Spielberg gets away with it;
[the film] has so much eagerness and flash and talent
that it just about transforms its scrubby ingredients.
Pauline Kael,
The New Yorker, 18 Março 1974,
sobre The Sugarland Express (Asfalto Quente, 1974)
Steven Spielberg é um cronista da vida na e sobre a América. Dizia Pauline Kael, na sua crítica a Jaws (Tubarão, 1981): “não são os tubarões que são seus inimigos; são os outros homens.” Sempre foi esse o caso com Steven Spielberg, vítima de bullying em criança: o problema eram sempre os outros homens. Podemos pensar em qualquer filme dele e chegar a essa conclusão, desde Duel (Um Assassino Pelas Costas, 1971) a Disclosure Day (O Dia da Revelação, 2026), mas também do seu par temático Close Encounters of the Third Kind (Encontros Imediatos de Terceiro Grau, 1977), a dialogar com a paisagem política Americana na era da pós-verdade. É território de Spielberg o cinema conseguido a partir do molde de fábrica que vê os seus por vezes parcos ingredientes transformados aos olhos de todos pela intoxicação sentimental própria da infância, que o cineasta injecta com a devida força. Esse momento de revelação, essa elação nostálgica, tornou-se sinónimo dele, quando na verdade, se traduzido por miúdos, aquilo que Spielberg realmente faz com mestria é abrir a possibilidade de uma conversa com o Outro; é um humanista e os seus filmes poderão ser vistos como preces pela paz. O desenho que se escreve ao longo do tempo com Close Encounters of the Third Kind, E.T. The Extra-Terrestrial (E.T. O Extra-Terrestre, 1982) e agora Disclosure Day exemplifica-o bem, criando uma espécie de trilogia conceptual. A conversa entre humanos e alienígenas é benigna. Há como sustentar a complexidade, articular a diferença durante a comunicação e encontrar um ponto comum. Com o desfecho a aproximar os homens. Da separação, o cineasta procura construir pontes até à união. O único vilão que domina ainda assim, imune a quase tudo, é o governo americano.

Detive-me numa frase de Adam Kirsch, editor sénior da The Atlantic, que escreve um artigo na edição de Junho da revista onde esquematiza a relação entre os Americanos e o governo que lhes mente: “(…) a revelação irá finalmente evidenciar a verdade – não só sobre os alienígenas, mas sobre as autoridades que há muito nos ludibriam.” Sem ter visto Disclosure Day, Kirsch volta atrás no tempo a Alan J. Pakula, Sydney Pollack e Francis Ford Coppola, ou seja à dissidência da Nova Hollywood na década de 1970 e ao “clima pós-Watergate quando Hollywood estava obcecado com conspirações oficiais e delatores heróicos”. É a partir daqui que Spielberg também germinou para o público mundial, com o seu blockbuster contestatário Jaws que, voltando a Kael, se debruçava sobre a masculinidade tóxica e o abuso de poder, questionando pelo meio a integridade das instituições. Em Jaws, o mayor pressiona o médico legista a mudar a causa de morte da primeira vítima do ataque do tubarão e descarta provas fotográficas. Em Close Encounters of the Third Kind, os oficiais governamentais encenam o derramamento de produtos químicos que leva a evacuações em massa da população perto do lugar de aterragem dos alienígenas no Wyoming. Desde o incidente em Roswell em Julho 1947 até às tão recentes palavras ditas num podcast pelo ex-presidente dos EUA, Barack Obama, e que deixam margem para interpretação, a obsessão Americana com a possibilidade de descobrir outros habitantes do mesmo sistema solar ou visitantes forasteiros ao nosso planeta, deixa claro que mais do que precisarmos de significado para a nossa existência neste tão expansivo universo, precisamos de companhia. Não queremos estar sozinhos. Para isso temos que acreditar (a isso alude o título do livro de Kirsch, prestes a ser publicado em Agosto, We Want to Believe: How Aliens Went Mainstream and Why It Matters).
Este é um Spielberg a pensar no posicionamento do filme dentro do seu corpo de trabalho e segundo a sua biografia. Do divórcio dos pais (Close Encounters of the Third Kind) ao crescer-de-idade com o amigo imaginário que [Spielberg] “conjura” após a desintegração da família (E.T. The Extra-Terrestrial) à reunificação da família há muito perdida (Disclosure Day).
Quando caímos em Disclosure Day, não há tempo para aterrar. Estamos in media res, com um Josh O’Connor em frente a um ringue de boxe a ser chantageado por pessoas que aparentam ser, logo à primeira vista, oficiais do governo. O mundo que Spielberg nos apresenta é um mundo no limiar geopolítico, à beira de uma guerra nuclear. Tendo isso em mente, torna-se ainda mais curioso que o filme se veja a caminhar em direcção a uma estação televisiva, a partir de onde a verdade será disseminada. É logo aí que Spielberg confunde as coisas, mostrando a sua idade, o apogeu para a nostalgia. Será a figura da pivô de televisão em frente a uma câmara a figura que amplifica a verdade em que ainda podemos confiar agora? E de que forma é que podemos fazer dela, o pilar do jornalismo e da democracia, o lugar da verdade, se depois sentimos a necessidade de nos desviarmos disso para alimentarmos crenças através de uma cega convicção? Suspeito que Spielberg não se tenha apercebido que o filme fica preso numa Hollywood que não pode tardar mais que a década de 1990.
O que está em causa é o nosso sentido de maravilhamento por um universo que, afinal, é partilhado. Como se consegue colocar isso em movimento sem referenciar o clima de partilha de informação diária (perfeito instrumento denunciante desta era da revelação, do apontar da lanterna para o que permanece oculto) entre mais de 5 biliões de pessoas numa rede tão bem interligada como a internet? A revolução já não será televisionada. A verdade surgirá de uma outra forma, mais rapidamente difundida pelo mundo fora, e mais rapidamente ignorada, muito possivelmente descartada antes de ser questionada. E depois disso, como garantir a autenticidade das provas agora que a inteligência artificial e os deepfakes são uma possibilidade?. São estes os tempos que correm.

Spielberg não se debate com estas (ou quaisquer) águas turvas. O miolo da questão é posicionado na mise-en-scène da fuga, iluminada por fortes holofotes ora esbranquiçados ora dourados, evocando o mundo apocalíptico do filme de ficção científica, interligando os filmes que compõem essa trilogia conceptual referida no início. Desde logo visualmente, com a textura suave da imagem. E depois o tom de iminência, desconcertante e conspiratório, vincado pela banda sonora de John Williams. Vamos da perseguição na rua para um estúdio de cartão iluminado e Spielberg não procura esconder isso. Mas a narrativa também não se encerra no habitual escapismo, parece querer ser matéria-prima para induzir a realidade, um dos seus maiores triunfos. Esta premissa só encontrará um culminar na eliminação do medo daquilo que não se conhece, não se sabe e não se compreende. Noutras palavras, o cinema a produzir o esoterismo alimentado pela contracultura da década de 1960 e 1970 que se fez statement quando Close Encounters of the Third Kind aparece no mundo. Desta vez, este é um Spielberg a pensar no posicionamento do filme dentro do seu corpo de trabalho e segundo a sua biografia. Do divórcio dos pais (Close Encounters of the Third Kind) ao crescer-de-idade com o amigo imaginário que [Spielberg] “conjura” após a desintegração da família (E.T. The Extra-Terrestrial) à reunificação da família há muito perdida (Disclosure Day).
O filme consegue aligeirar a sua comercialidade. A articulação é mais frouxa, porque esconde algo mais fortemente interior. Feliz é a incomum ocorrência em que um filme parece desinspirado porque foi despido dos cantos melodramáticos que nos indicam para onde vamos a seguir. Não nos tenta, por isso, vender a sua visão tanto quanto leva-nos consigo.
Em Disclosure Day, o vilão tem a cara de Noah Scanlon (Colin Firth), um magnata cabeça de uma organização contratada pela governo americano para assegurar que toda a inteligência em redor da existência dos alienígenas permanece oculta. A personagem de Josh O’Connor, especialista em segurança de dados, Daniel Kellner, representa a resistência. Ele carrega com ele algo que poderá finalmente revelar a verdade há tanto encoberta. O filme arranca realmente quando a fuga se estende à weather girl da estação televisiva, Margaret Fairchild (mesmo nome da lady in the van que viveu na entrada da casa de Alan Bennett até morrer; escondida na sua condição de sem-abrigo, alimentava uma outra concepção de vida e liberdade) e ao encontro entre estes dois humanos, atraídos um ao outro pelo país fora, ponte directa até à vida alienígena. Aos poucos, torna-se claro que Disclosure Day não é um manifesto visual da captura dos delatores ou do reconhecimento de que há vida alienígena. Close Encounters of the Third Kind e E.T. The Extra-Terrestrial já nos tinham dito que sim. O que interessa a Spielberg desta vez, neste possível último capítulo é testemunhar o que acontece assim que a informação deixa de ser propriedade de alguém e torna-se de todos. União ou alienação?
Existe vida alienígena no mundo de Disclosure Day. Disso não há dúvidas. Tudo se senta em cima dessa certeza. Enquanto isso, o olhar fixo de um veado atormenta Daniel, mas ele não sabe porquê. A namorada de quem salva das garras de Scanlon, Jane (Eve Hewson), revela que é uma ex-noviça. A igreja católica surge asssim como uma outra ponte para o desconhecido, cegamente aceite. Diz-lhe ela que não perdeu a fé, perdeu antes o chamamento para aquela vida de dedicação e clausura num mundo onde descobrirá ela, tomar controlo do corpo do outro é uma possibilidade, um desvio narrativo onde a conversa teológica se mistura com a crença em seres alienígenas. Mas se veremos esse controlo existir para o mal, veremo-lo também para o bem via Margaret. Mais uma vez, como é comum no cinema do realizador, os conceitos chegam-nos achatados, sem nuances, passíveis de se confundirem. A relação paralela estabelecida com a fé religiosa não está suficientemente desenvolvida para sequer nela podermos reflectir quanto mais na aparente sobreposição entre os dois.



Spielberg também não está interessado em abordar a psicologia das suas personagens, com receio que elas se fechem em especificidades (excepção disto é Hugo Wakefield, interpretado pelo sempre fenomenal Colman Domingo, talvez a personagem mais expansiva do filme). Tudo é instrumento para prosseguir a narrativa que quer contar. Até a câmara se torna, em breves momentos, visível ao entrar dentro de um carro com O’Connor. Enquanto liga todas as trajectórias (e separados mundos), referenciando planos e invocando uma transição impessoal de imagens, o filme evidencia que embora se reduza a uma gramática de entretenimento “onde tudo é elevado e sacrificado“, como já tínhamos visto acontecer em One Battle After Another (Batalha Atrás de Batalha, 2025), de Paul Thomas Anderson, também este “Não é um filme embeiçado pela sua complexidade.” Os dois homens encontram-se no desejo de auscultar a história da América através das suas várias superfícies.
Esta viagem é mais abrangente, as personagens não se vergam aos seus modelos, e a iconografia do passado consegue co-existir com o discurso humanista fora de tempo. A narrativa não se encerra no habitual escapismo, parece querer ser matéria-prima para induzir a realidade, um dos seus maiores triunfos.
Em modo filme de verão, Spielberg coloca ao leme duas personagens principais especialmente tontas e amáveis como Anderson já tinha feito: Emily Blunt sob o efeito de uma activação que lhe controla os impulsos, a derradeira personagem-motor em favor da narrativa, e a sensibilidade de Josh O’Connor a balançar perfeitamente com a ansiedade que a coragem preconiza. Assim feito, o filme consegue aligeirar a sua comercialidade. As camadas de Disclosure Day e os vários desvios não estão apurados o suficiente. A articulação é mais frouxa, porque esconde algo mais fortemente interior. Feliz é a incomum ocorrência em que um filme parece desinspirado [carente do factor corny e da habitual auto-indulgência – a ruína de The Fabelmans (Os Fabelmans, 2022)], porque foi despido dos cantos melodramáticos que nos indicam para onde vamos a seguir. Não nos tenta, por isso, vender a sua visão tanto quanto leva-nos consigo. E nós vamos de bom grado, motivados por algo mais que o respirar do ar dos nossos tempos, como acontecia com o último de Anderson. Esta viagem é mais abrangente, as personagens não se vergam aos seus modelos, e a iconografia do passado consegue co-existir com o discurso humanista fora de tempo. Somos animais à beira da extinção, a viver segundo a fome de sermos (re)conhecidos no e pelo outro. Precisamos que a nossa alma seja alimentada por algo mais que a existência. Precisamos que aquele olhar fixo se varre noutro ser e que esse baixe a sua guarda para a colisão poder acontecer.
São raros os momentos em que Spielberg não se apoia na sua “criança interior”, uma referência por ele feita desde o início da sua carreira. E este é bem capaz de ser um deles. O cinema narrativo não tem muitas oportunidades para fugir à habitual digestão, com o sumo das suas imagens a revelar algo superior ao estruturado. O argumento de Koepp coloca a idealização de seres humanos que vivem entre nós – Margaret revelar-se-á corpo de transferência empática; a força messiânica do filme – lado a lado com a supremacia religiosa, alimentando a aceitação em ouvir e acreditar naquilo que um ser nos conta e mostra (o que abre precedentes inesperados – “Listen”). E costura a harmonia através do mesmo dar de mãos que já tínhamos testemunhado em Close Encounters of the Third Kind (ou tocar de dedos em E.T. The Extra-Terrestrial), na esperança de manter a perspicácia da história até ao fim. Disclosure Day parte da separação, com O’Connor naquele jogo de boxe, e acaba fundido no Outro, numa família, cujos membros nem sabiam pertencer uns aos outros e de que forma.




Nestas analogias representativas, e considerando Close Encounters of the Third Kind a experiência estética que é (um filme sobre a feitura de um filme), com a muito distintiva mudez e qualidade pictórica a falar pela tragédia inefável que é a desintegração de uma família – talvez um dos filmes mais pessoais do cineasta, ainda hoje capaz de levedar no espectador ao longo de múltiplos visionamentos -, Disclosure Day mostra-se aguçado, o filme-irmão estabelecedor de uma profecia tão optimista que prova ser a razão de existência de Spielberg entre nós. Pode faltar-lhe peso artístico, mas o flare da história contada garante que o filme é um canivete disfarçado. E o foco são, tal como esperado, os outros homens. Da América para o Mundo, o cineasta mede o pulso à condição humana enquanto alimenta os espectadores mais apagados com o mesmo ímpeto e sinceridade com que aguarda a materialização da verdade em que acredita.
★★☆☆☆
