No seu livro Museum of Obsessions (2018), Harald Szeemann reflete sobre a prática curatorial indexada a um exercício obsessivo. Distante de uma conotação patológica, a obsessão seria, segundo o autor, um princípio metodológico para a construção de uma exposição ou de um museu enquanto projeto intelectual e imaginário. Interessava-lhe menos organizar exposições em torno de categorias históricas do que alimentar interesses e relações recorrentes, constelações de afinidades e tensões. Formulada de uma outra forma quando aplicada a um contexto distinto, o conceito de obsessão estende-se além da curadoria. A prática artística parece, afinal, tanto mais fecunda quanto maiores e mais inusitadas forem estas obsessões. Também a obra de um cineasta adquire novas camadas de leitura quando, entre a sua produção, se revelam repetições imagéticas e temáticas.

Quanto a mim, procuro regressar – também obsessivamente – ao trabalho de autores que parecem ir ao encontro desta linguagem da obsessão. Cineasta, argumentista e artista visual islandês, Hlynur Pálmason (1984, Hornafjörður) é, talvez, a mais recente dessas descobertas. A sua filmografia revela uma notável coerência, evocando continuamente um conjunto de lugares, imagens, símbolos, colaboradores e inquietações que culminam num universo singular. Se, em 2022, Pálmason apresentava Vanskabte land (Terra de Deus, 2022), em 2025 traz-nos Ástin sem eftir er (O Amor que Perdura, 2025) . O cineasta volta à imponência da paisagem islandesa, mas fá-lo agora para filmar a intimidade de uma família. Repetem-se alguns atores que têm vindo a integrar o seu universo cinematográfico, a figura de Joana d’Arc – presente em Jóhanna af Örk (Joan of Arc, 2025), a atenção aos ciclos da natureza e também a temática do atelier e da prática artística, anteriormente ensaiadas na sua curta-metragem En maler (A Painter, 2013).
O resultado é um retrato simultaneamente contemplativo e sagaz, íntimo mas nunca confessional, que confirma Hlynur Pálmason como um cineasta de obsessões férteis.
Em exibição nas salas portuguesas, O Amor que Perdura anuncia-se como uma tragicomédia centrada no ano que se segue à separação de um casal. Mais preocupado com o desenvolvimento rítmico e com o fluxo das imagens do que com a progressão narrativa, o filme acompanha as mudanças de estação, a transformação da paisagem e os gestos mínimos através dos quais uma família aprende a reorganizar-se. Magnús e Anna atravessam um processo de separação enquanto procuram preservar a vida familiar e a relação com os seus três filhos. Há três crianças, um cão, algumas galinhas, uma mãe artista e um pai pescador. A ambição narrativa é deliberadamente discreta; quase nada acontece no sentido convencional da palavra. Os jantares em família mantêm-se, ora atravessados pelo silêncio, ora interrompidos por gestos de ternura, pequenas aproximações ou impulsos de desejo. É um quotidiano marcado pela reminiscência de um amor em decadência, tão nostálgico, agridoce e lânguido quanto o cinema nórdico nos tem mostrado ser possível.

Pontuando esta aparente serenidade, surgem irrupções oníricas e momentos de humor absurdo. O quotidiano convive com imagens insólitas, justaposições inesperadas e um ligeiro obscurantismo que impede o filme de resvalar para qualquer naturalismo. A primeira fissura abre-se no encontro de Anna com um galerista: desinteressado pelo seu trabalho, narcísico — perdoe-se o diagnóstico — e anestesiado pelo próprio discurso, discorre sobre o glamour do mundo da arte, sobre si próprio e sobre tudo o mais que não interessa a ninguém. Antes de partir, rouba um ovo, apesar de advertido para não o fazer. O gesto, tão ridículo e inquietante, lembra o apego possessivo de Gollum ao seu “My Precious”, em The Lord of the Rings: The Return of the King (O Senhor dos Anéis – O Regresso do Rei, 2003). É este o instante em que o filme (entre)abre a porta ao insólito. A lógica narrativa torna-se mais porosa e o surreal infiltra-se no quotidiano sem que o rompa por completo. A figura de Joana d’Arc — um cavaleiro improvisado pelas crianças e repetidamente atravessado por setas — adquire uma estranha vitalidade, como se a imaginação infantil fosse capaz de lhe insuflar vida. Do mesmo modo, o abate de um galo por Magnús prolonga-se numa visão inesperada: uma gigantesca galinha-fantoche invade a casa durante o sono, transformando um episódio doméstico e as inquietações Magnús numa aparição fantasmática.
Essa incursão pelo surreal estende-se, depois, à montagem. Fungos, corpos, imagens eróticas, animais e redes de pesca compõem um tecido visual que espelha uma intencionalidade contínua: aproximar o doméstico do mítico e o erótico do orgânico. Não será também o amor uma espécie de fungo? Que cresce inadvertidamente, alimentando-se do que o rodeia. Como os fungos, o amor poderá revelar-se venenoso – há que saber distingui-lo antes de o colher. A natureza volta, então, a desempenhar um papel decisivo. A paisagem islandesa, filmada por uma câmara maioritariamente estática, não representa apenas um marcador temporal, mas um espelho das transformações emocionais das personagens. Acompanhando a lenta erosão da vida conjugal e a persistência dos laços familiares, o filme sugere que a metaformose se inscreve tanto na natureza como nas relações humanas. Tal como no plano inaugural, em que o telhado de uma construção é arrancado, O Amor que Perdura parece anunciar desde cedo que toda a arquitetura — física ou afetiva — está sujeita à impermanência.
O resultado é um retrato simultaneamente contemplativo e sagaz, íntimo mas nunca confessional, que confirma Hlynur Pálmason como um cineasta de obsessões férteis. O Amor que Perdura convida-nos a entrar no seu universo gelado, ensinando-nos a observar com atenção, espanto e curiosidade – a receita para um amor que perdura.
★★★★★
