Podemos chegar a Ítaca de diferentes formas, por vários caminhos, com meios e estados distintos, na possibilidade e impossibilidade de nos revermos à chegada ou preferirmos o conforto construído da estrada, do mar ou dos trilhos que se foram abrindo, descoberto, inventando. Pode chegar-se a Ítaca sem nunca de lá se ter saído, ou chegar sem jamais lá ter estado. “Separados fomos por cítaras e canto / E pelos longos poemas silabados / E entre nós dois deitaram-se paisagens / que nos mantinham imóveis e distantes // Embora o fogo secreto das palavras / E a veemência do canto e das imagens / Embora a paixão das noites consteladas/ E o nevoeiro tocando a nossa face // Separados fomos por cítaras e canto/ Como outros por prisões ou por espadas.” (Separados Fomos, Sophia de Mello Breyner Andressen in O Nome das Coisas, 1977).
Podemos chegar a Ítaca separados, e encontrarmos nela as imagens de Abril, como se fossemos, ao mesmo tempo, o cavalo e a vergonha, a luta e a ressaca, viúvos de nós mesmos – como nesse outro poema de Sophia, Cíclades, evocando Fernando Pessoa – e, na estrada perdida na Serra da Estrela, entre as Penhas da Saúde e Unhais da Serra, numa inclinação vertiginosa que nos fixa entre o vórtice das águas revoltas e as escarpas nas quais os barcos se irão, inevitavelmente, despenhar, percebermos que Ítaca é, como sempre foi, uma construção, feita de múltiplas verdades; criada para sobre ela projetarmos as dúvidas sociais e políticas que nos movem e nos definem.

Enquanto esperava por uma sessão IMAX de The Odyssey (A Odisseia, 2026), de Christopher Nolan, no entusiasmo febril de quem ainda se espanta com as salas cheias – sejam elas motivadas pelo excesso de reels promocionais, um súbito interesse na antiguidade grega filtrada pelas convenções do cinema de grande espectáculo, ou um desejo imenso* de contrariar quem acha que um filme nunca poderá medir-se com a obra, porque aprendeu em pentâmetro iâmbico os versos que não se sabe se foi realmente Homero a escrever -, pude navegar por outros filmes, então em cartaz ou nas plataformas, por outros livros, nas prateleiras ou que foram novas aquisições (a melhor desculpa para as fazer cair). E foi então, nesse verão que nunca mais acaba, como a viagem de Ulisses, na cidade por ele fundada, diz-se, que vi Sophia Setembro de 1963 (2026), de Vanessa Duarte e Hugo Pereira, belíssimo filme-poema, quase à la Renoir, numa Grécia que se chega pela Granja, como Sophia disse num outro belo filme, Sophia, na Primeira Pessoa (2019), de Manuel Mozos que descobri graças ao entusiasmo (também o podem ver, está na Filmin).
Sophia Setembro de 1963 é um filme marcado, ferido, tolhido por uma lucidez ácida e absoluta, que engana pela forma como usa os diários da poeta, e dos realizadores, para nos fazer entrar, qual Calipso, na memória que não sabíamos ser nossa, e depois nos deixar perante a evidência da aporia
Tinha razão o meu amigo P., impressionado pela minha resistência à poesia de Sophia, que num verão de espera, com encontro, então, na profusão de estradas que nos levam à Grécia, ideal fundador do nosso imaginário, antes da razão romana, vimos, por entre a luz da “Quase lua cheia e baixa sobre o mar / Magnética e brilhante nos panos pretos da noite / Foi então que abordámos em margens de silêncio / E uma pequena cidade surgiu antiga e cor de bronze” (Termopoli, 1967).

O que há de espantoso nesse filme de Vanessa Duarte e Hugo Pereira é a resistência que fazem ao próprio espanto. Sabendo que já não irão encontrar o que Sophia, Agustina e Alberto procuraram nesse distante verão, na Grécia que se preparava para a sua própria ditadura, dedicam-se a observar aquilo que o próprio Ulisses dirá, no canto XIII, a Atena: “Agora pelo teu pai te suplico: não me parece verdade / que tenha chegado a Ítaca soalheira; mas ando às voltas / noutra terra. E julgo que foi para me provocar / que disseste aquilo, para me pores à prova. / Diz-me se é verdade que cheguei à minha pátria amada”. Não é a Grécia que procuram, mas a ideia de Grécia que possa ter motivado o escape, a fuga e a distância. “Nunca mais escaparemos a estes gregos”, citou Sophia, a partir de Murilo Mendes, como epigrafe a O Nu na Antiguidade Clássica (1975), e terá razão. Essa viagem empreendida agora pelos realizadores, nos mesmos lugares (serão?), vai em absoluto contraciclo com a ideia de concretização, como se não quisessem chegar a um ponto final, porque esse é o lugar de onde partiram. É o porquê da viagem inicial: “Aprende / a não esperar por ti pois não te encontrarás // No instante de dizer sim ao destino / Incerta paraste emudecida / E os oceanos depois devagar te rodearam” (Elegia, 1994).
Há uma luz que fere, como se fosse a da verdade e a da espera, atravessada por autocarros de turistas e bancas de peixe seco, como há uma música de fundo que se trauteia como se fossem hinos, e cantos, e chamamentos dionisíacos, pela qual somos levados a pensar sobre o que estamos realmente a ver: uma civilização à qual nunca pertencemos realmente. Sophia Setembro de 1963 é um filme marcado, ferido, tolhido por uma lucidez ácida e absoluta, que engana pela forma como usa os diários da poeta, e dos realizadores, para nos fazer entrar, qual Calipso, na memória que não sabíamos ser nossa, e depois nos deixar perante a evidência da aporia: “A civilização em que estamos é tão errada que / Nela o pensamento se desligou da mão // Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco / E gabava-se também de saber conduzir / Num campo a direito o sulco do arado.” (O Rei de Ítaca, 1977).

Há um momento em The Odyssey, durante o assalto a Tróia, em que o rosto de Matt Damon procura representar o horror da consciência da usurpação até então disfarçada de razão. Num filme cheio de recados sobre o modo como tratamos o outro – a partir de um texto cheio de versos que falam da necessidade do acolhimento, e das formas como construímos narrativas para o justificar –, é um momento de pura retórica fílmica, muito ao gosto (e à necessidade, provavelmente) de tudo ter que explicar e evidenciar. Nolan, apesar dos elementos grotescos, canhestros e brutos convocados para essa sequência pintada num chiaroscuro de envergonhar o primeiro ano em Belas-Artes, tem razão: perante o horror da consciência, nada pode ser poético. “A guerra desencadeia todas as fúrias da injustiça e da violência, o caos e a desmesura afirmam o seu reino. À sombra de tempos e estátuas perfeitas, os gregos combatem como cães”, escreve Sophia. E nós, hoje, iguais.
E The Odyssey, na sua ausência de poética, de sexo, de confronto que não seja imediato, de incapacidade de se projetar e na dificuldade de escolher entre o efeito especial e o discurso – nessa persistente incapacidade de saber lidar com a construção compósita e fabulosa do poema de Homero, que deriva da necessidade própria dos homens em contarem as histórias à sua maneira, sem necessidade de linearidade –, talvez seja o mais próximo que possamos estar da ideia que Agustina num outro livro, Embaixada a Calígula (lá está, a emoção contra a razão; Grécia contra Roma; Granja contra Gólgota; braçadas no mar contra mantas durienses), de 1961, tido como pré-resposta ao desconforto que a viagem à Grécia lhe provocou (e que descobri neste mesmo verão, por indicação de R.): “A viagem é a intimidade do importuno. Tudo o que não preferimos em quaisquer outras circunstâncias de fixação prolongada – uma paisagem, as criaturas, um acontecimento – é-nos oferecido para que o tomemos com esse amor espontâneo que não se pode evitar porque vive da surpresa em que se comprometeu.”

No filme de Vanessa Duarte e Hugo Pereira, a viagem vai-se fazendo na justaposição das suas vozes aos diários de Sophia, que ouvimos sobre as imagens presentes imaginando não apenas o que terá visto, como o que achou ver, “desde a orla do mar”, “desde a sombra do bosque”, “desde a sombra do bosque desde a orla do mar” (Delphica IV, 1970). Vai-se fazendo na rarefacção da memória; na espera no interior dos planos, à procura dessa linha de mistura rimbaudiesque, entre o céu e o mar, na hora cinzenta, aqui azul, em que o infinito se torna material: “É o mar a ir-se / alado com o sol”, escreveu ele quase no fim (1872), sobre a eternidade, já depois de ter visto o que ia ser: “Pois que mistério sombrio e impenetrável é este? / Porque é que, sem lançar a vela branca, se afundam / Todos os jovens esquifes reais aparelhados? // Derrubemos a dor dos nossos lacrimatórios.”
Em nada disto havia pensado, deste modo tão material, ao ver Sophia Setembro 1963, desconhecedor que era da procura concreta de uma ansiosa liberdade que a poeta haverá de descrever dez anos mais tarde. E mais espantado fiquei quando percebi que os poemas gregos surgem no primeiro livro de Abril, O Nome das Coisas, onde se pode ler, evidentemente, como uma evidência: “Enquanto longe divagas / E através do mar desconhecido esqueces a palavra/ – Enquanto vais à deriva das correntes / E fugitivo perseguido por inomeadas formas / A ti próprio te buscas devagar” (junho 1974).
Mas tudo isso se vê em Sophia Setembro 1963, filme de uma manifesta resistência; de uma feérica vontade de contrariar o espanto, a música e o prosódia; de um desejo de ser caminho aberto para que, pelo cinema, e na sua imaterialidade, cheguemos a outro imaterial, o da palavra, apenas e só hipótese de interpretação e, com isso, solitária vontade de ler, ver e ouvir o que lá possa ter estado; filme que se habita em contrarrelógio, pela civilização, pela memória, pela imagem, pelo reflexo, pela história, menos pela retórica, pelo absoluto ou pela fixação. “Exatamente”, como dirá Godard com Le Mépris (O Desprezo, 1963), inevitavelmente revisto para este texto, nessa tentativa de filmar a Odisseia como destino da Europa do pós-guerra, nas guerras que a Europa travava na década de 1960: “numa forma que não pode ser decomposta e que é exatamente o que é. É pegar ou largar.”
[texto escrito no dia em que BB nasceu, de corpo helénico trágico e traído, a cinco cantos e meio do final da tradução que Frederico Lourenço fez de A Odisseia, edição da Cotovia de 2005, carregada qual pedra de tropeço ao longo do verão, na esperança de servir de guia a uma leitura menos emocionada sobre filmes que, na sua distância, procuram o mesmo: servir de espelhos referenciais para um tempo sem deuses, essa criação dos homens, como lembrou Fritz Lang a um Jack Palance suado pelo calor mediterrânico]
*see what I did here?! 😉 😉
