Oh, não! Mais um texto sobre The Odyssey (A Odisseia, 2026), o filme de Christopher Nolan que criou milhares de especialistas em Homero nas redes sociais. O fenómeno mediático, que pode ser sufocante para muitos, não pode ser confundido com o filme – ou será que pode? Vi o filme em IMAX com o Samuel Andrade, projeccionista da Cinemateca que já escreveu por estas paragens, e que assina agora a coluna “O Síndroma do Vinagre” no Filmspot, onde assumiu o seu lado nolaniano – muito por “culpa” da paixão do realizador pelos antigos formatos, recuperando a projecção em 70 milímetros que tem feito correr parte dos rios de tinta à volta deste filme. É um dos temas de uma conversa, cuja transcrição se segue, entre um conhecedor da obra de Homero (S.A.) e outro que ainda não chegou lá (R.A.S.), duas pessoas que têm coisas positivas a apontar a The Odyssey.

R.A.S – Se calhar vamos já começar, porque nós estamos a falar uma semana depois do filme ter estreado, e a sensação que ambos tivemos é que já se tinha passado mais tempo. Porque o filme está tão presente, e há tanta coisa a ser dita, e tantos tiros a serem disparados para todo o lado, que parece que todo este processo mediático já dura há muito mais tempo, não é? É estranho.
S.A. – Sim, e isto podia chamar-se marketing, acima de tudo. O mais interessante desta torrente de conversa acerca de The Odyssey é que não deixa de ter os seus méritos. Sim, sem dúvida, pode ser desgastante, pelo menos para algumas pessoas. Mas mais do que os méritos do filme em si, começou-se a falar de outras coisas. Começou-se a falar novamente de Homero. Até já é possível ler críticas ao filme por classicistas, por tradutores, por pessoas que se dedicaram a Homero durante muitos anos, à Ilíada e à Odisseia. E, sobretudo, também está-se a falar muito da experiência de ir à sala de cinema.
R.A.S. – Mas também tem muito a ver com esta coisa que eu aprecio, por um lado, mas que, por outro, pode ser um pouco nociva… e é uma ideia que não é nova. Já o Spielberg e o Lucas tinham falado há uns anos de que o cinema ia-se tornar uma coisa especial, tipo ópera. E The Odyssey está a mostrar que, se calhar, é provavelmente isso que vai acontecer, não é? Porque as pessoas estão a correr, nos EUA, para as salas IMAX para ver o filme em 70 mm, mas estamos a falar de cópias que custaram dezenas de milhares de dólares, pelo que li, e os bilhetes também não são baratos.
S.A. – E a New Yorker teve recentemente um artigo que dizia que, por causa disto, será que o cinema se arrisca a tornar uma experiência premium? Era mesmo esse o título. Eu espero que não. E há muita gente que não está a ver o filme nas sessões de IMAX em 70 milímetros – que não há em todo o lado do mundo, nos Estados Unidos só há 25 locais, na Europa há poucos, na Austrália acho que há um ou dois… e o que tenho ouvido falar é que, por exemplo, as salas IMAX em Portugal, que têm projecção digital, estão a abarrotar. Portanto, as pessoas já tentaram comprar daqui para uma semana e já quase que só há lugares nas primeiras filas, etc. Falaremos dos méritos ou deméritos do filme, mas eu acho que aqui o filme já ganhou ao dar essa vontade às pessoas de irem às salas de cinema, de saírem de casa, que basicamente é uma das pedras basilares do próprio cinema.
R.A.S. – E também tem havido alguma conversa à volta das janelas de exibição, que nos últimos anos estavam a ser encurtadas. A Universal diz que já estendeu para 45 dias. Mas, obviamente… e isto é uma coisa que me faz um pouco de confusão… se um filme está a render, por que raio é que vais ter uma janela tão curta? E claramente o caso de The Odyssey vai mostrar como esse antigo paradigma, nesta era do streaming, ainda faz sentido. E talvez seja a resposta para a multiplicidade de plataformas e estímulos e de coisas que temos à disposição: para contrariar isso tudo, é a oportunidade de um momento, de teres uma coisa tão especial que só pode ser vista num único sítio. Ou seja: na verdade, estamos a voltar atrás (ainda bem!), mas durante os últimos anos parecia que isso tinha deixado de ser possível. Parecia que as majors se tinham esquecido disso.

S.A. – E há aqui outra coisa de que me apercebi e que já falei com uma outra pessoa. Isto faz-me lembrar um pouco a estratégia do James Cameron com o Avatar (2009). Ele distribuiu o filme só em digital, e isso obrigou à conversão das várias salas de cinema o mais depressa possível. E o que o Christopher Nolan está a fazer aqui parece o processo inverso. Porque já há pessoas a reclamar, “mas porque é que não há uma expansão de salas de cinema de IMAX com 70 mm”? Isto aqui seria outra conversa, e é fácil encontrar textos ou entrevistas ao próprio CEO da IMAX em que ele responde de forma realista, de que é uma questão de mercado, não se pode estar a fazer uma expansão de salas de cinema só por causa de um filme…
R.A.S. – Até porque, desculpa interromper, mas mesmo quando os 70 mm eram uma realidade nos anos 50, não era com centenas de salas.
S.A. – Claro, exactamente. Portanto, expandir só por causa de um filme… a menos que comece a haver mais filmes rodados nestes suportes. Mas além disso, mais do que os filmes ou mais do que os técnicos, estamos a falar em maquinaria. Muitas das máquinas 70 mm em funcionamento já são reaproveitadas: estiveram paradas muito tempo, houve reaproveitamento de peças, ou seja, aquilo que se chama o retrofitting, e não há quem fabrique novas máquinas.. e não há um mercado a exigir isso. E quando o interesse no The Odyssey reduzir, que filmes é que há para reaproveitar estes sistemas? Mas isso… acho que é um mérito do filme e vem, se calhar partindo já mesmo para falar do filme, de um trabalho técnico que considero indissociável da fruição da experiência. Realmente temos um filme que foi pensado para a sala de cinema independentemente do formato, se for 70 mm ou 35 mm ou o digital mais comum possível, foi um filme pensado para tudo isso, e nesse aspecto, eu acho que hoje em dia é raro ver-se um cineasta a fazer um filme a pensar nisso, a experiência do grande espetáculo da sala. Mais do que pelo seu argumento ou de ser ou não ser uma adaptação que respeita Homero.
R.A.S. – Mas isso é que é engraçado, e claro que esta nossa conversa também é um pouco influenciada por tudo o que nós já lemos sobre o filme e todas as opiniões (é impossível fugir disso), mas essa questão da escala é evidente, e da questão do grande espetáculo. Foi totalmente pensado para isso, e ambos vimos o filme em IMAX. Mas eu li várias críticas que apontavam uma coisa que eu não concordo: tentavam comparar, de certa forma, este filme com os anteriores do Nolan, como se fosse o mesmo estilo e o mesmo ritmo, falando até em comparações mais directas com o Oppenheimer (2023), que eu acho que não fazem sentido, porque esse sim é um trailer de 3 horas, e não The Odyssey, e já vi o mesmo a ser dito sobre ele. Não faz sentido, até porque tem momentos muito solenes, aproveitando a questão espacial dessa escala de uma forma até estranhamente intimista. Por exemplo, a cena do ciclope: aquilo é um pequeno filme de terror claustrofóbico, que se aproveita do medo daquelas pessoas que estão às escuras, que não sabem se vão ser elas que vão ser agarradas e comidas pelo ciclope. E ele consegue muito bem orquestrar esse sentimento em nós, tal como na cena da Circe. O filme é muito mais solene, acho eu, do que muita gente tem afirmado. A banda sonora não é tonitruante como no Oppenheimer. Existe música, mas não está presente com a mesma intensidade e agressividade… e é isso que é engraçado: é que os silêncios deste filme funcionam para esta escala, e a cena da Circe também é outra que me ficou na memória, porque acho que tem uma construção muito ponderada, bem arquitectada, calculada, e que funciona extremamente bem também para a questão do espaço. O que é estranho, não é? Porque nós pensamos no grande espetáculo muitas vezes como algo que tem de ser com todo o barulho, com todo o estardalhaço, e há aqui momentos muito solenes.
S.A. – Falaste de um dos melhores momentos do filme para mim, que realmente achei entusiasmante, e que era algo que eu já não sentia no cinema do Nolan há muito tempo. Falaste no Oppenheimer, e eu não me lembro de um momento que me tenha entusiasmado particularmente. Uma coisa também que senti no The Odyssey é que, sendo o texto original muito bom, para quem o conhece e aprecia, era difícil também não gostar do filme. Posso-te referir que senti alguma falta de humor e erotismo, que a Odisseia tem, e que aqui não existe de todo. Sente-se um bocado aquele lado sisudo que o Christopher Nolan normalmente tem.
R.A.S. – O Nolan nunca conseguiu ter sentido de humor nem de erotismo. (riso)
S.A. – Exactamente, isso continua-se a sentir, mas no entanto houve esse frémito, uma capacidade nas sequências que referiste. E acrescentaria mais uma, que embora não esteja na Odisseia, está na Ilíada, mas ele decidiu recriar no filme: que é a queda de Tróia, e o cavalo de Tróia. Pode ser uma palavra exagerada, mas consegue ser visceral, como nunca me lembro de ter visto, até noutros filmes que adaptaram esta narrativa. Ele dá um certo humanismo a figuras mitológicas, e humanismo no sentido da guerra, da questão da guerra.
R.A.S. – E do trauma da guerra, não é? Lembro-me que, quando saímos da sessão, estavas a dizer isso, que o Nolan conseguiu captar muito bem o sentido do trauma da guerra do Ulisses.

S.A. – E acho que a Odisseia é isso, a história de um soldado traumatizado. Provavelmente na altura não existia esse termo, mas é o que nós chamamos de stress pós-traumático de guerra. E é isso que o Ulisses sempre tem, durante a Odisseia. E essa parte é muito bem recriada, do cavalo de Tróia, do que aconteceu lá dentro. Vemos o cavalo numa praia, mesmo na zona da rebentação. Há soldados que morrem afogados.
R.A.S. – Essa ideia curiosa também de pôr o cavalo mesmo soterrado na areia. Nós temos mais aquela ideia do cavalo em rodinhas, que é deixado à porta de Tróia. Ou seja, eles próprios sofreram para tirar de lá o cavalo, provocando a sua própria queda.
S.A. – Sim. E eu acho que esse lado realmente entusiasmou, fez-nos sentir qualquer coisa, e que me fez sentir que esta é uma boa adaptação da Odisseia. Que pode realmente trazer curiosidade quanto à história original. E sim… em quarenta anos de vida, não me lembro de se falar tanto de Homero como agora. E acho que é o melhor filme do Nolan em mais de uma década. E, sinceramente, irei revê-lo. Embora tenha aqueles momentos de muita sisudez, de muita exposição. Claro, também para orientar o espectador. Não nos podemos esquecer, já falámos das questões do mercado… é um filme para fazer dinheiro…
R.A.S. – Mas mesmo assim, não é um filme que faça a papinha toda, como por exemplo o Oppenheimer, que precisa de ter a banda sonora e barulho a toda hora, para manter as pessoas interessadas na ideia do realizador e naquela história. Há aqui alguns momentos que eu percebo que sejam um bocadinho mais exigentes, porque tu tens de estar mesmo envolvido naquilo que estás a ver, gostes ou não. Tu não podes atirar-te para aquilo de pára-quedas, tens de acompanhar aquela jornada toda. Eu também concordo contigo, não acho que o filme seja todo ele conseguido. Tem de facto algumas sequências notáveis. Como, mais perto do fim, a dos fantasmas, não é? Também acho que é fantástica. E depois, não sendo eu um homérico, porque confesso aqui que, até hoje, as únicas versões de Odisseia que li foram a da Maria Alberta Menéres e a do João de Barros… um dia destes irei ler o Homero… mas senti que todas as personagens, por mais pequenas que fossem, estavam bem inseridas, não estavam ali a fazer apenas um papel demonstrativo. Havia uma intenção de dar espessura àquelas figuras. Se é sempre conseguido ou não… eu não sou especialista, não posso comentar. Mas honestamente, durante três horas, não me fez qualquer confusão. Também há bocado estávamos a falar da questão da experiência do filme em sala. Nós vimos o filme em IMAX. Nas salas, sem ser em IMAX, o filme é em 2:35.1 ou 1.85.1…
S.A. – Pode depender do tipo de ecrã. Eu não sei que indicações deu o Nolan, porque normalmente costuma enviar instruções. No caso da projecção digital mais disponível, acho que está a variar entre o 1.85 e o 2.35. O site do filme tem mesmo essa comparação dos formatos. Um outro aspecto que eu acho recorrente noutros filmes do Nolan, tem a ver com a forma como trabalha a narrativa nas elipses. É uma das suas imagens de marca. E eu acho que, mais do que elipses, aqui podemos falar em flashbacks. Funciona bem.
R.A.S. – Funciona. Isso também foi uma coisa que me surpreendeu, porque ela gosta muito de fazer isso e às vezes é um martírio, mas aqui a coisa está bem arquitectada.
S.A. – Realmente, sim. Aliás, falámos na queda de Tróia, e é-nos mostrada em flashback, precisamente. Claro que não podíamos esquecer como isto respeita a própria Odisseia, porque o texto começa in media res, com os deuses em concílio, a perceberem que castigo aplicar aos gregos por terem destruído Tróia e a deusa Atena. Todas as atribulações do Ulisses provêm disso. E ele começa a contar a sua história quando chega à ilha da Calypso. Portanto, até nisso, eu acho que o argumento está a respeitar o texto original, e aqui e ali vê-se alguma contemporaneidade. Acho que já li algumas pessoas a falarem disto, de que aqui Tróia pode simbolizar também a própria queda da nossa civilização. De salientar que a guerra de Tróia, mais do que resgatar Helena, foram questões comerciais, para se dominar rotas comerciais naquela região. Claro que isto não tem qualquer fundamento histórico, mas acho que também aí há essa capacidade de fazermos a nossa interpretação, ou fazermos uma interpretação moderna, contemporânea, da Odisseia.

R.A.S. – Também é curioso que, da relação que eu tenho com as obras clássicas, a ideia que me fica de peças e outros textos que li é que há sempre este confronto com os deuses, da impossibilidade de comunicar eles. Eu acho que também é um ponto que este filme consegue captar muito bem. É que os deuses estão muito ausentes no filme, não é? Quase como se o próprio Nolan estivesse a demonstrar a impossibilidade dos deuses sequer existirem, quanto mais darem uma resposta. Não estava à espera que ele conseguisse dar esse tema, por causa de toda a sisudez e a superficialidade dos filmes dele, de querer-se fazer mais inteligente do que é na verdade. Mas esse também é um ponto que me fica. E há um diálogo sobre isso, acho que é no início, quando o Matt Damon está lá com a Charlize Theron, a Calypso. E depois também, com essa personagem, há toda a questão da memória que também é um tema recorrente do Nolan, não é? Neste caso, a falta dela, porque é mais fácil não lidar com a memória, com o trauma. Isso também é outra coisa que me fica deste filme.
S.A. – Quando falei da falta de erotismo, também falava da Calypso. Ou seja, ele está preso na ilha, mas não percebemos exactamente o que o está ali a reter. Da mesma forma, a Circe também tenta seduzir, e estamos a falar da sedução física, o próprio Ulisses, depois de transformar os seus soldados em porcos. Não houve esse lado bastante envolvente do texto… era quase erótico. E também com as sereias. São vistas à distância, não…
R.A.S. – Mas eu até acho piada a isso, porque é um quebrar da nossa expectativa.
S.A. – O facto de não ouvirmos o canto é interessante. Não fazemos ideia, nós humanos não conseguimos conceber o que é o canto das sereias, e porque atrai tanto os marinheiros, etc. Temos depois a descrição posterior, e acho que é também um dos bons momentos do filme, do próprio Matt Damon, se calhar o melhor momento dele, a tentar descrever o canto das sereias… “é tudo aquilo que esperávamos, é tudo aquilo que não esperávamos, é tudo aquilo que perdemos, é tudo aquilo que achamos”. Mas, no entanto, a figura da sereia, aquela figura mitológica durante séculos, que dominou muito o imaginário, até das próprias navegações até o século XVIII, XIX, etc… mal as vemos, portanto. São umas figuras, assim, nas rochas, à distância, mas não temos essa percepção exatamente do que é que podia ser a imagem de sedução de uma sereia.
R.A.S. – Só dar uma nota também de que gostei muito neste filme de dois atores em particular, da Anne Hathaway como Penélope, e do John Leguizamo como Eumeu. É um actor que nunca foi muito valorizado, talvez por causa de muitos filmes que fez, mas acho que está fantástico neste filme, e a personagem dele também passa por várias coisas. A questão do casting é muito engraçada, porque… pronto, como todos os filmes que sugam o espaço mediático à sua volta, foram sendo muito discutidas as escolhas do elenco ao longo destes meses. Mas a maior parte dessas decisões, pelo menos no meu entender, são bastante certeiras. Por exemplo: muita gente criticou o Tom Holland entrar no filme. Mas, claramente, o Nolan escolheu-o por causa daquilo que as pessoas achavam que eram os defeitos dele, ou seja, de parecer um lingrinhas e ter um ar acriançado.
S.A. – O próprio Telémaco, que é a personagem dele, não é muito popular entre os tradutores. No podcast “The Daily”, do New York Times, foram convidadas duas tradutoras da Odisseia, e ambas referiram que o Telémaco nunca foi uma personagem muito entusiasmante, e o filme também não o torna mais cativante. Aí, se calhar, também diria que está muito fiel à origem. Relativamente ao casting, eu ia acrescentar a Samantha Morton, que é a Circe. Realmente, o lado mais feiticeiro da personagem está completamente no ecrã. E a sequência da transformação dos soldados em porcos…
R.A.S. – É aterradora, mesmo.
S.A. – E pelo que sei, não tem qualquer CGI, é mesmo matéria que a própria atriz, ou alguém, sei lá, uma dupla, manuseava para fazer a transformação física dos soldados. Mas a Samantha Morton agarrou completamente aquele papel. É a minha interpretação favorita do filme.
R.A.S. – Achas que se The Odyssey tivesse saído noutra altura, e se fosse de outro realizador qualquer… ou seja, se o filme não tivesse todo este marketing à volta, e esta obsessão que provoca amores e ódios… achas que o filme poderia ser visto de outra forma? Talvez até quem o detesta pudesse ver algumas coisas interessantes, que para mim parecem evidentes.
S.A. – Provavelmente, sem o marketing que tem… começa logo pelo nome que está por trás. Se fosse outro realizador, noutro contexto, provavelmente não. Não acredito, porque acho que hoje em dia… Talvez sendo um bocadinho pessimista demais, não tenho números para o que vou afirmar, mas… quem é que hoje em dia, e antes do filme, sabia o que é a Odisseia ou a Ilíada? Quem é que sabe até, ainda sendo um pouco mais exigente, o que é a Eneida, uma história já romana, mas que adapta a história de Eneias, um soldado de Tróia? Obviamente que não. Porque também a Odisseia já foi muitas vezes adaptada, de várias formas, ao cinema. Acho que nunca houve nenhuma versão tão popular como esta. Houve aquela de 1954 com o Kirk Douglas, que era um bocadinho mais camp… e em preparação para esta versão do Nolan, vi uma outra chamada Nostos: Il ritorno (1989), de Franco Piavoli, que nem tem uma hora e meia, e é descrita mais como um poema inspirado na Odisseia, em grego antigo, e que é suposto ser visto sem legendas. Achei muito interessantes as imagens, mas até podia pensar que isto é um bocadinho pretensioso, não é? Ou seja, é para uma minoria, se calhar os próprios gregos vêem aquilo e não percebem nada. Mas eu até gostei. Também não há muitos diálogos, diga-se de passagem, é mais uma coisa visual, e aí realmente sim, tem o Ulisses com a Calypso, e há uma sensualidade na forma como as imagens são feitas. Mas respondendo à tua pergunta, se não tivesse este orçamento, se não tivesse os nomes que estão associados, mesmo essa própria polémica com o elenco… tudo favoreceu o filme.

R.A.S. – A questão é que neste zeitgeist, sempre que se está a falar bem ou mal, está-se a falar. Quer-se é que o filme esteja sempre presente.
S.A. – Não há má publicidade… e pronto, e nem vou entrar por aí, acho que são temas que não fazem qualquer sentido neste contexto, de não haver uma fidelidade aos aspectos históricos. A Helena de Tróia podia aparecer amarela às bolinhas azuis, para mim é indiferente ser a Lupita Nyong’o ou não… e até acho que é uma escolha interessante, porque se a Helena de Tróia era aquela mulher tão especial, que até fez movimentar exércitos, tinha que ter qualquer coisa diferente de todos à sua volta… se calhar sim, foi um golpe de génio ela ser a Helena e também a irmã Clitemnestra. Acho que foi importante ter Christopher Nolan ao leme deste projeto, para que as pessoas voltem a falar de Homero, voltem a ler ou leiam a Odisseia, que é uma das pedras basilares da literatura ocidental. E acho que temos todos a ganhar, gostando menos ou mais do filme. Eu não vou dizer que é um dos melhores do ano, até porque se eu tiver que fazer um top 10, se calhar não vai lá constar The Odyssey, mas no geral gostei do filme.
R.A.S. – Só entraria num top 10 se não tivesse visto mais nada… também faltam alguns meses, e há muita coisa que vai estrear… mas respondendo à minha própria pergunta, acho um pouco isso para o bem e para o mal. Ou seja, também há pessoas que adoram cegamente o Nolan que, se o filme não tivesse o nome dele, provavelmente não lhe ligariam nenhuma. O que diz muito também deste mundo em que nós vivemos, em que é tudo marketizado de uma forma tão agressiva, o que destrói um pouco a nossa relação com aquilo que é só um objecto, que é um filme, e não com a sua promoção. Mas pode ser que daqui a 10, 20 anos, possamos olhar para este filme sem tudo o que o rodeia agora. E já agora digo que, ao contrário de outros filmes do Nolan, eu também concordo contigo, este será um que eu poderei rever. Nunca mais quero voltar ao Tenet (2020)…
S.A. – Nem eu. (riso)
R.A.S. – Nem outros, mas já agora, o que é que tu achas sobre isto: de repente o Interstellar (2014) fez 10 anos e já é um grande clássico.
S.A. – Por acaso isso passou-me despercebido.
R.A.S. – O filme voltou aos cinemas em 2024, e há muita gente que o adora. Eu só vi na estreia, e fez-me muita confusão todo o parlapiê, à Nolan, a tentar fingir que é inteligente, mas parece que o filme deixou uma marca imensa em muita gente.

S.A. – Quando eu disse há pouco que há mais de uma década que não tinha um filme que gostasse tanto dele, o último que realmente vi com prazer foi o Interstellar, mas não foi na estreia, que fui ver e lembro-me de ter ficado assim um bocado dividido.
R.A.S. – Com a Murphy, que se chama Murphy por causa da Lei de Murphy? E depois dizem-nos isso 300 vezes, senão ainda nos esquecemos…
S.A. -Sim, mas isso já é aquela questão do Nolan, e é algo muito presente. Mesmo no The Odyssey falam 4 ou 5 vezes da lei de Zeus… a certa altura, “eh pá, já percebi”… mas eu revi o Interstellar dois ou três anos mais tarde na televisão, e não sei porquê achei mais pertinente, mais cativante do que na sua época de estreia. Para já tem uma componente de ficção científica que gosto, que é uma certa hard science. Aqueles conceitos, por muito teóricos que sejam, muito daquilo nunca foi comprovado, são apenas teorias… mas de acordo com muitos cientistas, está, à falta da melhor palavra, bastante plausível. Poderia acontecer, realmente, se houvesse aquela tecnologia, se houvesse aquela capacidade da humanidade de chegar tão longe no espaço sideral, podiam acontecer as questões do espaço-tempo, do próprio conceito das viagens no tempo. Gostei muito dessa parte, e também de alguma mensagem pacifista, ecológica, coisa que também, no fundo, foi alguma hard science. Acho que tecnicamente está muito bom, mas eu não consigo dissociar essas questões. Mas isso agora de ser visto já como um clássico deixa-me curioso e, se calhar, agora vão-me fazer também querer rever o filme… mas não te sei dizer o que é que está por trás desse fenómeno. Se calhar foi reposição em 70 mm…
R.A.S. – Foi geral, cá também chegou aos cinemas em versão digital. Mas já que pegas nesse formato, porque nesta conversa toda ainda não falámos desse tema…
S.A. – E o The Prestige (O Terceiro Passo, 2006) vai ter uma nova versão em 70 mm também.
R.A.S. – Mas este formato será difícil de concretizar em Portugal, não é? Quer dizer, o custo de cada cópia… é muito difícil de ser rentável… há algumas máquinas, soubemos há uns dias que existiam por exemplo no Coliseu do Porto, e lá estarão ainda, se calhar… mas este é um fenómeno de regresso ao analógico que também tem muito a ver com esta mediatização toda à volta do filme, ao qual nós vamos ficar completamente alheios, não é?
S.A. – Em princípio, sim. Da minha experiência profissional, eu já nem ia tanto para o 70 mm com ou sem IMAX. O próprio 35 mm é complicado. Porque, e voltando ao que referi antes, há falta de peças e de máquinas. A conversão digital foi tão rápida e de forma tão rapina… foi mesmo completamente destrutivo para o património analógico que existia neste país. As salas tiraram os projectores e a maioria foram para a sucata, para abater em custos de adaptação a equipamentos digitais, projectores, servidores, toda a estrutura. Até o próprio 35 mm é complicado. E eu falo só neste formato porque, mesmo nessa dimensão mais pequena, já é algo que não podes ter em casa. Uma cópia digital não tem custos de transporte, mas uma cópia 35 mm tem os seus encargos. Mas estamos a falar mais é de maquinaria, do que é que existe em Portugal que esteja com capacidade de projetar 35 mm, em que condições, com respeito pelas cópias ou não, com projeccionistas formados… há toda essa envolvência, essa hierarquia de condições que acabou, literalmente, com o digital. Mas sim, em Portugal, neste momento, não há nenhum sítio com capacidade. Existem locais a passar 35 mm, mas é em Lisboa e no Porto, é demasiado centralizado. Mas também devo dizer que nunca houve ninguém em Portugal que se tenha chegado à frente, que tenha arriscado fazer um evento.
R.A.S. – Isso talvez teria de ser uma sessão única, e provavelmente não daria para compensar os custos.
S.A. – Mesmo com bilhetes com preços um pouco mais caros… vamos imaginar o São Jorge, com pouco mais de 800 lugares. 10, 15 euros o bilhete, por exemplo, para uma sessão em 70 mm… será que em Portugal haveria cerca de 800 pessoas dispostas? Talvez com muito marketing…
R.A.S. – Sim, a questão é só o tempo que tu ias perder. É o que eu sinto até em relação a estas sessões À pala de Walsh que nós fizemos: que o tempo perdido a divulgá-las é tanto, e tem de se fazer tanta coisa para depois nem encher metade da sala. E, de facto, é um pouco cansativo. E isto também vem ao encontro da questão da “eventização” do cinema, porque também este filme é um evento. Mas será que no futuro vamos ter só disto? E já quase não há filmes pequenos… mas deixarão completamente de existir para haver só estes eventos?
S.A. – Não acredito. Pelo menos para já estamos a falar em patamares de produção muito específicos. Se este filme foi feito como foi, e está a ser distribuído como está, é pela pessoa em si. É pelo realizador. Mais próximo disto, e se calhar num patamar um bocadinho mais abaixo, temos o Quentin Tarantino, o Paul Thomas Anderson, pouco mais. Talvez o Steven Spielberg, mas ele não tem apostado nestes grandes formatos.
R.A.S. – Os próprios filmes não têm tido essa adesão.
S.A. – Exactamente. E ele ainda continua a filmar em película. Por exemplo, o Disclosure Day (O Dia da Revelação, 2026) tem negativos de 35 mm e 70 mm. E houve algumas projecções de 70 mm em alguns sítios, mas não tiveram, nem de longe nem de perto, a atenção mediática de The Odyssey. Vai sempre depender do projecto e de quem está por trás, mas eu acho que se vai continuar a fazer cinema mais intimista. E estou sempre a falar destas questões do analógico, mas eu nunca digo que um filme é melhor por causa disso. Muitas vezes há quem queira filmar em digital porque acha que se adapta mais a uma determinada história, a um determinado contexto. Há outras questões do analógico que podemos falar, como a preservação dos materiais: ainda é mais fiável do que o digital. Alguns realizadores têm esta preocupação também. A aposta nos grandes formatos vai continuar a ser, para já, uma coisa de nicho… a nível de produção e de projecção, o digital veio para ficar. Embora, como disse o Nolan, talvez isto seja em parte uma estratégia… e que não é de agora, o próprio Interstellar teve essa questão, porque ele quis distribuir primeiro o filme em 70 mm e os cinemas convertidos ao digital temeram. Tinham feito aquela mudança toda para um tipo apostar novamente nos projectores analógicos… mas há essas alternativas. Estou muito curioso para o que vai acontecer no futuro. Pode sair um bocadinho do nicho, talvez passar dos 5% para 20% ou 30%… mas não acredito que seja mais do que isso. E espero que o cinema nunca seja uma experiência premium, porque foi a arte do século XX, extremamente popular, muito direccionada para a classe média/baixa. E é algo que está intrínseco à história do cinema. Se isso acontecer, teria muita pena.
R.A.S. – Falamos daqui a 10 anos, não é? (riso)
S.A. – Sim, acho que sim. É o teste do tempo. Não só para The Odyssey, mas também para a própria indústria.
