(…) a kind of pacing
where a pose is never struck.
Yvonne Rainer
Seremos sempre a mesma pessoa ou várias versões da mesma ao longo de uma vida? Haverá real continuidade entre os Eus do presente e os do passado? Quem vem ao de cima quando nos esquecemos de quem somos? A primeira longa-metragem da coreógrafa Americana Sarah Friedland, Familiar Touch (Um Toque Familiar, 2024), é um pequeno triunfante filme que se centra nestas questões, colocando o seu foco na identidade de idade de Ruth, uma mulher de 80 anos a viver com a doença de Alzheimer, interpretada pela estonteante Kathleen Chalfant, que vimos recentemente em Where to Land (Onde Aterrar, 2025) de Hal Hartley. Em conversa com a realizadora canadiana Sofia Bohdanowicz para a Filmmaker Magazine, Friedland explica-nos o que acontece quando nos encontramos no final da vida, perante tantas versões de nós mesmos: “comecei a pensar no filme como um crescer-de-idade – Ruth está a debater-se com esta mudança em como o mundo a vê”, diz. Bohdanowicz fala-lhe da influência de Yvonne Rainer e do Trio A (1978) enquanto o desenho formalista e emocional onde encontra o filme dela. “Da mesma forma que Yvonne Rainer fala de igualdade energética, no teu filme há igualdade de idade.”, ao que Friedland lhe diz que envelhecer é, de facto, atingirmos a “vertigem temporal, onde somos todas as idades e nenhuma ao mesmo tempo”. Tendo em conta que a memória é a âncora que nos segura à nossa identidade, às noções de tempo e espaço, o que acontece quando deixamos de ser habitados por ela e a nossa identidade perde os seus eixos? Acederá Ruth a outras versões dela mesma, como estas realizadoras sugerem?

Quando conhecemos Ruth pela primeira vez, ela prepara uma refeição e arranja-se. Há algo curativo no acto da preparação: cuidadoso mas energético também. Ao escolher a roupa que usará, pára para encostar o tecido à cara como se não se recordasse dele, da sua suavidade. O pão para a sanduíche sai da torradeira e é colocada na rack dos pratos molhados. Ruth não repara no erro. Um dedo seu toca no pó (especiaria qualquer) polvilhado na mesa de jantar, no qual desenha a letra S em vez de o limpar. Sanduíches terminadas, antes de se vestir, Ruth olha o seu reflexo no espelho do guarda-fatos. Alguém vem visitá-la. E se o arranjar do cabelo a seguir não o confirma, fá-lo o tocar da campainha. Sorridente, como quem esconde um segredo, Ruth almoça com um homem que fica cada vez mais incomodado com o seu flertar. Quem ele é não importa tanto quanto nos leva Friedland a querer nesta primeira sequência. O espectador está sempre com Ruth. Não olhamos para ela. Vemos através do seu olhar um mundo de repente estranho e inacessível. Ruth não se lembra, por isso tudo o que lhe vai acontecendo é uma novidade a cada passo do caminho. Isso não significa que Ruth é frágil. Ela é capaz. A sua vulnerabilidade não é física; aliás, ela comanda uma energia que se traduz em constância, numa dança de presença e sensualidade, e que virá a espelhar o peso emocional do filme.
Kathleen Chalfant interpreta Ruth com uma interioridade tão profunda que nos é possível, desde logo, aceder às políticas de cuidar perante a linguagem da perda. Através deste estudo de personagem ao contrário, a coreografia desse gesto é exposta numa postura corporal sinalizadora ora de frustração ora de aceitação.
Friedland, coreógrafa que é, há muito que investiga corpos em movimento no espaço. As suas anteriores curtas-metragens Home Exercises (2018), Drills (2020), e Trust Exercises (2022) comprovam isso. Familiar Touch vive na intersecção entre a coreografia e a hibridez da não-ficção, com a realizadora a trazer até ele a sua experiência profissional enquanto cuidadora. Kathleen Chalfant interpreta Ruth com uma interioridade tão profunda que nos é possível, desde logo, aceder às políticas de cuidar perante a linguagem da perda. Através deste estudo de personagem ao contrário, a coreografia desse gesto é exposta numa postura corporal sinalizadora ora de frustração ora de aceitação. É isso que vemos acontecer ao longo do filme que prossegue num silêncio reparador, entrando e saindo de cada sequência de forma muito orgânica, sem responder ao dever da sincronia atencional. Tal como os títulos de dois dos seus filmes anteriores indicavam, também este é um exercício prático. E antes de ser obviamente empático, é humano na forma como equilibra eventos, os seus sentimentos antagónicos e diferentes contextos. Steve deixa a mãe na casa de repouso, ao que esta grita “não sejas uma testemunha”. Ruth foge e vai ao supermercado. Ninguém lhe diz que aquela será a sua residência até ao fim da vida. Estes são apenas alguns exemplos.




A névoa abate-se sobre o espectador que, tal como Ruth, está entre estados emocionais, nunca assente em lado nenhum. O filme parte da ida de Ruth da sua residência para a casa de repouso onde a sua memória não a deixa estar nem realmente perdida nem alerta para o que está a acontecer. E Ruth viaja por vários quadros diários que pulam no seu documentar (do acordar ao pequeno-almoço ao tempo de lazer em grupo), mas sem síncope, ou seja, o ritmo e andamento nunca se revelam drasticamente, e não há ondulação entre as várias transições. São todas planas e fluídas. E rejeitam qualquer virtuosismo. Dito isto, o gesto também não se prende à repetição. Aliás, assenta no contrário. Nunca vemos dois momentos iguais. Friedland aproxima a câmara para uma mão que toca num joelho. Mais tarde, essa mão esforça-se para tocar noutra, mas isso nunca acontece. O mesmo dedo que tinha desenhado a letra S no pó encontrado em cima da mesa de sua casa faz o mesmo à comida servida ao pequeno-almoço. Aos poucos, descobrimos que Ruth era uma cozinheira e uma escritora publicada de livros de culinária. Tocar, cortar, empilhar, decorar, salpicar são movimentos intrínsecos à natureza identitária desta mulher. É assim que ela comunica. Ela está a ser cuidada por estes humanos que a rodeiam, enquanto ela tenta fazer o que sempre fez: cuidar dos outros, alimentá-los, entregá-los a momentos de repouso e comunhão com eles mesmos e os seus sentidos. Numa sequência muito pungente, Ruth faz o pequeno-almoço para todos naquela manhã e ninguém a retira da cozinha. Sabem que aquela é a sua única realidade. Quebrá-la seria catastrófico para todos.
No meio de tudo isto, é um filme que não descura de muito humor e observa as desinibidas necessidades sexuais da sua protagonista. Queen at Sea (2026), de Lance Hammer, portentoso filme em competição na Berlinale deste ano, explora isso com muito rigor através de uma narrativa dona de um clímax chocante. Familiar Touch é, em comparação, uma colecção de sentimentos e apontamentos sensoriais. A ligação que Ruth cria com o jovem médico da casa de repouso é só dela – nessa projecção, ela desenvolve uma relação que lhe dá alento mas que não é correspondida. Tudo no filme de Friedland é conduzido pela interioridade que nunca é proferida. Mas isso não significa que lhe perdemos o rasto. A mestria de Chalfant regista a dança dessa perda. Há uma cena particularmente memorável na qual, depois de descrever uma receita de borscht ao médico e de se situar no que seria o início da sua vida (a viver em Brooklyn com a família) , Ruth liberta a raiva num choro momentâneo do qual se livra logo a seguir, abanando a cara para abanar a emoção e reconquistar o controlo, quase como quem grita sem o fazer, ‘eu lembro-me’! Momentos depois, a identidade de S surge-lhe durante o duche (a água tem tendência a provocar a hipnose necessária para trazer a lucidez à tona), mas aí ela consegue admitir que “não me irei lembrar”. Ao longo do filme, as sequências vão-se interligando em pares até finalmente voltarmos à revisão do acto inicial de preparação de Ruth, depois da passagem de algum tempo (não temos ideia de quanto). Desta vez, Ruth já não se veste. É vestida por outra pessoa antes de a deixarmos e o ecrã ir a preto. Logicamente, não há despedidas. Na perda, só há encontros fugazes. Em Ruth, habitam todas as pessoas que ela foi até ali. Friedland vai acedendo às suas diferentes características até ficarmos com o olhar vago daquela mulher que, a partir dali, passa a existir fora de idade.

★★★★☆
