Just because you use a silencer doesn’t mean you’re not a sniper.
Mark (Albert Finney) em Two for the Road (1967).
As férias de Verão aproximam-se, e com elas os banhos de sol e de mar, os piqueniques na relva, o dolce far niente na espreguiçadeira, as road-trips improvisadas e as aventuras em terras desconhecidas… bem, pelo menos para os mais sortudos. Quanto aos outros, podem sempre confiar no cinema para vos fazer viajar. Desta vez, quem vos convida é Stanley Donen, com Audrey Hepburn e Albert Finney como companheiros de viagem, rumo a França e aos anos 60. Pessoalmente, não poderia imaginar melhor companhia.

Para os alérgicos ao género da comédia musical, descansem; este não é um desses filmes em que as personagens começam do nada a cantar à chuva ou a dançar pelas paredes, ainda que, por vezes, possam comportar-se de maneira igualmente estapafúrdia. Se Stanley Donen é sobretudo conhecido pelos seus musicais dos anos 50, co-realizados com Gene Kelly – On the Town (Um dia em Nova Iorque, 1949), Singin’ in the Rain (Serenata à chuva, 1952), It’s Always Fait Weather (Dançando nas nuvens, 1955) – ou a solo – Royal Wedding (Casamento Real, 1951), Seven Brides for Seven Brothers (Sete Noivas para Sete Irmãos, 1954), entre outros –, no final da década de 50, o cineasta foi-se afastando de Hollywood, em busca de uma maior liberdade criativa para brincar com os códigos de outros géneros cinematográficos. Para isso, instalou-se em Inglaterra e tornou-se produtor dos seus próprios filmes, deixando-se inspirar pela efervescência cultural da Swinging London tanto quanto pela experimentação formal e narrativa da Nouvelle Vague francesa.
Assim, após dois projetos a meio caminho entre a comédia romântica e o thriller policial – Charade (Charada, 1963) e Arabesque (1966) –, Stanley Donen decide realizar Two for the Road (Caminho para dois, 1967), a partir de um argumento de Frederic Raphael, que vencera, no ano anterior, um Óscar pelo argumento de Darling (1966), de John Schlesinger – e que viria a ser o argumentista de Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados, 1999), de Stanley Kubrick. Considerado por muitos a última verdadeira obra de Stanley Donen (que, no entanto, assinaria ainda meia dúzia de realizações até meados dos anos 80), Two for the Road é um filme que reivindica a influência da modernidade dos novos cinemas europeus e que antecipa os road-movies das décadas seguintes, nos quais pouco importa o destino, o que conta é a viagem.
Tudo se passa como se o fio condutor da intriga coincidisse com o itinerário geográfico da viagem: os anos passam, as pessoas mudam… mas a estrada é sempre a mesma, rumo ao sul e rumo ao sol.
As viagens formam a juventude, já dizia um ditado francês; e deformam casamentos, ensina-nos, por vezes, o cinema – o exemplo mais célebre sendo Viaggio in Italia (Viagem a Itália, 1954), esse bastião de modernidade realizado por Roberto Rossellini, cuja intriga gira em torno de um um casal inglês à beira do divórcio (Ingrid Bergman e George Sanders), durante umas férias em Nápoles. Para um casal alienado e desgastado pela rotina, ir de férias pode tanto oferecer a oportunidade perfeita para uma reconexão sentimental, como obrigar os seus elementos a confrontar as suas incompatibilidades, expondo-os a múltiplas promessas de evasão e a irresistíveis tentações adúlteras. Não será por acaso que vários dos clássicos que fazem parte das chamadas “comédias de recasamento” (comedies of remarriage, segundo a expressão do filósofo americano Stanley Cavell) incluem, também eles, viagens: por exemplo, o trajeto de Miami a New York em que se cruzam os destinos da filha rebelde de um milionário e de um jornalista desempregado em It Happened One Night (Aconteceu uma noite, 1934), de Frank Capra, ou a viagem ao México, em segunda lua-de-mel, na origem das peripécias nupciais em Marriage on the Rocks (Vamos casar outra vez, 1965), de Jack Donohue.
Em Two for the Road, a viagem proposta ao espectador realiza-se simultaneamente no espaço e no tempo: à medida que acompanhamos o casal britânico Joanna e Mark Wallace pelas estradas de França, a travessia do país desdobra-se em cinco momentos-chave do seu passado conjugal ao longo de 12 anos. De jovens de mochila às costas e à boleia que se precipitam nos braços um do outro sem pensar nas consequências dos seus atos (ela, corista e virgem; ele, aspirante a arquiteto e conquistador algo misógino), a casal rico e aburguesado que não tem sequer assunto comum de conversa à mesa – “What kind of people just sit in a restaurant and don’t say one word to each other? / Married people.” –, Joanna e Mark parecem já não saber porque continuam casados, sendo óbvio que não são felizes e, na verdade, nem se lembram da última vez que o foram.
Conduzindo as suas personagens da utopia libertária dos grandes começos ao cinismo do culto das aparências da high society, Stanley Donen explora o motivo da viagem a dois como metáfora do casamento: cada um traz a sua bagagem e julga-se preparado para o que a estrada lhe reserva mas, no caminho, haverá certamente altos e baixos, desvios inesperados e obstáculos mais ou menos graves, que terão de ultrapassar juntos.

O golpe de génio de Two for the Road vem da própria construção do argumento que, ao invés de expor a degradação gradual da relação por via de flashbacks ordenados do mais antigo ao mais recente, “baralha” abertamente a cronologia dos eventos, semeando breves episódios relativos a cada uma das viagens realizadas pelo casal sem fornecer todos os detalhes necessários à sua localização no tempo, e deixando nas mãos do espectador a tarefa de completar o puzzle (e há mesmo quem tenha feito uma montagem cronológica do filme que, obviamente, não substitui o seu visionamento na versão original). Tarefa inútil aos olhos de Stanley Donen, para quem “todas as sequências do filme pertencem ao presente”, sucedendo-se na montagem de forma a sugerir que não há uma época de referência a partir da qual são convocadas as memórias. E com razão: uma história de amor, afinal, é sempre vivida como um acontecimento, uma aventura, fora de qualquer cronologia linear.
Tudo se passa como se o fio condutor da intriga coincidisse com o itinerário geográfico da viagem: os anos passam, as pessoas mudam… mas a estrada é sempre a mesma, rumo ao sul e rumo ao sol. Assim, certas paisagens e situações repetem-se com ligeiras diferenças que deixam adivinhar a trama de causalidades subjacente: cenas ocorridas no mesmo local mas em anos diferentes são justapostas de forma a iluminar-se mutuamente, e memórias passadas ou recentes coalescem nessa temporalidade sempre presente das imagens, sem outro critério de diferenciação para além do guarda-roupa ou do tipo de automóvel no qual viajam os protagonistas. A pouco e pouco, reconhecemos os diferentes anos de viagem através dos carros cada vez mais caros conduzidos por Mark (da caravana ao descapotável, símbolo da crise de meia idade e da primeira traição, passando por um icónico mas pouco fiável roadster dos anos 50, que acabará em cinzas) e das toilettes cada vez mais sofisticadas que Joanna ostenta (culminando nos conjuntos espampanantes assinados por Paco Rabanne ou Mary Quant).
Um dos aspetos mais interessantes de Two for the Road é o modo como as viagens de Joanna no filme espelham a própria evolução da persona de Audrey Hepburn.
Face à pulverização da intriga narrativa, a montagem assume plenamente o papel de agente de continuidade, forjada através de brilhantes transições visuais e auditivas e de deliciosos leitmotive que pautam a evolução do casal: deste modo, um mesmo raccord utilizado em momentos distintos pode funcionar como um gag cómico, quase burlesco, entre duas cenas consecutivas, ou como uma private joke que, por força da repetição, infunde um sentimento de nostalgia dilacerante na macro-escala do filme (por exemplo, o facto de Mark perder sistematicamente o seu passaporte, e de Joanna saber sempre onde o encontrar – apesar de ele afirmar que despreza uma mulher que seja indispensável). Por vezes, o casal mostra-se tão odioso um com o outro que parece que a única coisa que os une são mesmo esses raccords entre as cenas, capazes de os resgatar à mesquinhice na qual se instalaram e de lhes devolver uma memória quase esquecida em jeito de promessa de felicidade.
A herança das comédias musicais de Stanley Donen sente-se particularmente no sentido do ritmo e na fluidez quase coreográfica com que as cenas se sucedem, mas é sobretudo na direção de atores que o cineasta se supera: a energia simultaneamente infantil e sensual que transborda dos corpos de Audrey Hepburn e Albert Finney nas cenas em que interpretam Mark e Joanna jovens é inversamente proporcional à quantidade de veneno que destila das suas línguas afiadas nas cenas mais recentes. Seja nas manifestações de paixão ou nas explosões de cólera, o jogo de travessuras mantém-se a principal modalidade de interação, sendo, talvez, o derradeiro elo de ligação entre eles. Mesmos as discussões mais acesas soam como pequenas celebrações: longos diálogos cheios de humor, de duplos sentidos, de escárnio e de maldizer, em que as personagens nunca deixam de estar em pé de igualdade, sempre prontas a pôr o dedo na ferida, mas em jeito de ataque de cócegas. Parafraseando Roland Barthes, é como se “tivesse[m] palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras”… e viessem esfregar a sua linguagem na pele do outro.
Escusado será dizer que a química incontestável entre Hepburn e Finney no grande ecrã transvasou para a vida real. Contudo, no momento das rodagens de Two for the Road, os dois encontram-se em momentos distintos das suas carreiras: ele acaba de ser promovido à categoria de galã inveterado graças ao sucesso da comédia de aventuras Tom Jones (1963), de Tony Richardson, ainda que seja em papéis shakespearianos nos palcos londrinos que o ator se sinta mais “em casa”; ela atravessa um período delicado a nível pessoal, que a leva a divorciar-se de Mel Ferrer, após 14 anos de casamento, e a afastar-se do cinema, no ano seguinte, para se dedicar à família e à ação humanitária. Dito isto, um dos aspetos mais interessantes de Two for the Road é o modo como as viagens de Joanna no filme espelham a própria evolução da persona de Audrey Hepburn.
Em vários dos seus primeiros papéis, a personagem interpretada por Hepburn parte em viagem a um país europeu e regressa feita outra mulher, transformada pela descoberta de um novo estilo de vida e, sobretudo, do amor – Roman Holiday (Férias em Roma, 1953), Sabrina (1954), ou Funny Face (Cinderela em Paris, 1957), este último também realizado por Stanley Donen –; em Two for the Road, as viagens são igualmente transformadoras, mas nem sempre da melhor maneira. De certa forma, o filme dessacraliza a imagem de Audrey Hepburn, dando a ver o lado desencantado de uma vida de glória e de luxo, e devolvendo-a assim à sua humanidade, em que assumir a fragilidade e inconstância é a primeira das forças – e não era precisamente esse o segredo de Holly Golightly em Breakfast at Tiffany’s (Boneca de Luxo, 1961)?.

Então com 37 anos, Hepburn interpreta em Two for the Road um dos seus raros papéis de mulher madura e abertamente sexual (que não só tem relações pré-maritais e adúlteras, como mostra gostar de sexo). Trata-se também do único filme em que o seu par romântico é sensivelmente mais novo do que ela (Fred Astaire, Humphrey Bogart, Gary Cooper, Rex Harrison, Cary Grant… eram todos cerca de 20 anos mais velhos). Este pormenor é significativo na medida em que grande parte da mitologia em torno de Audrey Hepburn é construída com base no mito de Pigmaleão, do qual My Fair Lady (Minha Linda Senhora, 1964) e também Funny Face se inspiram, sendo ambos filmes em que um homem mais velho molda uma figura feminina a seu bel-prazer; sem esquecer que uma das razões apontadas para os diferendos entre Hepburn e Ferrer na origem do divórcio é precisamente o controlo que este exercia sobre a carreira dela. Por isso mesmo, não podemos deixar de nos regozijar perante a liberdade que Audrey Hepburn revela nas cenas cómicas e sobretudo naquelas em que subverte a imagem de classe e de discrição a que é associada. Há algo de extremamente transgressivo nos momentos em que a vemos a cacarejar, a balir ou a blasfemar; Stanley Donen sabe-o, e celebra-o. Nunca os insultos “Bastard” e “Bitch”, proferidos nas últimas réplicas do filme, soaram tanto como uma declaração de amor, não só entre as personagens, mas sobretudo de um realizador a uma atriz.
No final de Two for the Road, a ameaça do divórcio é posta de parte; mas, na verdade, nada garante que a reconciliação seja definitiva. Mais tarde ou mais cedo, Joanna e Mark aprenderão que amor e felicidade nem sempre são sinónimos, e estará nas suas mãos decidirem aquilo que é mais importante para eles. Conseguirão as personagens mudar quem são? O humor e a tristeza das comédias de recasamento, escreve Stanley Cavell, resulta precisamente do facto de não haver uma boa resposta para essa pergunta.
