Off we go into the wild blue yonder,
Climbing high into the sun
Here they come, zooming to meet our thunder,
At them boys, Give ‘er the gun!
“The wild blue yonder“: foi na letra do hino da Força Aérea dos EUA que Werner Herzog encontrou o título deste curioso achado da sua filmografia, mais um numa colecção heterogénea de obras que flutuam entre o sublime e o grotesco, o bizarro e o cómico mais ou menos intencional – terá sido propositada aquela singular reflexão sobre a sanidade dos pinguins em Encounters at the End of the World (2007)? -, com ainda alguns objectos totalmente inclassificáveis pelo meio.

Herzog fez ficções, documentários, ficções que são os seus próprios documentários. O que é Fitzcarraldo (1982) senão o testemunho da conquista real de uma ideia de ficção (ou mesmo “do inútil”, como o livro que reúne os diários do cineasta nessa rodagem), uma obra mais documental do que o filme que relata os seus bastidores atribulados, Burden of Dreams (1982) de Les Blank? E há ainda alguns títulos em que a realidade e a imaginação se entrelaçam e confundem, criando híbridos que impressionam nem que seja pela singularidade da abordagem.
É nesta última categoria que se encaixa The Wild Blue Yonder (Além do Azul Selvagem, 2005), apresentada como “uma fantasia de ficção científica”. Curiosa esta junção de dois géneros que se cruzam mais do que se pensa (o que são os universos de Dune ou Star Wars, apenas para citar casos celebérrimos, senão uma infusão de ciência e misticismo, de razão e fé, das coisas totalmente explicadas e do que não pode ser sequer pronunciado?). Na verdade, o filme de Herzog utiliza a ficção para falar do mundo e vice-versa, juntando imagens reais ao relato de um extraterrestre (Brad Dourif) que conhece demasiado bem a espécie humana.
O filme começa e ele confronta-nos logo. Veio de outra galáxia, a Wild Blue Yonder, e aprendeu tudo sobre os terráqueos, espécie condenada a partir do momento em que criou razões para ceder ao sedentarismo. A partir daí, foi sempre a descer, com o futuro a ser cada vez menos promissor. Na verdade, este filme poderia fazer um bom double bill com um clássico sci-fi, The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou, 1951), por terem abordagens opostas: enquanto o alienígena do filme de Robert Wise vem avisar a humanidade para se “portar bem”, com o risco de ser eliminada caso se torne num perigo para outros planetas, o E.T. de Herzog já está completamente desanimado. Não vale a pena ter esperança, porque esta espécie está condenada. “How far have you gone?“, pergunta ele olhando directamente para a câmara, abismado pela forma como, ao longo dos séculos, utilizámos a natureza, sem qualquer respeito pelos recursos por ela oferecidos. Mas também fala do caso Roswell, e confessa que os humanos estão algo errados em relação ao espaço sideral. Na verdade, “we aliens all suck“.
Numa filmografia tão vasta, The Wild Blue Yonder não estará nas preferências da maioria dos cinéfilos. Mas é um filme tão de Herzog como os mais célebres.
O visitante veio da sua Wild Blue Yonder para este pale blue dot (como ficou conhecida na célebre fotografia da Voyager 1). Não se foi embora, mas não está satisfeito com o rumo do planeta. E através desta ficção, Herzog cruza com entrevistas que tentam esclarecer algumas dúvidas. A história do alienígena dá azo a uma série de sequências de várias proveniências: de filmagens subaquáticas a 3D algo rudimentar, passando por entrevistas a matemáticos e imagens da equipa do space shuttle STS-34. Uma missão que durou cinco dias, em 1989, e que foi bem documentada. São imagens que se complementam com o presente, com os tripulantes de então a reencontrarem-se mais de 15 anos depois. É por isso compreensível lermos, nos créditos finais, o agradecimento do realizador à NASA “for their sense of poetry“. Afinal, o registo visual de uma missão, talvez com um intuito meramente arquivístico para a própria agência espacial, ganhou aqui uma outra função, entre o onírico e o filosófico.

The Wild Blue Yonder é um filme de ficção científica feito com pouquíssimos meios, mas que possibilita múltiplos caminhos e reflexões para os espectadores. Parte do impacto está no que ouvimos, uma banda sonora de Ernst Reijseger que convida à reflexão. Dificilmente tudo se sustenta ao longo de oitenta minutos, e as circunstâncias são mais interessantes do que o resultado final (não é caso único na obra de Herzog). E não conseguimos deixar de pensar como, talvez, este filme com 21 anos seria bem mais pessimista, e apocalíptico, se fosse feito hoje. Outras preocupações, as que assolam Herzog na actualidade (e evidentes nos seus mais recentes livros, publicados por cá pela Zigurate), estariam provavelmente na voz de Brad Dourif (é clara a maneira como o alienígena espelha a visão do mundo do realizador). A colonização de outros planetas não perdeu importância desde então. A ideia da terra se tornar numa área protegida para os humanos fazerem turismo também não. Mas hoje é, talvez, um tema menor no centro das nossas preocupações quanto ao futuro: não há dinheiro para nada, quanto mais para sonhar com uma vida interplanetária. Já custa sonhar apenas com o dia de amanhã.
Dourif é um exemplo de casting perfeito, elevando o interesse desta curiosidade que nos deixa questões para falar depois da projecção – talvez seja um daqueles filmes que só se revele verdadeiramente na conversa entre espectadores. E não deixa de ser sintomático destes constantes cruzamentos de realidade e ficção na obra de Herzog, aqui com cada uma a sustentar a outra em igual intensidade.
Numa filmografia tão vasta, The Wild Blue Yonder não estará nas preferências da maioria dos cinéfilos. Mas é um filme tão de Herzog como os mais célebres. E no final fica outra ideia recorrente do cinema, da literatura, das entrevistas com Herzog: “O caos não é uma coisa má”. Talvez seja mesmo, como inventou Saramago para a abertura do subestimado “O Homem Duplicado”, “uma ordem por decifrar”.
The Wild Blue Yonder será exibido hoje às 21 horas no Cinema Fernando Lopes em Lisboa, no âmbito das Sessões À Pala de Walsh.
