Uma das perguntas que me fazem de forma recorrente é se eu não me incomodo de passar tanto tempo assistindo filmes ruins. “Às vezes, parece que você não gosta de nada”, sempre ouço, a despeito de eu achar que sou no geral bem generoso com os filmes. A verdade é que gosto de ver filmes, não tem nada que me dê mais prazer do que desaparecer neles e isto vale para muito filme “ruim”. Há, de certo, aquelas sessões que me deixam muito irritado, geralmente filmes que, por um motivo ou outro, despertam o meu mau-humor, mas elas tendem a ser a exceção.

Um filme bem medíocre por vezes ainda me garante 90-100 minutos, no qual alguns momentos isolados mais do que compensam as longas passagens inertes. O trabalho do crítico tem um impulso para o uníssono, o filme como obra fechada é um objeto muito mais prático de se engajar criticamente, então é isso que de melhor ou pior maneira nós costumamos fazer (melhor ainda é claro se pudermos associá-lo num contexto mais amplo seja de obra, sociológico, estético, etc.). Não é assim, porém, que a experiência do cinema acontece. Filmes, ou ao menos filmes depois que eles alcançam alguma duração, tendem aos seus altos e baixos. Ótimos filmes incluem escolhas equivocadas ou uma atuação fora do tom. Certos filmes tratam alguns momentos como mero formalidade narrativa para chegar ao que interessa, outros são burocráticos até do nada encontrarem um entrecho de 5-10 minutos no qual ganham vida ou simplesmente decidiram ignorar algum elemento muito forte que ainda assim permanece ali as bordas do filme nos lembrando de uma versão melhor dele. Até obras-primas absolutas existem neste movimento desigual. Quando falamos de Ordet (A Palavra, 1955) pensamos sempre na sequência da ressurreição e não nas longas discussões teológicas da primeira metade, por mais que essas sejam essenciais para preparar este momento memorável.
Ging chaat goo si/Police Story (O incorruptível, 1985) inclui três das melhores sequências de cinema de ação já coreografadas, executadas por uma equipe de dubles brilhantes e filmadas e protagonizada pelo seu diretor/astro Jackie Chan com muito cuidado. O filme entre elas é inegavelmente bem mais irregular. Longe de ruim, mas, ao mesmo tempo que algumas das sequências cômicas sejam bastante engraçadas, algumas outras passam longe, o interesse na trama tende a aumente e diminuir e Brigitte Lin e Maggie Cheung se esforçam bastante para tirar algo de material por vezes bem pouco inspirada que Chan lhes oferece. A maioria do filme é bastante envolvente, mas ele permanece na memória por aquelas sequências no qual a imaginação e masoquismo de Chan operam em conjunto de maneira brilhante. Existe um tipo de cinéfilo bastante cartesiano (os americanos são especialmente dados a isso) que porém se agarra a este desejo de uma experiência total para o qual o filme não possa ser elevado por estes momentos privilegiados. Esperar por uma cena memorável chegar me parece um dos prazeres do cinema. Às vezes penso que um dos problemas de cinema contemporâneo é que se esquece disso, existe um certo cineasta criado, por exemplo, nos filmes da Nova Hollywood, que parece acreditar que precisa provar que é brilhante o tempo todo e o filme todo se esvazia depois de um tempo.
Esperar por uma cena memorável chegar me parece um dos prazeres do cinema. Às vezes penso que um dos problemas de cinema contemporâneo é que se esquece disso.
Às vezes, uma cena é só uma cena e está lá no caminho de algo maior. Há uma história boa que Stanley Donen costumava contar sobre as filmagens de Charade (Charada, 1963), entre todos os filmes que fizera com Cary Grant a única vez que ele lhe dera dor de cabeça fora quanto a certo ponto do filme com a trama já muito elaborada, o roteiro pedia que Grant explicasse os meandros da ação para melhor situar o espectador. “Estes são diálogos puramente expositivos e Cary Grant não faz exposição”, o astro reclamou pedindo para passar a cena para um dos coadjuvantes e Donen foi obrigado a apontá-lo que, dada a natureza do filme, somente ele sabia tudo que acontecia e, a contragosto, o ator fez a cena. Ataques de narcisismo de estrela à parte, não é como se Grant estivesse de todo errado. Filmes narrativos tendem a ter seus momentos mais burocráticos e a mística de um ator como Grant passa por como ele não é associado a estes momentos. Lembramos das mil peripécias que Grant se envolve fugindo em North by Northwest (Intriga Internacional, 1959) e não de Leo G. Carroll.

Claro que vale sempre pensar nos limites desses grandes momentos. Pensemos, por exemplo, em Seven Chances (As Sete Ocasiões de Pamplinas, 1925) e Spite Marriage (O Figurante, 1929). Seven Chances, muito mais do que qualquer outro filme de Buster Keaton, é lembrado pelo seu final, no qual todas as mulheres da cidade perseguem ele até que ele precisa descer uma montanha no meio de um deslizamento. É uma das cenas mais engraçadas do cinema e notável como Keaton estica a situação e consegue tornar ela melhor quanto mais ela avança. O resto de Seven Chances não é um dos filmes mais inspirados de Keaton, a situação básica do filme (o astro precisa se casar imediatamente por conta de uma herança) não é das melhores e lhe serve mal, boa parte da primeira parte do filme consiste em variações de Keaton tentando conseguir uma mulher e tem um gosto ruim que ele tem alguma dificuldade de superar. Keaton é um ator e encenador de comédias brilhantes o suficiente para chegar a bons momentos ali, mas há mais piadas que dão errado nestas sequências do que em qualquer outro filme da fase clássica de Keaton. Então, as mulheres da cidade descobrem porque Keaton precisa de uma noiva e o perseguem, perdoamos todos os problemas que o filme tinha até ali.

Spite Marriage é o segundo filme que Keaton fizera para a MGM e é geralmente visto como seu último bom filme. A visão convencional é de que Keaton não se adaptou ao som, mas a verdade é que ele não se adaptou à linha de produção do estúdio, muito centralizada. A MGM seguia colocando Keaton em filmes no qual ele estava deslocado, com co-protagonistas todo errados, roteiros cheios de situações nos quais ele não se encaixa, mas que justificavam o grande investimento em escritores do estúdio, etc. Eu vi a maioria dos filmes do Keaton para a MGM, como sempre eu sou um completista e não me importo de ver filmes ruins. Eventualmente, espero ver o par de filmes que me faltam. Tudo após 1929 é fraco e pouco inspirado, mas tem momentos ocasionais em que, por uma piada ou cena, o antigo Keaton aparece. Spite Marriage não é como digamos Sidewalks of New York (Pamplinas e os Gangsters, 1931), para ficarmos num filme que me deixou metade do tempo amaldiçoando o fantasma de Irving Thalberg, ele ainda sugere um dos filmes de Keaton para sua antiga produtora, só que sem a mesma inspiração e liberdade. Há, porém, ali um momento no qual Keaton precisa colocar a esposa alcoolizada na cama e lhe tirar o vestido que é um primor. Cada tentativa de fazer algo simples termina dando errado, uma versão miniatura de como o mundo parece sempre conspirar contra o pobre Keaton em que boa parte dos seus melhores filmes se baseiam.
É uma cena de invenção cômica tão boa quanto muitas de seus filmes anteriores e acredito que ela funciona melhor dentro do filme. Ótima, como ela seja, não tem o mesmo efeito sobre Spite Marriage que a perseguição tem sobre Seven Chances. O filme anterior se tornava um ótimo filme por conta de sua sequência central, enquanto o de 1929 é um filme simpático com um grande momento de humor. Parte disso é duração, a de Seven Chances ocupa quase todo o último quarto do filme, mais importante ela não é só o clímax dramático, mas ajuda a balancear e explicar boa parte do que veio antes, ela não melhora subitamente as piores piadas do filme, mas ao menos faz com que a procura tola de Keaton faça sentido. O filme todo existe para permitir este momento. Enquanto em Spite Marriage, tão importante quanto a cena possa ser para o filme todo, ela soa muito mais isolada do resto (provavelmente porque a MGM à época já limitava as chances de Keaton colocar uma visão sobre o seu longa). É fácil pensar em Seven Chances como um belo filme, mesmo que ele só seja ótimo nos seus 15 minutos finais, enquanto Spite Marriage permanece um veículo agradável para Keaton com uma cena brilhante.

Falei muito de belos filmes, mas como disse no começo dessa crônica, acho que isto se aplica igualmente quando assisto filmes bastante ordinários. Para ficar num exemplo, costumo ter um prazer imenso com as filmagens em locações em muitos filmes de exploitaition americanos dos anos 70/80, que são na maior parte medíocres ou pior. É sempre um risco cair em mistificações e confundir isso com qualquer forma de realismo, mas existe com frequência muita força nestes locais visitados e a relação material entre produções de baixo orçamento e elas são bem diferentes do que você vai encontrar num filme de estúdio.
Esta semana assisti a um filme bastante esquecível chamado The Annihilators (1985), um desses filmes “veterano de guerra volta para casa e descobre que o antigo bairro foi tomado por uma gangue” com todas as paranoias conservadoras e grosserias narrativas esperadas, mas há momentos em que o filme se move para externas onde algo ali apesar de tudo ainda registra mesmo com a consciência que a evocação de degradação urbana tem interesses ideológicos bastante questionáveis. Algum cinema ainda atravessa a preguiça dos realizadores e, por 5 ou 10 minutos perdidos, ali algo acontece que me anima para além da burocracia geral. Me importo com isso tanto quanto com os momentos sublimes de filmes melhores. Por isso, sempre digo que é difícil para um filme não me proporcionar algo.
