É a primeira cena do primeiro episódio da terceira temporada de Shrinking. Paul Rhoades, diretor de uma clínica de psicologia “cognitiva-comportamental”, está na casa de banho a preparar-se para lavar os dentes; a sua companheira, a neurologista Julie Baram, entra no chuveiro e a conversa entre os dois passa do vapor do duche dela para o embaciar do espelho dele. Uma manhã como outra qualquer. A música calma, ouvida como se viesse de dentro da cena, acentua a paz rotineira do casal. Mas, ao subir o volume, a câmara fixa-se nas mãos de Paul: numa, segura a escova de dentes; com a outra, tenta, em vão, acertar na escova com a pasta que sai da bisnaga. “Holding back the years”, canta Mick Hucknall, enquanto a canção (o lamento por uma infância de traumas que não se consegue ultrapassar), atravessa a cena caseira e continua a ouvir-se no consultório, onde Paul se desculpa a um paciente, explicando-lhe que tem Parkinson e que a medicação que toma já não é tão eficaz como antes.
Entre as séries de ficção científica – de realidades paralelas – e as comédias que levam a tal ponto o absurdo que acabam por resultam em idêntica fuga à realidade, atraem-me as que assentam o principal eixo narrativo numa reconstituição realista do mundo (situam-se no presente, em lugares iguais aos que posso encontrar se visitar Pasadena, no caso desta, não fazem ouvir gargalhadas pré-gravadas, por exemplo). Mas, porque não deixam de ser ficção, permite-se que nelas se encenem, à mesma, percursos menos aceitáveis – ou fazem disparar a tão ansiada suspensão da descrença. O protagonista de Shrinking é um mais jovem psicólogo da clínica do Dr. Rhoades, Jimmy Laird. Viúvo recente, pai em apuros, é um ser atrapalhado que decide (ou a pressão psicológica decide por ele) interferir na vida dos pacientes e que irá pela série fora a defender as qualidades terapêuticas de ser um “psychological vigilante”, chamando mesmo ao processo jimmying. Aquilo que na vida real é inaceitável, aceita-se ali com um sorriso aliviado.
Vejo distraidamente estas séries, que começo por considerar anódinas, perfeitas para o escapismo. Não dou muito por elas, vou lá pelos atores, não me ocupam o espírito, mesmo se as piadas me alegram e as personagens se me tornam familiares como vizinhos simpáticos. Até que algum momento nelas me faz sentar-me mais direita, enxotar o sono que gosta de se instalar a meio dos episódios, e perceber que se transformam em mais do que só mais uma série. Com Shrinking aconteceu-me neste início da terceira temporada, já Jimmy começava a voltar à normalidade, reatava as conversas com a filha, tinha os altos e baixos com os amigos, enganava-se com os pacientes, e Harrison Ford era o velho rezinga que, no fundo é boa pessoa. Depois da cena na casa de banho e de alguns segundos com o paciente no consultório de psicologia, a terceira cena é na sala de espera da Sierra Madre, clínica de neurologia onde Paul precisa de ir para acertar a medicação. A câmara segue-o em plano médio, a falar com a recepcionista e, quando se senta, apercebo-me de alguém na cadeira ao lado, um corpo cujos tremores dizem que sofre de um estado mais avançado da doença, que lhe pergunta: “What’re you in for?” (À letra, a pergunta significa “Porque é que estás aqui?”, mas a frase é exatamente o que um recluso perguntaria a um recém-chegado à prisão, pelo menos no mundo dos filmes e das séries: “Qual foi o teu crime? Porque é que te prenderam?”) Foi esse o meu momento, não de shrinking, de me encolher no sofá até adormecer, mas de awakening, que, de olhos bem abertos, me fez ver o belo campo-contracampo entre Harrison Ford e Michael J. Fox, o paciente de Parkinson à espera de consulta. O velho grisalho que acabava de chegar à sala de espera da Sierra Madre deixou de ser o Dr. Paul Rhoades: ao lado de Fox estava Ford. Porque, se a condição de Rhoades é ficcional, a de Fox impõe à série a forte interferência, o incómodo do real.

Era eu adolescente quando começou a passar na televisão portuguesa a série Family Ties, (que por aqui se chamou Quem Sai Aos Seus…) em que Michael J. Fox fazia de Alex Keaton, o filho mais velho, meio rebelde, meio obediente. Pouco tempo depois, via-o no cinema (e continuaria a ver, num presente contínuo) no primeiro dos Regresso ao Futuro, o Marty McFly ousado e receoso, espantado por se ver de um tempo para o outro, de filho para potencial pai de si mesmo. E acabaria por continuar a vê-lo, quase nunca nas telas, mas no mundo real, desde que ele tornou pública a doença e se foi afastando dos papéis mais regulares. Em Shrinking, vi-o regressar no tom da trivialidade que dispensa qualquer comiseração. A cena é com Harrison Ford, o grande, e o corpo franzino de Fox não anuncia nenhum milagre, nem sequer a solenidade de uma homenagem: é uma personagem nivelada pelo estar sentado na cadeira de uma sala de espera, a não anunciada reabilitação de ator para fazer o papel que melhor lhe assenta. Bill Lawrence, o criador da série, tê-lo-á convencido a aparecer em mais do que um episódio, e a insistência dá a entender que pretendia mais do que um simples cameo: queria a presença do ator a sublinhar o espaço em que a série poderia afirmar-se. “Fuck Parkinson’s”, a frase que Ford e Fox, ou melhor, Paul e Gerry dizem, a despedir-se, passou a ser um dos lemas de Shrinking e, através dele, percebi que a série cumpria ao mesmo tempo a narração da história e a devolução do lugar de um ator.

Ao longo da minha vida de espectadora, vi como a indústria da televisão e do cinema dava aos atores mais velhos e doentes – quando os integravam, de todo – pouco mais do que papéis de avô simpático, moribundos que desaparecem ao fim de pouco tempo, ou a memória de alguém que já morreu, na trama da narrativa, ou confundindo lembranças (em The Big Bang Theory, que lembrei por estas crónicas, um já entradote Bob Newhart encarna o Professor Proton da infância de Sheldon Cooper, que lhe aparece nos sonhos como o seu Obi-Wan, ou seja, a funcionar para Sheldon como o guia espiritual que o falecido Obi-Wan Kenobi era, em Star Wars, para Luke Skywalker). Quando entram em cena a idade e a doença, e quando quem as interpreta as conhece por dentro, o ecrã deixa de ser um espelho distante e passa a portal escancarado. Gerry não é só o Parkinson’s de Michael J. Fox: é um homem que conversa com outro homem, como se conversa numa sala de espera (talvez muito mais ficção do que realidade: quem é que hoje conversa com desconhecidos em salas de espera…?), sobre os sintomas, os exercícios, as alucinações (para onde atira a Halle Berry, que uma vez pensou ver na banheira com ele), o que se há de fazer com aquela doença. A série não se limita a mostrar uma cena ficcional, mas encena, à minha frente, uma série de perguntas que quero fazer àquele ator, as dúvidas sobre como é a vida dele assim, e as respostas como ele as gostaria de dar.

O pior e o melhor é que a série não deixa de ser a série e Michael J. Fox continua, afinal, a ser um ator: Paul responde “Parkinson’s” à pergunta inicial de Gerry, e devolve-lhe a interrogação: “You?” A resposta não vem de Fox, mas, enfim, de Gerry: “Just a haircut.”, “Só vim cortar o cabelo,” diz, a rir. E, quando Paul vira a cara e faz o trejeito de quem não gostou do que ouviu, ouve o que merece ouvir: “I deserve more of a laugh than that”, que é como quem diz: estou aqui para te divertir, não me leves tão a sério.
