We push off at one end and glide,
then kick soundlessly through the blue.
Leanne Shapton, Swimming Studies
Soon after I arrive back, there are storms.
Amy Liptrot, The Outrun
Everything falls in a tremendous shower, dissolving me.
Virginia Woolf, The Waves
Encontro os filmes-poema da cineasta e poeta Margaret Tait na arte abstracta de Agnes Martin uma certa tarde outonal de 2015 no Tate Modern. Em frente ao Untitled (1959), vejo o cinzento da falésia, e as barreiras que separam mas não param a imensidão arroxeada do mar e do horizonte durante uma tempestade nas ilhas Orkney, um arquipélago no Mar do Norte, ao largo da costa norte da Escócia continental. Mal eu sabia que Untitled era uma plataforma para Martin mergulhar definitivamente nas suas famosas grelhas. Em oposição à sua arrumação, vejo evidenciado o rasgo impressionista de Tait. A comparação e a relação entre as duas artistas pode parecer, à primeira vista, desarticulada, mas é, olhando de perto, emocionalmente coesa. Ambas replicam um interior ardente no exterior meditativo que nos dão a ver. Tait é tecido do azul do mar do Norte, tão vasto e desconhecido, gélido quando em contacto com a pele, o elemento de ligação com o resto do mundo. E ela dá-se a essa melancolia e ao assombramento dos afectos. Por sua vez, Martin, Canadiana-Americana, trazia com ela a vastidão torrada do deserto do Novo México, onde agarrar o efémero parte de ganhar controlo sobre ele. Um mundo de secura e forçada contemplação.

Figuras pioneiras do séc. XX, ambas artistas viviam isoladas geograficamente e operavam assim também, nas margens dos grandes movimentos artísticos e comerciais das suas épocas, tecendo um diálogo que perdura até hoje sobre a expressão inusitada da beleza, e como nós carregamos connosco a abertura à nossa paisagem. De formas diferentes, ambas “pintavam” estados puros de existência, focando-se no movimento, na luz e na cor para traduzir os pequenos gestos. Escrevia Tait num poema entitulado Light no livro Poems, Stories and Writings – antologia que veio a inspirar e fazer parte de Aftersun (2022), da também escocesa Charlotte Wells – “Waves are made of waves”, como quem diz que no centro de tudo está nada mais do que o movimento e a luz que o atravessa, com a vida a resultar da energia que deriva e depende da continuidade desse fluxo. Muito se fala sobre como o mundo natural onde o artista está inserido dá forma à sua obra, mas no caso de Tait, parece-me ser ainda mais inevitável. A artista é o corpo elemental deste lugar isolado, conhecido pelas suas correntes fortes e marés traiçoeiras. A sua única longa-metragem ficcional, completada quando a poeta já ultrapassava os 70 anos, Blue Black Permanent (1992), fala pelo funcionamento intrincado dessa presença, um filme capaz de levar uma artista até hoje relativamente desconhecida, com os seus impulsos e fascínios pelas texturas da vida, à boleia pelo mundo fora.
Margaret Tait não estava tão interessada em decantar quanto em reproduzir o que se encontrava ali, à flor da pele. A sua condição enquanto médica grandemente acrescenta a isto. O foco não é a anatomia, mas antes o que a ultrapassa. O esoterismo do subjectivo, ou seja “perseguir a imagem” para continuar a viver.
Mas desenganem-se se acham que o seu objectivo era o auto-retrato. Voltando atrás, tudo está na força e continuidade da produção do movimento. Blue Black Permanent começa por ser narrado por uma fotógrafa, Barbara (Celia Imrie), que no tempo presente e no cenário do seu espaço privado, a sua casa em Edimburgo, vai falando com o parceiro sobre como pensa ter falhado à mãe Greta (Gerda Stevenson) – “devia ter conseguido pará-la, salvá-la”, lamenta-se – uma poeta que faleceu de forma misteriosa (“caminhou até ao mar”) quando esta tinha apenas 9 anos. De forma circular, mantendo a tradição vertical do cinema poético (imbuída nesta forma está um optimismo sem par), viajamos pelas relações entre mães e filhas, chamando as memórias do passado para falar com o presente. Na tentativa de examinar quem ela é e o que poderá ter acontecido à mãe – afinal a história de uma mãe é também a história da filha -, Barbara viaja até à sua infância, e acaba eventualmente dentro da infância da mãe, que passa a narrar a história, também ela à conversa com o marido, em momentos fora do tempo e do espaço, beyond the grave (como que reavivada pelo cinema, diz ela ao marido que está no tempo futuro, “eu tive que voltar”). Greta vive em Edimburgo com a família, e apoia-se na vida doméstica para “a segurar ao chão”, como diz a Andrew, o amigo pintor, mas regressa a casa, às ilhas, primeiro por causa do pai doente e envelhecido, e depois com os filhos para umas pequenas férias, quando perde a vida.
O mar é um símbolo de inspiração para Greta, tanto ao nível da contemplação, onde vê a expansão e possível transcendência do seu ser, como também representa a sua angústia e medo, tendo a mãe dela morrido por afogamento. Diz a Andrew, “o mar é o elo de ligação a tudo”. Tem um efeito assombroso nela, e ela não parece conseguir impedi-lo. Confessa que tem estes sonhos vívidos, nos quais se vê encurralada pela água, como quando era jovem na ‘piscina das sereias’ nas águas costeiras de Deerness, uma península no leste da ilha principal, onde famosamente foi avistada uma sereia no final do séc. XIX. No meio de prenúncios, a morte sempre tão perto, Greta encarna o inexplicável. Dizia eu que Greta é uma poeta. Mas como é que isso é perceptível? Ser poeta não é algo visível, não tem uniforme próprio. Como é que sabemos que o é? Da mesma forma que Tait filma sempre as ondas em movimento – elas não adormecem, e vivem de inquietude, com um estrondo e um rugido – a cineasta filma também a sua personagem principal em movimento. Isto é crucial. Nada acalma nela, mesmo quando permanece inerte. O instrumental sonoro do filme confirma-o, assemelhando-se em parte à buzina de um navio quando parte de um cais.

Há uma cena em particular no filme que nos grita. No meio de uma tempestade, Greta não se abriga. Exactamente o contrário. Vemo-la a descer umas escadas, os conhecidos Playfair Steps na capital escocesa que fazem a ligação entre a old town e a new town, que a filha adulta sobe com o parceiro décadas mais tarde no tempo presente. A chuva cai a cântaros e Greta deleita-se com a sua queda, abraçando-a e parando até para escrever no seu bloco de notas. Acordada, mas algures entre o sonho e a realidade, Greta adora a tempestade. Quando está sozinha, uma elevação involuntária é activada que a faz vaguear “fora de mim mesma”. Mais tarde diz a Andrew que sente a necessidade de uma vida artística da mesma forma que precisa de manter a sua vida doméstica. O amigo dá-lhe a entender que uma não permite a existência da outra. E assim é, tanto que até a dormir (a filha assume que a sua morte se deve a um caso severo de sonambulismo – os escritores nunca dormem realmente) a natureza a chama e ela acorda para escrever. Ser poeta não é um trabalho, é um chamamento. A existência de Greta, a forma como vive o mundo é a de alguém que não tem como não se afundar, alguém que viaja “entre línguas”, com capacidade para transformar a realidade, porque está naturalmente sintonizada aos detalhes das mais pequenas coisas. Naturalmente, durante a tempestade, o seu interior vê-se exteriorizado. E ela consegue finalmente descansar.
Blue Black Permanent começa com a revelação de uma história privada, mas essa individualidade derrete até a mesma história alcançar uma universalidade. Torna-se uma galeria de espelhos e uma conversa entre mulheres sobre feminilidade, sobre as suas fugas corporais.
Sendo assim, Blue Black Permanent parece assemelhar-se ao caderno do poeta: viaja entre tempo e espaço, entre línguas e maneiras de estar, entre três gerações, Barbara, a mãe Greta e a avó Mary, três mulheres que vivem de forma intensa fora de si mesmas. São porta-vozes. Noutras palavras, as suas vidas não lhes pertencem na totalidade. Estão sintonizadas para ouvir. Podem ser invisíveis aos outros, e são – os homens à sua volta tentam ouvir e compreender, mas nem sempre conseguem. Resta saber se a intensidade com que nutrem esta vida interior está relacionada com os seus destinos trágicos. Também é difícil saber se a vida doméstica as alienava – assume-se apenas que sim. Barbara, ao contrário da avó e da mãe, é livre a esse respeito. She has a room of her own. Não tem filhos (talvez por receio do que lhes possa acontecer?) e tem um companheiro mas não é casada (“we’re not the marrying kind”, explica). É fotógrafa, mas deixou de tentar fotografar o mar. Ainda assim, nas luzes vermelhas de uma pista de dança num nightclub, o mar não domina o ecrã pela primeira vez, mas nunca está muito longe. Que é o mesmo que dizer que a mãe nunca está longe. Tait faz a transição desse momento para a mesa onde Greta escrevia, com a janela aberta para o mar, no dia em que este a levou.


Uma coisa é clara. Margaret Tait não está tão interessada em decantar quanto em reproduzir o que se encontrava ali, à flor da pele. A sua condição enquanto médica, profissão que ajudou a assegurar a sua independência artística, grandemente acrescenta a isto. O foco não é a anatomia, mas antes o que a ultrapassa. O esoterismo do subjectivo, ou seja “perseguir a imagem” para continuar a viver. Quando Greta regressa a casa do pai, ela olha, ela sente, ela procura o toque e o cheiro: o tapete nos pés, o sabão nas mãos, as rajadas de vento na cara. Ela habita o tempo presente. Luke Fowler, cineasta experimental escocês, ao intitular o seu pequeno documentário-retrato sobre Tait Being in a Place (2023), fala pela ligação que o trabalho dela estabelece entre a natureza, os objectos e as pessoas, entrelaçando-os a todos de tal forma que deixa de haver como os distinguir dentro do ‘agora’, no acto de fazer parte e estar num lugar. “The thing about poetry is you have to keep doing it”, diz-nos Tait no poema Now. Produzir é estar presente. E estar presente é o ponto de partida para a compreensão.



Posto isto, Blue Black Permanent começa com a revelação de uma história privada, mas essa individualidade derrete até a mesma história alcançar uma universalidade. Torna-se uma galeria de espelhos e uma conversa entre mulheres sobre feminilidade, sobre as suas fugas corporais. A poesia de Greta, ignorada pelo marido enquanto sintoma de uma mulher a sofrer de uma patologia desconhecida, permaneceu em grande parte por ler, até desaparecer para sempre. Barbara não consegue encontrar a mãe por aí, mas descobre-a nas algas, nas flores que só crescem naquelas colinas, e em todas as outras coisas que se emaranham com a mesma força activa que molda o temperamento, que conduz percepção e endurece uma ligação profunda de pertença com o mundo. O mero conhecimento da existência de Greta é uma tempestade na terra. E o mero conhecimento da existência da obra de artistas tão destemidas como Tait e Martin, sempre a contestar os limites da abstração, aproxima-nos de uma ideia de reconcílio. Não conseguimos controlar o incontrolável, mas podemos e devemos continuar a mergulhar nele: “You must have ink in your veins as well as the sea in your blood”
Blue Black Permanent passa no dia 28 de Outubro, quarta-feira, às 19h, na Cinemateca Portuguesa no âmbito do ciclo O Cinema de Margaret Tait em diálogo. Volta a repetir dia 31 de Outubro, sábado, às 16h.
