Luís Mendonça e João Araújo visitam o fenómeno recente do cinema português: Entroncamento (2025) de Pedro Cabeleira. Retrato de uma comunidade, olhar “frio e distanciado” sobre um país e uma realidade em colapso? Como é que o cineasta encara a ruína da empatia e a precariedade material que aflige toda uma geração, do Cerco ao Entroncamento e mais além? Entre margens, os dois walshianos discorrem sobre a emergência de uma constelação de filmes recentes do nosso cinema que enfrenta a possibilidade de se escalpelizar recantos menos vistos e (re)conhecidos do país. De João Canijo e Basil da Cunha a João Salaviza e a Adriano Mendes, de Martin Scorsese e Francis Ford Coppola aos irmãos Safdie, de Anthony Mann a Stanley Kubrick, a conversa deambula pela história do cinema como a protagonista, Laura, vagueia por uma cidade-ruína condenada à marginalização e assombrada pelo peso da miséria e da indiferença ao outro.

Olá João,
Sei que foste ver o Entroncamento hoje, numa sessão na presença do realizador. Acontece que também o vi e estou ainda sob o efeito do tour pelo filme com o nome de uma cidade que, por razões políticas ou sobrenaturais, aparece muitas vezes associada a um lugar de passagem, assombrado ou talvez amaldiçoado (vide a intrigante exposição aí no Porto, em Serralves, “Uma Coisa do Outro Mundo”, de Jorge Jácome). Usamos a expressão “fenómeno do Entroncamento” enquanto pensamos em homenzinhos verdes. Passamos por lá de comboio, em trânsito, e se calhar poucas ou nenhumas vezes parámos lá. O início do filme – ou mais especificamente todo o primeiro acto – tem qualquer coisa de western suburbano, com uma personagem a chegar a uma comunidade na qualidade de “forasteira” e é a partir da sua perspectiva que o filme vai tricoteando toda uma economia baseada fundamentalmente no tráfico de droga e na criminalidade violenta.
Senti – e não foi só pela presença do actor Rafael Morais no elenco – como se este fosse um filme à la Canijo mas com uma cadência e um apego às personagens ligeiramente diferentes. O fenomenal Verão Danado (2017) tinha qualquer coisa que ainda persiste aqui: um certo “pegar e largar” das personagens, um “trânsito” quase desapegado entre situações (naquele caso, era “entre festas”), algo que se vai sentindo com o desenrolar da narrativa, aqui, neste Entroncamento.
Há até um lado implacável no olhar de Cabeleira sobre este mundo – doggy dog world – bem diferente, neste particular, de outro realizador que me foi surgindo como referência possível para convocar neste meu e-mail que agora te escrevo: Basil da Cunha ou os seus vários “fins do mundo” filmados na Reboleira, no seio de uma comunidade que se tornou também sua. Existe uma familiaridade grande – até por razões pessoais – de Cabeleira relativamente a todo este ecossistema, mas o olhar parece-me ser significativamente mais duro e, a espaços, a atmosfera torna-se irrespirável. O seu Entroncamento – ao contrário da Reboleira de Basil, apesar de tudo – acaba por se revelar perto de inabitável.
Ao longo da acção, nem sempre a sugerida “panela de pressão” rebenta (como porventura rebentaria num filme de Canijo), mas também apetece dizer que raras são as vezes em que descortinamos um raio de luz ou um cantinho para desenvolvermos ou aprofundarmos a relação com as personagens. Todas estão “apanhadas” por uma economia imparável assente no tráfico, na violência e na indiferença perante o outro. É também contra isto que as duas personagens femininas se acabam por rebelar, num twist bem interessante – mesmo que não inteiramente congruente do ponto de vista dramatúrgico – que torna o filme de preocupação social e política num muito actuante “revenge flick” chefiado por uma algo surpreendente dupla de “final girls” – perdoa-me que abuse um pouco da expressão vinda do cinema de terror.
Ao mesmo tempo, é inegável: há cenas cinematograficamente portentosas. De facto, se dúvidas houvesse, ficam dissipadas aqui, pois Pedro Cabeleira é um cineasta de mão cheia. Por exemplo, ainda guardo no olho da mente aquele belíssimo grande plano da Nádia “a levitar” no camião de recolha do lixo, a receber a chuva no rosto que se mistura com as lágrimas vertidas por uma comunidade em dissolução anímica, moral e material.
Mas também te confesso que senti ter ficado à porta perante personagens que nunca cumprem a promessa de, com efeito, se agigantarem. Parece-me que nunca se elevam perante o jogo (bem entretecido, reforço) desta narrativa de “gangsters falhados”, para citar o magnífico filme de Monicelli. A personagem mais promissora é, claro, Laura, a tal “forasteira”, vinda do bairro do Cerco [papelaço de Ana Vilaça, depois de uma interpretação “tão diferente, tão parecida” em By Flavio (2022)]. Gostaria que o filme lhe pertencesse ainda mais. Nem que seja para melhor compreendermos a sua metamorfose final ou, à la Bresson, “o caminho que levou para chegar ali”.
E tu, como recebeste a visita deste Entroncamento? Como te relacionaste com as personagens e com o lugar? E, já agora, como dás conta da “evolução” deste realizador que, pelo que sei, tens acompanhado de perto e com interesse?
Abraço,
Luís

Olá, Luís
Partilho dessa experiência de que falas, do efeito do tour (ou de torpor) de force que o filme provoca, de um sentimento permanente de sentir o chão a fugir dos pés. É um mapeamento intenso dos espaços sombrios, quer sociais quer solitários (os quartos, os carros) deste local cujo nome evoca desde logo a ideia de purgatório, de estado indefinido, mas principalmente, destas personagens em rota de colisão constante. É o maior trunfo de Entroncamento, a criação de uma rede de personagens, que pode parecer demasiado ambiciosa e confusa no início (e concordo, nem todas igualmente bem definidas), mas que se revela fundamental, e perfeitamente conseguida na representação, e apresentação, de diferentes perspectivas, em que cada uma das personagens parece conter em si (mesmo que não queira) algo das outras à sua volta, ou não houvesse também uma enorme rede familiar e de relações com muita história, na base desta encruzilhada. Compreendo nesta teia de personagens complexas a ligação a Canijo (e também pela directora de fotografia, Leonor Teles), mas sinceramente foi algo que não me lembrei durante o filme, apesar de a outra ligação, ao cinema de Basil da Cunha, ser mais óbvia, no sentido de esse ser um cinema que procura dar visibilidade aos despojados e esquecidos do dia-a-dia, algo que Entroncamento também faz.
Mas acima de tudo, fiquei com a ideia de que este filme parece ser na verdade difícil de encaixar numa ideia de cinema português, quer seja na sua vertente de cariz social e realista [os subúrbios de Lisboa de Sangue do Meu Sangue (2011), de João Canijo ou Até Ver a Luz (2013), de Basil da Cunha], ou numa vertente de cinema autoral (os filmes de Pedro Costa); é difícil até de comparar mesmo com o filme anterior de Pedro Cabeleira, Verão Danado (2017), uma espécie de celebração de uma alienação que esbarra com o envolvimento político deste novo filme. Se nos filmes portugueses existe muitas vezes uma forma de santificação, ou mistificação das personagens, e um olhar de veneração na sua resposta à sua condição social, aqui o olhar de Cabeleira sobre os seus conterrâneos – como referes – é mais implacável, atento às suas vulnerabilidades e falhas, mas também aos artifícios e máscaras que constroem para esconder essas fragilidades. Colocando as personagens num patamar de existência em que são ao mesmo tempo vítimas da sua condição, mas também, através das sua respostas, parte activa da sua destruição e aprisionamento face às suas circunstâncias, estas não querem reescrever as regras do sistema, ou encenar uma qualquer resistência, mas sim aproveitar-se dessas regras para o seu próprio proveito, e qualquer inocência fica fora dos limites geográficos desta cidade.
Esse olhar implacável, de desconforto constante, provém também da caracterização deste espaço como lugar de um confronto crescente, de reação perante uma violência que é tanto inescapável como já intrínseca. Cabeleira procura o equilíbrio entre uma forma de violência mais óbvia, física e explosiva (do qual o primeiro momento do filme, de confrontação e desconfiança, é incrivelmente eficaz a definir o tom do que se seguirá; excelentes interpretações de Rafael Morais e Henrique Barbosa), com os momentos de uma violência existente na vida quotidiana, do racismo, dos comentários xenófobos no café, da violência sobre as mulheres, da falta de dinheiro, dos turnos intermináveis, da falta de comida, da pobreza, de como isso está presente em tudo e vira as pessoas umas contra as outras. Para desmontar isso o olhar de alguém que vem de fora, especialmente de um sítio com a sua própria bagagem como o bairro do Cerco no Porto (que acha o Entroncamento “pacífico”), e de uma personagem feminina que vai enfrentar um mundo dominado por machismo e homens a fazerem teatro de serem fortes (como ouvimos na primeira sequência, isto é “conversa para homens”), é sem dúvida outro dos trunfos do filme. Sendo essa característica – o sexismo na forma como as mulheres são tratadas – algo que a personagem de Laura (brilhante Ana Vilaça) vai ter de enfrentar, também o filme vai procurar desarmar esta estrutura instalada, quase claustrofóbica, de uma sociedade que parece engolir-se a si própria. Esta perspetiva externa e feminina acabará por revelar-se como uma forma de redenção.
Por fim, ainda sobre essa ideia de difícil catalogação do filme dentro do cinema português, mais do que uma aproximação a outros cineastas portugueses, admito que o filme, na sua encenação de uma espiral catastrófica, do seu dinamismo e através de episódios de mini-confrontos que vão escalando, a tal panela de pressão que referes, lembrou-me uma ideia do cinema de Scorsese de Nova Iorque (a vida noturna, as luzes, os carros a passar pelos subúrbios, a parte suja da cidade, os becos), ou até dos irmãos Safdie em filmes como Good Time (2017) ou Uncut Gems (Diamante Bruto, 2019), e esta ideia de areia movediça, com o Entroncamento como um sítio que não se escapa, e onde cada movimento apenas contribui para piorar a situação. Concordas com esta ideia de um filme à margem do que estamos habituados a ver no cinema português, e como vês a tal perspectiva externa, e feminina, para descodificar e transformar esta história?
um abraço,
João

Caro João,
Pois, se para uma pessoa do Cerco o Entroncamento – este Entroncamento – é pacífico, fica a faltar o contracampo ou uma sequela filmada porventura por outro realizador, com título já atribuído à partida: Cerco. Fica a dica para que esta constelação de cinemas e cineastas progrida no sentido de uma co-laboração – assim à laia desta sequela que Fincher se prepara para lançar do filme de Tarantino, Once Upon a Time in… Hollywood (Era Uma Vez em… Hollywood, 2019). Bem, aqui há um “Era uma vez… no Entroncamento” protagonizado por esta “furiosa” forasteira – grande figura do faroeste, a lembrar uma Barbara Stanwyck sob a batuta de Anthony Mann… Aqui vou eu de novo regressar às raízes clássicas deste filme que também é um “uma obra de assalto”, de “atropelamento e fuga” a um país ou às ruínas de um (projecto de) país… Estava a dizer: acedo à força do enfrentamento – raios, o western de novo… – quase como se se tratasse de um duelo entre Laura e esta comunidade engaiolada num “mal viver” sem fim, onde não parece haver grande escapatória sem ser esse mesmo enfrentamento, um muito literal “take the money and run”, sem olhar para trás, quer dizer, história de vingança e da subsequente fuga postas em reticências. Um estrondoso “dar de frosques”…
Concordo que há qualquer coisa aqui a que não estamos muito habituados, mesmo que sinta uma relação possível com vários outros filmes que se propõem enfrentar a realidade portuguesa com semelhante fúria e (a)tens(ç)ão. Falei de Canijo, em primeiro lugar, depois ocorreu-me Basil da Cunha, mas também devia ter puxado logo, logo para a nossa conversa João Salaviza, que num gesto muito interessante e algo singular na história recente do cinema português veio a terreiro “alinhar-se” com o filme – e o cinema – de Pedro Cabeleira. Parece haver aqui qualquer coisa projectiva no texto empolgado e empolgante de Salaviza, saído no Ípsilon, “a patrocinar” Entroncamento. Imagino que seria o cinema que Salaviza também imaginou para si mesmo antes de partir para o Brasil. Cabeleira está a levar para outros cantos – desta feita, mais “margem norte” e menos “margem sul” – os dados de um olhar que Salaviza refinava em obras como Rafa (2012) e Montanha (2015).
Portanto, podemos dizer que se há algo de fresco e diferente em Entroncamento talvez esteja – isto vai soar paradoxal – não no facto de produzir uma ruptura com o que está a ser feito no cinema português (isso acontecia, a meu ver, de maneira mais notória e notável em Verão Danado), mas por transformar essa ruptura num gesto de continuidade, que nos permite ver melhor uma constelação emergente do cinema português. Outro nome – e, em particular, outro filme – que me assaltou foi o de Adriano Mentes e do seu lamentavelmente subestimado 28 1½ (2020), obra tensa e igualmente imersa na actualidade (atenta a um “aqui e agora” pulsante), que enfrenta o estado das coisas com a mesma temeridade evidenciada por Cabeleira, tanto aqui como em By Flavio. E capaz de, com isso, produzir um grande retrato (verdadeiro fresco) sobre uma juventude deslaçada, precarizada e “à deriva”.
Esta é uma juvenvtude danada, “outside”, povoada por “outsiders”, para citar o título do filme de Coppola. Tu dás-me (e muito bem) Scorsese e Safdie, e eu responde-te assim, com Coppola. Só que não, na realidade, o que eu encontro em Cabeleira é uma espécie de olhar kubrickiano (ups) sobre o seu mundo (tem que ver com essa implacabilidade desagradável, algo fria, cool e detached), que me parece muito evidente em By Flavio pela maneira como documenta a “saga” da protagonista influencer (Ana Vilaça) em conquistar mais seguidores. Acaba por ser um retrato algo virulento sobre o modo como nos tornámos todos escravos das aparências, como estamos todos presos a todas estas (re)mediações digitais (e totais) que nos cercam e que totalizam a nossa experiência do mundo (que perdeu, ou que se arrisca a perder, definitivamente um corpo). Portanto, há um realismo social ou sociológico, que alguns poderão atribuir ora a Canijo, ora – no seu lado gritty, intenso e performático – a Scorsese ou Safdie, mas também há Kubrick, pela maneira como Cabeleira se apega menos às personagens do que à “maquinaria” (a economia da droga e da criminalidade violenta) que as faz girar e as põe em relação.
Esse apego à maquinaria soçoborante do mundo levará a que aconteçam coisas como personagens “desaparecidas em combate”, narrativas abertas e não encerradas, elipses gritantes que nos vão assombrando à medida que ganhamos distância sobre este tour. Falas da cena inaugural e, lá está, surge aí uma personagem que de maneira determinante intervém sobre a cena, para não mais a vermos a posteriori. Isso acontece muito ao longo do filme, porque, creio, para Cabeleira, o mais importante é, enfim, – estou a usar uma palavra que também empregas – a “dinâmica”, quer dizer, a articulação desarticulada das histórias que são levadas a jogo. Essa articulação desarticulada é também política, pois participa do seu retrato sobre o país. Gosto desta ideia e acho-a particularmente singular comparando com outros realizadores (talvez aqui, e mais uma vez, Adriano Mendes e o seu 28 ½ surjam como óptimos interlocutores), mas não creio que Cabeleira tenha ainda atingido o ponto rebuçado. As elipses, produzidas deste modo, geram por vezes uma sensação de abandono, de vagueza, quase de “descuido”, que não reforçam a presença dos “heróis” principais da história, antes pelo contrário. Não sei se partilhas desta minha sensação e se este labirinto de referências que eu e tu estamos para aqui a deslindar participa, enfim, de um avanço do cinema de Cabeleira rumo a uma marginalidade (não confundir com “marginalização”) que seja produtiva. Porque creio ser inevitável especularmos, enfim, sobre a questão: e agora? O que fazer com isto tudo ou depois do Entroncamento?
Abraço,
Luís Mendonça

Olá Luís,
Já tinhas referido na mensagem original e voltaste a repetir, e é claro que é algo que não referi, mas sobre o qual tenho de concordar: a colagem do filme a uma espécie de western suburbano e moderno faz todo o sentido, especialmente se pensarmos no filme como uma série de mini-duelos que vão escalando de tom, em que em muitas das cenas encontramos as personagens numa espécie de desafio permanente de afirmação do seu poder sobre o próximo, ou seja, um western como um combate de boxe. São vários os exemplos deste mini-confrontos: de Matreno com Gilinho, que se repete mais tarde; de Matreno com os “soldados” de Fama no parque onde vendem droga; quando Laura vai cobrar uma dívida, sacando de uma faca; a luta pela custódia entre a filha de Nádia e Bruno (a dupla Cleo Diára e Sérgio Coragem); o confronto com o polícia. Mas a outra comparação, com o 28 ½, parece-me também muito certa, porque acho que há uma coisa que sobressai nesses dois filmes, que não são apenas os dois sobre personagens em situação de precariedade, mas são dois filmes que sabem tomar partido da sua condição de filmes precários, ou em condições precárias (de meios escassos), onde não há muito tempo para ensaios ou encenações elaboradas (e usam a cidade e os subúrbios como palco), onde é preciso aproveitar o momento das filmagens, a criatividade urgente do momento; onde não há tempo a perder porque o tempo é custoso porque desaparece. Nesse sentido este pode ser um cinema de ruptura com as produções que seguem um formato mais clássico e uma estrutura convencional, e obviamente é também importante a relação com João Salaviza; mais até do que Rafa e Montanha, diria que Arena (2009) é uma referência importante, para construir a par de Balada de um Batráquio (2016), uma espécie de triângulo de ruptura de um novo cinema português. O texto de Salaviza é notável, desde logo por esse gesto pouco comum de ter cineastas a escrever sobre cinema, mas também pelo elogio ao filme e a forma como encontra neste uma aproximação a uma realidade social que impera mostrar, a partir do olhar com que Cabeleira encara as suas personagens.
Talvez a partir dessa precariedade que o filme parece navegar, surja alguma dispersão narrativa, ou de personagens que desaparecem e pontas soltas, de algumas coisas que podem parecer menos credíveis – talvez um reflexo da tal tentativa de apanhar um momento específico no tempo, como aquelas conversas no café, ou à mesa no jantar de natal – a tal articulação desarticulada que referes (ou desarticulação articulada?). Mas também é interessante a forma como o filme procura representar uma certa fluidez das personagens, que oscilam da mesma forma que as lealdades entre os traficantes estão sempre prontas a alterarem-se, e como a nossa percepção das personagens vai também mudando ao longo do filme: não há personagens santas ou vilões clássicos, existe a complexidade de um dia a dia onde por vezes é preciso fazer algo menos correcto para sobreviver. Porque há aqui um outro factor do qual não temos falado muito, que é o facto deste ser sem dúvida um filme politicamente envolvido, ou que tenta pensar e mostrar a sociedade como reflexo de um determinado momento (não esquecer que o Entroncamento, a cidade, foi a primeira câmara ganha por um partido de extrema-direita nas autárquicas recentes, e que teve honras de encenação mediática na noite das eleições).
Isso reflecte-se na forma como o filme tenta construir um remoinho de impunidade (reforçado pela cena com o polícia que agride e engana a mulher mas também por outros crimes), que por sua vez reforça um sentimento de injustiça e de revolta, e que tem muitas vezes origem numa precariedade, uma frustração e insegurança económica. Mas também o filme parece afirmar que é preciso encarar estas personagens (que dizem coisas racistas e vivem da intimidação), que mais do que abandoná-los ou fazer de conta que não existem, é preciso tentar entender todo o caminho que os levou ali, para poder chegar a um caminho para outro lugar. É a velha questão levantada por Godard: mais do que fazer um filme político, é preciso fazer um filme de uma forma política, e nesse sentido, Entroncamento parece, por estar ligado directamente ao momento que vivemos – de sufoco económico e reacções violentas, de perda da vida em comunidade, de desaparecimento da empatia. Neste contexto, é também um gesto político a escolha de uma protagonista feminina (tal como acontece também em 28 ½), num filme produto de uma sociedade onde as mulheres são menosprezadas, subjugadas, agredidas, mas também a questão da representatividade da comunidade cigana, também ela ostracizada e alvo de preconceitos – essa é uma questão que Entroncamento traz para o centro da discussão de forma consciente. Diria que mais do que caminhar para uma marginalidade, pode ser também o oposto: dar visibilidade a esta marginalidade (no sentido de estar colocada de lado, esquecida), representá-la no ecrã grande, trazê-la para o mesmo palco ocupado por histórias que poucas vezes representam o que estamos a viver. Talvez seja essa a próxima ruptura, a resposta a o que fazer com isto tudo.
um abraço,
João

Olá João,
Concordo contigo que uma das forças grandes do filme – que é enaltecida por Salaviza no seu deveras importante texto (gosto dele, mas é mais o gesto que me comove, o desta aproximação de um realizador a outro realizador e ao tempo em que vivemos) – é esse enfrentamento com tudo isso que referes: “sufoco económico e reacções violentas, de perda da vida em comunidade, de desaparecimento da empatia”. Pode a maior força de um filme ser também a sua maior fraqueza? Digo isto pois também me incomoda um pouco a maneira como o “discurso do momento” é debitado aqui e acolá, por exemplo, na tal conversa com o polícia. E a maneira absolutamente destemida, aberta e assertivamente “contestatária” como a protagonista rejeita o que ouve e sai – abandona a conversa, abandona o plano e, intuímos, nunca mais deverá voltar àquele ginásio ou a estar naquela companhia. A conversa com o tio parece-me mais interessante, ainda que estranhe aí a segurança com que a personagem de Laura se diga confortável no Entroncamento, quando, poucas cenas depois, estará a fazer um grande pirete a toda esta comunidade e a voltar para o seu Cerco. Ela e a amiga, ao se conluiarem no grande “heist”, fazem um pirete a esta gente toda (queria ter escrito aqui: a estes homens todos).
Enfim, acho que é um filme intenso, colocado numa distância justa e corajosa sobre o Zeitgeist, mas também me apetece acrescentar: saberá a pouco se não se der sequência a tudo isto, complexificando a proposta, tanto ao nível do conteúdo quanto da forma. E acho que Cabeleira & co. saberão certamente dar conta do recado se continuarem a estar para aí virados.
Abraço,
Luís
