They weren’t accidental gestures but translations of a deeper language.
Claudia Durastanti, Strangers I Know
Se o instrumental de flauta de Kay Gardner (de notar, o seu título Touching Souls) e o percolar de uma cascada a abrir a magistral primeira longa-metragem da escritora-realizadora India Donaldson não situa de imediato o que será um mergulho à la Kelly Reichardt no entendimento pela natureza humana então nada o fará. É a melodia que desencadeia a sinfonia de um natural diminuidor de pulsação cardíaca, mundo sereno que reverbera servindo de testemunha muda para quem dele se aproxima, pondo tudo em questão. Com alma de terceiro filme, em Good One (2024) são as inesperadas contrastantes cores do Hudson Valley em Nova Iorque e a lente laboratorial a pairar por cima de borboletas que pousam em cima de pedras, de um lagarto laranja a percorrer o tronco de uma árvore, girinos na água, que o posiciona da nostalgia ao cataclismo enquanto memória que será vivida vezes incontáveis em retrospectiva. Memória que definirá a relação entre um pai e uma filha para sempre. A ecoar na cabeça ficará a frase dele, “A melhor coisa que podes fazer é ter uma família. Esse é o último passo no teu amadurecimento.”

Filmes como Good One são raros. Pérola do cinema independente norte-americano descoberto no Festival de Sundance em 2024, onde o seu destino foi rapidamente traçado como robusto e inegavelmente distribuível, tem cunho de “descoberta”, é dono de um olhar afinado e naturalista sobre um mundo hermético, contado em silêncios, com uma jovem estreante actriz ao leme. Ainda mais intrigante é, por isso, a sua falta de presença tanto no circuito comercial como nas plataformas de streaming em Portugal. A partir da mesma abordagem diminuta mas espessa, e mesma respiração do conto literário (semelhante apresentação do cinema de Reichardt), Donaldson não nos conta uma história propriamente. O discurso é interno ao ponto de precisar de se desenrolar em imagens. Se contado apenas sujeitava-se à dialéctica da vida, linguística e a posteriori, sem testemunhas por perto. Não há proposta melhor. Sob o pretexto de um fim-de-semana a fazer uma caminhada com o pai Chris (James Le Gros), com quem não vive, e o seu melhor amigo Matt (Danny McCarthy), um actor falhado, antes da ida para a universidade, Sam (Lily Collias) com 17 anos navega um estudo de personagens tão vigoroso que o que se previa ser o seu crescer-de-idade transforma-se num processo de vergonha alheia e subsequente alienação do pai e de tudo o que a ele se encontra anexado, enquanto esta desconstrói a idade adulta como etapa e conceito e suas desilusões.
Em poucas palavras, Good One é o retrato de uma mudança universalizada. Todos já passamos por ela, sabendo-o na altura ou não. O momento ou momentos em que os nossos pais passam a ser humanizados aos nossos olhos. Enfraquecidos. Imperfeitos. Quando a realidade quebra a fantasia que restava, e a máscara da infância finalmente se dissolve. Para lá caminha o filme, fugindo do esperado com rasgo. Afinal falamos aqui do que é mais sulcado na natureza humana. Da família enquanto terreno movediço à relação predatória entre homens e mulheres, o filme aponta para a precocidade feminina e critica as amizades masculinas, exemplificando o jogo de percepções que podem e devem ser julgadas entre géneros e duas gerações desiguais.

Para melhor o fazer, compõe um rasto de informação do qual constam todos os momentos apresentados (nada é desperdiçado), com especial ênfase para a qualidade indirecta e sugestiva do diálogo – não é por acaso que os dois homens mencionam as preferências alimentares de Sam enquanto todos comem num diner, ou que falam da sua orientação sexual sem que esta o confirme. Nada é desperdiçado. Um plano contemplativo de uma minhoca a percorrer o tecido repelente de uma tenda mostra-se tão crucial como os demais, exteriorizando a tensão vivida por meros segundos e apontando o dedo ao filme enquanto caldo que ferve em lume brando. Balançando essa redoma que vai sendo lentamente construída à volta dos três personagens e a qualidade estelar e aérea do lugar brevemente ocupado, Good One é um filme que desafia entradas e saídas tidas como estanque. Quer estejamos a falar da floresta, de família, da idade adulta ou de uma relação antiga e já desgastada entre amigos. Só uma coisa é certa. Quando mais para dentro da floresta os dois homens e Sam caminham, mais confortáveis eles ficam e mais o seu comportamento perde arestas.
Sobre a liberdade de se ser livre, Donaldson evoca os momentos mais eternos do cinema de Mike Leigh, o portentoso cinema que vive um mundo de emoções nodosas mas permanece contido aos olhos dos demais. Seria tentador para qualquer realizador seguir em frente em direcção ao confronto, mas Donaldson faz o oposto. Liberta o filme de retórica. Sabemos o que vemos. Ouvimos a amplitude do silêncio. Somos testemunhas.
O filme também é sobre a volumetria que ocorre entre o que dizemos e o que mostramos, especialmente na presença de estranhos. Numa das noites, um grupo de jovens que também por ali caminham juntam-se a eles. O que é dito durante essa interacção coloca tudo em perspectiva. Os desejos tácitos daqueles homens, os dois divorciados – Chris casou outra vez e teve um bebé recentemente -, a incomunicabilidade entre os seus vários mundos (família, trabalho, lazer), a imaturidade e falta de inteligência emocional que naturalmente deteriora as relações com os elementos mais jovens nas suas vidas. No caso de Chris, a filha Sam. No caso de Matt, o filho Dylan, que se recusa a ir com eles naquele fim-de-semana. Enquanto isto, Sam encontra-se envolta num ouvir profundo, uma análise estonteante do que a cada novo momento vem ao encontro dela. Será que eles se esqueceram que a família é algo a conquistar? Será que se esqueceram de trabalhar em si mesmos? Será que nunca ninguém lhes disse que nunca nada é garantido no que diz respeito às relações humanas? Sam não o diz, mas todas aquelas horas amontoam-se a um nível de incredulidade com a qual ela própria não sabe o que fazer.

Sobre a liberdade de se ser livre, Donaldson faz Old Joy (2006) tilintar na nossa cabeça, e rever-se em Leave No Trace (2018), e evoca os momentos mais eternos do cinema de Mike Leigh, o portentoso cinema que vive um mundo de emoções nodosas mas permanece contido aos olhos dos demais. Ao finalmente tocar na pequenez de se ser humano, Good One coloca uma filha a confessar algo grave ao pai, e a ter os seus sentimentos invalidados sem sequer uma hesitação da parte de Chris, que se recusa a colocá-la primeiro para evitar forçar uma descida às profundezas do que também é a vida dele. É notória a forma como a realizadora decide, dali em diante, “retirar” o personagem de Matt do filme. Ele continua ali, e perto de Sam e Chris, mas não fala, permanece envolto em si mesmo. Com um esgar Sam sabe destes homens e tem pena deles. Mas o filme não é, ainda assim, em nenhum momento moralista. Seria tentador para qualquer realizador seguir em frente em direcção ao confronto, mas Donaldson faz o oposto. Liberta o filme de retórica. Sabemos o que vemos. Ouvimos a amplitude do silêncio. Somos testemunhas.
É um filme que começa já inundado de si mesmo, situando-nos rapidamente no seu espírito. Talvez seja por isso que é tão fácil, quando o véu é levantado, o clímax se fazer de caminho invertido. Tudo o que sabemos destas personagens sabemos em relação ao que dizem uns aos outros, e à linguagem corporal que os acompanha. Mas no final a questão impõe-se: quem são realmente estas pessoas? E como é que sabemos realmente quem alguém é? O que significa dizer que se conhece alguém? E como é que esse conhecer se desenrola realmente? Uma proposta ainda melhor é ver o filme sem som. Apenas as imagens a passar por nós, os olhares que não se tocam, a linguagem corporal em conflito consigo mesma, e vestígios da corrente subterrânea presente desde o início.

Good One é sobre aprendermos a reconhecer esta mesma corrente antes que seja tarde demais. Sobre estarmos abertos e disponíveis a participar no mundo e assim continuarmos mesmo que nos sintamos defraudados. Sam funciona enquanto o perfeito espelho. É só através dela e da sensibilidade dela que os conhecemos a eles. Sobre ela não ficamos preocupados. Mas é difícil dizer se chegamos a raspar na sua interioridade. Provavelmente não. Ela sabe bem demais o que essa vulnerabilidade pode significar. Não há nada mais difícil do que se ser uma jovem mulher num mundo onde o medo da rejeição social é superior ao acto de preservar laços de confiança, de cuidar dos outros. A assim chamada de “good one”, a ‘boa filha’ (avaliação feita por eles), inteligente, sábia e perspicaz, é um ser individual que sabe onde se encontra de ali em diante. She’ll be a force to be reckoned with. Ela nunca fecha ou fechará os olhos para ignorar algo, encobrir um conhecido, ou um amado. Ela nunca justificará seja o que for com a pequenez do ser.
★★★★☆
