Com o seu segundo filme, a realizadora georgiana Dea Kulumbegashvili afirma-se como uma das vozes mais incisivas e arrojadas de uma nova geração de autores contemporâneos, mesmo que April (Abril, 2024) revele em momentos algumas fragilidades. Este é um filme ainda mais ambicioso do que o primeiro, Beginning (2020), que era um brilhante retrato-denúncia da violência patriarcal numa comunidade religiosa e estilizada com longos planos fixos evocativos do cinema de Michael Haneke. O novo April vai ainda mais longe no âmbito da complexidade e construção da sua mensagem, quer ao recorrer a distintos registos visuais dentro do filme, quer na forma como aborda uma diversidade de ideias à volta do seu tema principal, a prática do aborto clandestino no interior do país.

O filme acompanha uma médica obstetra, Nina, que trabalha num hospital mas que também percorre secretamente as aldeias vizinhas para ajudar as suas pacientes quando estas precisam de ajuda que não podem receber no hospital. É uma figura recorrente que aparece em April: a protagonista transformada metaforicamente numa criatura, em algo que se vê como incapaz de ser amado por alguém, sem ser visto como uma monstruosidade. Nina vê-se assim perante o mundo, e castiga-se por causa da dor que causa, mesmo que com a intenção de ajudar, mas também pelo que não consegue fazer, assumindo como seu o mal que o mundo impõe aos desafortunados.
Este é assim um filme sobre as consequências psicológicas de alguém que tem de praticar o aborto de forma clandestina (e dessa forma, mais perigosa e dolorosa), porque não é possível de outra forma, porque aqui não são permitidas medidas de prevenção, informação e muito menos não é permitido lutar contra a violência e as violações, muitas vezes entre membros da família. O resultado é um retrato de um país mas também um filme sobre o estado interior de alguém que é reservado por natureza, fechado e reprimido para poder assim existir às escondidas, em segredo, para poder funcionar. Nina é um enigma, que não deixa antever as suas emoções, o que cria desde logo um distanciamento, uma defesa que funciona como um obstáculo, e por isso o filme nem sempre é eficaz a partilhar ou deixar-nos entrar nesse estado de espírito abstraído, magoado, tempestuoso.
Enquanto filme de terror psicológico é inquietante, desconcertante, assombroso; enquanto estudo de personagem, de criação de empatia por uma aflição, é pouco eficaz e relativamente vazio.
April é um filme de enormes contrastes, de uma dualidade constante. A primeira sequência mostra-nos uma figura feminina deformada, sem contornos claros, nua num espaço vazio e estéril, simbólico de um limbo, um monstro inofensivo à deriva na sua solidão – é a metáfora da forma como a personagem principal se vê refletida num mundo igualmente árido e impiedoso. A sequência seguinte é de uma beleza poética imensa, um longo plano fixo que nos mostra um rio ou lago enquanto a chuva cai, como se este fosse o ponto de vista de alguém, do monstro ou de Nina, mas também do espectador, a absorver a tranquilidade pacificadora da natureza. É à terceira sequência que o filme abala: ao mostrar o nascimento de um bebé nado-morto, através de um ângulo frontal gráfico, somos confrontados com a fragilidade e a violência da vida desde o início, sem escapatória – mas em vez do choque, instala-se uma espécie de entorpecimento. É uma ironia que Nina, uma profissional exemplar segundo os seus colegas, responsável por inúmeros partos bem sucedidos, acaba por ser castigada pela morte deste bebé de uma grávida que, por nunca ter ido a uma consulta pré-natal, impediu tragicamente a deteção de uma condição congénita que acaba por ser fatal – a falta de informação será também um dos temas que irá atravessar o filme – como se estivesse a ser punida pela sua atividade secreta.

Neste estado de torpor e desapego, seguem-se várias longas sequências das visitas de Nina às aldeias, deambulações que mostram-na a conduzir pelas estradas escuras e desertas ao anoitecer, de territórios que parecem de um mundo parado no tempo. Por vezes Nina procura encontro sexuais de uma forma temerária e arriscada; noutras alturas, vê-mo-la em conversas com um seu colega médico, com quem revela uma familiaridade de quem se conhece há muito (estiveram juntos há oito anos); noutras vemos a figura do monstro sentada por exemplo na cozinha da casa de Nina; vemos ainda as visitas de Nina a casa de uma jovem rapariga grávida, que precisa da sua ajuda. Nesta intersecção entre estes diferentes registos, na lenta passagem do tempo, reforça-se um estado de alienação, de distanciamento emocional, das sequelas deixadas pela solidão. São imagens evocativas de um certo cinema romeno, de realizadores como Cristian Mungiu e Cristi Puiu, e em particular do ritmo desolador de Aurora (2010), pela intersecção entre comentário social e a lenta interiorização de traumas pelas personagens principais, mas a maior ligação é mesmo à personagem principal de La pianiste (A Pianista, 2001), outra vez Haneke como influência maior, pela forma como Nina se isola gradualmente do mundo à sua volta, como se estivesse em guerra não com o mundo mas consigo mesma.
Numa das cenas mais tensas, que acompanha a prática de um aborto em condições precárias, o potencial de violência visual que existe pelo que foi mostrado antes, é desarmado por um plano fixo que deixa a acção escondida, mas o trabalho a nível do som ensombra o que não vemos, não deixa novamente qualquer hipótese de escape – este é, aliás, um filme em que muito acontece fora de campo, fora da visão mas pressentido, um filme sempre pronto a escapar pelas suas margens. De um lado uma intenção de realismo, através dos planos longos, diálogos esparsos e acção minimal; do outro lado, uma ideia de desejo de uma representação sensorial, abstrata ou figurada. É no embate entre estes dois campos que se joga o filme, ou melhor, que se perde parte do seu impacto, ao procurar dois registos, o próximo/distante e o interior/exterior, diferentes. Enquanto filme de terror psicológico é inquietante, desconcertante, assombroso; enquanto estudo de personagem, de criação de empatia por uma aflição, é pouco eficaz e relativamente vazio – é nesta ambiguidade que o filme habita, e que eventualmente acaba por se dissipar, tal como a sua personagem principal.
★★★☆☆
