Foi o próprio Yuval Abraham, um dos co-realizadores do filme (com Rachel Szor), que referiu na estreia de Naza (2026) no festival de Veneza, que todas estas histórias que vemos no filme já foram antes contadas e recontadas por jornalistas palestinianos, muitos deles que acabaram por perder a vida no exercício da sua profissão nos últimos anos (mais de 250 desde 2023). Nada disto é novo para o mundo, nada é realmente desconhecido para quem esteja minimamente familiarizado com o que tem estado a acontecer na Palestina. Por isso é compreensível que algumas vozes palestinianas, artistas conhecidos como Kamal Aljafari, Mosab Abu Toha ou Rami Younis, se tenham pronunciado contra a aclamação dada ao filme israelita, porque vem apenas confirmar, mais uma vez, que as histórias quando são contadas por vozes palestinianas são ignoradas, mas que quando repetidas por vozes israelitas, ganham uma validação pelos media ocidentais, ganham honras de primeiras páginas com enorme repercussão mediática, e às vezes são até premiadas. Por comparação, basta pensar como passaram despercebidas as estreias no mesmo festival dos filmes palestinianos Citizen Osama (2026), de Ahmed Hassouna, e Conversation With the Sea (2026), de Muayad Alayan; ou como o filme estreado em Portugal em Setembro de 2025, Put Your Soul on Your Hand and Walk (Com a Alma na Mão, Caminha, 2025) de Sepideh Farsi, e que contava, muito na primeira pessoa, a história do desaparecimento da jornalista palestiniana Fatma Hassona assassinada pelo exército israelita, teve apenas uns míseros 1.418 espectadores em sala; ou ainda como o filme palestiniano de Annemarie Jacir, Palestine 36 (2025), estreado em Portugal em Março deste ano, teve apenas 1.526 espectadores nas semanas que esteve em exibição em sala. Naza contava já, felizmente, com mais de 7.500 espectadores apenas na primeira semana.

Se é natural que tudo isto seja frustrante para um artista palestiniano, já pouco sentido faz usar este mesmo argumento para um potencial espectador ocidental, europeu e português, para escusar-se a ver Naza, porque a culpa do que referi está nos media, nos festivais e organizações culturais, e no próprio comportamento do público, mas nada tem a ver com Naza ou os seus realizadores – ao defender não ver o filme por ser feito por israelitas confirma-se um sectarismo que beneficia apenas quem quer que estas histórias não sejam vistas. Acaba por ser irónico que encontremos nos dois lados que atacam o filme uma sintonia: se de um lado (pró-Palestina) perguntam porque Yuval e Rachel Szor não renunciam então à sua cidadania, à sua família, do lado dos governantes israelitas de extrema-direita, encontramos ameaças de retirar a cidadania aos realizadores. Esta é exatamente uma táctica da extrema-direita e da propaganda israelita: de julgar todos por igual, de generalizar comportamentos e tratar o outro sempre como um inimigo, uma entidade homogénea. Isto é especialmente irónico (e trágico) quando este é precisamente o tema central de Naza e uma das tácticas do exército israelita para justificar ataques indiscriminados a populações civis.
Naza é acima de tudo um filme feito para o interior, para uma audiência israelita, para um público doutrinado e que ignora, muitas vezes de forma consciente, mas também devido a propaganda e meios de comunicação instrumentalizados, os crimes que Israel pratica na Palestina. Porém, exactamente por isso é também um filme para todos os que, de alguma forma, se procuraram afastar ou alienar da realidade da situação, ou até desligarem-se voluntariamente da violência do mundo (isso ainda é possível?). Mas é também um filme para os que têm tido uma visão enviesada do que tem acontecido – para estes especialmente, ver os soldados israelitas afirmarem que têm feito precisamente as coisas que esta facção tem negado, o embate com a realidade que Naza relata será uma experiência intrigante, pelo menos para os que se atreverem a ver o filme. Não admira, portanto, que tenham já existido várias tentativas de silenciar e impedir a exibição do filme: nada é mais sintomático de uma democracia artificial do que tentar impedir as pessoas de verem a realidade; o filme, apesar de ter estreado já em vários países, ainda não é possível de ser visto em Israel, num acto de censura digno de outros países teocráticos.
A exposição que é dada a estes entrevistados em Naza, pessoas altamente educadas e de algumas unidades de elite da hierarquia militar israelita, parece indicar que mais do que casos extremos ou isolados, estes soldados são sintomáticos de uma sociedade doente e moralmente falida, são o produto de um modo de ver o vizinho como uma “coisa” inferior.
O filme usa um dispositivo visual bastante simples, mas que na verdade traz consigo um pensamento complexo, porque essa simplicidade e minimalismo permitem centrar a atenção nas palavras, nos depoimentos que ecoam nesta noite escura perante a escassez de distracções. As imagens que vemos em Naza são filmadas de noite, nos terraços de Tel Aviv, com duas figuras enquadradas pelos arranha-céus vizinhos, e por uma calma aparente: Yuval Abraham, o entrevistador, e um de vinte e quatro soldados do exército israelita, que estiveram envolvidos nas acções em Gaza nos últimos anos e que aceitaram falar sobre as suas experiências. Estes operacionais são filmados sempre com a cara tapada pela escuridão, e com a voz distorcida, de modo a preservar o seu anonimato. Através de uma série de conversas, estes soldados vão relatando, ou melhor, confessando, algumas das práticas nas quais estiveram envolvidos como parte da campanha militar israelita em Gaza desde 2023.
Num notável trabalho de jornalismo de investigação, Yuval é instrumental em guiar as conversas com os soldados, obrigando muitas vezes o locutor a explicitar o que tenta dizer entrelinhas. Um dos soldados explica que era recorrente ouvir os telemóveis de familiares de suspeitos ligados ao Hamas, e que quando ouviam uma criança a dizer “chegou o pai”, era um sinal para atacarem (o programa chamava-se mesmo “Where’s daddy”). Pergunta Yuval, “mas e matavam todos que estavam em casa?”, ao que responde o soldado: “sim, todos”. Noutra ocasião, um sniper explica como disparou sobre alguém porque sentia-se ameaçado; Yuval pergunta-lhe: “sentiste-te ameaçado por alguém que estava numa fila para comida a 200 ou 300 metros de distância?”. Outro soldado explica que era comum bombardear as casas dos suspeitos quando estes regressavam à noite – porque era mais fácil e eficaz, mesmo que assim morressem todos os familiares que habitavam na mesma casa – NAZA é afinal a sigla militar israelita para “danos colaterais”. Outro soldado refere que, quando era mais novo, visitou os campos de concentração na Polónia e se perguntou a si mesmo como seria possível alguém fazer aquilo, e que anos mais tarde se viu envolvido no extermínio indiscriminado de outra população, afirmando ele, “hoje compreendo como é que uma pessoa pode destruir um sítio e voltar para casa (…) ainda considero os nazis maus, mas, e o que sou eu?”. Outro diz simplesmente, sim, nós fizemos um genocídio em Gaza; outro admite que “tínhamos de atacar rapidamente, antes que perdêssemos a legitimidade perante a opinião pública”; um outro soldado refere que estava apenas a seguir ordens, e que se não fosse ele outra pessoa teria feito o mesmo, numa frase que parece retirada dos julgamentos de Nuremberga (outra vez, a banalização do mal). São relatos de formas de encarar outros seres humanos como indignos, são confissões em catadupa que se vão sucedendo, e que são até difíceis de interiorizar no momento imediato, numa torrente de desumanidades.
Ao concentrar-se nos relatos dos soldados, dos agressores e não das vítimas, Naza aproxima-se do que é apelidado de Perpetrator Cinema, uma forma de documentário sobre genocídios que rompe com a tradição ocidental de registar relatos de vítimas e sobreviventes e as suas histórias, e ao entrevistar o perpetrador, ao dar-lhe atenção, provocar um reação do espectador, um confronto com a falta de humanidade destas personagens. Foi algo explorado por exemplo em relação ao genocídio no Camboja e por realizadores como Rithy Panh, mas também talvez de forma mais célebre por Joshua Oppenheimer, no seu The Act of Killing (O Acto de Matar, 2012), em que este acompanhava um militar indonésio que descrevia métodos de tortura e assassinatos em massa, enquanto orquestrava recriações dos eventos para o documentário. Outros realizadores israelitas filmaram histórias semelhantes, também com recurso a entrevistas com soldados israelitas, como Avi Mograbi (este mais próximo da denúncia política), ou Ari Folman, com Vals Im Bashir (A Valsa com Bashir, 2008), sobre a invasão do Líbano em 1982. Outro exemplo mais recente, e também de um realizador israelita é o documentário Tantura (2022), de Alon Schwarz, que entrevista diversos soldados israelitas veteranos envolvidos no massacre em 1948 da aldeia palestiniana com o nome do filme, com os soldados, sem necessidade de esconder a cara e às vezes exibindo um sorriso, a proferir diversas afirmações repugnantes.




Estes filmes, ao centrarem-se em depoimentos dos agressores, procuram de certa forma perceber como os intervenientes vêem o seu papel na história e talvez tentar perceber as condições e como estas pessoas foram capazes de fazer o que fizeram (até embaterem de frente num muro da impossibilidade de entenderem ou justificarem as diferentes atrocidades, especialmente presente em The Act of Killing; neste podcast sobre Naza, Joshua Oppenheimer descreve mesmo como na Indonésia o seu filme levou a um revivalismo e celebração dos massacres). Mas se nestes filmes do Perpetrator Cinema, apresenta-se muitas vezes estas figuras como excepções, como monstros, como erros históricos que é preciso evitar que aconteçam de novo, em Naza o objectivo em ouvir os agressores parece ser diferente: primeiro, mais do que perceber as suas motivações, há uma necessidade evidente na denúncia, pela urgência de parar algo que ainda está a decorrer (aqui não há a distância temporal que existe noutros filmes). Mas além disso, a exposição que é dada a estes entrevistados em Naza, pessoas altamente educadas e de algumas unidades de elite da hierarquia militar israelita, alguns deles que até se podem considerar de valores progressistas, parece indicar que mais do que casos extremos ou isolados, estes soldados são sintomáticos de uma sociedade doente e moralmente falida, são o produto de um modo de ver o vizinho como uma “coisa” inferior – o problema não está numa pessoa particular, mas no todo da sociedade israelita.
Ao longo do filme, nos depoimentos, há uma certa desresponsabilização pessoal e distanciamento na forma de ver as coisas por causa da mediação através dos ecrãs: dos monitores dos computadores, dos telemóveis, dos televisores; que o distanciamento físico de quem carrega num botão para enviar um drone bombardear um apartamento cheio de crianças é mediado por um ecrã, e que esse ecrã os separa do que está a acontecer (como refere um dos soldados, “era como um videojogo, e às vezes muito divertido”). Também o uso de Inteligência Artificial é usado como desculpa (“foi o sistema que escolheu o alvo”), um camada extra de distanciamento que permite carregar no gatilho sem consciência pesada, esquecendo-se que quem define os parâmetros do sistema é um humano. Também nós, como espectadores distantes que assistimos às imagens deste genocídio, mediado através de ecrãs, podemos sentir que isto se passa longe, podemos mudar de canal ou de app quando se torna desconfortável – é essa desresponsabilização e desligamento do espectador que o filme parece também alertar.
Por isso, esta escolha consciente e deliberada de alheamento, de alienação e autoafastamento em relação ao massacre dos palestinianos que decorre ainda hoje, é reflectida de forma brilhante na maneira como a (direção de) fotografia de Rachel Szor regista os intervalos entre conversas, com a câmara a percorrer as fachadas dos apartamentos em Tel Aviv nestes arranha-céus, onde vemos o chegar da noite nas vidas quotidianas da população israelita: pessoas no seu telemóvel, televisões ligadas como barulho de fundo, momentos de descontração, em que não entram as imagens da violência em Gaza, em que os mortos e os órfãos e a fome e o mergulho nas trevas da humanidade que ocorrem a apenas 60 km de distância não entram (por isso também, um momento notável do filme, quando mostra brevemente um ciclo na Cinemateca Israelita dedicada a Claude Lanzmann e ao seu documentário sobre o Holocausto – será que ninguém aprendeu nada, será que ninguém viu esse filme?).
Estes retratos do anoitecer nos apartamentos são uma imagem-espelho perfeita da alienação que permite que tudo isto continue, um golpe de génio de Naza: perante estes depoimentos, como é que uma sociedade adormece assim e encara a noite desta forma pacífica. Sobre o filme anterior de Yuval Abraham e Rachel Szor, No Other Land (2024), corealizado com os palestinianos Basel Adra e Hamdan Ballal, escrevi que “Este é um filme perigoso, porque nos mostra o que não é suposto vermos, uma realidade que sobrevive nestas imagens que são gravadas contra ordens e tentativas de as destruir (…) Porque nos lembra o falhanço de todos que permitem que isto continue a acontecer”. Com Naza, Yuval e Rachel vão ainda mais longe: este é um gesto tremendo, um olhar acusatório e poderoso sobre toda uma população silenciosa, como se o filme tentasse acordar alguém de uma letargia cúmplice. E se o cinema é a luz na escuridão, que este filme permita então fazer alguma luz sobre as trevas: Naza é um documento inestimável, um registo histórico de extrema importância que deve ser visto e revisto, que grita contra a impossibilidade da indiferença, perante o apagamento da nossa própria humanidade.
★★★★☆
