Os fãs lisboetas de The Rocky Horror Picture Show (Festival Rock de Horror, 1975) gostarão de saber, após um longo tempo shivering with anticip…..ation pelo ciclo do grande género do musical, que a Cinemateca Portuguesa programou para o próximo dia 29 de Julho uma sessão ao ar livre (com primeira passagem já hoje, dia 21, na Sala Luís de Pina, às 19h30) onde Frank-N-Furter poderá ser visto em toda a sua muito questionável glória (e também ouvido nos graves do seu inquestionavelmente glorioso sotaque de Rainha de Inglaterra). Mas, uma vez que a sessão não é aberta só aos fãs lisboetas, como é natural e justo, digo desde já que me decidi a escrever umas linhas sobre The Rocky Horror Picture Show num e num só propósito: o de testar se até neste caso, para mim algo desafiante, merece ser contrariada a sabedoria popular de que os gostos não se discutem, e se é possível incluir numa tal discussão quem está fora deste “culto”.

Como me parece que é próprio do fenómeno deste filme (originalmente uma peça musical criada por Richard O’Brien e encenada por Jim Sharman em 1973, The Rocky Horror Show) que cada um tenha com ele “a sua história” e lhe esteja ligado muito por ela, permito-me começar por contá-la — a minha, que nada tem de especial — em poucas linhas, e daí seguir para o resto. Algures em 2015, terei visto em casa de um amigo da minha mãe, numa prateleira central de uma daquelas grandes estantes maravilhosamente desorganizadas (para o olho de fora) e vividas — quero dizer: onde cada objecto, livro, disco, fotografia ocupa o seu lugar como uma coisa pessoal, bem particular e bem mimada — o cartaz com os icónicos lábios vermelho-brilhantes da Patricia Quinn e o título do filme em letras ensanguentadas sobre um fundo muito preto. Por qualquer razão, aquilo pegou. Por qualquer outra razão, quis andar a namorá-lo ainda um tempo antes de o ver. Acabei por estreá-lo sozinha, num pequeno ecrã no meu quarto, naturalmente depois da meia-noite, e posso dizer que o filme “me caiu” como terão caído Frank e os seus servos na face desta Terra e como canta a letra do tema inicial (em alusão ao título de outro sci-fi/horror movie, este realizado por Jack Arnold em 1953): “it came from outer space”. Eu esperava, vamos dizer, um filme “normal”, um filme “a sério” (o que quer que eu entendesse, na altura, por um filme “normal” e “a sério”), e caiu-me “do espaço” aquela coisa bizarra; bastaram os primeiros minutos após a introdução musical para se verem frustradas quase todas as minhas expectativas e para se instalar uma perplexidade e espécie de vertigem que só se foram acentuando até ao fim. Não tem explicação o que eu me esforcei para tentar perceber de que planeta desconhecido do cinema caíra tudo o que estava a ver, como diabo era aquilo possível ou, por exemplo, que profundo diabo era uma “time warp” (quando a resposta é mesmo a que lá está: “It’s just a jump to the left” etc.). A essa primeira visualização solitária seguiram-se — impreterivelmente — várias já com companhia e a progressiva nutrição, entre amigos, de um pequeno culto de grupo que culminou num Rocky Halloween ainda no secundário, quando um só professor deu sinal de reconhecer os disfarces e quando ao amigo mascarado de Frank foi (talvez com razão) vedada a entrada na sala de aula por estar, cito com pontuação correcta e tudo, “travestido!!…”
Suspeito, para começar, que é a nostalgia da adolescência e de uma história trivial como a deste preâmbulo o que mais me liga ao Rocky (o Horror, não o Balboa). Ora, discutir gostos com os outros apenas com base em nostalgias próprias parece-me, de facto, descabido, ou pelo menos infrutífero (sem prejuízo, entenda-se, do valor de serem discutidas as nostalgias elas mesmas ou, genericamente, de ser discutida a sua influência na nossa relação com os filmes, com o cinema). E acontece que quem não tem, na voz agudinha do Richard O’Brien, as palavras “Michael Rennie was ill” e respectiva melodia na cabeça desde a adolescência, e recorrentemente desde então, quem não tem uma história sua com o filme, não tem, suponho eu, como responder a certos apelos naquela discussão, como a eles poderão responder os fãs que estejam há muito, e por razões muito suas, dentro do tal “culto”. Julgo, também, que não adianta discutir o nosso gosto quando o compreendemos como um mero sermos-bem-entretidos (não que haja problema em ser-se bem entretido e nada mais, entenda-se também; mas estou quase certa de que valeria uma sabedoria popular, essa sim, segundo a qual “os entretenimentos não se discutem” — ainda que o entretenimento seja ele mesmo, é claro, matéria de discussão). E, embora aqui tenha mais dúvidas, julgo que só poderia discutir com outros até certo ponto o quanto este filme me é cómico, cómico muitas vezes por absurdo, tonto, sem aparente razão de ser. Esta é talvez uma matéria de estrita sensibilidade, do estritamente subjectivo. (Ainda assim, permita-me a dúvida listar três momentos cómicos favoritos: 1) A tripla repetição da troca “Janet! — Doctor Scott! — Janet! — Brad! — Rocky!”; 2) O coro a cantar “That ain’t no crime!” em resposta aos lamentos do Rocky durante o número da Sword of Damocles; 3) “My wheels! My God, I can’t move my wheels!”).

Mas talvez o entusiasmo pelo filme de Sharman se deixe discutir, sim, em três aspectos alheios a considerações estritamente pessoais.
1) Vamos, primeiro, à impressão já referida deixada pelo filme: “it came from outer space”. Não veio, não. Veio pelo menos de um universo cinematográfico específico, e que é, na verdade, explicitado assim que se abrem os lábios vermelhos no filme para a canção “Science-Fiction/Double Feature”: “Michael Rennie was ill/ The day the Earth stood still”. O actor Michael Rennie desempenha o papel do extraterrestre humanóide Klaatu no filme aqui nomeado de Robert Wise, The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou, 1951). (Escusado será dizer que Klaatu não estava nada “doente”: a adição de “ill” obedece ao mesmo princípio de composição desta e de outras canções do musical — está lá só e apenas porque rima e porque é tonto, tem graça). Este e outros clássicos (ou não) de ficção científica e/ou terror americanos e britânicos das décadas de trinta, quarenta e cinquenta, sobretudo os filmes de série B (exibidos, como refere o título da canção, em “double feature” com uma longa-metragem principal), constituem larga parte do universo de onde o filme de Sharman cai — e do qual é essencialmente uma paródia. Desse universo fazem ainda parte os filmes mais tardios daqueles mesmos géneros da produtora britânica Hammer — filmados nos mesmos estúdios que acolheriam, em 1975, a rodagem do nosso filme. Alguns destes aliam ao terror uma dimensão sexual explícita, ausente ou apenas tácita nos filmes de terror das décadas anteriores, de onde se pode supor que mesmo a hipersexualização do “antagonista” Frank-N-Furter, um dos aspectos mais destacados em The Rocky Horror Picture Show, tem um fundo paródico.



Convido quem não esteja familiarizado com este universo (eu mesma estou pouco) e não possa ver de uma assentada os inúmeros filmes particulares referenciados no Rocky, mas queira ainda assim dar uma hipótese à discussão aqui lançada, a ver pelo menos estes dois: o Frankenstein (1931) de James Whale, como não pode deixar de ser, e ainda a sequela deste filme, Bride of Frankenstein (A Noiva de Frankenstein, 1935), do mesmo realizador. É desde logo o quadro de Frankenstein o que é centralmente parodiado no nosso filme: um cientista louco (neste caso, sexualmente louco, digamos), ajudado por um servo corcunda num castelo remoto (“Over at the Frankenstein Place”), dá vida à sua criatura muda e infantil com os miolos de um criminoso (neste caso, um “no-good kid”, um “low-down cheap little punk”). Já a sequela de 1935 é instrutiva não tanto para a identificação de elementos concretos que O’Brien e Sharman incorporem no seu musical quanto para o reconhecimento de uma afinidade mais directa entre os dois filmes, o reconhecimento do tom geral e da própria veia paródica que os aproxima: pois o segundo filme de Whale é já algo como uma paródia do primeiro, e, estreado quarenta anos antes, Bride of Frankenstein consegue ser, surpreendentemente, tão ou mais bizarro, tão ou mais frívolo e bem-humorado que The Rocky Horror Picture Show. É como se este último, portanto, fosse buscar à fonte mesma do cinema que parodia o próprio espírito da paródia.
Nada disto anula que, no filme, conviva tranquilamente com a paródia uma tontice pela tontice, “gratuita”, sem maior razão de ser, e que nem todos acharão cómica.
Como primeiro ponto, quero então dizer que gosto deste filme como uma paródia bem elaborada; que gosto de como se satura nele uma parte da história do cinema, levando-nos a revisitá-la (ou a descobri-la pela primeira vez) e a notar o que lhe é particular, a pensá-la e a saboreá-la, digamos. Estará este gosto aberto à discussão? E não será este mérito próprio de qualquer paródia? Talvez. Mas vale notá-lo para marcar, pelo menos, que a bizarria de The Rocky Horror Picture Show não é tão “gratuita”, tão saída da imaginação descontrolada e lunar de O’Brien, quanto possa parecer a quem leve com o filme sem estar de sobreaviso, e antes tem, em quase tudo, um sentido paródico bem definido.
Assim, por exemplo, é paródica a artificialidade dos efeitos especiais — os raios de laser, o castelo-nave a descolar (Sharman conta que disse mesmo à equipa dos efeitos, numa fase inicial da produção: “The special effects are too good! They’ve got to be really bad!”). A gravidade afectada da narração do Criminologista pisca o olho à seriedade risível de muitos dos filmes “baratos” que tanto fascinavam O’Brien (“How I love those B movies!”), do mesmo modo que a interpretação artificial e exagerada dos actores em diversas cenas — como o intensíssimo “You mean…!” de Brad a Dr. Scott ou como o monólogo desesperado de Janet no quarto, com uma lágrima estática, flagrantemente de cera na face — pisca o olho à qualidade das interpretações (e do texto, e da concepção geral das personagens) naqueles filmes. (Note-se que a teatralidade dos movimentos e forma de falar de Frank-N-Furter, em contrapartida, não é paródica: enquanto a interpretação de Susan Sarandon é propositadamente artificial por a actriz estar a desempenhar, não o papel de Janet Weiss, mas o papel de “papel de Janet Weiss”, o brilhante Tim Curry está sem dúvida a interpretar o papel de Frank, sendo o histrionismo característico da própria personagem).


Igualmente paródico é o falso suspense criado à volta da identidade dos habitantes do castelo, adiando-se comicamente, até perto do fim, a “grande revelação” de que aqueles são extraterrestres, bem como o suposto efeito-surpresa do desmascaramento de Dr. Scott como Dr. von Scott — isto é, um alemão, isto é, provavelmente um cientista com passado nazi, como certos outros doutores em cadeira de rodas na história do cinema… Como se o seu sotaque carregadíssimo deixasse margem para qualquer surpresa deste género (e, de resto, como se estivéssemos no embalo de algum enredo em que tal pudesse surgir significativamente como uma surpresa)!
E o mesmo vale, em geral, e para dar só mais um exemplo, para a paródia do arco convencional do casalinho de jovens inocentes que vão parar, à noite e preferencialmente à chuva, a um castelo remoto onde qualquer coisa “do outro mundo” (qualquer tipo de monstro, um culto sinistro etc.) os espera. Brad e Janet são um casal falso desde a primeira cena, a caricatura intencional das caricaturas não-intencionais presentes nos filmes aqui parodiados: a sua relação é esboçada de forma tosca, as interacções entre os dois são artificiais, “comic strip dialogue” (um dos “ingredientes” para o estilo da série B descritos por O’Brien). O casal é isso mesmo, “o casal”, quer dizer: é — marcadamente, para a caricatura — uma convenção despersonalizada, uma peça em stock para construir um enredo típico. “A clean-cut, boy-girl relationship”[1]. Vistos sobre este fundo, mais graça ainda ganham versos ridículos como “There’s three ways that love can grow:/ That’s good, bad or mediocre” ou (outro detalhe favorito) o coro monocórdico e inexpressivo na mesma canção, cantada na cena do casamento: “Janet.”, “Oh, Brad.”
Nada disto anula que, no filme, conviva tranquilamente com a paródia uma tontice pela tontice, “gratuita”, sem maior razão de ser, e que nem todos acharão cómica (p. ex., “Frank-N-Furter” tem graça porque brinca com o nome de Frankenstein, mas também, pura e simples e tontamente, porque lembra o nome de um tipo de salsicha). Mas a graça do filme ganha, parece-me, uma outra dimensão se chamarmos a atenção para este aspecto paródico.


2) Um segundo aspecto por que posso puxar, e que alarga este primeiro, é a liberdade que o filme toma. Gosto dessa liberdade, e talvez também ela se possa discutir. Refiro-me ao facto de o filme ser vácuo, ser “livre” de qualquer compromisso com um conteúdo, um sentido. Disse acima que a solução para a minha perplexidade inicial sobre a noção de “time warp” é a resposta simples na letra da música: “It’s just a jump to the left” etc. Bem poderia ser este o subtítulo de The Rocky Horror Picture Show: “It’s just.” O filme “é só” — só a extravagância que parece ser, a paródia, a brincadeira marota. Não é mais que isso, toma a liberdade de não ser mais que isso, de ser “sem sentido”, meaningless. (Sempre me pareceu divertidamente apropriado, por isso, que o filme acabe com estas palavras: “some insects called the human race lost (…) in meaning”, a última palavra repetida em coro com uma solenidade cómica. Até na falsa gravidade desta “mensagem” final o filme se diverte consigo mesmo, com a sua pura ausência de “mensagem”).
Aquilo que me cativa — ao mesmo tempo aquilo que me deixa reservas, que me leva agora a escrever estas linhas “para meu governo” — é essa leviandade do filme, a sua superficialidade bem-disposta, bem-avinda consigo mesma, enamorada de si mesma mais que bem-avinda, desbragada, purpurinosa; e assim indefensável perante certo ponto de vista “sério”. Porque tal ponto de vista exige, lá está, o compromisso com um sentido, um conteúdo, uma ideia, um valor; enquanto aqui não há compromisso com nada senão com a forma, o estilo, a paródia, a brincadeira, a festa. “It’s just a jump to the left” (— sem trocadilho político!).

Disto discordarão aqueles para quem o filme — e a personagem de Frank em particular — chegam a ser comoventes. Parece ser esta a sensibilidade dominante entre muitos fãs e entre os próprios actores em relação, por exemplo, à cena com o número musical “I’m Going Home” (baseio-me no documentário recente Strange Journey: The Story of Rocky Horror (2025), de Linus O’Brien). Ora, na linha do que digo, esta cena só pode ser vista com ironia, no sentido próprio do termo: afinal, o que ali se vê não é a vulnerabilidade de Frank em cena (como parece comover alguns), mas propriamente o que seria estar em cena a vulnerabilidade de Frank. A estranheza, para mim, está em que se possa ver e sentir como comovente uma cena que de modo nenhum escapa à veia paródica (e auto-paródica) do filme, uma cena que flagrantemente faz de “cena comovente”. Só nisso consigo ver a graça desta cena: na jocosidade de mais esse fazer-de, não numa qualquer sinceridade ou profundidade que os próprios actores e realizador aparentemente lhe reconhecem.
Dir-me-ão então, por outra, que o filme critica, subverte. Por exemplo: que o filme ataca o casalinho tradicional (na sua caricatura), o modelo dos noivos castos e recatados, “as sensual as a pencil, wound up like an E on first string” (uma das melhores bocas de Frank). (Veja-se que Brad não encaixa minimamente no estereótipo masculino marcado logo na primeira cena, na inscrição grosseira que se lê no carro do amigo recém-casado à saída da igreja: “Ela já teve o que queria, agora é a vez dele!” Pelo contrário, também o noivo preenche, caricaturalmente, o mesmo modelo de jovem casto e recatado, “sensual as a pencil”). Ou dir-me-ão que o filme encontra, sim, um sentido na tal “grande revelação” sobre a natureza alienígena dos anfitriões, na sua metáfora: para os “terráqueos” que vivem sob o regime de certas instituições e de modelos como o referido, um “sweet transvestite” e a sua horda de extravagantes e obscenos servos e “unconventional conventionists” só podem aparecer, realmente, como criaturas extraterrestres, vindas de outro planeta de uma galáxia distante.
Uma metáfora como esta soaria hoje muito batida, mas tem no filme algo de fresco e bem-disposto que me agrada. Algo fresco e bem-disposto e — mantenho eu — livre, descomprometido. Nem nessa metáfora, nem no ataque referido atrás se pode dizer, parece-me, que o filme marca uma posição, pelo simples facto de não estar nada interessado, de uma forma substancial, nas questões que eventualmente levanta. O seu interesse é puramente exterior, superficial: o filme está apenas concentrado em si mesmo e na sua celebração paródica, e é assim “neutro em relação ao seu conteúdo”, é camp, “texture, sensuous surface, and style at the expense of content” (cito o célebre ensaio de Susan Sontag[2]). Se de facto o filme toca em temas “sérios”, i.e. susceptíveis de serem pensados e discutidos a fundo e com consequência, faz, porém, essencialmente o que é próprio da sensibilidade camp: “converte o sério no frívolo”[3].

Com isto não quero dizer, entenda-se, que o Rocky não possa ser ou ter sido, com efeito, “subversivo”. O que quero dizer é que esse efeito, a eventual “subversão”, o eventual desafio de uma mentalidade mais conservadora que o filme provoque ou tenha provocado, lhe são acidentais nos termos em que este se propõe: que, por exemplo, à celebração da liberdade sexual no filme só acidentalmente, mas não intrinsecamente, pode ser reconhecido um sentido ou um valor morais ou políticos. Afinal, o filme está a brincar a essa celebração, não está a tomar a posição convicta, comprometida de a celebrar. Por outras palavras, a subversão, enquanto tal, não é o espírito do filme: o seu espírito é o gozo do superficial, a festa, a paródia. (No limite, podemos entender que é nesta mesma medida, i.e. na medida em que o filme tem este espírito, que ele é subversivo. Nesse caso, teremos de entender, por um lado, que o que nele é subvertido, rejeitado, é essencialmente a vinculação ao “sério”, ao sentido, e o concomitante desprezo do meramente superficial; por outro lado, que o que nele é afirmado, contra essa vinculação, é justamente a frivolidade, o culto do superficial, da aparência, do estilo etc. Teremos de entender, portanto, que os “transilvanos”, e sobretudo Frank no seu histrionismo, representam esse culto do superficial, e que o carácter “libertador” do filme, descrito por tantos fãs, corresponde, no fundo, a uma libertação da seriedade, da vinculação ao sentido (a uma desmoralização, despolitização etc.), por um lado, e a uma afirmação do puro gozo de aparecer e ver aparecer, de fazer de conta, de parodiar, por outro lado.)
É também isto, em suma, o que me cativa no Rocky: a sua frivolidade, mas uma frivolidade que é ao mesmo tempo cheia de entusiasmo por si mesma e pelo cinema que parodia frivolamente. Algo como uma extravagância entusiasticamente desligada da substância, do conteúdo, do sentido, e de resto intimista, hospitaleira, como os pequenos cenários do castelo, que nos sentimos convidados a adentrar com Brad e Janet. Talvez o filme não possa apelar a todos nestes termos; mas fica mais esse aspecto para discussão. E a quem este “carnaval”, mais que aborreça na sua frivolidade, propriamente ofenda, well — “don’t get hot and flustered, use a bit of mustard!”

3) O terceiro e último aspecto que convoco é o mais previsível. A experiência recente de rever o filme sozinha, como da primeira vez, deixou-me claro o que é sabido desde as primeiras sessões da meia-noite em Nova Iorque na Primavera de 1976: o quanto The Rocky Horror Picture Show pede para ser visto em companhia. O entusiasmo com este filme pede a presença de outros, pede outras vozes e risos, sing-alongs e frases de cor em voz alta, reacções alheias ao vivo, outros assobios, outras mãos levadas à cabeça pelo absurdo. É disto, por fim, que eu gosto: de que o filme reúna uma espécie de comunidade à sua volta, de que esteja feito para ser visto por muitos, juntos; de que se faça celebrar em grupo. Queiram, por isso, aparecer para este late night double-feature picture show by RKO — in the back row ou lá à frente. O-oh.
[1] Expressão de Richard O’Brien em entrevista, “How we made: The Rocky Horror Picture Show”, The Guardian, 4 de Março de 2013, acessível em https://www.theguardian.com/stage/2013/mar/04/how-we-made-rocky-horror.
[2] Susan Sontag, “Notes on ‘Camp’”, respectivamente §2 e §5, in Against Interpretation and Other Essays, Penguin Classics, 2009.
[3] Op. cit., p. 276.
