Há filmes que nos confundem. Ora porque a narrativa é fragmentada, porque não dispomos das referências necessárias para que se possam cumprir as suas associações. Ora porque não compreendemos – e esta talvez nunca se cumpra – as opções do seu realizador. Por Mais Um Dia (2026), de Miguel Babo, é um desses filmes, que nos (me) intrigam – por esta e aquela razão.

Em exibição nas salas de cinema, o filme é a segunda longa-metragem do realizador. Formado em Engenharia Química pela Universidade de Coimbra, Miguel Babo iniciou a sua carreira artística ainda na universidade, em teatro e escrita. Anos depois de Para Além da Memória (2019), regressa com um filme que recupera muito da sua fórmula anterior: uma teatralidade vincada, a divisão da narrativa em atos, sublinhada pelos frequentes cortes e mudanças de registo, bem como a utilização de um elenco oriundo do teatro e da televisão, entre eles Sónia Araújo, Paula Sá, Maria D’Aires, Teresa Côrte-Real, Hugo Nicolau, Isaac Graça e Tahís Azevedo.
Daqui em diante, Por Mais Um dia torna-se uma contradição constante, mas também um acumular de temáticas que se sobrepõem e turvam sem qualquer possibilidade de apreensão clara.
O filme inicia-se com um prelúdio a preto e branco. Uma mulher fixa-nos e, depois, vira-nos as costas ao som dos sinos. Entra no mar. O seu corpo desaparece. Será um prenúncio da morte? Uma mulher enigmática, filha do mar e ao mar devolvida? É uma sequência visualmente forte, capaz de despertar curiosidade para o que virá depois. Segue-se um espaço que se assemelha a um consultório sentimental. As personagens entram em cena e confessam-se, lançando pistas sobre a sua relação com um homem que ainda não conhecemos. Duas mulheres, uma seguida da outra, discorrem sobre as suas relações não concretizadas, os seus amores e desamores: Porque é que nunca nos amámos? Tu fugiste sempre. Que saudades, meu amigo. De nós os dois; da vida que poderia ter sido. Da porta que fechámos.
Fecha-se também este prelúdio poético, com laivos de uma ingenuidade tão sensível quanto experimental. E se até então tudo apontava que o filme seria sobre as relações humanas, dá-se uma profunda inflexão no seu percurso. Um corte abrupto com as certezas que havíamos colhido. Deitadas à terra, derrubadas por um novo filme, este – diga-se de passagem – muito menos interessante do ponto de vista cinematográfico. Daqui em diante, Por Mais Um dia torna-se uma contradição constante, mas também um acumular de temáticas que se sobrepõem e turvam sem qualquer possibilidade de apreensão clara.
A narrativa acompanha um conjunto de personagens atravessadas por momentos de ruptura, confrontadas com a súbita constatação de que nada é o que imaginaram ser. Sucedem-se os atos e, sem que nos apercebamos como, damos por nós numa espécie de quadrangulação amorosa, um enredo digno de uma novela de horário nobre. Eduardo vê a sua vida transformada ao descobrir que sofre de uma doença terminal. Incapaz de partilhar a notícia, guarda uma mochila no armário como se antecipasse a sua partida. Ana, a sua mulher, vive dividida entre a infidelidade, a culpa e a incerteza dos seus afetos. E os outros? Não haverá também uma vida sonhada, uma vida escondida? Não guardamos todos alguma coisa dentro do armário?

Entre ligações perdidas e revelações, o filme encena uma sucessão de encontros que cruzam todas as personagens, forçando-as a confrontarem-se com os seus desgostos, insatisfações afetivas e sexuais, relações em declínio, mas também com a efemeridade da vida e a transformação que o prenúncio da morte poderá invocar. Tudo isto seria o bastante. E um bastante pautado por um humor satírico que introduz leveza num universo melancólico e algumas notas para a delineação da intimidade contemporânea. Mas o filme espraia-se por outras vias, tem desejo de tudo e não retira prazer com nada – poder-se-ia escrever, adaptando epitáfio de Guy de Maupassant.
À complexidade das relações humanas somam-se diálogos sobre racismo estrutural, colonialismo, violência, normatividade, condição feminina e outras questões sociais. Nenhuma destas temáticas é, por si só, irrelevante. O problema reside na forma como aqui são convocadas – como uma enumeração de intenções que não encontra desenvolvimento dramático suficiente para ganhar verdadeira espessura. Dá-se, então, o caso da não seleção. E o trabalho de cineasta será sempre também o de decidir o que fica dentro e fora de campo. Dá-se o caso dos filmes que procuram abarcar este e aquele tema, que se sentem compelidos a pronunciar-se sobre todas as questões do seu tempo, esquecendo-se de que na pequena escala reside também o seu potencial. Esquecendo-se, sobretudo, de que podem posicionar-se fora de uma agenda temática sem que isso lhes retire pertinência. Pelo contrário. É o cinema das pequenas (grandes) coisas, não o das grandes (pequenas) coisas.
Uma nova inflexão toma o lugar do filme. Regressamos a um registo mais soturno, ao preto e branco, e um coro de vozes introduz um novo momento de teatralidade que denuncia a influência pessoana no trabalho de Miguel Babo. Voltamos, depois, ao consultório sentimental onde tudo começara. A primeira mulher convida o homem para uma dança. Os corpos aproximam-se num breve instante de encontro; e depois nada outra vez. É deixá-los ir. Surge a segunda mulher, vinda do leste – um outro amor ou talvez a própria morte. Afinal, a morte não fala a nossa língua; é sempre estrangeira, aproximando-se de nós como uma paixão: seduz-nos, acompanha-nos, deita-se connosco. É o último dos encontros. Eduardo parte para o mar com a mochila que guardara e encerra-se um ciclo. Restam as suas vestes, uma ferida aberta no (a)mar, essa inclinação infinita para a perda. E talvez isso, só isso, fosse o bastante. Ontem, hoje, por mais um dia.
★★☆☆☆
