Uma sala de paredes cor-de-rosa, duas cadeiras, um saxofone e um trompete encostado a cada uma delas. Entram dois homens: as estaturas de ambos diferem. Cumprimentam-se e sentam-se. O homem mais baixo ia começar a cantar – aliás, a canção é de sua autoria -, mas o tipo alto rouba-lhe a deixa. O baixote vai ter de se contentar com outras tarefas ao longo da canção, como os coros e outros instrumentos.
O homem mais pequeno é Paul Simon. Já o conhecia quando vi, pela primeira vez, numas longínquas férias de Verão (provavelmente em 2008 – dêem-me o desconto, nasci em 1995), o teledisco de “You Can Call Me Al”, o single principal do álbum Graceland, agora com quatro décadas. A canção fazia parte dos alinhamentos das rádios musicais portuguesas do princípio do século, e claro que a reconheci enquanto via aquelas imagens, numa altura em que andava a descobrir mais sobre Simon. Mas não sabia, até então, quem era o outro actor do vídeo: o tipo alto, com o ar de quem tem a mania.

Claro que estou a falar de Chevy Chase. E é com as imagens de “You Can Call Me Al” que fecha I’m Chevy Chase and You’re Not (2026), de Marina Zenovich. A autora de documentários sobre Richard Pryor, Robin Williams e Roman Polanski gosta mesmo de pegar em figuras contraditórias e algo polémicas, e neste caso volta a não se centrar numa visão “de legado”, obediente e autorizada. Chase, adorado pelo público americano (uma fama que talvez não tenha passado, com tanta intensidade, para o outro lado do Atlântico), é também célebre pelas inúmeras discussões, dores de cabeça e esgotamentos de colegas da indústria.

Mesmo que partam para o visionamento sem saberem nada sobre o actor, cujo carisma deve-se em grande parte a essa aura arrogante e chico-esperta (como duas das várias talking heads confirmam, “é o idiota de quem queremos gostar” e “há dois tipos de pessoas: as que gostam e as que não gostam dele”), já dá logo para perceber esse seu lado infame nos primeiros minutos: ouvimos a realizadora dizer a Chase que quer descobrir quem ele é, bem como as suas várias facetas. Resposta do entrevistado: “não acho que sejas inteligente o suficiente para me compreender”.
É o ponto de partida para um retrato fascinante assente no descascar mais ou menos cronológico da carreira tumultuosa de Chase, dos primórdios no Saturday Night Live (o título do filme é a frase com que ele terminava as suas participações no segmento “Weekend Update” desse programa já cinquentão) aos filmes de maior sucesso [onde se incluem comédias como Caddyshack (O Clube dos Malandrecos, 1980), Fletch (Assassínio Por Encomenda, 1985), National Lampoon’s Vacation (Que Paródia de Férias, 1983) e as sequelas, entre outros], aos rotundos fracassos (como a passagem pelo mundo da late night tv) e o regresso numa altura em que já achava estar reformado, com a sitcom Community (2009-2015).

Este desfiar dos anos e dos projectos é composto por uma variedade de testemunhos de amigos, familiares e colegas. Todos nos ajudam a ter uma ideia de quem é Chase: o comediante que soube usar a sua lata e carregada autoestima para se destacar. No seu melhor, conseguia disparar piadas mais ou menos problemáticas a um ritmo digno de uma comédia screwball (Fletch deve ser o melhor exemplo disso) e aliar esse aspecto de fala-barato com uma grande aptidão para o humor físico (as quedas pareceram ser o seu forte durante muitos anos). Essa persona cómica alia, então, um sentido de superioridade a uma vontade de se humilhar em frente das câmaras. Como vamos ver no filme, ambas essas características são evidentes na pessoa e no seu trato com os outros.
Ao contrário de outros documentários sobre celebridades ainda vivas, não há um amaciar da personalidade. E é isso que mais surpreende em I’m Chevy Chase and You’re Not: Zenovich está mesmo interessada naquele homem, e impressiona a quantidade de momentos que, provavelmente, teriam ficado na mesa de montagem se fosse outro filme. Todos servem para dar um retrato fiel ao retratado: polémico, desagradável, sem qualquer noção da realidade, em que o sentido de humor aguçado se pode misturar com um carácter duvidoso.
Quando descobri quem era Chase, naquela altura em que vi as imagens “You Can Call Me Al”, fui parar ao desastre da sua tentativa de talk show. Só mais tarde vi algumas comédias, e fui gostando mais, com o tempo, daquela personalidade. Já me fez rir muito. Mas claro que também me fui alimentando das “fofocas”, de todas as histórias problemáticas que o rodearam praticamente desde o início. E sendo este um filme que quer dar uma perspectiva do actor o mais próxima possível da realidade, recordamos (ou ficamos a saber) alguns dos momentos mais graves da sua carreira.

Um deles foi com John Carpenter: no documentário vemos imagens da rodagem de Memoirs of an Invisible Man (Memórias de um Homem Invisível, 1992). Não precisávamos da voz do cineasta, em off, a explicar o trauma com que ficou da experiência de trabalhar com Chase, que o levou a querer desistir totalmente da indústria naquela altura (não o fez aí, felizmente, só muito mais tarde). Basta olhar com atenção para Carpenter, ao iniciar um take. Aquela parece-me ser a cara de alguém que acabou de ser destruído psicologicamente.
(logo a seguir vemos Chase, numa entrevista, a dizer ser este o melhor filme em que participou. É provável que tenha razão.)
Por cada um dos momentos em que Zenovich mostra o quão difícil é o trabalho com Chase, há um contraponto que pode ser familiar (a mulher Jayni Chase, com quem vive há mais de 40 anos, e as filhas falam dele com carinho, e ele também parece ser um bom pai e amante de animais), através do testemunho de alguns amigos mais próximos (como Dan Aykroyd e Martin Short, que fingem não conhecer “aquele” temperamento difícil) ou de outros colegas [Goldie Hawn, que contracenou com Chase em Foul Play (Jogo Baixo, 1978), parece ter só maravilhas para dizer dele]. Estamos a falar de um homem que podia ter enveredado pela música – imaginam-no como membro dos Steely Dan? Podia ter acontecido -, e que encontrou no piano, e em Bill Evans, uma espécie de terapia, que ajudou em parte com a depressão que se seguiu ao talk show falhado.

A quantidade de pessoas que não quiseram ser entrevistadas por Zenovich é também reveladora. Mas no fim, e apesar de tudo, fiquei com vontade de ver mais. I’m Chevy Chase and You’re Not é mais uma prova da eterna batalha do que faz um artista e a percepção pública que temos dele. Depois há coisas que nos podem fazer confusão porque, apesar de tudo – e mesmo apesar daquele feitio -, Chase já está inscrito na História da comédia norte-americana. É estranho não ter sido chamado nem para uma micro-participação no programa dos 50 anos do SNL (e Lorne Michaels tenta desculpar-se do assunto no documentário), quando outras figuras tão ou mais controversas lá aparecem com muito tempo de antena – como Bill Murray, que conseguiu regressar à cena pública como uma figura virtuosa que nunca foi. Foi grande a problemática da linguagem causada por Chase nas gravações de Community, bem como a tensão que criou sempre nas rodagens da série… mas não revela uma certa infantilidade do criador Dan Harmon que, numa wrap party aberta aos trabalhadores e suas famílias, tenha engendrado uma cantoria com o elenco para insultar o actor, quando ele chegou acompanhado pela mulher e as filhas?
Nada é fácil em I’m Chevy Chase and You’re Not. Este filme é a prova de que tomar uma posição nestas questões pode revelar-se uma tarefa igual a uma tortura. Desde que passou há dias em estreia, na CNN, as redes sociais têm demonstrado as réplicas do seu visionamento: agora “toda a gente” odeia Chase, “toda a gente” nunca percebeu a sua fama, “toda a gente” sempre o achou terrível – este tipo de ondas, também semelhantes com outras figuras públicas contraditórias, mostram a infantilidade que pulula na internet. Nada desculpa a atitude irascível do actor, mas a sua esposa faz-nos saber do abuso diário que ele sofreu com os pais, ao longo de toda a infância. Talvez possa estar aí alguma resposta para comportamentos tão erráticos. E no fim de contas, o que ficará de Chase são os filmes, as tiradas memoráveis, e o amor do público.

Um dos momentos mais reveladores do documentário, e do próprio retratado, está numa projecção muito recente de National Lampoon’s Christmas Vacation (Que Paródia de Natal, 1989), em que Chase foi convidado para uma sessão de perguntas e respostas. Pouco tempo antes, esteve à beira da morte: teve de reaprender a viver, a utilizar a sua memória, um passo de cada vez. Ao ser chamado ao palco, Chase decidiu ir numa cadeira de rodas, com o seu rosto numa careta de quem parece estar a lutar contra a morte. Mas depois levantou-se da cadeira e mostrou estar bem, de pé, e com o mesmo terrível sentido de humor de sempre.
Em poucos segundos, fica aí apresentado este homem, simultaneamente um cómico bestial, e uma grande besta, tanto na comédia que pratica como na sua relação com os outros. Marina Zenovich faz um trabalho exemplar, convencional na sua abordagem, mas complexo q.b. para nos dar a conhecer os vários lados, as várias cascas, de Chevy Chase. Afinal, nós não somos como ele. Felizmente.
I’m Chevy Chase and You’re Not vai estar disponível na HBO MAX a partir de 31 de Janeiro.
