Aquando da consagração de Amy Madigan na última cerimónia dos Óscares, o avistamento do seu marido, Ed Harris, na multidão de notáveis foi o impulso de que precisava para, de uma vez por todas, colmatar uma falha da minha watchlist cinéfila: finalmente fui ver o ambicioso e algo inclassificável Knightriders (Os Cavaleiros da Lenda, 1981), obra rodada por George A. Romero no intervalo dos seus filmes políticos de zombies. Com um orçamento muito considerável, várias vezes superior ao seu anterior Dawn of the Dead (Zombie – A Maldição dos Mortos-Vivos, 1978), Romero assinou um dos seus filmes mais esquisitos e pessoais, um drama (quase secretamente adulto) sobre o desejo de pertencermos a algo superior a nós mesmos e sermos aceites pelos nossos pares, e a tragédia que é tal não acontecer num tempo histórico certo e uno.

No ano em que saiu Excalibur, o filme eisensteiniano/wagneriano de capa e espada de John Boorman, Ed Harris interpretou o líder de uma comunidade que vive intensamente a sua profissão, viajando de terra em terra para elevar feiras medievais e encenar espectaculares combates com os cavaleiros medievais a substituírem os cavalos por Yamahas e Harley-Davidsons. Estes cavaleiros da távola redonda apresentam-se, de maneira singularíssima, on wheels, mas perfeitamente crentes num sistema de valores próprio da mitologia e das aventuras de honrosos guerreiros dando a vida pelo rei Artur. Ora, o primeiro jogo da câmara de Romero diz respeito à dimensão fantasiosa desta “mascarada”: no início, vemos Ed Harris e a sua companheira, no meio da floresta, sem que vislumbremos quaisquer indícios da civilização moderna. Ele, despido, fustiga-se no meio do riacho; após purgar o espírito, metamorfoseia-se num guerreiro envergando uma imponente armadura e um capacete com penas. Todavia, pormenor importante, no lugar de um cavalo branco que o levará aos seus subditos, este Rei Artur “anacronizado” transporta-se sobre as duas rodas de uma mota de alta-cilindrada.
Cavaleiro-motard de férreos princípios, Ed Harris interpreta um homem consumido pelo seu sonho, alguém que está de tal modo convencido de que, de facto, é rei, que pode, com isso, estar em vias de comprometer o futuro da empresa feiral, envolvendo todo o tipo de figurações e performances alusivas ao tempo mítico indeed very british. A sua mulher, a rainha, interpretada por Amy Ingersol, nota, a certa altura, como parte do encantamento por esta vida fantasiada ameaça desmoronar-se face à casmurrice da obsessão do marido, cada vez mais crente de que a sua fantasia deve ser realmente defendida até às últimas consequências. Ao mesmo tempo, a comunidade que este chefia apresenta-se cindida entre um amor incondicional à pantomima teatral e uma devoção quase religiosa à experiência desta trupe como se esta fosse uma seita (a personagem de Harris queixa-se, logo ao início, do risco de as suas intenções estarem a ser confundidas com as de um Charles Manson e companhia).
Knightriders são duas horas e meia sobre uma comunidade em choque com o seu tempo e com uma “feia e má” América profunda.
Romero nunca esclarece exactamente quais são as verdadeiras intenções das personagens, nem é cabal a delimitar a sua relação com o mundo que as rodeia (que e se serve delas). Há qualquer coisa do fabuloso The Village (A Vila, 2004) na forma como somos levados a crer que, em Knightriders, se vive num mundo onde é possível este género de coabitações transtemporais, entre quem decide viver noutro tempo histórico e quem assiste a esse modo de vida do lado de fora, em pontuais sessões abertas ao público. Se M. Night Shyamalan tendia a esclarecer (talvez em demasia, agora que penso sobre isso) a verdadeira natureza da comunidade que retratava, George A. Romero “aspira-nos” de tal maneira para junto dela, remetendo-nos tão candidamente para o seu “coração”, que nos faz sentir como perfeitamente natural e justificada a demanda deste grupo de homens e mulheres, mesmo se a sua convicção for a de que, sim, se deve persistir numa missão existencial de altíssima “alienação histórica”. Nem sequer descortinamos um claríssimo discurso político e social subjacente ao contrato que une estas pessoas entre si, e ao culto (até certo ponto) inquestionável prestado ao monarca e à sua esposa, e ao código da cavalaria que faz lei entre o grupo de cavaleiros-motards.
Depreendemos que esta seja uma comunidade de pessoas em fuga, desejando pertencer a qualquer coisa maior do que elas mesmas, e que isso também possa representar uma forma de se viver o sonho americano. Este Camelot incrustado na realidade americana representa a possibilidade de se criar uma comunidade baseada em valores e rituais enobrecedores, numa sociedade corroída pelo consumismo e a mais estupidificante sede de espectáculo. A história do agente que vê nesta trupe uma oportunidade de negócio fácil é significativa a este nível, o que não distancia assim tanto este filme de outras alegorias políticas com a assinatura de Romero, mesmo que o elemento horrorífico esteja aqui omisso. No lugar do horror ou do terror, está um coração quase meloso que bate intensamente. Romero ama as suas personagens (como nunca se viu antes ou se viria depois) e o filme consubstancia uma forma de partilha desse amor – fadado à tragédia (no filme e do filme, que, de facto, foi um flop comercial tremendo) – com os espectadores (cuja redescoberta deste filme como um cult classic tarda em acontecer de maneira plena e justa – quer dizer, qual “ironia do destino”, em perfeita sincronia histórica).

Knightriders são duas horas e meia sobre uma comunidade em choque com o seu tempo e com uma “feia e má” América profunda. Identificamos na multidão Stephen King, à época a trabalhar com Romero na produção de Creepshow (Creepshow: Contos de Terror, 1982), a interpretar um hillbilly que, entre urros, umas quantas cervejas e sandocas, representa o lado pior da classe-média americana – conseguimos facilmente fazer o transfert hoje para a realidade MAGA e a epidemia de reality shows que a precede e que a acompanha (parece que nos esquecemos que é daqui que veio o actual Presidente deste país…). O ponto principal do drama radica no facto de quem actua, o mais nobre “bombo da festa”, ter o coração, uma alma e um sentido de dignidade em rápida e preocupante extinção no mundo à volta, o mesmo que assiste alarvemente ao espectáculo medieval.
O final de Knightriders conta-se entre os mais desolados de uma já algo irreconhecível Nova Hollywood: Ed Harris (num dos seus grandes papéis) apercebe-se de que o seu tempo acabou, que já não encontra lugar para os seus sonhos e para a possibilidade de uma comunidade futura, baseada em valores e princípios briosos e enobrecedores. O lento reencontro da “lenda viva”, Rei Artur, com o homem que evitou sempre (voltar a) ser, tem os contornos de uma furiosa reparação antes de uma retumbante despedida. O rei já não pode ser rei se o seu reino cedeu, enfim, à lei do mais forte e a um princípio fatal de fantasia (a Idade Medieval não como modo de vida alternativo, mas como espectáculo, enfim, “monetizável”), pulverizando a convicção mais profunda no sonho de uma humanidade coesa, porque convicta dos seus valores. Knightriders é um grande grito do Ipiranga em defesa da liberdade autoral em face da lei do mercado e do cinismo reinante na malha das relações humanas. Porque, como nos elucida o desenlace de partir o coração, fora do inevitável e super-poderoso reino do capitalismo, só existe, claro, a possibilidade da morte.
“Good night, sweet prince, / And flights of angels sing thee to thy rest!”. Eis um final escalofriante de um filme tão desconcertante quanto incrivelmente duro e crepuscular sobre os nossos dias (daqueles títulos que estavam demasiado presos à flor dos tempos ou que prenunciaram de maneira demasiado intensa uns quantos desenvolvimentos futuros, hoje tão presentes). Uma fantasia bem real que já abre caminho a Day of the Dead (O Dia dos Mortos, 1985), quer dizer, ao tomo 3 da saga zombie de Romero, em que um grupo isolado acalenta o sonho relativo à possibilidade de um futuro risonho para o que resta da nossa humanidade. Enfim, resta mesmo o quê e para quê?
