao luxuoso Cine-Teatro de Chaves, tendo como promotores o empresário flaviense Abel Pinto da Silva Madureira e a sua esposa Aida Rodrigues Xavier, sócios da empresa “Madureira & Xavier. Lda”. Os promotores começaram por encomendar o projeto de arquitetura ao flaviense Nadir Afonso, que após estudos iniciais acabaria por abandonar o projeto. Os proprietários optam então por contratar o arquitecto portuense Bruno Alves Reis, que lhes respondeu ao desafio de acomodar um hotel no espaço do logradouro do espaço, o que viria a ser o atual Hotel Trajano.


Com 999 lugares, fosso de orquestra e camarotes, a sala recebeu inúmeros espetáculos de revista e zarzuelas de produção espanhola. Por exemplo, a 20 de outubro de 1965, o Cine-Teatro apresentou o teatro de revista “Dá-lhe agora!”, protagonizada por Ivone Silva e José Viana, e anos mais tarde receberia a companhia de teatro de Rafael de Oliveira, Artistas Associados, por duas vezes: em 1969, com a peça Amor de Perdição, e em 1972, com a peça A Rosa do Adro.

Mas as sessões de cinema continuavam a ser os espectáculos mais regulares: as habituais soirées realizavam-se às terças, quintas, sábados e domingo; e aos domingos realizavam-se também as matinés infantis, com filmes protagonizados por Charlot, Tarzan ou Bucha e Estica, ou com outro tipo de atrativos, como a distribuição de brindes.

Os filmes também passaram a ser exibidos mais celeremente em Chaves após a remodelação do Cine-Teatro. O filme Fantômas (1965) foi exibido em Chaves no dia 30 de janeiro de 1966, um mês e meio após a estreia lisboeta (17 de dezembro de 1965). Mais surpreendente foi o caso do filme Il Gaucho (O Gaúcho, 1964), uma comédia italiana de Dino Risi que chegou a Chaves a 22 de janeiro de 1966, apenas três semanas depois da estreia lisboeta (7 de janeiro) e antes mesmo da exibição no Porto (25 de fevereiro).

Este intervalo muito curto parece confirmar a promessa dos proprietários da sala feita aquando da remodelação em 1963, de que os melhores filmes do mercado chegariam mais rápido a Chaves. Contudo, persistiam casos de filmes que chegavam com muito atraso: West Side Story (Amor sem Barreiras, 1961) só seria exibido em Chaves a 8 de maio de 1966, três anos após a estreia em Lisboa (23 de abril de 1963).
Com o 25 de abril de 1974, apesar do fim da censura e do aumento generalizado do número de espetadores de cinema em Portugal, que bateram recordes máximos durante o PREC (42,8 milhões de espectadores em 1976), os anúncios da programação de filmes a ser exibidos no Cine-Parque, que continuava a ser a única sala de cinema da cidade, praticamente desapareceram das páginas da imprensa local. A pesquisa feita entre abril de 1974 e julho de 1976 não permitiu conhecer a programação dessa sala durante este período tão significativo. Em contrapartida, a programação da RTP passou a ser publicada pela imprensa local, o que pode também ser entendido como um sintoma de aumento da audiência televisiva nesse concelho transmontano.

As referências na imprensa local ao Cine-Teatro durante este período estão sobretudo relacionadas com eventos público, como a realização de dois comícios do PCP (um a 12 de março de 1975, com a participação de Margarida Tengarrinha, candidata pelo partido pelo círculo de Vila Real, e outro a 12 de abril de 1975, com a presença do histórico líder Álvaro Cunhal).

Entretanto, no final de 1976, a imprensa local começa a publicitar um gigante empreendimento urbanístico na cidade de Chaves que prometia também a construção de uma nova sala de cinema. No entanto, apesar de muita publicidade durante meses nas páginas da imprensa local, nenhuma nova sala de cinema foi construída nessa zona da cidade nas décadas seguintes.

A 30 de maio de 1986, o jornal Alto Tâmega noticiava que o “velho Cine-Teatro de Chaves vai em boa hora ser remodelado e assim a cidade vai poder usufruir de um moderno Centro Comercial – o CENTRO COMERCIAL ‘FORUM’.” A redução da lotação da sala para cerca de 400 lugares (menos de metade da lotação da remodelação de 1963), “mais confortáveis e adequados aos tempos presentes”, iria permitir aumentar a capacidade o Hotel Trajano de 39 para 52 quartos e também criar um conjunto de “infraestruturas de apoio ao Hotel como sejam: pub, piscina de água quente, clube de saúde, cafetaria e ainda uma sala de conferências”.
Mais uma vez, apesar da promessa da remodelação, o Cine-Teatro não voltaria a abrir ao público, encerrando definitivamente, deixando a cidade sem uma sala de cinema durante a década seguinte. A partir de maio de 1997, o Teatro Experimental Flaviense passou a exibir cinema no Cine Teatro Bento Martins, um auditório com capacidade para 160 espectadores. Esta sala fecharia em outubro de 2010 porque, segundo Rufino Martins, “o valor obtido na bilheteira, na grande maioria das vezes, não chegava para pagar nem metade do seu custo às empresas distribuidoras de filmes.” O Bento Martins reabriria um ano depois, em outubro de 2011, com apenas uma sessão de cinema por semana.(https://www.rtp.pt/noticias/cultura/cinema-de-chaves-reabre-hoje-apos-ter-estado-um-ano-fechado-por-falta-de-publico_n488545)
É precisamente no Cine Teatro Bento Martins que, desde 2015, o então recém-criado Cineclube de Chaves, membro da Federação Portuguesa de Cineclubes, promove as suas sessões cineclubistas uma vez por mês. O espaço mantém uma programação regular de cinema para diversos públicos.
Depois de muitas possibilidades apresentadas desde a sua compra pela Câmara Municipal de Chaves em 2000, em 2019 a edilidade flaviense anunciava que o imóvel do antigo Cine-Teatro de Chaves seria requalificado enquanto Centro Multiusos com componentes de investigação, laboratório experimental e sensorial ligado à água. (https://www.youtube.com/watch?v=_xljW5WZhLM)
É neste contexto que o realizador flaviense Rúben Sevivas decide produzir e realizar o filme Direito à Memória (2019), uma curta-metragem sobre a importância da preservação da memória histórica e patrimonial. Reza a história oral que alguém, consciente da ação da censura da ditadura salazarista e da ação da PIDE, decidiu enterrar o registo áudio do célebre comício de Humberto Delgado no Cine-Parque em maio de 1958 num quintal, onde permaneceu durante décadas. Quando encontrou um registo digital dessa cópia, Rúben Sevivas decidiu entrar no então muito degradado edifício do Cine-Parque para aí filmar os últimos planos desse importante espaço para gerações de flavienses.
Em nome da promoção turística do território, em março de 2025, foi inaugurado o Aquanatur Palace, um novo espaço multiusos financiado por apoios europeus (Norte 2020 e FEDER), um “equipamento inovador no panorama nacional” que convida à experienciação da água, à descoberta da ciência da água, a percorrer a história de Chaves e a história das suas termas, que “pretende proporcionar aos visitantes experiências multissensoriais únicas, baseadas em tecnologias avançadas como realidade virtual, realidade aumentada e holografia.” Ironicamente, uma iniciativa que pretende preservar a memória da cidade acabou por apagar o que restava do Cine-Parque e do Cine-Teatro de Chaves, dois espaços que marcaram a vida social, política e cultural durante várias décadas do sec. XX.
