Há 50 anos estreou um filme de animação com um dos retratos mais divertidos e (infelizmente) credíveis da burocracia: Les 12 travaux d’Astérix (Os Doze Trabalhos de Astérix, 1976) marcou a única vez em que os criadores dos irredutíveis gauleses (René Goscinny e Albert Uderzo) arquitectaram uma narrativa original para o cinema. Sendo uma paródia aos 12 trabalhos de Hércules, vemos Astérix e Obélix a serem desafiados com tantas outras tarefas difíceis de concretizar. Mas para a mais complicada de todas, a oitava, de nada servirá a célebre poção mágica.

Ao início parece algo elementar: entrar num edifício para obter o impresso A-38. Coisa para dois, três minutos – caso tudo funcionasse. Mas não é por acaso que esta é conhecida como a casa da loucura. Astérix e Obélix deparam-se com um dos piores inimigos do seu longo historial de aventuras: os funcionários das repartições do edifício. Na verdade, quem é que não enlouqueceria, depois de subir e descer tantos degraus e falar com gente que parece ter um prazer especial em atazanar a vida dos outros?
O desfecho desse segmento é muito inteligente, dando a volta à farsa com os burocratas a provarem do seu próprio veneno. Rimo-nos porque tem graça (é o melhor filme de Astérix graças a esse argumento original, e também uma das grandes animações da década de 70), mas também para não chorar (o carácter burlesco desta sequência não se distancia muito de alguns infernos burocráticos por que passei ao longo dos anos, e acredito que o mesmo se aplica a quem me ler).
Já quanto a Zwei Staatsanwälte (Dois Procuradores, 2025), filme de Sergei Loznitsa que motiva este texto, não há muito para rir, pelo menos dessa forma – em entrevista ao Cinematograficamente Falando, o actor Aleksandr Kuznetsov descreveu o filme como “uma comédia negra, um Wes Anderson para pervertidos”, em que os espectadores russos encontram graça nas “pinturas nas paredes, os pequenos detalhes dos figurinos”. Mas já agora, uma sátira à burocracia estalinista, pelo menos com iguais contornos farsantes aos da animação acima referida, está disponível na BD La Mort de Staline, de Fabien Noury e Thierry Robin, e na respectiva adaptação ao cinema de Armando Iannucci (2017).

No entanto, durante o visionamento, numa sessão nocturna com a sala toda para mim e mais um casal que chegou depois, lembrei-me várias vezes daquele trabalho de Astérix. O que me faz pensar, também, num equívoco à volta da maneira como este, e outros filmes, são publicitados. Tenho notado com mais regularidade o vender gato por lebre na promoção das estreias, criando equívocos que não ajudam à circulação dos filmes. Neste caso, ao abrir as páginas do IMDb ou do Letterboxd de Zwei Staatsanwälte, vemos que está associado aos géneros de thriller e mistério.
Zwei Staatsanwälte provoca em nós não calafrios ou emoções fortes, mas sim o aborrecimento mortífero da espera.
Ora, nem há nada de palpitante ou tenso naquilo que vemos – bem pelo contrário -, como não há mistério nenhum. Isto porque, simplesmente, não é essa a intenção de Loznitsa. Seria curioso ver um filme de género sobre um recém-nomeado procurador local em busca da verdade, levando com as negas de uma máquina estatal pesada e opressiva de cada vez que se aproximasse da resposta certa – é esta, em suma, a base da história em causa, e possibilitaria milhentas abordagens. Poderia até ser uma narrativa paranóica, como os clássicos norte-americanos da década de 70, ou então uma aventura hitchcockiana entre falsos culpados e a denúncia da corrupção do poder.
Mas o cineasta bielorrusso não quis fazer isso… pelo menos dessas formas. Aliás: dá-nos isso tudo (o retrato do regime, a forma como as mentiras se tornam verdades, o impacto da burocracia), mas provocando em nós não calafrios ou emoções fortes, e sim o aborrecimento mortífero da espera.
Por falar em silêncios que dizem mais do que muitos gritos de megafone, Zwei Staatsanwälte também me fez recordar um dos melhores retratos do Holocausto. Mr. Klein (Mr. Klein – Um Homem na Sombra, 1976) de Joseph Losey, não enuncia de forma evidente o perigo. Se alguém apanhar o filme por acaso na televisão, talvez até demore algum tempo a perceber o que está em causa. Não há nuvens carregadas no céu, nem uma banda sonora que nos indique tropas pelas ruas, nem outros sinais explícitos do destino de Alain Delon. Muito pelo contrário: parece tudo tranquilo. Nem nos apercebemos do horror que nos rodeia se não pensarmos muito nisso, mesmo que ele até esteja bem perto de nós (ponto de partida de um outro filme de Jonathan Glazer que, infelizmente, acaba por ser uma crítica de si próprio, tornando-se aquilo que seria uma interessante instalação visual e sonora num filme insuportável e calculista).

Não temos dias de sol no percurso do jovem procurador Alexander Kornyev (Kuznetsov), até porque as condições meteorológicas russas são outras. Depois do prólogo na prisão – onde, de resto, não vemos a violência a acontecer -, quando chega o protagonista, até parece estar tudo bem. Zwei Staatsanwälte não nos quer dar uma bacoca aula de História. Leva-nos a 1937, a um contexto que conseguimos perceber rapidamente, se soubermos o que era a URSS daquela altura, dominada por um clima de intensas suspeitas e paranóias que se manteve durante anos, mas com dimensões tão perversas que nem os próprios cidadãos as conseguiam compreender.
O filme assume totalmente essa perspectiva. Vê-se isso logo na abertura, com uma cena reveladora, em que um funcionário da prisão começa a ler as cartas escritas pelos presos, que estavam dentro de um enorme saco prestes a ser destruído pelas chamas. Muitos deles, encarcerados injustamente ou, até, sem qualquer motivo, dirigem o seu apelo ao próprio Estaline, como se o “dono disto tudo” fosse alheio aos mecanismos opressivos da máquina por ele alimentada.
É entre essas missivas que está um pequeno pedaço de cartão escrito em sangue, que por acaso chega às mãos de Kornyev. Não fosse a curiosidade do funcionário da cadeia e nada do que vamos ver teria acontecido – e na verdade, no fim de contas, de uma ou de outra forma, tudo seria igual. Nada seria alterado com um homem a questionar um colosso estatal. O nosso protagonista é um procurador muito novo e, entenderemos ao longo do filme, é um produto do regime: está tão mergulhado nas engrenagens burocráticas que não questiona (ou não concebe sequer questionar) os seus superiores, e confia tanto nos poderes instituídos, que nem consegue ver aquilo que nos é evidente logo a partir da sua entrada na narrativa: isto não vai acabar bem para ele. Decide fazer perguntas, tentar perceber como é que um sistema tão bom poderia errar de forma tão expressiva. A sua ingenuidade é tanta que até nos faz impressão.

Mas relendo o parágrafo anterior, constato como eu próprio estou a cair no mesmo erro do marketing do filme, a criar palpitações onde elas não existem. Volto a dizer: este é um filme sobre a espera, e que acaba por ser fatal. É a ideia do desespero criado pela ausência de resposta que fica, porém Zwei Staatsanwälte deixa tudo para nós lá chegarmos. Não cria um clima de suspeita, antes deixa-nos a contemplar os mecanismos em todo o seu esplendor. Primeiro mostra-nos o caminho de Kornyev para chegar à fala com o autor daquela carta, e só isto é quase metade da duração do filme. Ele anda para trás e para a frente, e o regime tudo faz para o impedir de atingir o seu objectivo… sem provocar mais do que uma overdose de burocracia. Só faltava Kornyev enlouquecer no processo para estarmos a ver a versão “baseada numa história verídica” da ideia de Les 12 travaux d’Astérix.
Kornyev espera, espera e espera. Espera para saber onde está o autor daquele pedaço de cartão (no final desta primeira parte é que teremos um único confronto com as marcas de violência, mas nunca as vemos a acontecer), e depois disso, na segunda parte, espera para ver como se poderá corrigir a falha do sistema que representa. Coitado, nem sabe o que o espera. Porque ele olha para aquelas palavras em sangue (porque nem papel ou caneta deram ao prisioneiro), e leva-as a sério. O preço a pagar por tal seriedade será alto, e mesmo que não o vejamos realmente, sabemos o que vai acontecer. É por isso que Zwei Staatsanwälte não encerra em si qualquer mistério: só quem for tão ingénuo como Kornyev (ou completamente alheado das características do regime soviético) é que poderá estar à espera de outra coisa.
Mas tal como em Mr. Klein – mas num contexto diferente, claro -, nunca esse fim é demarcadamente enunciado. Loznitsa filma mesmo da perspectiva do seu protagonista, atento ao facto de que nós, espectadores, sabemos muito mais do que ele, e sem precisarmos de informação adicional para lá da que o filme nos dá. Nós preenchemos os espaços em branco. E mesmo assim, também sentimos o tédio das demoras, até Kornyev conseguir falar com fulano e sicrano, altas patentes partidárias que o poderão ajudar. O seu olhar esperançoso, quando pensa ter agido bem e que será recompensado por isso, é desolador.

Raras vezes o cinema soube retratar esse estado de impotência criada pela burocracia. A clausura metafórica é também mais forte com o aspect ratio escolhido por Loznitsa (1.37:1): dentro e fora das paredes do cárcere, será impossível fugir ao regime – mas pior será se se confiar absolutamente em quem manda. Mesmo que não haja hipótese de fuga, pior estaremos se não virmos o tubarão se ele nos encarar de frente, preparado para nos ter como a sua refeição. Isto está implícito em Zwei Staatsanwälte sem nunca o filmar verdadeiramente, e é o que mais salta à vista: a abordagem seca, sem orientações, aos labirintos do estalinismo, fazendo-nos sentir o mesmo que numa tarde perdida nas finanças ou na segurança social. No nosso caso, felizmente, e apesar da tortura, podemos voltar a casa. Kornyev também acha que vai regressar. Vai ser tarde demais quando perceber a realidade. Mas talvez lhe desse jeito a poção mágica.
★★★☆☆
