O efeito da nostalgia é sempre poderoso. Especialmente para um espaço como o da videolocadora, que quase inexiste nos dias de hoje. Ainda há algumas espalhadas pelo mundo, como a Scarecrow em Seattle, espaços de exceção que se orgulham dos seus grandes acervos e, hoje em dia, voltados para um público bem selecionado. Locadoras são espaços de consumo e fetiche, o que as torna irresistíveis para quem quer olhar para trás. Um espaço que, na sua raridade, hoje serve naturalmente a este apelo nostálgico.

Recentemente, o cineasta americano Alex Ross Perry lançou um filme-ensaio chamado Videoheaven (2025) sobre locadoras. São cerca de duas horas e meia estruturadas em torno de cenas passadas em locadoras, explorando as evoluções dos significados delas como lugar, de um espaço de estranhamento no começo dos anos 80 até sua normalização e retorno ao mesmo local estranho quando elas começam a se tornar uma exceção. Todo um ciclo de vida de um negócio quase extinto. Em certo ponto, ele traz um thriller erótico obscuro chamado Double Cross (Dupla Traição, 1994), no qual o protagonista era dono de uma locadora. Mas o filme não o usava para qualquer sacada cinéfila dentro do texto – pelo contrário, era um negócio e uma locação. Eu era um adolescente no meio dos anos 90, mas me parece mesmo um momento de pico de locadora como um espaço público banal, um comércio como tantos outros que uma cidade média teria.
Videoheaven me parece longe de um grande filme ou ensaio. Ele é calcado de forma bem direta em Los Angeles Plays Itself (Los Angeles Por Ela Mesma, 2003) do crítico e cineasta Thom Andersen, sobre representações de Los Angeles no cinema americano. Perry não é um crítico sofisticado como Andersen (ele credita um livro, Videoland – Movie Culture at the American Video Store, de Daniel Herbert, como fonte principal de inspiração) e, enquanto eu estou muito interessado no que Los Angeles tem a dizer, independentemente de eu gostar ou não dos filmes ou concordar com os argumentos de Andersen, isso raramente acontece no filme novo. Ele me parece bem mais feliz como uma ponte que nos permite pensar aquele espaço, do que no que ele próprio tem a dizer sobre o mesmo. Acaba também conseguindo ser uma experiência mais americana do que o filme sobre a cidade mais associada à indústria de cinema local, mal deixando as fronteiras e olhares internos do país. É impossível, porém, diante dele, não pensar na locadora como um local, ao menos para mim, que tanto tempo passei dentro delas.

Devo minha cinefilia muito às locadoras. Sobretudo como um rito social. Era hábito dos meus pais irem comigo à locadora na sexta à noite, quando chegavam do trabalho, e, com o tempo, isto se tornou uma das etapas mais importantes da minha semana. Meu pai sempre gostou muito de tecnologia e nós tivemos um videocassete quando eles ainda não eram muito comuns, em meados dos anos 80. Então o ato de ir à locadora passou a significar “o começo do fim de semana”, e se tornou parte da minha infância. Lembro-me de meu pai locar um filme japonês chamado Satomi hakken-den (A Lenda dos Oito Samurais, 1983), achando que se tratava de uma sequência de Shichinin no samurai (Os Sete Samurais, 1954) de Kurosawa, e ficar irritadíssimo. Sei que passei anos tentando descobrir de que filme se tratava e fiquei agradavelmente surpreso quando soube que era um filme de Kinji Fukasaku. Alguns anos atrás, quando revi, descobri que me lembrava de quase tudo que acontecia na missão final, a despeito de ter uns 5 ou 6 anos quando assisti com o meu pai.
Não quero reduzir o assunto a mera nostalgia, mas me parece difícil não tocar um pouco na minha formação. A parte mais feliz do filme de Perry é quando ele trata da locadora como um espaço público, um local que adquiria importância para a comunidade para além da cinefilia. Eu adorava filmes desde muito novo, mas eu também adorava o ato de ir à locadora. Deslocar-me até lá, passar muito tempo nos corredores, examinar caixa por caixa, procurar por algo elusivo que eu nunca sabia bem o que era. À medida que entrei na adolescência, o tempo que eu passava nelas aumentava. Havia três locadoras maiores na minha cidade natal e eu devo ter conferido uns 70% do acervo não erótico delas. Quando eu entrei no segundo grau, eu costumava ganhar o prémio de cliente do mês de uma delas todos os meses (duas locações gratuitas; alguém ali sabia fidelizar os clientes), o que em retrospecto é meio absurdo, considerando que eu frequentava outras também.
Hoje reclamamos muito de cinefilia em redes sociais, e de como às vezes as pessoas parecem se importar mais em logar filmes no Letterboxd ou mencionar o que viram nas redes do que com os filmes em si, mas creio que este aspecto social sempre esteve no pacote da cinefilia de formas diversas. Uma delas era este gesto de ir às locadoras. Meu prazer com o espaço físico da locadora tinha certamente alguma relação com isso. A cultura de locadora, é sempre bom lembrar, não era necessariamente algo bem-visto quando era popular. Tenho certeza de que havia muitos cinéfilos em meados dos anos 90 que viam um garoto de 15 anos como eu como “um inimigo”. Uma grande vulgarização e mercantilização do cinema. Más vontades e conflitos geracionais à parte, é certo que este olhar tinha alguma razão.
Videoheaven é um filme no retrovisor. Uma autópsia de um espaço comunitário extinto. O presente é uma quase completa ausência. Não há nada sobre as locadoras que ainda resistem ou sobre a cultura de colecionador que as substituiu. O presente é um vazio, um eco nostálgico.
Videohaven cataloga bem a relação negativa que o cinema mantinha com as locadoras. Muitas cenas de personagens irritadíssimos quando devolviam fitas e recebiam avisos de cobranças por atrasos e/ou fitas não rebobinadas. Talvez fosse por eu ser um adolescente que dedicava uma parte considerável do meu orçamento à locação de filmes, mas não me lembro de jamais ser cobrado de nada. É um paradoxo que o mercado de home video se tornou essencial para o cinema (podemos dizer que muitos dos problemas dos últimos 15 anos do cinema mainstream derivam do colapso dele), mas que o local onde se ia locar/comprar filmes era frequentemente mostrado como um espaço desagradável.
O filme tem longas passagens sobre como os atendentes eram frequentemente apresentados como figuras desagradáveis e esnobes. Não me lembro de alguma vez algum deles resolver dar sua opinião sobre algo que eu locava e, como eu não era dado a pedir recomendações, pouco sabia o que eles pensavam. Tive alguns amigos que trabalharam em locadoras. Um deles, eventualmente, comprou a loja quando seus patrões resolveram se desfazer dela e a manteve aberta até bem depois da Netflix começar a torná-las inviáveis. Costumava me divertir com os causos que ele contava, ou de quando ele inventava de fazer algo como comprar Shoah (1985) para ver e deixar na loja. Se uma ou duas pessoas locassem, afinal, abatia no que ele pagou.
Locadoras, de um modo geral, sempre foram um espaço de relação casual com o cinema. Meu caráter passional era certamente uma exceção, e é fácil perder a noção disso às vezes. É um dos elementos curiosos do filme de Perry como ele documenta a má vontade da indústria para com os seus espectadores mais fiéis, a cinefilia sempre aparecendo como algo doentio que um espaço como o da locadora ajudava a cultivar e que existia em contraste com a relação mais anódina da maioria dos seus frequentadores. Algo que, inclusive, é recorrente nas cenas escolhidas, independentemente do orçamento do filme. Fico a pensar que uma das dificuldades da indústria hoje é que este espectador mais passional, que era um detalhe nos anos 90, tem um peso muito maior quando os espectadores casuais se ocupam cada vez mais de outras atividades, e ninguém ali jamais soube muito bem como lidar connosco. Éramos agradados por acidente e tolerados, mas somos boa parte do público que restou.
Videoheaven é um filme no retrovisor. Uma autópsia de um espaço comunitário extinto. O presente é uma quase completa ausência. Não há nada sobre as locadoras que ainda resistem ou sobre a cultura de colecionador que as substituiu. O presente é um vazio, um eco nostálgico. O filme é narrado pela atriz Maya Hawke, associada à série da Netflix, Stranger Things (2016-2025), na qual ela interpretou uma balconista de locadora, e te mantém muito consciente disso. Perry até abre o filme com a versão modernizada de Hamlet (Hamlet: Vingança e Tragédia, 2000), na qual o pai dela, Ethan (Hawke), interpreta o príncipe cujo monólogo de ser ou não ser acontece nos corredores de uma Blockbuster. Para o realizador Michael Almereyda, o local servia de comentário para a banalização e mercantilização do presente. 25 anos depois, ele registra com a distância de algo que não existe mais.

Perry levanta que o último filme de Hollywood com uma cena em locadora é This Means War (Guerra é Guerra), uma comédia romântica de 2012. A cena com os atores Reese Witherspoon e Chris Pine flertando enquanto falam sobre Hitchcock está no YouTube, para ficarmos em espaços que ajudaram a enterrar as locadoras. Perry comenta que o roteiro estava circulando há anos na indústria antes de ser finalmente produzido e ninguém se preocupou em atualizar a cena para outro espaço. Em 2012, locadoras ainda eram reconhecíveis o suficiente e, ao mesmo tempo, uma cena tão casual soava fora do tempo.
Da minha parte, minha coleção de mídia física segue crescendo, em parte porque trabalho regularmente escrevendo artigos para encartes de DVD/Blu-rays, para selos de butique para o mercado de colecionador, e eles me enviam os seus lançamentos. Creio que a última vez que usei meu videocassete, que segue lá no armário, foi em 2013. Escrevia um artigo sobre o cineasta Larry Cohen e não consegui achar um filme para TV de 1995 chamado As Good as Dead, mas calhava de eu ter um VHS que comprei usado em algum ponto, então busquei o aparelho e assisti a um VHS. Eu não sinto nenhuma falta de ver aquelas fitas, mas sinto do espaço da locadora em si, e do ato de manipular todas aquelas caixas à procura de algo que só reconheceria quando visse. É um ato social da cinefilia que não desapareceu exatamente, mas se transformou em outra coisa, e a sua forma original ainda tem um significado para mim.
