Ni lui ni moi n’avions prononcé le mot avortement une seule fois.
C’était une chose qui n’avait pas de place dans le langage.
L’Événement, Annie Ernaux
No recente livro de memórias de Siri Hustvedt, Ghost Stories, “escrito” (composto será a designação mais acertada; é uma colcha de retalhos, do público ao privado) após a morte do marido e parceiro de escrita Paul Auster, esta debate-se com o facto de que “quase ninguém morre agora”. A expressão usada é “They pass”, no sentido de “eles expiram”. Cada vez mais prevalece o uso do eufemismo, que distancia a realidade, provocando uma magreza da verdade. A outra palavra evocaria a víscera e o sangue e a violência e, com ela, a linguagem vigorava enquanto prática de estruturação artística, instrumento de desestigmatização e de literacia emocional. The Dark Knot at the Center (2026), a quarta curta-metragem de Inês Pedrosa e Melo, cineasta portuguesa radicada em São Francisco, EUA, vai ao encontro destas políticas da linguagem. A única vez que a palavra “aborto” é proferida acontece aos 10 minutos de filme. Mas é importante que ali esteja. Devido à ilegalidade do procedimento médico na década de 1960 em território norte-americano, para onde Melo nos leva, a palavra não podia ser proferida. Por isso mesmo, ouvi-la evoca uma força vigorosa. “Quando ligam para marcar, devem apenas pedir uma ‘consulta para uma jovem mulher’.”, o filme começa. O significado vinha subentendido. Porque é que precisamos da palavra então?

Tal como acontece com o livro de Hustvedt, o filme-ensaio de Inês Pedrosa e Melo é uma igual construção de retalhos encadeados sobre um corpo colectivo, que expõe o privado publicamente para mais facilmente o edificar. Como o título desde logo indica, temos entre nós a representação visual do nó oculto que vive atado dentro de uma estrutura. Para melhor descrever essa angústia, Inês constrói o seu filme a partir de paisagens. Começa na imensidão do horizonte urbanizado de uma cidade californiana e, de carro, viaja até à imensidão do deserto dourado e posteriores viagens (são várias) fronteiriças até ao México. Partimos do sufoco, do relatar do pedido de uma consulta. No final, sentamo-nos na respiração – “tens a tua vida pela frente.”, ouve-se. Para o tabu começar a ser confrontado, há que articular a palavra. Sem ela, não há como iniciar o processo de virar a percepção pública do avesso. É conhecimento geral que a única forma de sobreviver à tempestade é sempre através ou seja, na contemplação da tangibilidade da realidade e subsequente reconstrução do debate político. Mas pode não ser possível usar a palavra, como é o caso aqui. Há que, no entanto, nomeá-la de outra forma.
E é isso mesmo que Melo faz. São várias as mulheres que dão voz aos testemunhos detidos em cartas escritas à Society for Humane Abortion, organização fundada em 1962 pela activista Patricia Maginnis em São Francisco – a realizadora é uma delas. Quando colocadas em cima das imagens da travessia na auto-estrada (algumas filmadas por Melo, outras repescadas do arquivo dos anos ’60 – fotografia e vídeo), a investigação imprime no filme um rasgo sanguíneo e pungente. Este ver-se-á intensificado ainda mais quando nos apercebemos quanto o filme se submerge na experiência estética. Melo faz uso do conceito da imagem em movimento enquanto instrumento para documentar o movimento emocional do colectivo que busca a autonomia corporal. Com o road movie a enformar a viagem, o tormento de cada uma daquelas mulheres ganha o corpo próprio que nunca teve.
Melo não re-imagina só as cartas. Activa a experiência sensorial que é estar naquele lugar. A dada altura, pés são mergulhados em água de piscina, mãos tocam nas extremidades de cactos, sombras reluzem no pavimento quente, ouvem-se relatos jornalísticos sobre o acesso ao aborto na rádio (quer no carro quer no quarto de motel). Ela está lá.
Filmado com tanta melancolia pela sempre impressionante directora de fotografia Marta Simões (As Estações, Super Natural), o filme marca uma fase muito específica na vida académica da realizadora. Ao primeiro encontro, este é um exercício sobre a memória colectiva das mulheres que, antes do caso Roe contra Wade em 1973, se viam forçadas a passar a fronteira para poderem garantir a sua liberdade individual na forma de uma interrupção clandestina da gravidez. Quando a ele volto, encontro vestígios do estudo da pós-memória (Melo escreveu um ensaio sobre a avó Laurinda, que morreu a dar à luz, para a revista Mamute) e um espelhar do mesmo dispositivo usado no anterior trabalho, o filme-ensaio Home Revised (2022), enquadramento teórico para a dissertação de mestrado de arqueologia da realizadora, onde investiga a prática da apropriação do vídeo caseiro/doméstico na realização de cinema documental. Melo não se finca no ‘Eu’. O reino privado é alcançado para localizar um colectivo de outra dimensão, e através dele perguntar como melhor (quais as implicações éticas) praticar este cinema.
Nesse sentido, The Dark Knot at the Center, filmado em 2k com pequenos momentos a super 8, funciona enquanto um início promissor daquele que é o encontro de uma realizadora com testemunhos invisíveis de quem não temos (por razões óbvias) representação visual. Não há conformismo na sua sensibilidade. O filme é mecanismo de equilibrada contenção, sem se vergar aos habituais lugares-comuns de esforços parecidos. A robustez destas vozes sem caras ou nomes, oprimidas pela própria sociedade onde se inserem, alia-se à lógica da poesia. E é daí que brota o espaço de página para explorar o poder da linguagem (a forma gráfica das suas linhas, e o seu design emocional) sem estar sempre a descrever o que ouvimos por imagens.
O filme faz escolhas inteligentes na forma como sobrepõe voz e imagem (ouve-se “colocaram-me na sala de operações” e no ecrã vislumbra-se a estrada através da semi-opaca cortina azul que tapa uma janela), e em determinados momentos sobrepõe momentaneamente duas vozes (duas histórias diferentes mas iguais que se tocam). Pelo caminho, as imagens do passado misturam-se às do presente em consonância com o que continua a acontecer. Não nos podemos esquecer que o aborto, mesmo despenalizado, continua inalcançável à maior parte das mulheres que o procura pelo mundo fora, incluindo em Portugal. Porque Melo só nos diz que os testemunhos datam a década de 1960 no final do filme, não é estranho assumir o tempo presente durante a sua duração. Aliás, parece ser esse o objectivo.

Dessa universalidade que, infelizmente, existe fora do tempo, é contemplado o que só pode ser descrito como a figuração de um oceano mergulhado, a abater-se sobre os seus espectadores como se tivesse sido aplicado na pele. O trabalho da curta-metragem e do seu formato tem essa qualidade local. Decanta uma fragrância. E permanece entregue a essa intensidade. Especialmente porque Melo não re-imagina só as cartas. Activa a experiência sensorial que é estar naquele lugar. A dada altura, pés são mergulhados em água de piscina (supomos nós que seja do Border Motel em Calexico, Califórnia), mãos tocam nas extremidades de cactos, sombras reluzem no pavimento quente, ouvem-se relatos jornalísticos sobre o acesso ao aborto na rádio (quer no carro quer no quarto de motel). Ela está lá.
Voltando à analogia directa da visão aérea de paisagens, com as quais o filme começa, despojadas do barulho directo da rua e elevadas à escala da grelha do planeamento urbano, assiste-se à forma como o espaço é, fisicamente, organizado. Filmadas à noite e iluminadas pela luz que emana de prédios e estradas e carros, energia flui nestas skylines. Esta é a arquitectura da produtividade. Ao descer à dimensão mais telúrica logo a seguir, The Dark Knot at the Center visita os lugares onde estas mulheres se sentaram, dormiram, sofreram, e ao comparar os dois pontos de vista, a representação técnica com a ferramenta participativa, um mapa acaba traçado. Contempla-se nele a magnitude da ambição humana e como esta não tem fronteiras. Não está na altura de esse desejo se ver reflectido na vida das mulheres pelo mundo?


Posto isto, a questão que sobrevoa refere-se nada mais que ao controlo que a mulher continua a perder, todos os dias, do seu corpo privado, tratado enquanto propriedade pública e regulado por outrem. Como é que as mulheres se movem pela sociedade, que decisões se vêem forçadas a tomar, especialmente no que diz respeito à sua saúde e bem-estar reprodutivo, precisam de projecção. Melo podia só dar cor ao invisível. Teria sido suficiente. Mas as imagens dela acabam a pousar no futuro, oferecendo um layout geométrico, linguístico e emocional à etnografia desta violência. Precisamos dele para a conquista, de uma vez por todas, do direito fundamental que é a liberdade de escolha (“You belong only to yourself”).
The Dark Knot at the Center terá a sua estreia europeia na 34ª edição do Curtas Vila do Conde – International Film Festival, dia 21 de Julho, às 19h. Volta a passar no dia 24 de Julho, às 15h30.
