Como se fica refém de uma série televisiva? Como se escreve sobre uma série de que se é fã, se ser fã (por alguma razão, que não apenas a curteza da palavra, me vejo “fã” e não “fanática”) é absoluto prazer e o prazer é, por princípio, tão individual? Adiante. As séries que me apaixonam são quase exclusivamente em língua inglesa: aconchegam-me a familiaridade numa segunda língua de potência tonitruante e elevada. São quase exclusivamente séries cómicas: aliviam-me o cansaço das tragédias que não escolho. São, sobretudo, séries conscientes de si mesmas, que se olham e riem de se verem, que falham e se apontam o dedo à gargalhada. Têm todas, sem exceção, um defeito: terminam. Assisto ao encadear dos episódios como se cumprisse um ritual eterno, dedicada. Mas sei que, no final da última transmissão, não consigo evitar a sensação de orfandade. Quem me dera que não houvesse amanhã.

“Here’s to no tomorrows,” brinda Denny Crane no final do primeiro episódio de Boston Legal, “Head Cases” (2004). A intriga da série desenrola-se numa firma de advogados de grande sucesso, na capital do Massachusetts. Os protagonistas são os causídicos, os contextos e os quotidianos ancorados na contemporaneidade: predominantemente homens (sobretudo nos lugares de topo), eticamente questionáveis (tanto eles como elas, e a fazerem gala disso), cruzam-se nos corredores dos escritórios e sentam-se às secretárias com o ritmo de um lugar de trabalho onde não há tempo a perder. Vestem-se com a dignidade que a profissão exige (se bem que – ou para apontar isso mesmo – o episódio inaugural abre com o executivo superior a aparecer numa reunião geral despido da cintura para baixo, naturalmente a causar grande tumulto) e falam uns com os outros como se estivessem em competição permanente.
Comecei a ver a série num canal de televisão português três ou quatro anos depois de ter estreado nos Estados Unidos. Não esperei pelo dia seguinte para ficar fã e passei a responder aos inquéritos sobre a minha série favorita (era o tempo dos blogues, fazia-se isso) com um “Boston Legal!”
Cada episódio gira em torno de três ou quatro casos de advocacia complexa e das atitudes com que os advogados, precisamente, advogam. No primeiro episódio, uma mãe negra (Aisha Hinds) queixa-se dos produtores do musical “Annie” terem preterido a sua filha, Sarah (Jadzia Pittman) – apesar de lhe reconhecerem os excelentes dotes artísticos – para o papel principal por não se ajustar à protagonista tradicional, uma magricela branca. A mãe procura justiça, queixosa de discriminação e preconceito. Este fio da narrativa é intercetado por mais dois: num, uma mãe divorciada na iminência de se mudar para Nova Iorque (para um novo emprego que lhe reconhece a formação que, com sacrifício, cumpriu, não sem antes ter ajudado o pai dos filhos gémeos a formar-se primeiro), pede a guarda dos filhos; no outro, um dos mais ricos e mais antigos clientes da firma exige que contratem um detetive para seguir a esposa e arranjar provas fotográficas de que ela o engana – sem saber, de início, que o amante é nem mais nem menos do que Denny Crane, um dos advogados séniores e seu amigo.
Mas é a linha da “black orphan Annie” que sustenta o episódio – a deixa da composição central da peça musical, “Tomorrow”, é o mote, repetido através de outra canção de um outro musical, quando a mãe incita Sarah a treinar a voz enquanto esperam pelos advogados: “Kiss Today”. A letra do tema de “A Chorus Line” composto por Marvin Hamlisch e Edward Lawrence Kleban é uma despedida do hoje, na passagem para o dia de amanhã, quando se aceitará tudo o que por amor se fez: “Kiss today goodbye / And point me toward tomorrow… / What I did for love what I did for love”. Os pontos altos dos 45 minutos que dura o primeiro episódio de Boston Legal passam-se na sala de audiências: primeiro, quando a pequena Sarah canta o tema principal de “Annie”; depois, quando, qual “coelho da cartola”, o Reverendo Al Sharpton-ele-mesmo, conhecido ativista dos direitos civis nos Estados Unidos, irrompe pela sala e salva a situação com o mais elevado e inflamado dos discursos pela igualdade de oportunidades que, conforme acusa, estão sempre a um dia de distância, são sempre “para amanhã”, jamais se concretizam.

Comecei a ver a série num canal de televisão português três ou quatro anos depois de ter estreado nos Estados Unidos. Não esperei pelo dia seguinte para ficar fã e passei a responder aos inquéritos sobre a minha série favorita (era o tempo dos blogues, fazia-se isso) com um “Boston Legal!” atirado à queima-roupa, sem a menor hesitação, a tentar até que a velocidade da resposta correspondesse àquela com que eram debitadas as falas em cada episódio – ainda que, neste primeiro, Alan Shore responda a Brad Chase (Mark Valley) que não consegue acompanhar a rapidez com que ele fala: a expressão de James Spader e de Lake Bell perante o débito arrasador de Valley (“I have trouble talking that fast”) é um dos momentos hilariantes do episódio, e critica igualmente a velocidade das falas nas séries televisivas, obrigadas a condensar trama, diálogos, tensão e distensão num tempo-padrão demasiado cronometrado.

Os culpados mais imediatos da minha imediata paixão foram os dois atores principais: James Spader e William Shatner. Um, porque vinha do cinema onde deixara de o ver depois de muito o admirar [em Sex, Lies and Videotape (Sexo, Mentiras e Vídeo, 1989), talvez fosse aí que mais me recordava dele]; o outro, Shatner, porque, logo ao primeiro instante, me devolveu aos olhos – e aos ouvidos – o Capitão Kirk do Star Trek (O Caminho das Estrelas, 1966-1969) que a minha infância ainda guardava. Tudo me parecia inacreditável de excelente: atores perfeitos, os diálogos no ponto, a velocidade perfeita (revista hoje, parece lenta a série – ou fui eu que acelerei?). A personagem do Reverendo Al Sharpton, aliás, abre um dos muitos momentos meta-narrativos que mais depressa me conquistaram: a sua entrada na sala é toda ela dramática, espetacular; não é só o mundo que é um palco, aquele lugar também é. Quando a juíza o tenta silenciar, “I’m sorry, Reverend, but you have no standing here,” o “aqui” a que se refere é o estúdio da série – porque ele pertence ao mundo fora dela. mas ele persiste, indiferente à autoridade da personagem ficcional; afinal, porque cauciona com veracidade a cena, o Reverendo é a autoridade maior. A incredulidade que anima os rostos da juíza e de Alan Shore (Spader) tem a mesma medida da crença desta espectadora, rendida à retórica daquele “cidadão americano que se insurge contra uma violação dos direitos humanos”. Por mais “I will ask you to step down” que ela enuncie, o Reverendo está de pedra e cal – é dessa alvenaria que se faz a força do episódio inaugural de Boston Legal. É a argamassa que o sustém e ainda não houve sismo que o demolisse.
