A economia do cinema contemporâneo dito de autor retorna sempre ao universo de festivais de cinema. São o centro da sua distribuição. É aí que a fortuna crítica de realizadores se completa com seus altos e baixos. E são também os festivais de cinema que acabam por sequestrar o imaginário cinéfilo. É um mal necessário, do qual nem mesmo os observadores ambivalentes se conseguem livrar, já que muitos realizadores de interesse permanecem ligados a ele. Posso torcer o nariz e fazer vários apontamentos críticos ao Festival de Cannes, por exemplo, mas Cerrar Los Ojos (Fechar os Olhos, 2023), do Victor Erice, continua sendo estreado por lá. Até por isso, é útil pensar em realizadores que mantêm um trabalho muito próprio à margem de tais estruturas e que conseguiram um contato forte com um espectador disposto a lidar com as suas idiossincrasias.

Um bom exemplo disso é o projeto Castration Movie Anthology da realizadora canadense Louise Weard. Ela é uma mulher trans ocupada com um retrato bastante extremo de partes da sua comunidade, sobretudo aquelas mais mediadas pela vida online. Weard interpreta uma das personagens centrais do primeiro filme, e o retrato proposto por ela é muito próximo, mesmo que por vezes nada simpático. Não existe da parte dela muito interesse em fazer concessões para um olhar externo; pelo contrário, qualquer mediação soa quase acidental. Esses filmes pouco circularam pelos canais oficiais, são filmes sobre mulheres cuja existência foi construída primeiro em espaços de internet, que conseguiram sua pequena notoriedade nos mesmos espaços. Quando Weard lançou o segundo filme no final do ano passado no seu site, a comunidade de fãs se revelou maior que a capacidade operacional dele, após cerca de um ano e meio de sucesso de boca a boca do primeiro filme. Mesmo que num espaço oficialesco como o terrível Rotten Tomatoes só registre duas críticas ao filme.
O projeto de Weard é de uma série de filmes com conexões e possíveis personagens comuns, que por si só aponta para uma relação com cinema bastante particular e contemporânea. O principal ponto de referência estético é provavelmente o Inland Empire (2006), de David Lynch, ele próprio um filme que incorporava material que o realizador fizera para o seu site e pouco preocupado no que seria o filme final como, digamos, Lost Highway (Estrada Perdida, 1997). Weard lançou até aqui, Traps no começo de 2024 e The Best of Both Worlds no fim do ano passado, mas no começo do ano ela também soltou um excerto, Junior Ghosts – Premorphic Drift; a Fragmentary Passage e o bluray do primeiro filme conta com um filme extra de 70 minutos feito a partir de cenas descartadas. Um terceiro filme principal, Year of the Hyaena, está em finalização e Weard promete continuar filmando. O caráter multimídia do cinema dela tende a se impor sobre a ideia do longa-metragem para ser exibido numa sala de cinema.
Dada toda a sua relação com o online, é curioso observar que os filmes de Weard meio que propõem uma versão transnacional do que seria um cinema regional. Eles não são só sobre comunidade, mas também servem como um aglutinador, com realizadoras e intérpretes trans com frequência aparecendo neles.
Algo que se estende para a duração dos filmes: Traps tem cerca de quatro horas e meia e The Best of Both Worlds tem cinco. O excesso de duração se torna parte das estratégias deles. Weard não poderia ter menos interesse em concisão; o segundo filme, em particular, conta com múltiplas cenas semi-improvisadas, as quais ela permite que se arrastem até suas conclusões, algumas nada confortáveis. Os filmes se esforçam bastante para soarem como um material bruto, com uma câmera na mão, pouco cuidado com a luz ou interesse de produzir planos mais trabalhados, mesmo que exista muito trabalho envolvido em chegar a este efeito supostamente não mediado. Existe uma crença na força das experiências em cena que contrasta com a crueldade de muitas das relações. São filmes bastante imersivos; se o trabalho de Weard não é visualmente sedutor, ela mais do que compensa com a construção de um mundo no qual uma pessoa se pode perder.
A ideia de fragmentos que se somam num todo serve como um princípio que os organiza. Traps se divide em duas histórias, na primeira, acompanha um rapaz cuja reação ao seu namoro implodir é abraçar ainda mais seu comportamento antissocial e espaços online que o incentivem; na segunda, e muito mais longa, uma mulher trans com suas próprias ansiedades tenta introduzir uma amiga, recém-assumida, na comunidade, nem sempre com sucesso. The Best of Both Worlds tem uma única trama sobre uma jovem vivendo num culto. Na primeira parte, acompanha-se a vida ali dentro em todas as suas regras particulares, na segunda, ela sai dali e circula no meio cult de Nova York (outro submundo próprio, afinal) e, por fim, tenta com dificuldades cortar a sua relação com o culto. As três seções do segundo filme são tão próprias quanto as duas do primeiro, mesmo com a mesma personagem central. Existe uma busca por fragmentos, mas também um desejo de que eles representem uma totalidade de experiência, de que dos vários subgrupos e vivências marcadas por pequenas violências observadas se consiga um retrato maior e completo. Há certamente limites neste desejo totalizante, ainda mais quando se quer dar conta de uma comunidade ampla e nada coesa, mas a ambição é notável. Weard consegue introduzir bastante força através da acumulação destes fragmentos, a performance musical no final de The Best of Both Worlds consegue ser bastante tocante, apesar e por conta da aspereza das quase cinco horas que lhe precedem.

Tudo gira em torno da ideia de comunidade e formas de sociabilidade. Weard tem um ouvido muito bom para a passiva-agressividade. Boa parte dos melhores momentos do primeiro filme se dão quando a própria Weard é ao mesmo tempo bastante cuidadosa com a nova amiga, mas não consegue evitar algumas alfinetadas maldosas, como se um instinto de autodefesa cruel não pudesse jamais ser superado. Existem muitos elementos bastante afetuosos nestes filmes (alguns dos momentos com a personagem da Aoife Clements no primeiro filme, sobretudo), mas dentro de uma abordagem bastante áspera e cruel. São filmes que existem na internet sobre pessoas extremamente marcadas pelo online e acho que parte da força deles está em como dão representação a esta ideia. Parte do olhar de Weard vem da observação de que pessoas trans frequentemente têm as suas primeiras chances de viver como elas mesmas em redes sociais, fóruns e outros espaços online, e a passagem destes lugares para o contato pessoal traz com ela muitos cacoetes e agressividades. Ela olha para a comunidade dela, mas é algo que creio pode ser expandido e que não vejo sendo observado com tanta precisão no cinema contemporâneo.
Desde pelo menos meados dos anos 90, quando a indústria de cinema descobriu que podia também ganhar dinheiro vendendo filmes para os mais diversos grupos, este mercado alternativo sempre se pautou por uma ideia de representação positiva. Lembro-me, na adolescência, de notar como eram anódinos os poucos filmes gays que chegavam na minha cidade. Os filmes de Weard pulam este mediador de mercado e se voltam sobretudo para a própria comunidade, eles são desprovidos de qualquer preocupação em soarem simpáticos ou positivos. Não há nada de turístico ou afirmativo neles. Há muita empatia e intimidade, mas isso passa por reconhecer uma série de processos cruéis e, por vezes, autoexcludentes, esforços de garantir que as suas personagens, na marra, se adequem ao que o seu meio considera permitido. Weard tem 32 anos, mas o humor e gosto por provocação dela sugerem muito mais aos anos 90. Isto nem sempre é bem-sucedido; existem, de certo, momentos pueris e tolos perdidos ali no meio, como ocorre desde sempre nestes esforços de intransigência, mas também empresta aos seus filmes algo refrescante. Uma falta completa de freio e despreocupação em como eles vão soar que anda lado a lado com a sua recusa ao didatismo.

Dada toda a sua relação com o online, é curioso observar que os filmes de Weard meio que propõem uma versão transnacional do que seria um cinema regional. Eles não são só sobre comunidade, mas também servem como um aglutinador, com realizadoras e intérpretes trans com frequência aparecendo neles. Weard produziu recentemente o filme de horror The Serpent’s Skin, da jovem realizadora Alice Maio Mackay, que representa uma tentativa bem diferente de tentar alternativas para um cinema trans. Noto que, aos poucos, alguns espaços começam a notar a existência de Weard. Ano passado, o ótimo festival experimental Lumen exibiu Traps no Rio de Janeiro, por exemplo, e não deixa de ser interessante observar Castration Movie existindo no mesmo contexto que Fuck the Polis da Rita Azevedo Gomes ou Little Boy de James Benning. A hiperespecificidade com a qual Weard trabalha é uma reação à marginalização que, ao mesmo tempo, a afirma e contrapõe à rigidez com a qual a cena cinematográfica opera. Um cinema que filma e busca sua própria comunidade não é necessariamente algo viável ou sustentável como exemplo a ser seguido por qualquer realizador, mas é ótimo que o cinema possa encontrar essas exceções, precisamos de mais delas.
