What a girl! What an ocean! What a boat!
Foi preciso esperar 90 anos para voltar a ver Letty Lynton (Enfeitiçados, 1932). O filme de Clarence Brown, apesar de se ter tornado um enorme sucesso de bilheteira, acabaria por ser retirado de circulação quatro anos depois da estreia, na sequência de uma decisão judicial que concluiu que o filme adaptava de forma não autorizada a peça Dishonored Lady, de Edward Sheldon e Margaret Ayer Barnes. E assim o filme se tornou um título inalcançável, alimentando a curiosidade dos cinéfilos e, muito particularmente, dos fãs de Joan Crawford.
Mas uma outra circunstância havia contribuído para a fama de Letty Lynton: o “vestido Letty Lynton”. Numa das cenas do filme, na noite de Natal passada a bordo, Joan Crawford usa um vestido branco comprido, de mangas abundantes e saia ampla, desenhado por Gilbert Adrian. Numa época em que os créditos de guarda-roupa ainda se resumiam, muitas vezes, a um simples “Gowns by Adrian”, o designer criou uma peça que Edith Head viria a descrever como “the single most important influence on fashion in film history”. Na loja do Macy’s dedicada à venda de réplicas de vestidos de Hollywood, venderam-se, à época, dezenas de milhares de exemplares, e a silhueta feminina seria redesenhada para o resto da década.

Para Joan Crawford, Adrian desenhava peças que lhe realçavam o porte e os ombros, vestindo-a tanto no grande ecrã como na vida privada. Foi também o responsável pela imagem de algumas das maiores estrelas da MGM. Além de Crawford, vestiu Norma Shearer, Greta Garbo e Jean Harlow, e desenhou até os sapatinhos de rubi de The Wizard of Oz (O Feiticeiro de Oz, 1939). Em The Women (Mulheres, 1939), de George Cukor, algumas destas estrelas cruzam-se através das suas criações, num universo inteiramente habitado por mulheres. Joan Crawford interpreta aqui a vilã – também a personagem mais divertida –, uma mulher que se atreve a roubar o marido a Norma Shearer. Longo foi o caminho percorrido por Joan desde os tempos em que serviu de body double a Shearer em Lady of the Night (A Ave Nocturna, 1925). É fácil imaginar que The Women tenha sido sentido como uma espécie de triunfo.
Mas o que é, afinal, Letty Lynton? É um desses romances clássicos de navio: um barco, um rapaz, uma rapariga e o amor que nasce, remetendo para outros títulos do género, como One Way Passage (Viagem Sem Regresso, 1932), The Lady Eve (As Três Noites de Eva, 1941) ou An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida, 1957). Tudo acontece depressa, porque, quando se encontra a alma gémea, não há tempo a perder. Letty Lynton e Jerry Darrow (Robert Montgomery) conhecem-se numa confusão de portas, com os olhares a cruzarem-se de uma cabine para a outra, e sob os bons auspícios de um número – 787, o mesmo número que tinha trazido azar a Letty quando jogava no casino de Montevideo.
Letty Lynton é filho exemplar do período pre-code. Ao catálogo de pequenas perversidades que o filme foi revelando – sexo fora do matrimónio, desprezo pela autoridade, suicídio, amoralidade – juntam-se agora o crime sem castigo e a manipulação da lei, posta ao serviço dos interesses de todos e destinada a favorecer uma classe que já de si se encontra amplamente favorecida.
A fugir um pouco aos papéis a que nos habituara, Joan Crawford não interpreta uma rapariga que luta para ascender socialmente (aliás, como a própria Lucille Fay LeSueur, que um dia se tornaria Joan Crawford). Letty é uma herdeira, mas carrega consigo um passado que assombra qualquer possibilidade de felicidade ao lado de Jerry.
Começamos por conhecê-la em Montevideu, entregue ao hedonismo, sem grande rumo e sem laços que a obriguem a pensar no futuro. Vemos pessoas a dançar – o ponto de vista da ventoinha –, um salão cheio de casais que se amassam e se beijam, o calor que transborda do ecrã. É uma daquelas noites que só terminam quando a luz do dia já não permite prolongá-las.
“You know I never kiss anyone before one o’clock.” É este o género de tirada leve e despreocupada que Letty reserva aos seus admiradores. O amante do momento é Emile Renaul (Nils Asther), um homem prepotente e possessivo. Miranda (Louise Closser Hale), a criada de Letty, uma espécie de Cassandra, pressente a natureza malévola de Renaul e não consegue esconder a inquietação sempre que ele se aproxima. Anseia por um barco que lhes permita fugir. É a consciência que Letty abandonou há muito, entregue a uma vida que parece não ter consequências.

Quando já não acredita no amor nem na felicidade, Letty acaba por se apaixonar pela primeira vez. O filme muda então de registo e entra no território da comédia romântica. Por momentos, parece que o passado pode ficar para trás, que a travessia do oceano basta para abrir espaço a uma nova vida.
Quando Letty e Jerry conversam, num campo e contracampo de poltronas, o vestido sublinha o branco dos olhos dela: um branco imenso, que faz sobressair a incandescência do olhar. O rosto envolto nos folhos brancos das mangas aproxima-a da imagem do Pierrot. As longas pestanas projectam a sua sombra sobre a pele muito branca, como se o rosto estivesse na iminência de se desfazer em lágrimas.
Mas Renaul, o amante que Letty deixou em Montevideu, não está disposto a deixá-la escapar. Persegue-a e recorre às cartas comprometedoras que ela outrora lhe escrevera para a chantagear. É a segunda mudança de registo do filme, que passa agora para o drama policial. Tudo começa com uma fotografia aparentemente inconsequente, publicada na primeira página de um jornal. À chegada do navio a Nova Iorque, Letty é fotografada ao lado de Jerry, mas o seu olhar está pousado no rosto de Renaul, que a observa do cais.
Os olhos enormes de Joan Crawford servem a cena de forma irrepreensível. Traduzem um horror excessivo, antecipando a tragédia, como Miranda vinha fazendo repetidamente. E é também o génio de Adrian que se impõe: um casaco de peles envolve o rosto de Crawford, acentuando a sua expressão de desamparo. A roupa não é apenas um sinal de elegância ou estatuto, antes integrando uma viragem dramática.

No desfecho, no gabinete do procurador, Letty Lynton afirma-se, mais do que nunca, como um filho exemplar do período pre-code. Ao catálogo de pequenas perversidades que o filme foi revelando – sexo fora do matrimónio, desprezo pela autoridade, suicídio, amoralidade – juntam-se agora o crime sem castigo e a manipulação da lei, posta ao serviço dos interesses de todos e destinada a favorecer uma classe que já de si se encontra amplamente favorecida.
Jerry torna-se até mais interessante como personagem, revelando um cinismo que até aí não se adivinhava. A mãe de Letty, por sua vez, mostra-se disposta a uma reconciliação que parecia já impossível. Quanto ao procurador, desiste sem grande resistência, preferindo poupar-se a outros incómodos quando todos se unem em torno de uma mentira. A verdade deixa de ser uma questão de justiça para se tornar um obstáculo que convém afastar.
Durante 90 anos, Letty Lynton esteve longe do nosso olhar, mas o vestido de Joan Crawford continuou a existir, a circular, a ser copiado e admirado. Marca igualmente um momento em que Hollywood passa a ser capaz de ditar a moda, impondo-se mesmo a Paris. O look sobreviveu ao filme, continuando a ser até hoje fonte de inspiração, alimentando a curiosidade em torno de um título que poucos tinham podido ver. Sintomaticamente, algumas das fotografias publicitárias do filme, com a protagonista vestindo as criações de Adrian, foram rgistadas no cenário de um outro filme com Joan Crawford, Grand Hotel (Grande Hotel, 1932), já assim fazendo adivinhar o desaparecer de tudo o que de Letty Lynton existia para além de um vestido.
E talvez seja essa uma das particularidades de Letty Lynton: ter deixado uma imagem tão forte que conseguiu sobreviver à ausência do próprio filme. Mas que não se pense que o filme não é mais do que um mero vestido.
A Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema exibe Letty Lynton hoje (dia 27) e na próxima sexta-feira (dia 30) no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Património Audiovisual.
