Albert Serra é, já há vários anos, um dos melhores cineastas da actualidade. O seu discurso irreverente apenas condimenta um trabalho muito consistente de obra para obra. Um método que visa desmantelar, também politicamente, a excessiva gordura do cinema. Começa na vaidade de actores e realizadores para depois cortar na narrativa ficcional como muleta dos preguiçosos. Serra tem-nos mostrado como D. Quixote, o rei Luís XIV, Casanova, os três reis magos — isto é, as figuras históricas e suas eventuais bases literárias — quando encontram o seu cinema ficam ao serviço da criação de uma artificialidade autêntica, da criação de ambientes cinemáticos que metem o espectador num outro mundo transcendente de emoção, de prazer, de expectativa. Um mundo onde a racionalidade é substituída pela procura daquilo que os actores, perante a ignorância de uma causalidade da acção, escondem, como admite o próprio realizador.

Em 2022, com Pacification, a sua metodologia conheceu um maior risco. Pela primeira vez, Serra iria dialogar com o presente, um comissário do Governo Francês, Benoît Magimel, deambulando pela política e seus meandros no Taiti, ilha da Polinésia Francesa. Mais uma vez é sobretudo um filme de improvisação, de criação de ambientes, mas agora com fantasmas visíveis: o colonialismo e a ameaça de testes nucleares na ilha. Esses fantasmas deram uma proposta mais concreta a tais ambientes: uma disseminação do bem e do mal e de uma corrupção pela invisibilidade de uma suposto sistema. Essa fendas que se abrem entre a intenção, a acção e as consequências das suas personagens permitem uma vez mais ao cineasta fazer emergir os valores de uma certa autonomia na criação artística, ao mesmo tempo que salienta a destruição (ou fragilidade) das afirmações políticas acerca de uma contemporaneidade gasta em maniqueísmos e simplificações.
Novo salto e agora o zoom in à realidade concretiza-se em Tardes de soledad (Tardes de Solidão, 2024) com uma abordagem documental pois, como diz Serra, “não era possível fazer de outra maneira”. A coerência mantém-se: em primeiro lugar, uma curiosidade intelectual, cultural, pelo fenómeno das touradas, nessa relação visceral entre toureiro, touro e aficionados; em segundo lugar, e aqui começa o início do problema, Serra quer manter-se, no seu registo, no seu método, acima (ou ao lado) da realidade dos discursos ideológicos que hoje fracturam, com frequência, a humanidade a meio. No caso concreto das touradas o desafio seria: é possível fazer um documentário que não faça a apologia nem a denúncia de tal prática milenar? É neste contexto que, em busca de uma integralidade artística que Serra havia encontrado nas suas obras anteriores, nos diz: “a mí, me dá igual”, referindo-se a leituras sobre a masculinidade tóxica ou outras retóricas. Serra parece querer dizer-nos: mexam nas minhas imagens para os vossos fins, mas esses não são os meus.
E quais são os seus? Sobretudo uma aproximação à estrela da tauromaquia, Roca Rey, e seus colegas para compreender esta dinâmica da vida do sonho (por oposição à realidade do trabalho), de um real que se transcende em função de um enfrentamento sacrificial, da encarnação de uma personagem que corre risco de vida. Que morrerá ou matará. Serra admite que procurou fugir ao folclórico, ao kitsch na tourada e filmar a ligação visceral entre homem e touro, captar essa luta e dar-nos imagens que possam expressar este momento de sacrifício, de uma possível transcendência que vê poesia no sofrimento, na morte, no fim.
Não digo que Tardes de soledad seja uma ode ao bailado do sangue, da baba, do estertor, do medo e da desorientação do animal. Quer dizer, ele é-o porque esse é o método que Serra arranjou para inquirir a tauromaquia na sua vertente sagrada de transcendência.
Esta aproximação, que afasta dos planos o mundo banal que entorna o protagonista, tem, pelo menos, três dimensões.
A primeira é a de nos mostrar a preparação ritualística para o embate na arena. Aqui, mais do que a fé religiosa ou o nervosismo da espera, ficam-nos os planos em que Rey se veste (ou é vestido), se olha ao espelho, numa dimensão bastante narcísica e que coloca em tensão — certas leituras têm-no apontado — a divisão rígida entre o toureiro como expoente da masculinidade bruta em contraponto com uma vaidade e delicadeza femininas (atente-se nos collants translúcidos e nessa ritualística do vestir e do parecer).
A segunda, talvez o melhor do filme, é quando Serra capta a poesia da relação social entre toureiros e sua equipa. Surpreendentemente, Rey precisa muito da validação externa: os seus companheiros dizem-lhe muitas vezes como foi corajoso, como teve tomates, como aquele público não lhe quer mal mas o admira muito. Mais uma vez, é a imagem do homem forte e corajoso que nos parece ser inseguro e instável, precisando, requerendo elogios que, com sinceridade, também ajudam a construir um discurso circular, blindado, que justifica os actos de violência e enfrentamento.
A terceira aproximação é a mais problemática e aquela que, em meu entender, frustra as expectativas de Serra e transforma Tardes de soledad num glorioso falhanço. Parte substancial desta observação da tauromaquia assenta no cortar para fora de campo do público e ficar apenas com segmentos da arena, em planos aproximados do duelo entre Rey e os touros. Dessa proximidade resultarão os detalhes das faenas do toureiro e o esgotamento dos animais até aos golpes finais e consecutivo arrastamento dos seus corpos já mortos para fora do recinto.
Em 1994, no célebre texto “O Travelling de Kapò”, comentando o texto “Da Abjecção” de Jacques Rivette, Serge Daney escreveu: “Ao imaginar os gestos de Pontecorvo decidindo o travelling e mimando-o com as mãos, levo-lhe ainda mais a mal na medida em que, em 1961, um travelling representa ainda carris, maquinistas, em suma, um esforço físico.” O que está em causa, além da conhecida estetização do sofrimento humano, é esse momento de escolha que no analógico, pela sua dificuldade, deveria ter trazido um momento extra de reflexão ao realizador italiano. Ao rever a estrutura do filme de Albert Serra e esta circularidade infernal — de arena em arena, de toureio em toureio — e esta aproximação pictorial, também dei por mim a imaginar as escolhas de montagem de Albert Serra e Artur Tort (também diretor de fotografia) em função das tonalidades mais ou menos vivas do sangue dos touros, da forma como tombam no chão, como resistem à estocada final, dos esgares de dor e olhar de desorientação.
Se as observações de Rivette e Daney foram importadas como um limite da visibilidade, um paradigma de um cinema humanista que não se deleita no sofrimento humano, não me parece possível ser coerente traçando para esse dogma um limite, ainda para mais de natureza documental, na relação com o sofrimento do animal não humano, seja para efeitos de cores, bailado ou uma aproximação que substitui o travelling pelo plano aproximado. O cinema humanista que creio que nos interessa deve insuflar esses valores de humanidade ao animal, sob pena de instaurar uma moralidade artística que só nos vale quando calha.
Não digo que Tardes de soledad seja uma ode ao bailado do sangue, da baba, do estertor, do medo e da desorientação do animal. Quer dizer, ele é-o porque esse é o método que Serra arranjou para inquirir a tauromaquia na sua vertente sagrada de transcendência. Imagens que corrompem, nunca vistas (expressões do realizador) mas que sobretudo traem as intenções do seu autor. O interesse de Albert Serra, que não esconde uma genuína admiração pela tauromaquia, seria olhar para o fenómeno deste ponto de vista ancestral, sacrificial, quase ontológico. Mas estas imagens dos refolegares dos animais, dos olhares de sofrimento e desorientação, da baba e do cansaço devoram tudo, não permitem que mais nada se imponha, por muito intelectualmente estimulante que seja a intencionalidade do projecto.
Estas imagens de proximidade com a barbárie mostram, em meu entender, como o método “me dá igual” de Serra não funciona quando aplicada ao documentário. Pois apontar uma câmara é fazer uma escolha e sobretudo, como dizia ainda Daney, designar o olhar e a posição do espectador. Em suma, esse espaço em que Serra procurava meter Tardes de soledad, entre o sim e o não, o pró e o contra, esse espaço, a existir, é contraditório com esta proximidade, com este deleite no detalhe, com esta montagem que é cega ao sangue e atenta ao vermelho, que não distingue uma dança da vida e uma dança da morte. E tudo desemboca, afinal, naquilo que o cinema (os filmes) mais teme(m): fazer-nos querer desviar o olhar.
★★☆☆☆
