O Teatro Jordão encerrou a sua atividade de exibição de cinema em dezembro de 1993, poucas semanas depois de completar 55 anos de atividade ininterrupta. Semanas antes, numa tentativa de sensibilização da sociedade vimaranense, a associação Muralha organizava um colóquio com Isabel Alves Costa sobre o tema “A importância de uma Casa de Espectáculos enquanto espaço cultural”. Apesar de se destacar como sala de cinema, o Teatro Jordão foi muito mais que isso, apresentando à comunidade diversos espetáculos culturais e artísticos, assim como memoráveis comícios cívicos e políticos.

A génese desta sala remonta a novembro de 1936, quando a imprensa local noticiou uns rumores de que o empresário Bernardino Jordão (1868-1940), que detinha a importante concessão da energia elétrica na cidade, estaria disposto a construir de raiz uma nova sala de espetáculos na cidade. A hipótese era particularmente sensível para o orgulho vimaranense uma vez que a cidade não dispunha de uma sala permanente desde julho de 1935, obrigando os cinéfilos vimaranenses a “engolir o orgulho” e a fazer envergonhadas “excursões cinéfilas” a Fafe, Braga ou Vizela (então ainda parte do concelho).
O empresário confirmaria o rumor em janeiro de 1937 e as obras arrancariam em meados do mês seguinte, sob coordenação do engenheiro e arquiteto Júlio José de Brito, que era uma aposta segura porque havia já desenvolvido diversos projetos relevantes na cidade do Porto, nomeadamente a construção do Teatro Rivoli (1929-1932), a Livraria Figueirinhas ou a Confeitaria Ateneia.
Para além do valor económico do investimento, a nova sala de espetáculos seria também um importante trunfo político para o empresário junto da opinião pública, uma vez que mantinha vários conflitos com as autoridades públicas locais a propósito da possível municipalização da energia elétrica. A Comissão Administrativa da Câmara retaliou e colocou diversas dificuldades à construção do cineteatro, mas a pressão da comunicação social local e a mobilização popular fê-los recuar. A opinião pública reforçava que, graças ao empresário, Guimarães iria voltar a ter uma casa de espetáculos que dignificava o estatuto da cidade.

Na véspera da inauguração, a 19 de novembro de 1938, um ofício da Câmara Municipal de Guimarães informava a empresa responsável pela casa de espetáculos que “por ordem telefónica agora recebida devem V. Ex.as enviar imediatamente ao Inspector dos Espectáculos uma lista de quatro nomes de vultos de relevo histórico nacional a fim de que, dentre eles, possa Sua Ex.ª o Snr. Ministro da Educação Nacional escolher aquele que deva servir de patrono à casa de espectáculos de que V. Exªs. são proprietários.”
Para além dos conflitos com o poder local, Bernardino Jordão tinha também uma relação passada com o Reviralho, movimento oposicionista republicano. Bernardino Jordão foi detido pela polícia política (PVDE) no dia 6 de abril de 1938 “para averiguações” e foi restituído à liberdade no dia 24 de agosto seguinte. Voltaria a ser detido pela PVDE a 7 de junho de 1939, sendo julgado e absolvido pelo Tribunal Militar Especial e restituído definitivamente à liberdade a 27 desse mesmo mês.
Apesar de contrariado, o empresário terá cedido à renomeação do cineteatro por extrema consideração à figura do arqueólogo e filantropo Francisco Martins Sarmento (1833-1899), com quem tinha mantido uma relação de amizade. A solução passou então por colocar uma lona que encobria a fachada do edifício com a designação Teatro Jordão e que, simultaneamente, ostentava a designação Teatro Martins Sarmento. Polémicas à parte, a inauguração solene do Teatro Martins Sarmento decorreu no dia 20 de novembro de 1938, com uma pomposa cerimónia pública onde compareceram todas as autoridades locais e mesmo algumas nacionais, representantes da sociedade civil, concelhia e figuras eclesiásticas. A Companhia do Teatro Nacional Almeida Garrett apresentou um programa vicentino onde pontificavam os ilustres e reputados Amélia Rey Colaço, João Vilaret e Lucília Simões.
Quatro dias após a inauguração do edifício, deu-se a estreia cinematográfica com uma sessão que tinha como principal atração o filme Kidnapped (Vou ser raptada, 1938, Otto Preminger). À semelhança dos cineteatros do resto do país, os preços praticados acentuavam as diferenças socioeconómicas do público cinéfilo vimaranense: com capacidade total para mais de mil espectadores, a sala disponibilizava 680 lugares na plateia, 376 lugares no balcão e 180 lugares nas 14 frisas e 16 camarotes (um reservado para a empresa e outro reservado para as autoridades).

No dia 23 de maio de 1940, a notícia da morte de Bernardino Jordão, com 72 anos, rapidamente se espalhou pela cidade e arredores. Após várias diligência e pressões políticas locais, a autorização para repor a designação original do cineteatro chegaria em novembro desse ano, por altura do segundo aniversário do funcionamento da sala. As sessões de cinema funcionavam preferencialmente aos domingos e quintas-feiras, salvo exceções festivas (feriados) ou filmes especiais (cujas cópias eram mais solicitadas), como aconteceu em janeiro de 1939 com o tão aguardado Snow White and the Seven Dwarfs (A Branca de Neve e os Sete Anões, 1937, estreado em Portugal em novembro de 1938), que teve duas sessões especiais marcadas para quarta e quinta-feira. A partir de 1943, a sala passou a realizar sessões regulares também às terças-feiras. A partir de 1945, a sessão de terça-feira passou a realizar-se às quartas-feiras e a de quinta-feira às sextas-feiras.
Em geral, os filmes mais esperados pelos cinéfilos eram também os últimos a chegar aos cinemas de cidades de pequena e média dimensão como Guimarães. Com um mercado distribuidor e um parque exibidor concentrados em Lisboa, era nas salas da capital que os filmes registavam os mais significativos resultados de bilheteira. Gone with the Wind (E Tudo o Vento Levou, 1939, Victor Fleming) é um caso excecional: estreado mundialmente em dezembro de 1939 (Atalanta, EUA), o filme estrearia em Portugal apenas quatro anos depois, a 21 de setembro de 1943, com um período de um ano de exclusividade no Cinema São Luiz. Entretanto, percorreu um restrito circuito de cinemas em algumas cidades e não chegou sequer a ser exibido em Guimarães; em Braga, por exemplo, o filme só seria exibido em novembro de 1950.
Não deixa de ser surpreendente que, dos 44 filmes mais visto na primeira década de funcionamento do Teatro Jordão, 28 fossem portugueses. Até 1942, os filmes portugueses eram geralmente exibidos, pelo menos, em três sessões (uma sessão em matiné e soiré no primeiro dia, geralmente ao domingo, e uma última sessão extraordinária na noite seguinte), com um desfasamento em relação à estreia que poderia variar entre um e seis meses. O filme mais visto neste período foi mesmo Amor de Perdição (1943), de António Lopes Ribeiro, com um total de 5.233 espectadores ao longo de 6 sessões, em dezembro de 1943, seguido da curta-metragem Guimarães, Alma duma Cidade (realizado por Mário Coelho e produzido pela lisboeta Cine-Rádio, auto-anunciado como “o primeiro documentário português gravado com som directo”), que somou 4.694 espectadores ao logo de cinco sessões, em outubro de 1947. Em janeiro de 1952, o recorde de bilheteira seria batido pelo filme português Senhora de Fátima (1951, Rafael Gil), que totalizou 5.396 espectadores em seis sessões.
Nos primeiros cinco anos de funcionamento, o Teatro Jordão conseguiu duplicar o número de espectadores: 66.168 em 1939 para 125.269 em 1943. O triénio 1943-45 é fulgurante também na média de espectadores por sessão ultrapassando ou rondando os 600 bilhetes vendidos por sessão. Durante as três primeiras décadas de funcionamento, o Teatro Jordão foi a principal sala de espetáculos da cidade, com uma polivalência (o palco tinha 25,5m de largura por 18m de altura, com 12m de boca de palco) que lhe permitia acolher diversas tipologias de espetáculos: teatro, música, ópera, circo e variedades.

Em abril de 1955, o público vimaranense conheceu as potencialidades tecnológicas do CinemaScope, um formato que se popularizou em todo o mundo entre 1953-1967 e que revolucionou a exibição cinematográfica, através do filme Knights of the Round Table (1953, Richard Thorpe). Nos meses e anos seguintes, chegariam outras atrações tecnológicas: SuperScope chegou com Son of Sinbad (1955, Ted Tedzlaff); o VistaVision com The Glenn Miller Story (1954, Anthony Mann); o MetroScope com Blackboard Jungle (1955, Richard Brooks); ou o CinemaScope 55, com Carousel (1956, Henry King).
A partir de maio de 1958, o Teatro Jordão passaria também a ser a sala de cinema onde o recém-criado Cineclube de Guimarães exibiu os seus filmes até 1971. A sessão inaugural, para além a apresentação de Joaquim Santos Simões e de uma palestra do arquiteto Mário Bonito (Cineclube do Porto), incluiu a projeção do filme The Captain’s Paradise (1953, Anthony Kimmins), uma comédia britânica protagonizada por Alec Guinness e Yvonne De Carlo. As sessões regulares só começariam em fevereiro do ano seguinte, com Ladri di biciclette (Ladrões de Bicicletas, 1948, De Sica) e Modern Times (Tempos Modernos, 1936, Chaplin).

Entretanto, a 28 de maio de 1958, a comissão de concelhia da candidatura presidencial do general Humberto Delgado organizou um comício no Teatro Jordão que, com lotação esgotada, entusiasmou os presentes e serviu de anúncio para a visita do próprio candidato a Guimarães dias depois. Em 22 de outubro de 1969, o mesmo espaço acolheria um comício da CDE – Comissão Democrática Eleitoral, movimento cívico da Oposição Democrática que desafiava novamente o Estado Novo.
Em 1969, o Teatro Jordão acolheria a final do 1.º Festival de Conjuntos Ligeiros Amadores do Minho, organizada pela comissão central do Vitória Sport Clube em colaboração com o Governo Civil, Câmara Municipal de Guimarães e da Junta Distrital de Braga. Em 1973, acolheria o Festival do Minho – Festival da Canção do Mundo Celta.
Durante o PREC, o Teatro Jordão acolheu os comícios de partidos como PPD (27 de janeiro de 1975 e 12 de abril de 1976), CDS (20 de abril de 1975, tendo ficado marcado por confrontos e pela intervenção militar do Regimento de Infantaria n.º 8) e PS (21 de abril de 1975), ou de candidatos presidenciais como Octávio Pato (21 de junho de 1976).
O fim da ditadura, e da censura ao cinema, também favoreceu uma expansão do negócio da exibição de cinema em Portugal, nomeadamente na categoria de filmes classificados como “eróticos” ou “pornográficos”. Em setembro de 1983, o escândalo chegaria à televisão com o “caso Pato com Laranja”, quando a emissão do filme L’anatra all’arancia (1975) pela RTP1 foi interrompida devido a protestos, levando à demissão do então presidente da televisão pública. Apesar de alguma resistência inicial, no início da década de 1980, o Teatro Jordão também seguiu essa tendência com as célebres “sessões da meia-noite”, tendo exibido filmes como Le retour des veuves (As Viúvas Sexuais, 1980), de Claude Bernard-Aubert, ou Nea: A Young Emmanuelle (Nea Adolescente Sensual, 1976), de Nelly Kaplan.
Em 1986, a meio de uma década particularmente penosa para o espetáculo cinematográfico, que perdia vertiginosamente espectadores para a televisão e para os videoclubes, a Câmara Municipal de Guimarães lançava as Quartas-feiras Culturais, uma iniciativa com pretensões populares que se realizavam no Teatro Jordão, aproveitando o dia de descanso semanal dos trabalhadores dessa casa de espetáculos. Alguns anos mais tarde, o Cineclube passou a ser um dos colaborados desse projeto, aproveitando a oportunidade para desenhar uma programação alternativa às sessões habituais que então decorriam no Cinema São Mamede, como a reposição do filme E.T. the Extra-Terrestrial (ET – O Extraterrestre, 1982) de Steven Spielberg ou para realizar uma sessão com a exibição de Rattle and Hum (1988), o registo cinematográfico da digressão dos U2 pelos Estados Unidos. Em outubro de 1989, também por iniciativa do Cineclube de Guimarães, Carlos Paredes atuaria no palco do Teatro Jordão.
Depois das últimas sessões de cinema em dezembro de 1993, a sala ainda acolheu alguns espetáculos pontuais, como as populares Danças Nicolinas, mas não mais voltaria à atividade regular ou comercial.
Em 2012, já em ruínas, o Teatro Jordão serviria de set para a rodagem da curta-metragem Cinesapiens, de Edgar Pêra, segmento do filme 3X3D, que integra também curtas de Peter Greenaway e Jean-Luc Godard, produzida no contexto da Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura.

Mas quem filmou os últimos momentos do velho Teatro Jordão, já praticamente arruinado, foi o vimaranense Rodrigo Areias, na curta Cinema (2014), onde o diretor de fotografia e realizador Acácio de Almeida interpreta um projeccionista que “prepara um velho ritual num templo há muito abandonado pelos fiéis”. Para além de refletir sobre o próprio cinema numa era de transição digital, Areias também homenageia a mais icónica sala de cinema da sua cidade-natal.

Entretanto, o edifício foi adquirido pela Câmara Municipal em 2014 e reinaugurado a 12 de fevereiro de 2022, profundamente reestruturado. Ligado à Garagem Avenida, passa a acolher novas funções: Escola de Teatro e Artes Performativas e Escola de Artes Visuais (ambas da Universidade do Minho), Escola de Música (Conservatório de Música da Sociedade Musical de Guimarães), Galeria de Exposições e Salas de Ensaio. A sala de espetáculos, outrora com 1200 lugares sentados, dispõe atualmente de 401 lugares sentados (241 na plateia + 160 no balcão).



