My epistolary powers enthrall me.
It is a pity I can’t receive my own letters.
Diário de Flannery O’Connor, 22 de Janeiro de 1944.
1.

Numa sequência de Le petit soldat (O Soldado das Sombras, 1963), de Godard, o protagonista Bruno Forestier, torturado por dois homens, procura resistir à dor fazendo uma lista das coisas em que precisa de pensar muito rapidamente para não sentir as queimaduras que lhe estão a infligir:
Pensar noutra coisa
depressa
não interessa o quê
evitar a dor
depressa
o mar a praia o sol
pensar tão depressa que já não se pensa em nada
Escrever a Veronica
depressa
evitar a dor
depressa
escrever uma carta
cada vez mais depressa
ganhar à dor com a velocidade
Veronica
Uma carta ainda mais bonita do que a de Robert Desnos à sua mulher
No momento em que se ouve em off esta última frase, Bruno vira-se lentamente para a câmara, que fixa parado, em sofrimento. A “carta que Robert Desnos escreveu à sua mulher” é a famosa carta de 1945 para Youki, escrita no campo de Theresienstadt, onde Desnos viria a morrer. Conhecemos bem essa carta, que aprendemos de cor com o cinema de Pedro Costa, de Casa de Lava (1994) a Juventude em Marcha (2006), e que é também feita de uma terrível espécie de lista, a lista comovente das coisas impossíveis que o condenado Desnos gostaria de enviar à mulher:
"Gostaria de te oferecer 100 000 cigarros louros, doze vestidos de grandes costureiros, o apartamento da Rue de Seine, um automóvel, a casinha na floresta de Compiègne, a de Belle-Isle e um ramalhete de quatro tostões. Na minha ausência, compra sempre flores; eu reembolso-te. O resto, prometo-te para mais tarde. Mas, antes de mais nada, bebe uma garrafa de bom vinho e pensa em mim."
A situação desesperada de Desnos em Theresienstadt (“Meu amor: o nosso sofrimento seria intolerável se não o pudermos considerar uma doença passageira e sentimental”) e o sofrimento físico de Bruno Forestier sob tortura são assim aproximados, tal como em Juventude em Marcha o pijama listado de Ventura o situa visualmente no espaço concentracionário implicado na carta que vai repetindo ao longo do filme.
2.

Numa longa entrevista de Nuno Crespo a Pedro Costa por ocasião da publicação do Casa de Lava Scrapbook (o caderno de rodagem — misto de diário, colagens e notas de filmagem — que acompanhou Costa antes, durante e depois da preparação do filme), Pedro Costa descreve deste modo a lógica do caderno:
[A] primeira página foi a do postal com o selo de Cabo Verde onde se vêem três enfermeiras de costas contra as montanhas de Santo Antão e ao lado uma página do PÚBLICO com um artigo sobre vacinas perigosas que exportávamos para os PALOP... Tudo coisas que tinha à mão, jornal diário e uma vista de Cabo Verde. Colei o postal, o selo, as vacinas, as enfermeiras. E como andava a ler um livro do Robert Desnos, assinei o nome dele no verso do postal e de repente toda a história se iluminou e o filme encontrou remetente e destinatário.
“Assinei o nome dele no verso do postal”. Se em Godard o protagonista sonha escrever “uma carta ainda mais bonita do que a que Desnos escreveu”, no filme de Pedro Costa, e no seu cinema, o desejo parece ser outro: escrever a carta que Desnos escreveu, e que é escrita e reescrita, de modos diferentes, de filme para filme.
3.

A ideia de uma carta em nome de Desnos assume assim diferentes formas no cinema de Pedro Costa. Em Casa de Lava, filme atravessado pela circulação da carta a Youki, agora anónima e em crioulo, inscreve-se explicitamente na banda sonora através da “morna das sombras” que Bassoé toca ao longo do filme e que ouvimos Tina cantar. No genérico final, um cartão impossível junta o nome sempre ausente de Robert Desnos, feito letrista, com a música de Raul Andrade, aliás Bassoé: percebemos assim que o que Tina canta em off durante os créditos é a tradução para crioulo do famoso último poema de Desnos, supostamente encontrado com o seu corpo no campo de Theresienstadt em 1945.
J’ai tellement rêvé de toi
J’ai tellement marché, tellement parlé,
Tellement aimé ton ombre,
Qu’il ne me reste plus rien de toi,
Il me reste d’être l’ombre parmi les ombres,
D’être cent fois plus ombre que l’ombre,
D’être l’ombre qui viendra et reviendra
Dans ta vie ensoleillée.
Sonhei tanto contigo
andei tanto, falei tanto,
amei tanto a tua sombra,
que já não me resta nada de ti
resta-me ser a sombra entre as sombras,
ser cem vezes mais sombra do que a sombra,
ser a sombra que virá e voltará
à tua vida cheia de sol.
Sobre o caderno (sobre o seu cinema?) Costa afirma: “aqui podemos pôr o poeta Desnos a falar crioulo e esse tipo de encontro pode ser afirmado sem reservas”. A história, porém, é mais vertiginosa ainda, parecendo querer ilustrar a proliferação de fantasmas que Kafka associava ao circuito epistolar: o poema que circulou como poema-testamento de Desnos, e que aqui Pedro Costa transforma em canção, é na verdade uma retroversão para francês de um poema em prosa que circulou em tradução checa quando foi conhecida a morte do poeta em 1945. Tratava-se de um poema de Corps et biens, publicado por Desnos em 1926:
J’ai tant rêvé de toi, tant marché, parlé, couché avec ton fantôme qu’il ne me reste plus peut-être, et pourtant, qu’à être fantôme parmi les fantômes et plus ombre cent fois que l’ombre qui se promène et se promènera allègrement sur le cadran solaire de ta vie.
Sonhei tanto contigo, andei, falei, deitei-me tanto com o teu fantasma que talvez não me reste mais nada a não ser, apesar de tudo, fantasma entre os fantasmas e cem vezes mais sombra do que a sombra que se passeia e que se passeará alegremente no relógio solar da tua vida».
A tradução do poema de Desnos, feita por Jindrich Horejsi, acompanhou o obituário publicado em 1945 no jornal Svobodni Noviny. O necrológio foi traduzido do checo para francês pela revista Les Lettres françaises em Agosto de 1945, activando a circulação da retroversão que acabou por ganhar a fama de “último poema”, exercício fantasmagórico de reescrita num circuito postal enlouquecido. Do fantasma para a sombra, do francês para o checo, do checo para o francês, e por fim (por fim?) do francês para o crioulo, chega à Ilha do Fogo, onde “até os mortos dançam”.
4.


Nas entrevistas sobre o seu primeiro filme, Pedro Costa sublinha frequentemente que O Sangue (1989) é um filme atravessado por muitos pais (Bresson, Ray ou Tourneur). O filme cinéfilo de Costa teria assim o estatuto de uma quitação libertadora: “eu tinha de pagar a minha dívida a vários mortos e a vários filmes de que gostava. Foi o modo de acabar com isso também”, diz o realizador. Descrita muitas vezes como a história de um parricídio, a narrativa elíptica de O Sangue parece responder a esta formulação.
Num ensaio sobre o cinema de Pedro Costa (Questi fiori malati. Il cinema di Pedro Costa), Michael Guarneri observa porém que a leitura do filme sob o signo do parricídio corre o risco de abafar uma leitura paralela: a que permite ver o O Sangue como a história de dois filhos que amam demasiado e “com um amor louco e desesperado” um pai ausente.
No conto A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, o protagonista pergunta sobre o pai que partiu para o meio do rio: “Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade.”
Lembro-me do prólogo de O Sangue: Vicente, de frente para a câmara, primeiro, e para o pai a partir do momento em que o contracampo o revela, a ser atingido por uma bofetada inesperada e súbita, vinda de fora do plano, desse lugar que já sabemos ser do pai. Presentes um ao outro e separados pela montagem cortante, pai e filho estabelecem desde o início uma relação oblíqua e incorrespondente.
“Faça de mim o que quiser”, diz o filho. O pai começa a afastar-se, o filho pede-lhe que fique, o pai desvencilha-se para se ir embora. Vicente pergunta então:
— O que é que eu digo ao Nino?
— Que morri.
5.

A cena inicial de O Sangue, na lógica da quitação de dívida, lembra a sequência de Mouchette (Amor e Morte, 1967) em que a rapariga é esbofeteada pelo pai que inesperadamente aparece na feira. Se o gesto é semelhante, O Sangue inverte a lógica dessa punição paterna: ao contrário do pai de Mouchette, que surpreende a filha com a sua presença, este pai parece impor com o seu gesto o seu desaparecimento, dispensando-se de falar. Vicente recebe assim a injunção de falar por ele e de inventar para o irmão Nino uma morte que não ocorreu ainda. Pouco depois, sabemos que o pai começou uma carta de despedida aos filhos, que Vicente encontrou. Pergunta a Vicente se a leu: “Só duas linhas. Não teve coragem para a acabar?” “Ainda não és órfão”, responde o pai. No capítulo “Sinais de um pai sumido, canção”, do Ó, de Nuno Ramos, lemos “Um morto nos educa: eu te apresento a literatura”.
6.

Nino, o irmão mais novo, é assim colocado desde o início numa posição intervalar, abrindo espaço entre o pai ausente e o irmão que se faz dele substituto através das histórias que lhe contam e que ele próprio inventa. Numa cena no bosque depois da noite em que Vicente e Clara enterram o corpo, Clara lê a redacção que Nino escreveu no caderno, para a escola, sobre um sonho que teve: “O homem com o termómetro no chapéu e o meu irmão Vicente”. Descreve deste modo o pai: “o meu pai estava ali não estando lá”. Clara pára de ler, e ordena: “Não vais entregar isto. Dizes que não sonhaste nada.”
7.




Toda a escrita, em O Sangue, parece assim descrever a ausência do pai e passar pela ficção da sua morte. O pai, que está ali “não estando lá”, paira sobre o filme primeiro como corpo esvaziado, em fuga, e depois como uma ausência a que a escrita dá corpo — como se O Sangue fosse de facto menos a história de um parricídio do que das formas de escrita desta morte por parte dos filhos, que a deverão de algum modo assinar. Logo depois de dizer a Nino que o pai não vai voltar, Vicente escreve uma carta. Nino pergunta-lhe o que está a escrever, e Vicente responde: “Nada. Uma carta. Para nós. Só que ainda não a recebemos”.
Quando Nino, uns dias depois, se queixa de que o postal não chegou, Vicente tranquiliza-o: o postal vai chegar, porque “o pai não se esquece”. Escrita por Vicente em nome do pai, também esta carta vem replicar a notícia da sua morte. E de facto Vicente irá entregá-la, perante o olhar envergonhado de Nino, ao tio: é agora “uma carta de um amigo que vos quer bem” a contar o seu desaparecimento. O tio lê a carta, desconfia, duvida, acusa Vicente:
— Mais nada. Só falta assinares. Tu ou o Diabo por ti!
