Realizado por George Stevens, Giant (O Gigante, 1956) é uma das grandes epopeias do cinema norte-americano: um filme de vastos cenários texanos, povoado por algumas das maiores estrelas de Hollywood – Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean – e marcado por uma duração generosa que lhe permite acompanhar várias décadas da vida das suas personagens.
Adaptado do romance homónimo de Edna Ferber, o filme acompanha a história da família Benedict, tendo como pano de fundo as profundas transformações sociais, económicas e culturais do Texas, num século em que a criação de gado vai perdendo importância enquanto alastra a exploração de petróleo. Mais do que uma narrativa centrada na realidade texana, Giant constitui uma reflexão sobre as tensões que atravessam a sociedade americana, desde as desigualdades raciais até às mudanças nos papéis de género e nas estruturas tradicionais de autoridade.

Neste sentido, Giant pode ser visto como um conjunto de “duelos ao sol” (ainda que George Stevens passe boa parte do filme a brincar com as sombras que envolvem as personagens em confronto). O mais evidente destes duelos opõe Jordan “Bick” Benedict (Rock Hudson) e Leslie Lynnton (Elizabeth Taylor), representantes de visões do mundo frequentemente incompatíveis: a tradição texana e uma sensibilidade mais aberta e progressista. A este junta-se o duelo entre Jordan e Jett Rink (James Dean), marcado pela rivalidade social, económica e pessoal, que atravessa grande parte da narrativa. O confronto entre Leslie e a cunhada Luz Benedict (a sempre excelente Mercedes McCambridge) revela uma luta de poucas palavras, feita de ciúmes e ressentimentos (e de especial crueldade, da parte de Luz). Estes duelos, travados sob o sol implacável do Texas, não são apenas conflitos entre indivíduos, são igualmente o reflexo das tensões de uma sociedade em mudança.
Giant é muitas vezes desvalorizado como um produto excessivo da velha Hollywood: longo, grandioso, melodramático. Mas há algo profundamente satisfatório na forma como acompanha a lenta educação de Jordan Benedict.
Também as relações de amor são marcadas por esta tensão. Desde logo, a relação entre Jordan e Leslie, que tanto tem de apaixonada quanto de beligerante. Mas também o amor nunca confessado de Luz por Jett (que, inadvertidamente, irá agudizar a relação entre este e Jordan), e um outro amor não dito, mas por demais óbvio, o de Jett por Leslie. Jett move todos os seus esforços para cortejar Leslie, mostrando-se vulnerável e sensível. A sua perseguição de fortuna própria não é, afinal, mais do que uma tentativa de chegar à mulher que ele ama. Leslie considera que o dinheiro é algo sem qualquer importância, mas Jett contrapõe-lhe: “só para quem o tem”.

Em Giant, os duelos começam, aliás, na própria paisagem, no confronto entre o verde que Leslie traz consigo e a imensidão árida do Texas que a espera após o casamento.
Os primeiros minutos do filme estabelecem imediatamente um contraste que irá atravessar toda a narrativa. A casa da família Lynnton surge rodeada de vegetação, inserida numa paisagem verde que transmite uma sensação de harmonia e abundância. Quando Leslie acompanha Bick Benedict para o Texas, entra num espaço radicalmente diferente: uma extensão quase infinita de terra seca, que requer horas de viagem para ser percorrida. Antes mesmo de qualquer conflito entre as personagens, Stevens apresenta um choque entre paisagens e modos de vida.
A chegada do comboio a vapor, avançando pela imensidão da paisagem texana, recorda, nomeadamente, uma conhecida fotografia de O. Winston Link, onde a máquina irrompe paisagem adentro, em ruptura com o espaço que a envolve.

O contraste entre o verde e o deserto torna-se também uma forma de caracterizar Leslie. A sua ligação ao cavalo, sinal de liberdade e de harmonia com o meio envolvente, remete inevitavelmente para o percurso inicial de actriz de Elizabeth Taylor, com o filme National Velvet (A Nobreza Corre nas Veias, 1944), filme em que a relação entre uma jovem rapariga e o seu cavalo ocupava igualmente o centro da narrativa.
Se a adaptação de Leslie à nova paisagem e à maneira de ser do Texas se revela tumultuosa, o seu cavalo permanece como ser vivo transplantado, afastado do verde em que foi criado, incapaz de sobreviver. A ideia do verde como ligação à vida traz à memória a frase de Kristin Scott Thomas em The English Patient (O Paciente Inglês, 1996): “I long for green, anything green.” Mais do que uma cor, o verde representa uma memória afectiva.
Há ainda um outro duelo, menos visível: o confronto entre duas Hollywoods. De um lado, a geração emergente que, poucos anos depois, passaria a encarnar uma nova ideia de actor e de rebeldia – Dennis Hopper, Sal Mineo ou Carol Baker, intérpretes associados a um diferente estilo de representação (resultado da influência crescente do Actors Studio) e a personagens marcadas pela inquietação e inconformismo. Do outro, Elizabeth Taylor e Rock Hudson, produtos por excelência do sistema clássico de estúdio. Rock Hudson conseguiu em Giant conquistar um papel muito pretendido por outras estrelas de Hollywood (William Holden, Calrk Gable ou Gary Cooper) e aproveitar essa oportunidade, libertando-se da mera condição de estrela para conquistar uma maior densidade dramática.
James Dean acaba por ocupar uma posição intermédia: é simultaneamente um dos últimos grandes mitos do sistema clássico e um dos primeiros ícones da modernidade que viria a transformar Hollywood, pertencendo claramente a uma nova sensibilidade: a influência do method acting, a expressão da inquietação juvenil, uma representação emocionalmente exposta.
Continuando a explorar estes diversos campos que se opõem, tomamos a imagem de Jordan no jantar da família Lynnton, onde ele se sente claramente deslocado. Sem dinner jacket, parece desconfortável perante os códigos sociais da elite da Costa Leste. Leslie, pelo contrário, é uma mulher segura de si, muito longe dos folhos e discurso meloso das mulheres texanas. Quando lhe perguntam se está apaixonada, responde laconicamente: “Yes, I think so.” Inteligente e curiosa, procura compreender o Texas antes mesmo de lá chegar, lendo sobre o estado.

A chegada ao Texas confronta-a com um mundo quase irreal: o casarão vitoriano perdido no meio do nada, a vastidão da paisagem, uma cultura que parece obedecer a regras próprias. “Texas – is that a state of mind?”, pergunta ela. Leslie resiste, todavia, à assimilação. Faz questão de tratar todos pelo nome e de reconhecer os rostos mexicanos que os outros preferem ignorar. Afirma a sua individualidade e a sua força. O seu desajustamento não é uma fraqueza, mas uma forma de resistência.
Mesmo quando desfalece perante a dureza daquele novo mundo, sob o sol escaldante, o episódio surge como um acidente, não como uma derrota. Leslie está decidida a que não se repita. Quase a imaginamos a fazer uma promessa silenciosa, numa nova versão do célebre juramento de Scarlett O’Hara: “As God is my witness, I’ll never faint again.” Há nela algo da determinação das grandes heroínas do Sul, mas sem a sua dureza egoísta, antes uma fidelidade inabalável aos seus princípios.
Leslie procura ultrapassar os problemas de comunicação – os trabalhadores mexicanos não falam inglês, mas ela consegue compreendê-los melhor do que aqueles que falam a sua língua -, mas também a dificuldade em chegar a Jordan, na sua masculinidade imperturbável, e, muito especialmente, a Luz, a irmã de Jordan que vê nela uma ameaça a todo o modo de ser texano. Jett, em contrapartida, sabe inteiramente que Leslie pertence a um outro mundo, mas tenta chegar até ela por pequenos gestos – servindo-lhe chá numa terra em que todos bebem litros de café. Sendo certo que as constantes picardias entre Jordan e Leslie parecem servir para ir apimentando a relação, dando espaço a conciliações – “Why don’t you kick off your spurs?”

Os senhores do gado possuem enormes fortunas, mas que parecem modestas perante a riqueza obscena que resulta do petróleo. O gado exige trabalho, tempo e cuidado; o petróleo limita-se a jorrar da terra. O gado cria-se em harmonia com a paisagem; o petróleo empesta o horizonte com enormes torres. Quando todos enriquecem graças ao petróleo, vemos esse conjunto de ociosos à volta de uma piscina, um oásis artificial plantado no meio da aridez texana, festejando uma bênção fiscal (atribuída por tudo aquilo que não fazem).
Jett Rink é o homem que se torna milionário com o único propósito de chegar a uma mulher. Para este espúrio Citizen Kane, Leslie é o seu Rosebud. Nesse vazio que é a sua vida, ele continua a ser um pobre coitado desorientado, que uma vez teve a sorte de descobrir petróleo numa pequena parcela de terreno. Um império em que todos os bens estão marcados pelas iniciais “JR” (curiosamente, as mesmas iniciais que serviriam uma outra personagem texana na TV), mas tudo isso é apenas dinheiro – uma fortuna conquistada sem esforço, sem mérito. Os homens marcam o seu património como marcam o seu gado, afirmando o seu poder. Assim sucede também em Reata, o rancho da família Benedict, onde até o vagão do comboio exibe um “R”.
A sequência da inauguração do hotel, afectada pela tempestade, revela o verdadeiro significado da ascensão de Jett Rink. Apesar da riqueza imensa e do poder que o petróleo lhe trouxe, é difícil identificar o que ele possa ter conquistado de verdadeiro valor para ele. Mesmo toda aquela fortuna não pode comprar bom tempo. As mesas dispersas pelo salão compõem um cenário de desolação que recorda a solidão de The Crowd (A Multidão, 1928) ou The Apartment (O Apartamento, 1960), mas sem a alienação do trabalho. Aqui, a solidão nasce do ócio e de uma riqueza feita de vazio. Jett conquistou poder, fortuna e visibilidade; continua, porém, excluído do mundo a que sempre quis pertencer. No fim, permanece sozinho no centro do seu império, rodeado por uma abundância que apenas torna mais visível a sua derrota.
O verdadeiro herói discreto de Giant é Angel (Sal Mineo), o jovem mexicano-americano que encarna tudo aquilo que Jordan gostaria de encontrar num herdeiro. Filho de uma comunidade em que os seus membros são tratados como cidadãos de segunda categoria, cresce num mundo que lhe nega até os cuidados médicos mais básicos. Ainda assim, quando chega a hora da guerra, é considerado suficientemente americano para morrer pelo seu país. O seu corpo regressa ao Texas dentro de um caixão, ilustração cruel das contradições da sociedade americana.
O legado que Jordan procura construir não encontra, na verdade, um sucessor óbvio. O filho rejeita o destino de proprietário e escolhe a medicina, colocando-se ao serviço dos mais desfavorecidos. Luz (Carrol Baker) tem um fascínio por Jett Rink. Judy (Fran Bennett) e o marido Bob (Earl Holliman) preferem uma relação mais simples com a terra, sem a ambição desmedida que fez de Reata um império. Quando Bob afirma que “big stuff is old stuff now”, parece atacar não apenas uma ideia de progresso, mas a própria essência do mundo que Jordan herdou e ajudou a construir.

À primeira vista, tudo isto poderia parecer uma derrota. O patriarca envelheceu e o seu mundo está a desaparecer. Mas é precisamente nesse momento que Jordan se torna a melhor versão de si próprio. A cena do restaurante funciona como a verdadeira conclusão moral do filme. Ao enfrentar o proprietário que se recusa a servir o seu neto por este ter traços mexicanos, Jordan abandona definitivamente muitos dos preconceitos que o definiram durante décadas. Acaba caído no chão, vencido fisicamente, mas do lado certo da história.
É também nesse instante que Leslie mais o ama. Não quando ele se comporta como o senhor de Reata, seguro da sua autoridade e do seu poder, mas quando o vê derrotado no chão do restaurante.
Giant é muitas vezes desvalorizado como um produto excessivo da velha Hollywood: longo, grandioso, melodramático. Mas há algo profundamente satisfatório na forma como acompanha a lenta educação de Jordan Benedict. Quantos filmes se permitem mostrar um homem machista, orgulhoso e cheio de preconceitos a crescer durante décadas até se tornar um ser humano melhor, alguém que não é capaz de suportar um acto de racismo? Se isto é vender sonhos à maneira da Hollywood clássica, é difícil encontrar motivo para protestar.
