Uma questão que me retorna com frequência: gosto de deixar cotações de filmes, mas odeio ser perguntado sobre elas ou ver as pessoas observando-as. “O Filipe deu três” ou ainda “mas e aí, Filipe, quanto?”, são perguntas/comentários que geralmente me despertam um certo enfado. Dito, sou um catalogador obsessivo de filmes. Na adolescência, mantinha uma planilha de Excel, na qual deixava anotado por ano cada filme visto, com o nome do realizador e uma nota de 0 a 4. Da mesma forma que sempre adorei listas, sempre gostei de ter algum controlo sobre o que eu via e gostava, às vezes, de pesquisar nos meus arquivos. É um prazer lúdico que creio ser parte do exercício cinéfilo, e um que sempre me dediquei com gosto.

O Sérgio Alpendre, que já foi cronista do À pala de Walsh, dividia um apartamento comigo, por volta de 2002/2003. Ele tinha um caderno desses de escola enormes, que ele usava para catalogar os filmes. Cada página era dedicada a um realizador com todos os filmes vistos, com uma nota de zero a dez (mais um dez com asterisco para as obras-primas especiais), e se a memória não falha, mantido a lápis de forma a que ele pudesse adulterar em futuras revisões. O caráter obsessivo não era muito diferente do meu, mas me fascinava a concretude do objeto em si, aquele caderno meio surrado, herança dos tempos de estudante, que continha toda uma vida cinéfila. Passei tardes naqueles tempos pesquisando o caderno, tanto para descobrir filmes quanto para discordar dele. Lembro-me de que ele tinha a política de não mexer nas notas até a revisão, independentemente de ter mudado de opinião. Às vezes eu reclamava de algo e o Sergio dizia que sabia que provavelmente estava errado, mas ali ficava até encontrar com o filme novamente. Pegava no pé dele sempre pelo Festen (A Festa, 1998), do Vinterberg, que ele dizia ter certeza de que não sobreviveria à revisão, mas que estava lá com um belo 8,5. O Sergio é, salvo engano, 13 anos mais velho do que eu, o que, quando se tem vinte e poucos anos, parece toda uma vida a mais, e naqueles tempos os meus hábitos cinéfilos gulosos ainda me davam uma ambição e desespero existencial de tudo assistir, o que acrescentava uma certa dose de inveja ao fascínio que o caderno causava. Queria ter eu mesmo aquelas experiências, entre outras coisas, para também deixar um registo delas.
Saímos do que existe de lúdico nesse esforço um tanto totalizante e individual do cinéfilo, para uma instrumentalização completa da cinefilia e do trabalho crítico.
Tenho amigos que detestam notas. Vários deles calham de ter passagens longas pela grande imprensa e entendo a antipatia que isto provoca. De uma hora para outra, tudo que você diz se resume àquela avaliação, o que pode mesmo ser algo frustrante, ainda mais quando o seu trabalho está exposto a um público mais amplo e, por consequência, dado a te interpretar mal ou apenas buscar confirmações. Lembro da irritação de um famoso distribuidor brasileiro porque a revista impressa que eu e Sergio co-editávamos nos anos 2000 deixou uma estrela para Manderlay (2005), do Lars von Trier. Pouco importava que elogiássemos vários outros filmes que ele distribuiu, ou que o texto em questão tivesse ideias com as quais se podia discordar ou não, o que importava era que até a revista supostamente séria estava recusando um filme grande dele, e tudo baseado nas tais estrelas. É fácil se irritar com o processo de distribuí-las quando o seu trabalho termina reduzido assim.
Da minha parte, busco um olhar um pouco mais otimista. Como já disse, me divirto com essas coisas, ao mesmo tempo que acho que elas importam muito pouco para além de um registo pessoal. Eu tendo a achar que a parte mais entediante do trabalho crítico é justamente a avaliação em si, prefiro imaginar que é sempre uma oportunidade para falar do que despertou meu interesse nele. A cotação vira quase um gesto liberador, está lá um 2/3/4 e aí posso escrever o que quiser, seja mais ou menos ocupado sobre o filme ser bom. O número lá existe fora do texto em si. Sempre acho engraçado quando alguém chega a mim falando que “pelo texto achei que tivesse gostado mais”, ou o contrário.

Estava pensando muito nisso de cotações pois recentemente acompanhava pelas redes sociais o Festival de Cannes. Talvez já estivesse aí o meu erro inicial, e deveria simplesmente esperar os filmes começarem a circular para ler algo mais interessante sobre eles. Cannes é como um espelho quebrado da cinefilia, aquele lugar que parece, mas não é, onde os nossos piores vícios são amplificados e mercantilizados. Daí mesmo, o interesse pela negativa, independente de inevitavelmente exibir filmes interessantes, sobretudo se calharem de ter financiamento francês.
Costumava-se dizer que não se produzia muita crítica interessante em Cannes, e é verdade. O texto que sempre me vem à memória quando penso no Festival é um que Kent Jones escreveu para a Traffic com o título “Cannes 2005”, e depois reproduziu na sua coletânea Physical Evidence. Tem ali algumas observações bem interessantes sobre filmes exibidos naquele ano, como A History of Violence (Uma História de Violência, 2005) ou L’Enfant (A Criança, 2005), mas o que eu me lembro é do que evoca sobre o ofício do crítico e a rotina do festival em si. Não me parece um espaço, com toda a sua lógica de castas definidas pelas diversas categorias de credencial de imprensa e do calendário apertado de sessões de imprensa, que conduz especialmente a uma boa produção de textos, e a maior parte do que se escreveu de interessante sobre Cannes é como este texto de Jones feito a posteriori, depois que o crítico voltou para casa.
Por consequência, o que se procura de Cannes não são textos críticos, mas opiniões. O que, no meu caso, era sobretudo observar se o último do James Gray, Paper Tiger (2026), seria menos mal visto que o de costume. É um espetáculo estranho sempre seguir o festival pelas redes sociais em que as pessoas têm muitas opiniões sobre filmes que, no geral, vão ver apenas no segundo semestre do ano. As tais cotações neste contexto vêm a calhar. Se não se escrevem textos críticos num festival, é fácil substituí-lo por um quadro cheio de notas. Nos tempos em que eu dividia apartamento com o Sérgio, existiam basicamente duas, a da Le Film Français, com críticos franceses, e a da Screen International, com um apanhado de críticos internacionais que sempre me pareceu um pouco careta. O segundo, como bem pede a crítica anglo-americana, vinha completo com uma média que deixava as coisas ainda mais mastigadas. Às vezes, no mês seguinte, dava para ver os quadros publicados posteriormente na Cahiers du Cinéma e na Film Comment, mas esses vinham acompanhados de artigos que faziam uma cobertura mais ampla que davam ao menos uma ideia melhor dos filmes em si.

Comecei a pensar nesta crónica no meio do festival por conta da proliferação deles. Dos dois que eu acompanhava ali por 2003, hoje em dia existe uma dúzia. Quadros de cotação com críticos de todos os gostos e recortes geográficos. A maior parte dos quais pouco conhecemos e dos quais nunca iremos ler o que têm a dizer sobre os filmes para além daqueles números, ou muitas vezes de qualquer outro filme. Os quadros de Cannes não deixam de ser um bom símbolo da instrumentalização do trabalho crítico nos tempos atuais, o olhar sobre os filmes não só reduzido a um número, mas depois comparado e transformado em estatísticas. Nada mais Cannes, do que as reações aos filmes, que existem de tal forma sistematizada e catalogadas. Quase todos os quadros atuais seguem o modelo da Screen e incluem uma média que torna até dispensável os críticos individuais. Às vezes, paro e olho de cima para baixo, todas as notas de algum crítico, me pergunto quantos fazem isso. Alguns deles representam publicações (Cahiers e Film Comment hoje em dia publicam ao vivo, por exemplo), outros apontam um mínimo olhar curatorial, vários outros soam como catados, sejam de recortes geográficos (e existe lá alguma curiosidade nesses), ou imagino de quem os editores calham de ser próximos. Lembro-me de observar que era curioso a recusa radical do Moir.ee (um site que inclui alguns críticos/programadores que respeito como Mónica Delgado e Jordan Cronk), ao Fjord (2026) de Christian Mungiu, que ganharia o festival depois, e foi recebido de forma virulenta lá comparado com o tom ao menos respeitoso de outros espaços.
O que eu continuava retornando era como esses quadros existem no extremo oposto do esforço que o Sergio mantinha no seu caderno. Saímos do que existe de lúdico nesse esforço um tanto totalizante e individual do cinéfilo, para uma instrumentalização completa da cinefilia e do trabalho crítico. Um intermédio entre filmes e cinéfilos no qual nada sobre eles importa e, claro, uma ótima maneira da indústria empacotar os filmes para grande consumo. Uma versão respeitável do que sites como Rotten Tomatoes e Metacritic oferecem, voltada para um público que por vezes se considera acima deles. Não me considero excluído disso, já que acompanhei vários deles e tenho alguns amigos que por lá estavam contribuindo, porém adoraria que tivesse mais chance de lê-los. Tem também o mesmo efeito, a produção de consensos, ainda mais estranhos, pois se referem a filmes que apenas uma pequena elite do meio da cinefilia teve acesso. Bem longe do prazer do cinéfilo solitário, e me entristece observar quantas facetas de uma relação saudável com o cinema foram cooptadas para usos como esse. A distância entre o caderno do Sérgio e os quadros de Cannes é uma de muitas.
