Pode ser visto como algo simplista, ou uma espécie de exercício pouco complexo, fazer um filme a partir quase só de imagens gravadas de conversas de videochamadas, mas na verdade Put Your Soul on Your Hand and Walk (Com a Alma na Mão, Caminha, 2025) é extremamente rico e delicado naquilo que consegue mostrar a partir de material escasso. Desarmante e comovente, este documentário acompanha uma série de conversas à distância entre a realizadora iraniana Sepideh Farsi e a fotógrafa palestiniana Fatma Hassona, que além das videochamadas usa habilmente outros materiais, como as fotografias de Fatma, as mensagens trocadas entre as duas, ou excertos noticiosos que Sepideh vai incluindo para estabelecer a passagem do tempo – e a deterioração das condições da vida em Gaza, porque é impossível olhar para este filme sem ter presente a realidade dos últimos tempos.

Muitas vezes complicadas pelas dificuldades técnicas das falhas de rede por causa da internet bloqueada na Palestina, as conversas entre as duas são reveladoras do desenvolvimento da relação entre elas, de uma aproximação sensibilizante, mas são também o retrato possível da vida em Gaza perante um cerco que impede a entrada de testemunhas exteriores. Sepideh, exilada no estrangeiro, depois de em 1984 ter passado oito meses numa prisão no Irão, e efectivamente banida depois da estreia em 2009 do seu documentário filmado clandestinamente com um telemóvel, Tehran bedoune mojavez (Tehran Without Permission, 2009), começa o filme com a sua vontade em entrar em Gaza em 2024, como já tinha feito antes, mas é algo que lhe é vedado, como ao resto do mundo. É preciso então, é urgente, dar voz e espaço a quem lá está para contar o seu lado, e Sepideh encontra em Fatma uma janela possível para um mundo que parece ao mesmo tempo tão distante e impossível, quanto se torna próximo quando as imagens da sua destruição e morte nos invadem quase em tempo real os ecrãs de telemóvel e os noticiários.
Se essas imagens que chegam de uma Gaza onde não é permitido entrar parecem gestos de rebelião possível contra bloqueios e censuras, contra o apagamento de uma história e de um povo, este registo das conversas entre Sepideh e Fatma são – e como diz a realizadora iraniana, cada conversa podia ser a última – cada uma delas um pequeno milagre, uma prova de vida. Através das conversas, especialmente no início, é notório que Sepideh se confronta com a dificuldade não só da distância, mas do que dizer – e como mostrar empatia – a alguém a viver um ataque violento sob a forma de um isolamento físico, mas também mental. Cada vez que a ligação falha e a conversa entre as duas fica suspensa, do lado de cá, de Sepideh compreendemos a frustração, mas também imaginamos o desespero de Fatma, que a cada interrupção, consegue imaginar uma espécie de abandono, de esquecimento. Este acaba assim por ser um encontro de vontades: de um lado, Sepideh quer mostrar, mesmo que de forma precária, uma vida naquelas condições, mas também humanizar a figura do outro lado do telemóvel; para Fatma, estas conversas ganham também um significado enorme, são uma lembrança de que não está esquecida, que existe algo além da uma vida de luta de sobrevivência, que há alguém a ouvir, atento.
Aos poucos vamos entrando na vida de Fatma (e isso é graças à curiosidade e habilidade de Sepideh), conhecendo alguns membros da família que espreitam curiosos para o telemóvel, percebendo as limitações da sua rotina devido ao cerco israelita e bombardeamentos aleatórios, a escassez de alimentos, a falta sequer de uma qualquer normalidade. Fatma fala sobre isso tudo, sobre uma vontade de regressar a um tempo de uma outra vida, sobre como isso se reflete no seu trabalho como fotógrafa, como sentiu a necessidade de passar a registar com a sua câmara o que está a acontecer à sua volta, de retratar as perdas e destruições diárias. Fala também sobre a responsabilidade que sente, de representar um povo através do seu trabalho, das suas palavras, e por isso mantém um sorriso inabalável, simbólico de uma surrealidade de sentir como é possível tudo isto estar a acontecer, a ser documentado para o mundo inteiro, sem que isso mude qualquer coisa.
É inegável que algumas das perguntas ou comentários de Sepideh, na sua tentativa de perceber o ponto de vista de Fatma, são por vezes desajustadas, ou no mínimo problemáticas. Isso acontece por exemplo quando questiona a fé de Fatma, quando diz algo como ser mais fácil encarar uma tragédia se acreditarmos que existe algo divino por trás, como se houvesse alguma fácil ali, mas este comentário permite a Fatma falar sobre o seu orgulho palestiniano, de explicar como sente que esta é mais uma prova de resiliência, de que no final só tudo valerá a pena porque não têm nada a perder, e que nada disto é novo. Da mesma forma, quando Sepideh pergunta a Fatma sobre o seu uso de hijab, se é algo que lhe é imposto, está a falar de um lugar de ignorância (e devia saber melhor do que isso), mas mais vez, mesmo que de forma inconsciente, acaba por funcionar como algo pedagógico, já que Sepideh coloca-se no lugar do espectador ignorante e permite mais uma vez a Fatma explicar que sim, existem mulheres na Palestina que não usam hijab, que ela o faz por escolha religiosa, por convicção (o seu cuidado recorrente com o seu hijab acaba aliás por tornar-se um traço enternecedor de personalidade) – este espaço que o filme permite a Fatma revela-se importante.
Sepideh parece interessada em perceber a forma como Fatma vê o mundo à sua volta, em particular numa sociedade onde também a informação é controlada, ao perguntar-lhe a sua opinião sobre o que aconteceu a 7 de Outubro (de forma notável, a sua resposta é interrompida por tiros de um helicóptero a sobrevoar perto), ou ainda sobre o que pensa sobre o novo líder do Hamas, Yahya Sinwar (escolhido como líder em Agosto de 2024, e assassinado em Outubro do mesmo ano). Como vimos no recente filme do palestiniano Mahdi Fleifel, To a Land Unknown (A Uma Terra Desconhecida, 2024), é importante não santificar os palestinianos, mostrar a complexidade da sua existência em termos concretos e não abstratos, para assim mostrar a sua humanidade, a sua real proximidade. Mas percebemos também que essa curiosidade de Sepideh sobre como Fatma pode ser influenciada por uma escassez de informação, por exemplo em relação ao que acontece no Irão, funciona também porque a Sepideh interessa-lhe estabelecer um paralelo entre Gaza e o seu país de origem. Quando esta conta a Fatma que esteve presa no Irão, ou que não pode regressar ao seu país sob pena de ser presa, Fatma reage com surpresa, porque a ela não chegam as notícias da repressão no Irão. Mas Sepideh procura também assim trazer a repressão, opressão violenta e perseguição política e étnica de Israel para esta conversa, ao equivaler a forma como o regime iraniano e israelita atuam, como usam a violência – e dessa forma estabelecer uma linha direta entre o destino de Palestina e o Irão, que a liberdade de um está ligada ao outro. Como afirmou recentemente em entrevista ao Público, Sepideh perdeu uma amiga em 1981, torturada e assassinada após protestos contra o regime iraniano, e agora, com Fatma, volta a perder alguém próximo: “Foi muito estranho acontecer a mesma coisa quarenta e tal anos depois: uma pessoa foi-me retirada pelo regime iraniano, outra pelo Governo israelita.”
Put Your Soul on Your Hand and Walk é uma prova do mundo em que existimos hoje, e perante uma indiferença coletiva, esta é uma lenta despedida à nossa humanidade.
O filme levanta também algumas questões éticas (como qualquer bom documentário, diga-se) que é necessário considerar. Em primeiro lugar, poderá a própria existência do documentário, ou a sua divulgação em festivais, ter colocado Fatma em perigo? A verdade é que Fatma foi assassinada a 16 de Abril de 2025, exatamente um dia depois do filme ter sido anunciado no Festival de Cannes. Se Sepideh ainda se confronta com o que aconteceu (e refere também que Fatma estava já a ser vigiada, por entrevistas que tinha dado nas semanas anteriores), esta é uma questão nula, porque seria colocar a responsabilidade do que aconteceu no lugar da vítima – o exército israelita é o único responsável pela morte de Fatma, tal como quando assassinou outros jornalistas como Anas Al-Sharif, ou mais recentemente no ataque ao Hospital Nasser que matou cinco jornalistas – a diferença é que com este filme temos um registo que nos permite conhecer algo da vida de Fatma, e continuar a ouvir a sua voz pelo mundo; a alternativa a não expor Fatma seria compactuar com as intenções de censura israelitas, a protege-la através de um qualquer obscurecimento, o que iria contra as intenções da própria (ver o artigo no The Guardian: “If I die, I want a loud death”). Uma segunda questão tem a ver com a ideia de oportunismo associado ao filme, uma consideração refutada pelo trabalho anterior de Sepideh, das suas visitas anteriores a Gaza, e também pelo contexto atual, que todos os dias comprova a necessidade de expor os crimes de Israel, de tentar chegar à maior audiência possível, expondo-a à irrefutabilidade desta realidade. Teria o filme um impacto diferente caso Fatma não tivesse sido assassinada? Esta é outra vez uma outra questão sem efeito, já que a intenção de Sepideh seria ter Fatma a apresentar o filme consigo em Cannes, dar-lhe uma plataforma maior para continuar a contar a sua história – isso só não acontece devido às acções do exército israelita, que além de controlar as fronteiras de Gaza, acaba por bombardear a casa onde Fatma está refugiada com o resto da sua família.
Uma última questão neste âmbito relaciona-se com a comparação feita pela própria Sepideh entre o seu exílio, e a situação de Fatma, isolada em Gaza do resto do mundo. É uma equiparação que parece esquecer o privilégio de Sepideh, a viajar entre países a promover o seu filme anterior, enquanto conversa com Fatma. Mas esta é a vez de nos colocar-nos no lugar de Sepideh, de encarar o absurdo desta realidade, em que é possível estar a falar com alguém numa situação sem saída, com alguém que não come uma refeição normal há meses, e depois ir escolher o que fazer para o jantar, ou onde ir passar as férias. Esta dissociação entre realidades, entre dois diferentes mundos, é continuamente reforçada pelo filme, exemplificada pela barreira física do ecrã de telemóvel onde assistimos, na nossa intimidade e quotidiano, ao resto do mundo (e ao fim do mundo). Este é um absurdo partilhado por todos, uma surrealidade de frustração e impotência, que é exacerbada pela tecnologia, que funciona para nos convencer da inevitabilidade que leva à apatia, e a aceitar a normalização (através da repetição anestesiante) de imagens chocantes – porém, como somos recordados cada vez que Fatma reaparece brevemente, só a quem vê à distância é permitido o desalento, já que quem lá está não tem essa possibilidade.

Quando não há hipótese de estabelecer ligação com Fatma, isso aparece como uma forma de abandono, de embate com a possibilidade da sua mortalidade, e Sepideh recorre a outros materiais para preencher esse vazio – os sons dos bombardeamentos sob um fundo negro são particularmente efetivos, tal como as fotografias de Fatma ajudam a compor um retrato da vida nas ruínas de Gaza. Porém, é quando Sepideh cola uma música gravada por Fatma por cima dessas imagens, já perto do final, que o filme atinge o seu momento mais comovente (“o meu coração e os meus olhos viram tanto / e porém, tão pouco”). Os últimos minutos são de uma tristeza enorme, ao repararmos na progressiva deterioração física e mental de Fatma – começa a perder a concentração ao falar, a energia do início desaparece, os seus desejos passam de querer viajar, visitar Roma, a poder comer um bocado de frango, um pedaço de chocolate, a poder ficar no mesmo sítio sem ter de mudar constantemente, a ter um quarto próprio.
Ao chegarmos perto das últimas conversas, ao ficarmos por vezes com a imagem parada de Fatma quando a ligação se perde, somos lembrados da obra de Laura Mulvey, Death 24x a Second: Stillness and the Moving Image, na qual Mulvey escreve sobre o confronto do cinema com a mortalidade, de como o objeto filmado é capturado num momento passado que nunca mais voltará e como a câmara imortaliza esses objetos, criando assim uma história de fantasmas. Mulvey escreve também sobre como a tecnologia digital permitiu que o cinéfilo pause um filme num certo momento, criando uma imagem parada que reflete um registo do tempo desaparecido – a imagem capturada é tanto um traço da vida como uma memória da passagem do tempo. Se era a tecnologia que nos permitia parar a imagem, transformá-la noutra coisa, aqui é a tecnologia, e a censura e o bloqueio dessa tecnologia, que fixa a imagem, que a eterniza, que nos deixa com a morte, com a imagem parada de Fatma quando a ligação se perde, com a imagem de Fatma no poster do filme, são as suas fotografias que pontuam o documentário, são os 113 minutos do filme que permitem que ela continue a viver.
Se fosse possível imaginar fazer uma ligação a alguém que estava preso em Auschwitz ou Dachau, falar com ela e acompanhar a deterioração do seu estado físico e mental, mostrar isso, será que faria alguma diferença em relação à reacção do mundo perante o que estava a acontecer? Se fosse possível por exemplo em 1943 mostrar ao mundo o que estava a acontecer através de um documentário, será que mudava alguma coisa? Não é preciso imaginar isso, porque Put Your Soul on Your Hand and Walk é uma prova do mundo em que existimos hoje, e perante uma indiferença coletiva, esta é uma lenta despedida à nossa humanidade.
★★★★☆
