Mais um voo, desta vez vindo de Buenos Aires, uma cidade que me pareceu mais imunda e mais triste – os dois anos de Javier Milei no poder já começam a notar-se. Seriam mais umas quantas apresentações e o regresso à Europa, Belgrado.
A primeira vez que visitei a Colômbia foi para a estreia em sala do meu filme A Savana e a Montanha (2024) que por ali se chamou La Sabana y la Montaña. Bogotá, Medellín, Cali… Na primeira paragem em Bogotá, o taxista traz-me aquela que será provavelmente a melhor sandwich que comi na vida. Ainda não consegui descobrir de onde veio. Nem o distribuidor do filme, Daniel Saldarriaga (Fuego Cine), percebeu onde se preparou tamanha iguaria que, ainda assim, não passava de uma sandwich.

No dia seguinte, encontro-me com Pedro Adrián Zuluaga, um dos críticos de cinema mais antigos do país ainda no activo. Um almoço no Museo del Oro e um café no Orishas Cine Art, centro cultural com um pequeno projector, café, loja de DVDs e souvenirs para os mais cinéfilos, no centro comercial Los Ángeles, em pleno centro de Bogotá. Jhon Jairo, o proprietário, é um cinéfilo dos mais surpreendentes que se pode conhecer e com quem se pode trocar ideias. Guarda uma longa lista de títulos de todo o mundo, nomeadamente no reino do cinema latino-americano: Leonardo Favio, Lucrecia Martel, Mariano Llinás, Citarella, Paz Encina, o mestre Víctor Gaviria, ou a infinita lista de títulos brasileiros com quem sublinha uma grande proximidade: Glauber Rocha, um verdadeiro operário do cinema. E também uma belíssima colecção de cinema português: João César Monteiro, Paulo Rocha, Manoel de Oliveira, Pedro Costa, Miguel Gomes… e a curiosidade de ver este novo título português, o meu filme Savana e a Montanha, que se estrearia na sala principal da Cinemateca de Bogotá no dia seguinte. Porque a curiosidade existe; e é transversal a países com mais ou menos tradição cinematográfica.

Impressiona-me perceber o trabalho que Jhon Jairo aplica nesta belíssima estante (escrevo-lhe desde Bogotá) repleta de títulos mundiais, dos mais clássicos aos mais modernos, dos mais gore aos mais neo-realistas. Grava também DVDs piratas, a partir do que encontra online ou que lhe são oferecidos pelos próprios cineastas; a grande maioria já viu. Jhon Jairo é um autêntico cinéfilo ao serviço dos seus clientes, artistas ou curiosos, que passam por este “cineclube”, onde se trocam solicitações, sugestões e conversas. Ponto de encontro para beber um bom café colombiano ou um par de Águila’s, a cerveja nacional produzida em Barranquilla. Aqui também se organizam projecções e debates em torno dos filmes, ainda que o espaço tenha pouco mais de dez metros quadrados; segundo ele, enche até ao limite, porque o importante é trocar ideias.
E não é que Jhon Jairo saiu satisfeito da sessão de estreia? Soube-o agora, um ano depois, quando volto ao seu centro cultural, onde passo um par de horas a conversar sobre cinema e vida, que tantas vezes se confundem. Pede-me que lhe envie a cópia do meu filme. Quis filmar-me num “closet picks”, à maneira da The Criterion Collection, como já se habituou a fazer com outros cineastas que visitam o espaço. Passa algum tempo. Entra uma advogada que quer divertir-se, rir com a vida, mas também com o cinema. Esta inscreve-se num workshop de documentário e vem até à Orishas em busca de um par de comédias. Jhon Jairo mostra-lhe alguns filmes italianos: Brutti, sporchi e cattivi (Feios, Porcos e Maus, 1976) e outro de Ettore Scola. Dirige-se a mim e eu falo-lhe de Il Sorpasso (A Ultrapassagem, 1962). Para mim é um filme de carros, mas também uma comédia. De repente, a conversa abre-se à sua vontade de fazer um filme com mulheres vítimas de violência, algo mais poético, no âmbito desse workshop. Dos dez DVDs que já tinha escolhido para trazer comigo, saco um deles: Correspondencia Jonas Mekas – J.L. Guerín (2011). Digo-lhe que a câmara pode estar com elas; esse acto de passar a câmara ao outro como gesto cinematográfico, quase terapêutico, pode ser uma forma. Outra forma.

Bebe uma tisana, fica mais um pouco. Conversamos sobre a ínfima hipótese de verdade no cinema; Jhon Jairo insiste com o documentário, fala do cinema como ferramenta de cura. O tempo passa entre conversas e cervejas, até que lhe peço para tirar estas fotografias. Explico-lhe porquê: preocupo-me com o arquivo, com a ideia da cloud para armazenar, do YouTube para ver filmes, do streaming para aceder. Interessa-me o físico. A ideia de que, em minha casa, não cresci rodeado de livros e de que esse foi o meu grande objectivo durante mais de dez anos: criar um arquivo literário e cinematográfico. Acho que começo a lográ-lo (a consegui-lo). Não porque o saiba de forma concreta, mas porque às vezes acontece alguém procurar alguém que sabe que, no meu antigo quarto, se foram amontoando livros e DVDs, e que essa é a verdadeira herança em que continuo a acreditar: uma espécie de curadoria pessoal, construída entre sugestões e entusiasmos.
Na Orishas acabam-se os stocks, mas Jhon Jairo também ajuda os clientes a encontrar um ou outro livro ou DVD específico. Há Raúl Perrone; ele é fã dos Perrone’s mais antigos, verdadeiro underground porteño, porque um dia um cliente – se me recordo, um jornalista – procurava um filme de um autor até então desconhecido para ele. Criou-lhe carinho. É o argentino de quem mais DVDs tem no seu closet. Os que se vendem actualizam-se ou propagam-se através de links, porque há clientes que compram em DVD mas também querem ter acesso online. Passam-se sugestões, activam-se conhecimentos, propagam-se culturas. São DVDs piratas, sim, mas será que esta economia paralela é ilegal? Em certa medida, talvez. Mas existe nela a pretensão de ampliar o amor que ele próprio tem pelo cinema. Não deixa de ir à sala, nem transmite a ideia de que o DVD a substitui.

É inimaginável quão inspirador é este trabalho, quase de formiga: ir ampliando, aos poucos, o espectro dos filmes disponíveis. Os títulos que se vendem, como os de Paulo Rocha, vão-se renovando. Outros, como os de César Monteiro, que vende mais do que Oliveira, circulam sobretudo através de links. Portugal existe através do cinema. Para lá disso, é quase desconhecido. Talvez pelo futebol: Falcão, Luis Suárez, Richard Ríos, James Rodríguez… Mas então, que importa? Não será o cinema o nosso verdadeiro território? Prefiro pensar um país como cinema do que pensá-lo como nação.
Obrigado, Pedro, por me teres trazido aqui e pelas conversas cinéfilas.
Obrigado, Jhon, por me reforçares esta crença num cinema feito para não cineastas.
Paulo Carneiro, realizador e produtor
Texto escrito em resposta ao nosso apelo em defesa dos suportes físicos, publicado no dia 19 de Novembro de 2020 e assinado pelos editores do À pala de Walsh.
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Orishas Cine Art es una iniciativa cultural y cinematográfica con más de 20 años de experiencia en la divulgación, promoción del cine. A lo largo de estas dos décadas, el proyecto ha evolucionado y se ha transformado constantemente. Durante los últimos años, Orishas Cine Art ha fortalecido su trabajo como espacio de circulación cultural y encuentro entre realizadores, espectadores y comunidades, desarrollando proyecciones, cineforos, muestras temáticas y actividades de mediación cultural que promueven el diálogo, la reflexión y el acceso a contenidos cinematográficos que habitualmente permanecen fuera de los circuitos comerciales tradicionales. Uno de los aspectos más representativos del proyecto ha sido también la construcción y circulación de un amplio catálogo de cine en formatos DVD y Blu-ray, disponible dentro del espacio cultural. Esta labor ha convertido a Orishas Cine Art en un punto de referencia para cinéfilos, coleccionistas, investigadores y amantes del cine que buscan acceder a películas clásicas, de culto, cine arte, documentales y obras difíciles de encontrar en plataformas convencionales. Más allá de la venta de películas, este catálogo funciona como un archivo vivo de memoria audiovisual y como una herramienta de preservación. (texto de Jhon Jairo Salas Pérez)
