Quem é o espectador alvo de The Devil Wears Prada 2 (O Diabo Veste Prada 2, 2026)? Certamente que os nostálgicos do primeiro filme de 2006, procurando rever as personagens de Miranda, Andy, Nigel e Emily. A quem não viu o primeiro talvez o atrativo seja o de uma comédia leve de Verão. Presumo que pessoas fascinadas pelo mundo da moda também vejam no filme de David Frankel motivo de interesse.

Contudo, nem este segundo tomo é particularmente divertido, nem, pasme-se, se trata propriamente de algo que entusiasme os fanáticos da Semana da Moda de Milão. Também não é um filme particularmente romântico. Não é fácil então compreender sobre o que é. Andy começa o filme vencendo um prémio, na mesma cerimónia em que é despedida da sua posição de repórter por sms. Temos nesse momento um discurso politizado da heroína diante da sua audiência acerca da importância do jornalismo versus o poder predatório da finança e do lucro. Mais tarde, já trabalhando com Miranda como patroa na revista Runway, o plot andará em torno da restruturação da empresa, o fim do papel e a busca de audiência no digital, ou a perda de orçamento.
Dois momentos do filme mostram-nos, contudo, o limite desta abordagem.
Em tudo o mais, The Devil Wears Prada 2 não é nem um mocassim da feira para calcorrear alegremente os caminhos do filme de Verão com uma água de coco na mão, nem um garrido colete Gucci que a dona pindérica leva à estreia de um filme com mensagem.
Na ida à Milão, a revista tem de obedecer a vários cortes de orçamento. Já não é possível levar o John Legend para ter música pois custa os olhos da cara transportar o piano para lá, os carros privados serão substituídos por ubers e as viagens de avião passam a ter de ser feitas em económica. Nessa sequência do avião, vários curtos travellings acompanham Miranda, com o seu casaco de pele de cobra e óculos de sol a condizer, a caminhar da primeira classe à classe turística – terrível destino a que estão condenados os precarizados da vida -, esta última cheia de… passageiros, sem acesso a champagne e com um lugar à sua espera ao lado de um homem com excesso de peso a comer um hambúrguer. Esta cena, que não é excessivamente caricatural, mostra-nos o que está em causa nestes cortes de orçamento da revista e, de uma forma mais geral, o fim de um lifestyle diante dessa decadência do jornalismo. Desta feita, o universo destas personagens, apesar de tudo privilegiado, funciona com um limite para lá do qual esta ideia da precariedade deve ser tomada cum grano salis. Será que o tema da história se encaixa nas personagens do filme de David Frankel? Ou será que este regresso das personagens da boazinha e da diabólica, ao tentar falar-nos de precariedade profissional, bate precisamente na parede do glamour e da alta moda como luxo?
Logo de seguida, as nossas personagens chegam a Milão numa sequência de montagem ao som de “Vogue” de Madonna. Em planos sucessivos, elas são filmadas a chegar a uma festa, sempre andando ao longo da imagem como se estivesse a desfilar numa passerelle. Este é um dos raros instantes em que um filme estagnado, de tema deslocado, com pequenas traições, inimizades e menosprezos, que ainda lhe vão dando algum combustível e vida, apresenta uma ideia visual que de facto liga a narrativa ao seu universo. Em tudo o mais, The Devil Wears Prada 2 não é nem um mocassim da feira para calcorrear alegremente os caminhos do filme de Verão com uma água de coco na mão, nem um garrido colete Gucci que a dona pindérica leva à estreia de um filme com mensagem.
As pessoas vieram rever as personagens de há duas décadas mas o verdadeiro reencontro é com Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt. São eles que compreendem a textura que falta ao argumento e que conseguem contornar a caricatura, encontrando a justa medida da tal leveza do filme de Verão. Quem sabe essa presença que esvazia pudesse ser o tema que falta a The Devil Wears Prada 2.
★☆☆☆☆
