13 alfinetes. Podem servir para afixar os locais que já se visitaram num mapa, são usados pelos alfaiates para segurar as bainhas das calças, mas também podem ser cravados, com particular regozijo, numa boneca de vodu. João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata fazem um filme em 13 andamentos – cada andamento, uma alfinetada. Na verdade, não é bem um filme, é – como se pode ler no genérico – um scherzo, termo utilizado na música clássica para descrever um movimento (frequentemente o terceiro, em peças com quatro) rápido e solto, por vezes com uma dimensão cómica. Estamos, portanto, em domínio musical – e a técnica dominante é o ritornello.

Depois de Fogo-fátuo (2022), descrito como “uma fantasia musical”, e de Onde Fica Esta Rua? (2022), que é uma espécie de cover de Os Verdes Anos (1963), os realizadores continuam a filmar como quem faz uma canção ou compõe uma sinfonieta. Têm-lhe interessado os “formatos menores”. O humor tem-se instalado no seu cinema, especialmente a partir de O Ornitólogo (2016). E os filmes, desprendidos e fantasistas, têm-se somado. O prazer do artifício, o gozo dos corpos, a sátira política e o diálogo com o passado (a partir do presente) tornaram-se os eixos do cinema de João Pedro Rodrigues (e João Rui Guerra da Mata). 13 Alfinetes prolonga esse movimento em modo (auto)reflexivo.
O ponto de partida foi uma encomenda da BoCA: John Romão (que fora ator em Morrer Como Um Homem) desafiou os realizadores a pensar um filme que estabelecesse um paralelo ente Lisboa e Madrid (a segunda cidade da Bienal que se internacionalizou em 2025), e que fosse filmado tanto numa capital como na outra. A resposta dos Joãos é um jogo de espelhos e simetrias, de “originais” e “réplicas”, de “verdadeiros” e “duplos”, de regressos e rememorações.
Os 13 alfinetes remetem para a tradição das festas de Santo António, em Madrid. Quando, por Lisboa, a cidade se põe a marchar, na capital espanhola as celebrações são mais modestas: há umas banquinhas de comes e bebes (patrocinadas pelo partidos políticos), há uma missa na capela de San Antonio de la Florida, vendem-se um bolinhos conventuais (apropriadamente conhecidos como Tetillas de Monja) e – mais importante para o caso – enche-se uma pia batismal com aguçados alfinetes e os crentes mergulham as mãos nesse mar de agulhas para saberem quantos pretendentes terão (o número de “noivos” será igual o número de alfinetes que ficam espetados na carne).
Se este é o mote, 13 Alfinetes trabalha-o numa lógica de acumulação de signos, onde o sentido de cada fragmento não é imediatamente inteligível. Isto porque, além da tradição popular madrilena, junta-se um fresco de Francisco Goya, no teto da referida capela de San Antonio, fresco esse que remete para a história do santo padroeiro de Lisboa e para um dos seus milagres (o de trazer à vida um morto para que este pudesse ilibar o pai do santo da acusação de homicídio). Para complicar ainda mais as coisas: o acesso à capela foi impedido pelas autoridades locais, mas em compensação existe uma segunda capela, réplica da primeira, construída do outro lado da rua.
Se o milagre de Santo António é o da exumação, então 13 Alfinetes aplica-o à própria filmografia do realizador – literalmente. Tonia (Fernando Santos) e Rosário (Alexander David) renascem, como mortos-vivos, do cemitério de Morrer Como Um Homem para – agora sim, quase duas décadas depois – terem o final feliz que mereciam.
À primeira vista, 13 Alfinetes é um filme-ensaio construído em torno dessa obra de Goya, servindo cada “alfinetada” como um comentário, um esclarecimento, uma reflexão ou um questionamento daquela imagem (daí o “coro des anjes”, que remete diretamente para as figuras aladas – de género ambíguo – que ladeiam o fresco; daí a história do assassino, vestido como uma das figuras da pintura, cuja história de amor não correspondido é aqui fantasiada; daí o jogo entre temporalidades, uma vez que Goya fez questão de “atualizar” o milagre, transpondo-o para o século XVIII, e os realizadores para o XXI). Há, por isso, uma dimensão analítica (como já acontecia em Onde Fica Esta Rua?), onde as formas do cinema servem para interrogar – mas também para provocar – outras formas, neste caso da pintura.
Com soluções por vezes desconcertantes, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata fazem a exegese do fresco de Francisco Goya sendo que – paradoxalmente – nunca lhe temos acesso, isto porque os realizadores se viram impedidos de filmar na capela e, assim, as pinturas estão-nos vedadas. Sem acesso direto, restam-nos as reproduções. Mas é justamente de reproduções – de réplicas, de cópias, de mimesis – que trata o filme.
Entre Lisboa e Madrid estabelece-se um jogo de correspondências. Entre a capela “verdadeira” e a cópia surge outro espelhamento. Entre os frescos e as suas reproduções, idem. Entre as figuras na abóbada e as personagens do filme há vários paralelos. Entre o passado e o presente multiplicam-se os ecos e os gritos (“Assassino!”). E entre a antiga tradição das costureiras madrilenas e os seus alfinetes encontra-se uma perturbadora ressonância com a “partilha de agulhas” entre os sem-abrigo do parque da Florida. As rimas multiplicam-se não só dentro do filme, mas fora dele – aliás, especialmente fora. A citação explícita (e com uma acentuada dimensão irónica) a The Night of the Hunter (1955) está nas próprias mãos do assassino; o uso do tema musical de Mon Oncle (1958) constitui outra piscadela de olho lúdica; a aparição erótica de Santa Teresa de Ávila numa gruta parece remeter – de forma discreta – para Manoel de Oliveira (a gruta “uterina” de O Convento [1995] e o jogo ibérico com a personagem de Marisa Paredes em Espelho Mágico [2005]); e o morto-vivo com o olho cravejado de larvas ondulantes presta homenagem a Zombi 2 (1979),de Lucio Fulci.
Mas a dimensão mais ousada de 13 Alfinetes está no modo como todo este labirinto de espelhos serve, afinal, para repensar o próprio trabalho de João Pedro Rodrigues. Com a desculpa de regressar à mitologia em torno de Santo António, o realizador permite-se recuperar personagens antigas, regressar a certas situações, certas paixões, certos imaginários. Se o milagre de Santo António é o da exumação, então 13 Alfinetes aplica-o à própria filmografia do realizador – literalmente.
Tonia (Fernando Santos) e Rosário (Alexander David) renascem, como mortos-vivos, do cemitério de Morrer Como Um Homem para – agora sim, quase duas décadas depois – terem o final feliz que mereciam. E que comovente é o plano em que se beijam, plano longuíssimo sobre o qual corre o genérico final, plano onde as personagens se desfazem e aparecem os atores, onde o amor de papelão se transforma na alegria do artifício – e todos rimos, e todos choramos. Mas o gesto não se fica por aí – isso seria pouco. A quadra de Fernando Pessoa, vinda de A Manhã de Santo António reaparece aqui dentro de um programa de culinária ecuménica. O “coro des anjes” inclui várias caras conhecidas dos filmes anteriores do realizador (Cindy Scrash, Jenny Larrue). Até os sempre-eternos antúrios vermelhos têm direito à mais abstrata das imagens deste filme. Mas o cerne de tudo isto está, mais uma vez, na figuração de Santo António como prolongamento do cineasta. Se O Ornitólogo era o filme da expiação do realizador, aqui ele sonha com a possibilidade de ouvir o testemunho de um morto para pôr fim a infundadas acusações.

Se todo este edifício, que consegue ser simultaneamente lúdico, provocador e conceptual, já valia por si, João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata acrescentam uma redobrada dimensão formal que sublinha a natureza circular de 13 Alfinetes. Essa dimensão? A própria circunferência. Se o filme começa e termina com a mesma cena (fechando-se num círculo), as circunferências tornam-se numa espécie de obsessão. Ela encontra-se, desde logo, na forma do planete Terra, que aparece no firmamento (!?), e que se converte depois na abóboda da capela de San Antonio de la Florida, também ela circular, e na Lua brilhante da segunda alfinetada. Depois reaparece nas taças de vidro do padre cozinheiro, filmadas em plano god’s eye (pun intended) para que a circunferência ocupe a totalidade do quadro. Repercute-se na aureola de Santo António, na forma do quadro animado do Santo, no movimento dos carrocéis e dos dançarinos de rua e no bailado entre Tonia e Rosário, onde a própria câmara participa do rodopio e, em panorâmicas de 360º, gira sobre si – num movimento que sintetiza o próprio gesto cinematográfico. O que fica por esclarecer é se, depois de tantas voltas, estamos perante um filme centrífugo ou centrípeto. Estranhamento diria que as duas forças estão presentes: tanto nos sentimos absorvidos pelas remissões, como nos deixamos surpreender pela desbragamento da experimentação.
Feitas as contas, 13 Alfinetes é – surpresa das surpresas! – a oitava longa-metragem de João Pedro Rodrigues (por um fio de cabelo, já que o filme tem 60 minutos e uns pozinhos). Também 8 ½ (1963) era a oitava longa-metragem de Federico Fellini. É, por isso, como para Fellini, um filme de suspensão e (auto)reflexão. Não o sendo de forma ostensiva, é um filme sobre um realizador que repensa (e transfigura) a sua própria obra a partir do seu questionamento. E até o facto de o título ser numérico parece confirmar esta suspeita cabalística. Será exagerado dizer que a recorrências das circunferências aponta, igualmente, para a forma do algarismo 8? Mesmo que essa não fosse a sua intenção, 13 Alfinetes é um filme-divertimento de um cineasta que assina um filme para não perder a mão (morta). E, nesse desprendimento, com uma certa dose de desfaçatez, faz um objeto que desarruma (e rearruma) toda a sua filmografia.
13 Alfinetes será exibido no festival DocLisboa, na Competição Internacional, no próximo dia 20 de outubro às 21h30 na Culturgest. Volta a passar no dia 22 de outubro às 14h00, de novo na Culturgest, mas no pequeno auditório.
